OS
CANTOS DE ABRIL
IDILLIO.

Por um serão de Abril suave e ameno,
Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos,
Estavão-se a folgar ante a cabana.
Por entre as parras do sonoro alpendre
A mansa lua chêa se enlevava,
Espreitando esta rústica familia.
Menalca erà ja velho: os justos Deozes,
Querendo premiar lhe a larga vida
Passada em os amar e amar aos homens,
De Citheréa ao Filho havião dito:
“Filho de Citheréa, entrega Dafne
Por esposa na Menalca, a fim que o velho
Remoce, vendo ao lar a mocidade,
E a virtude que tem o alegre em outrem.”
Amor nem sempre aos Deozes obedece,
Porem amava a Dafne; entrançou logo
A florente cadêa, e vendo-os prezos,
Tanto a si mesmo do que fez se aprouve,
Que ficou sempre entre elles na cabana.
“Filho de Citheréa, accrescentárão
Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato
Em filhos, e uma filha irmã das Graças,
A fim que em seu crepúsculo da tarde.
O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças:
Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.”
E Amor lhe déra prole, dois meninos
Seu retrato, e uma filha irmã das Graças.
Ja rosas de abril decimo florecem
No semblante de Silvia; um anno a vence
Titiro; e vence a este um anno Alexis.
Menalca, em juncos molles estendido,
Tem da esposa no candido regaço
Como em ninho amoroso a branca fronte:
Pelas feições transpira-lhe bondade;
O mistico luar o diviniza.
Dafne o contempla muda, e niveos dedos
De afagar umas cãs sentem vaidade.
Elle a querida mão colhe entre as suas,
Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos
Derrama pelos céos alumiados,
E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos,
Olhai, disse elle, como brilha a lua!
Que suavidade e paz não côa ao largo
O astro das noites! como attráe da terra
Nosso espirito humilde a pensamentos
De outro mundo melhor, mansão de Deozes!
Que esp’ranças, de saudades misturadas,
Não traz a pura noite ás almas puras!
Dias que em vão suspiro, amenos dias
Da minha mocidade...! agora jazo
Como arvore das folhas despedida,
Que mais não florirá, porque o machado
Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo.
Então era eu cantor chamado ás festas,
E afamado por longe entre os cantores
Na frauta e no rabil, porque os meus cantos
Erão sempre á Virtude e á Natureza.
Por uns serões assim, como acodião
Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama
Que descião do bosque, e pelas sarças
Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta:
E os ventos se detinhão, recostados
Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos.
Té dizião que a frauta, em que eu tangia,
O benevolo Pan ma déra em sonhos.
E ora jaz, annos ha, de pó coberta!
Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão
Os pegureiros a aprender-me os cantos,
Meu cabello nevou, nevou minha alma.
Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos,
Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes
Tornar a ver meus pais n’outras cabanas,
Onde he perpetua a luz, e a eternidade
Uma estação de musicas e flores.
Quando eu la renascer á vossa espera,
Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos,
Resurgirá comigo a minha frauta;
E com ella enganando aquella ausencia,
Penosa até no Elisio, em versos novos
Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo,
Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde
Vos levem para mim; que vos derramem
De virtudes e bens copiosas bençãos
Sempre n’esta cabana, onde hei nascido;
E que no meu sepulchro o passageiro
Diga parando—Ó bom pastor Menales,
Leve te seja a terra, e tu contente
Porque os teus filhos te excedêrão todos.”
Aqui sentio caír na fronte calva
Uma calada lagrima, e doeo-lhe
Ter nublado o prazer de seus Penates.
Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos;
E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:”
O cantar diz co’a noite, agrada á lua,
Contenta á vossa mãi. Cantai louvores
D’este suave Abril; nunca em meus versos
Deixei de o celebrar, quando era moço.
Os pastores de outr’ora Abril sagrarão
A Venus, graciosa Mãi de tudo.
Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo;
As glorias do seu mez são glorias d’ella.
Alexis, principia, eu te acompanho
Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta
Dão como vida ás solidões da noite.
Seja a toada a que inventei (quão lédo!)
No dia que nasceste, e a nossos olhos
Se doirou de alegria esta cabana:
Bem a sabes, começa, e Pan te ajude.
ALEXIS.
Eu amo o verde Abril, porque he formoso,
Todo está chêo de arvores vestidas.
TITIRO.
Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro;
Vem cantado por bandos de avesinhas.
