V
DEOS DISPÕE

O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e subitamente impellida foi bater de encontro á parede.

Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo pregára a mão do italiano no muro do aposento.

O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo, porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua cabeça.

Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.

Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.

Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.

Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo, suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.

Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.

Era Pery.

O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou; com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.

Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre sua segurança e socego.

O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de damasco azul até ao collo da menina.

Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a luz do dia.

Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento; deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o somno da menina.

Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de Cecilia.

Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura.

Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito, como se forão reliquia sagrada.

Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder o silencio profundo da natureza quando dorme.

O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem aproximar-se.

Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado.

Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão no ataque dos Aymorés partio immediatamente.

O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do Paquequer indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de Mariz.

O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestigio do que procurava.

O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si; e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.

Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D. Antonio de Mariz recusára crer na accusação.

De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o peso que devia dar a semelhante accusação.

Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.

Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.

Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada; esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda, porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.

Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta singularidade.

Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia erão ordinariamente dous e não tres.

Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido.

Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel descobri-los.

Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que conheceu immediatamente ser a folha de um punhal.

—És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida.

Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um partido.

—Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel.

—Já é hora?

—Não.

—Todos dormem.

Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.

O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão de palha.

Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia, e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.

Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?

Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.

Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e inevitavel.

O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.

Era uma idéa original.

Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.

Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas ameaçadora.

—Quem vai lá?...

Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não servisse senão de apresar o que elle queria evitar.

Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito.

O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco e pouco e inundavão o chão.

Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos, e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava.

Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão Aposto feixes da palha para atear um incendio.

Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim de Cecilia.

O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.

Mas elle conheceu Ruy Soeiro.

Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento, ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe a garganta.

Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e quedou de encontro ao muro.

Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.

Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella aberta.

Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.

Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la, espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a janella ter sido aberta por Cecilia.

Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no quarto da menina.

Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada áquella hora.

O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se ao leito.

Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.

O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecilia.

Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou senão dessa horrivel profanação.

A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão do italiano estava pregada ao muro.

Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a curvar-se.