O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado, suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin. N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica, toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.

Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas, a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz!

E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro, hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem? Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus, como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edificações de Herodes, o grande!

Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de tantas forças civis!

Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava, infinitamente triste, com um desdem abatido.

Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias: mas um grande rumor encheu o templo.

Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o baixo recinto do templo.

Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de vozes, de gritos penetrantes.

Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus, couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações. Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto levemente aquilino tomado de afflicção.

A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario: vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.

Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus: havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os pateos.

O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada, abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes cabellos, com uma semelhança pagã.

Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:

—Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que foi achada em adulterio nos porticos do templo.

—Lapidada! lapidada!—prorompeu a multidão.

Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se os gritos agudos, arrastados, das mulheres.

Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os soldados riam.

O escriba fallava, com gestos abundantes:

—Rabbi—dizia—a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas tu, Rabbi?

Jesus olhou o escriba serenamente.

—O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados—gritou alguem entre a multidão.

Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:

—Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!

E um phariseu bradou:

—É o Salomão das mulheres perdidas.

Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio onde anda escripta a lei, e exclamava:

—Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.

O povo cruel dizia n'um clamor:

—Lapidada, que seja lapidada!

Alguns phariseus gritavam:

—E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!

Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam posca; os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas d'escarlate: os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de legionarios espreitavam.

Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:

—Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.

Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:

—Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que despreza a lei.

Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.

Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura vinha empurrado, repellido, atirado, um homem.

E vozes alegres bradavam:

—Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae!

O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.

Era Bar'Abbas.

Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.

E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a multidão, gritando:

—Quem dá para o luto?

O povo ria; bradava:

—Lapidae-a, lapidae-a!

Bar'Abbas dizia:

—Lapidae-a, dae-me para o luto!

E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.

Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.

—Falla, Rabbi, falla!—gritavam-lhe d'entre a multidão.

Mas Jesus olhava sereno, calado.

Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente, colerica, bradou:

—Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer o perdão da mulher adultera.

Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a morte.

Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, irritado:

—Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle manda lapidal-a.

Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:

—Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se julgar sem peccado, que lhe atire a primeira pedra!

A sua voz era forte, concava, mysteriosa:—assustava.

A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se: os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos choravam: vozes diziam:—É o Messias, é o Messias! Todos se dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.

Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da milicia templaria.

Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial, a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.

—Sim, sim—dizia eu—Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez, a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?!

Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: Shalon, que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta fallaria a Jesus.

Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais prompto de fé.

IX

Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era n'um horto, junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazareth.

A noite estava cheia d'um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob as largas ramagens: um silencio doce occupava a terra. Ouvi apenas um canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava o marido levado para as legiões de Roma.

O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei n'um espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura d'agua, cheiro do plantas.

A lua allumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de pedra: ahi, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro, o olhar afogado no espaço allumiado, estava Jesus.

Ergueu-se lentamente, e disse:

—Paz.

—Paz e alegria, Rabbi!—disse eu.—Velavas?

—Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Elle é como o servo diligente, que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente chegar, corre logo a abrir.

Jesus calou-se, perdendo o olhar no ineffavel espaço luminoso.

Eu approximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse:

—Creio em ti, Mestre!

Jesus olhava, enlevado, transcendente.

Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás nossas communs imaginações:

—Rabbi, o que é necessario, segundo pensas, para alcançar, feliz, a vida eterna?

Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos.

—Serves o templo—disse—serves a lei, e não conheces a lei; a lei que diz?

—A lei—disse eu—ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros como a nós.

—E eu digo como a lei.

E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem invisivel.

—Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar, outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.

Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um emissario do templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho contra elle.

Respondi com uma dignidade dura:

—Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.

O Rabbi considerava-me attento.

—O homem—disse elle—dá testemunho do homem: só Deus conhece os corações.

—Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel, tu julga, ou condemna minha alma.

Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto esclarecido, disse-me docemente:

—A fé salva.

E depois d'um momento:

—E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?

—Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso, ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.

—E tu quem dizes que eu sou?

—Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hypocrisias, vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!

—Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a perdel-as.

—E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita? É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos imbecis de Tiberio?

—Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.

—Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca? Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior, e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu, se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas são de Hillel, são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba, a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado, civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos, officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado, se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um caminho e diz:—Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae celeste!—Não! tal não será, Rabbi!

—Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta—eu sei?—como um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando estarei entre ti?

O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.

—Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito baixo na terra.

Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:

—Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas: nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus? Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as creanças que te sorriem?

—Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças.

—Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes?

—Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!

—Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?

—Só o desdem dá a paz.

—Dá a inercia, o sacrificio e as virtudes passivas. E se ámanhã tu pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção energica, revolucionaria, pela nossa acção?

Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras davam-lhe inesperadas perturbações.

Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu dizia-lhe, profundo:

—Olha, vê o templo: hoje alli tudo é intriga, artificio, apparato, riqueza, sangue, hypocrisia, vaidade: ámanhã seria o logar mais santo da terra.

Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face:

—Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão irritados com a familia d'Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o templo: o baixo povo do mercado detesta phariseus e escribas; é nosso; a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissarios a Joppé; toda a Judea se erguerá:—tu serás o propheta. Queres? O teu sonho do lago de Tiberiade será então vivo, real, palpavel, existente sob as nuvens!—Queres?

A noite era immortalmente bella: havia uma bondade no ar: o mundo parecia-me possuido de um elemento diverso.

Eu fallava confusamente, ora contra os phariseus, ora contra os romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal, nem a inercia d'um povo egoista. Uma grande tentação captivou o espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos:

—Rabbi, Rabbi, depois do phariseu, será a vez do romano! Tu serás o maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, terás aniquilado o hypocrita, terás expulso o romano: serás pela justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de Israel.

Eu fallava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe:

—Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!

Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e transcendente o ceu cheio da lua serena, o ineffavel silencio, a pura belleza do infinito, o profundo mysterio onde Deus habita, disse-me:

—Vae-te: o meu reino não é d'este mundo!...

Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra: e calado, concentrado, sahi pelo caminho de Betphagé.

Uma claridade apparecia: os gallos cantavam. No outro dia, pela hora da tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea.

NOTAS DE RODAPÉ:

[41] Este trabalho de Eça de Queiroz, escripto por occasião da sua viagem ao Egypto e á Palestina em 1869, foi publicado em 1870 na Revolução de Setembro, ficando todavia incompleto.

(N. dos E.)

FIM