II
O romance d’um sceptico d’aldeia

De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior impressão me produziu.

Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco na pelle.

O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão, quando ia começar a comer.

Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.

—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos, quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.

—Conta-nos isso, tio Joaquim?

—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.

Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:

Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro, afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores. Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos cabellos e barbas dos freguezes.

Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se passava pelos sitios.

Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não poucas vezes acogulada de mentiras.

De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr, que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de Christo.

E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os braços de fóra, quando estava presente.

—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar, casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.

O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a desfaz, por que não a tem feita.

Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.

Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.

Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via, pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.

Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas, tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.

Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo, e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios, quando deu de rosto com o recem-chegado.

Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste; e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez, barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á entrada.

Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão, foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.

—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o maldito.

—Parece que anda em peccado mortal!

—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á missa.

—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar quebranto!

—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que elle a viu não teve uma hora de saude.

—Quem a Felicia?

—Não a jumenta; se elle é lobishomem!

—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra alheia, como se fosse roupa de francezes?

Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja, affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella algaravia.

Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco, quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa, quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.

—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar de reza, ou em festas da freguezia.

—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.

O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á formiga, apenas acabaram de fazer a barba.

O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do tal homem, que mais tarde vim a saber.

O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças: para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.

Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra mechida de fresco.

O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr se achavam fio á meada.

Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa, saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar; mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.

Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.

Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e, fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram ainda:

—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar, que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.

Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.

O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus. A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora. Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo, estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.

Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!

Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia, gritando quasi sem parar:

—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!

Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que, palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.

—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.

—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para lh’os ministrar.

—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da minha desgraça.

—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.

O moribundo começou assim:

—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da outra em que devia durar eternamente.

No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui, que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.

Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido. Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude, que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher, deixando de parte o bom, que andava mais escondido.

O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho, deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.

Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.

Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!

Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder andar, resvalando além a não deixar rego.

Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.

Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar com elles. Chamavam-me o diabo pequeno, e temiam-se de mim como do fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de cego quando fugiam de brincar comigo.

Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.

Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades, não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao desamparo.

É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro. Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus pensamentos.

A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os fructos.

Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava, ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo, esse aguentei-o em cheio.

Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me prohibiu.

Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor! Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava, era loucura que não devia praticar!

E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco tempo.

Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já de ha muito o eram para mim.

O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.

Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.

Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.

Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.

Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas, não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?

Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?

Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira vez, e que muitas vezes a esquece depois?

São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por isso deixam de existir.

Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais m’os cerrou ainda.

Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de um amor eterno.

Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava, e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e entristecia.

Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras, cair em semelhante fraqueza.

Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e envergonhou-se de o ser.

Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma, quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de protecção.

Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a perdição da filha, deixou-se finar de magoa.

E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.

Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.

Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um soffrimento sem cessar.

O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.

E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.

A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres, a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.

Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar a d’onde partira.

Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo, era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.

Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera, porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo em descampado para o viajante perdido.

«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda, tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito grande, e onde estava muita gente de joelhos.

«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.

«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.

«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.

«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.

«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão tristes, que desatei a chorar.

«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não adormeço.

«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»

Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os choros do filho querido.

Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia. A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu percebia.

A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus, creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de suas mãos como o artifice nas suas obras.

Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença, como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e males.

Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação, peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.

—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.

N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.

O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse, abençoando a creança:

Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em paz, és christã.

Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para voar á morada eterna.

Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:

—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador na sua obra.

Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!

Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.

Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:

—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!

Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos, e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas, conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.