SILVIA.
Eu amo o rico Abril porque he cheiroso,
Espalha em cada prado um mar de flores.
ALEXIS.
A folhagem traz sombra, as sombras trazem:
Seus folgares da sésta á gente grande,
E a nós para brincar franca licença.
TITIRO.
As aves são dos ares alegria;
Chamão na madrugada os preguiçosos,
E divertem na lida aos lavradores.
SILVIA.
Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras;
Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo
As crearão, e rindo acceitão flores.
ALEXIS.
O Pan que está na gruta do arvoredo
Não pára senão lá, por mais que o mudem;
Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes.
Tudo ali he formoso á maravilha!
Por baixo a fresquidão, por cima o verde;
A terra de reflexos variada;
O této sonoroso e movediço;
Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras.
E que direis do rio entre arvoredos?
¿Como se pintão na agua aquellas folhas,
E o vento que as revolve, e as pombas alvas
Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos?
Parece que no fundo do remanso
Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo.
Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças,
Porque achei que um tal sítio encantaria
Ó meu Pai, teus passeios solitarios.
TITIRO.
Fonte como a das Náiades nenhuma:
Cantão-lhe em volta passaros sem conto;
Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas.
Por ali me regala ir espreitando
Tantos ninhos por entre tantas folhas.
Admiro a perfeição d’aquelles berços,
E o tino com que os pobres de uns brutinhos
Os souberão livrar a soes e a chuvas:
Aqui uma avezinha inda sem pennas,
Outra a romper da casca; alem uns ovos
Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão;
Se os tóco, sinto dentro o passarinho,
E fujo com temor que a mãi o engeite.
¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas,
Darem o almoço aos filhos que pipilão,
E co’as azas e peito agazalha-los!
E ver logo os maridos tão contentes
A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem
Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las!
Oh que não: he ja dar lições e exemplos
De canto aos filhos seus: não de outra sorte
O nosso pai nos ensinou seus versos.
SILVIA.
C’roas frescas de rosas cada dia
De Citheréa ás portas amanhecem;
Sinal que a Citheréa aprazem flores.
Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza!
Nunca no meu altar e ás minhas portas
Faltarião montões de flores frescas.
Todas só para ti as cobiçava,
Ó minha mãi: com ellas te enfeitára
Cada hora do dia; cada noite
As renovára ao leito onde tu dormes;
Não porias teus pés senão em flores.
Se o passageiro ás vezes me pergunta,
Quando me encontra á borda do caminho,
“Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo
Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!”
Hontem de tarde o graciosa Amintas,
O pobre guardador das duas cabras,
Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo,
Chamou-me bella, e disse que o meu rosto
Era como o de Dafne, ou como as rosas.
Sendo assim, bella sou, que outra pastora
Igual a minha mãi não ha na aldea,
Nem flor em todo o mundo irmã da rosa.
ALEXIS.
O vizinho Milão, que hoje he tão rico,
Não tinha mais que uma arvore, e de terra
Só quanto aquella sombra lhe cobria.
“Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores,
Alegras teu campinho, e terás lenha
Para aquecer a choça um meio inverno”—
—“Eu? respondia o triste, eu pôr machado
Na boa da minha arvore? primeiro
Me falte lume alheio o inverno todo,
Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas;
A que de meu avô me foi mandada,
Que a não poz para si; e a que nos braços
Me embalou tanta vez sendo menino.
Os Deozes a existencia lhe dilatem,
Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho
Produza o que podér, que eu sou contente.”—
Sorrião-se os pastores; o carvalho
Cada vez mais as sombras estendia,
E Milão de anno em anno hia a mais pobre.
Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira
Plantada a par com o tronco, o enfeitaria,
E os cachos pendurados pela cópa
Lhe darião tambem sua vindima:
E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro!
Desde então ficou rico, e diz-me sempre,
Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio
Por amar suas arvores. He elle
Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos,
Com que ao bosque de Pan cantei louvores.
TITIRO
Deozes, tocai o peito de Mirtilo
Porque não sáia máu quando fôr grande.
Hoje, entrando na mata, o vi la dentro
Andar armando aos passaros. Que pena,
Disse em mim; não ser passaro um momento;
Não poder ir correndo o bosque aos pios,
E dizendo em cada arvore “Cautella
Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo;
Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!”
Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes.
