LXXVIII
Não toqueis na rainha

Os reis d'Hespanha usavam uma regra d'etiqueta exaggerada até á estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente.

A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel accidente, quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso, resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha, que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões.

Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que deixariam a Hespanha immediatamente.

De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer se não fosse historico.

Estando doente Filippe III achava-se sentado n'um fauteuil, muito junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde se havia depositado uma certa quantidade de material combustivel. O calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara, nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta. Por outro lado, ninguem podia tocar no fauteuil do rei a não ser o camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este cruel supplicio!