Vou-me por entre as moutas rastejando
Até ao ouco e immenso castanheiro,
Que abre em seu tronco uma portada de heras,
E se nomêa a casa de Silvano.
Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos
Lá por cima na cópa papeavão,
Cuido que adivinhando o que eu faria.
Encósto a boca á fresta carcomida,
Que está fronteira ao portico da entrada,
E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.”
Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda;
Vendo tudo em socego ás redes torna.
Com voz mais estrondosa e mais horrenda,
Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.”
Não esperou terceira: arroja tudo,
Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos
Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.”
Somio-se; á terra pulo, espreito o mato,
Acho as redes, os presos sólto, os mortos
Levo-os onde ôlho de ave os não descubra:
Encho-as de pedras, na torrente as lanço,
E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes,
Lhe digo, de que morte escapo agora!
Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia
Os dentes, bracejava uma alta fouce,
Vinha a saír das sombras do arvoredo;
Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro.
—“Es tu que andas armando ás minhas aves?
Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes
Ja te lá vão por esse rio abaixo,
E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”—
E então vem para mim, co’a fouce aos lanços
Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa,
Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas,
Eu sou Titiro, o filho de Menalca,
As tuas aves amo, e temo os Deozes:
Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido!
Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.”
—“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse,
Nem sabia que tu ... fallemos baixo
Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo
Passou, mas outra vez não te aventures,
Que eu bem sei como o vi, não te perdoa.
Deixa ás pobres das aves innocentes
Divertir-te e cantar; nada mais querem;
Não tens razão, não teus de as perseguires.
Quanto ás redes, eu quero consolar-te:
Ouve Mirtilo, acceita este cestinho
De cana entretecida em juncos verdes,
E este meu cajadinho em boa altura
Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo,
Enfiei-lhe no braço o meu cestinho
De cana entretecida em verdes juncos,
E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo
Me abraçou, e saltando de contente,
Jurou-me nunca mais armar ás aves.
SILVIA.
Glicera por vaidosa he que ama as flôres:
Apanha-as para si não para os Deozes,
Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso.
Quando em nosso jardim vejo Glicera,
Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores,
He seu costume; enfado-me, sorri-se;
Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete:
“Que te servem por ora estas floritas?
Deixa passar mais cinco primaveras,
E então sim, nem mais uma hei de furtar-te;
Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.”
Coitado de quem he como eu menina,
Que se manda esperar por primaveras!
Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas.
Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas
De logo vir Glicera, a presumida,
Que furta e vai cantando; ajoelhei-me
Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres.
E disse: “Como as arvores tem ninfas,
Que lhes morão la dentro e as aviventão,
Ha ninfazinhas a velar nas flores.
Ninfazinhas das flores, escutai-me:
Se a rega, com que as folhas aquecidas
Vos refresquei ha pouco, vos foi grata,
Olhai por vós, fazei com que Glicera,
Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça;
Apparecei-lhe como a mim, por sonhos,
Vestidas de mil côres, perfumadas,
Pequenas, mui mimosas, e só outras
Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo.
Dizei-lhe como os Deozes vos crearão
Para amores de zefiros, recreio
De borboletas e olhos, e formosas
Copeiras do formoso mel doirado:
Dizei-lhe que tão bella e curta vida
Não se deve encurtar, que as deshumanas
Tem máo fim, que apezar de passageiras,
Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos:
Que se tornar sacrílega a colher-vos,
Vossos fragrantes ultimos suspiros
Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo
As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.”
Como eu isto dizia, entrou Glicera:
Murchas trazia as rosas de seu rôsto,
Não rio, nem colheo nada, e suspiráva.
Penada de a assim ver, beijei-a, e disse:
“Se alguma d’estas flores te contenta,
Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde)
Ja não quero mais flores, Mopso ingrato
As que ultimas lhe dei deo-as a outrem:
Como as flores me engeita hei de engeita-lo.”
Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera,
Fallei verdade ou não? nascem as flores
Só para as nossas mãis, e para os Deozes,
Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”
MENALCA.
Basta meus filhos, basta; não ha sombras
Tão gratas no verão, cheiro de flores
Tão suave, ou tão ledo canto de aves,
Que me recrêem como os vossos versos.
Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos:
Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados;
Mas os Deozes virtude: alcatifais-me
De bem viçosa esp’rança o meu declivio:
Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes.
Antevejo a florir-me a sepultura ...
DAFNE.
Entremos na cabana: aquella nuvem
Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento,
Não tarda muito algum ligeiro orvalho.