PROSAS BARBARAS
...... d'este lado do rio
...... o namorado,
E a moça dos olhos pretos
...... do outro lado.
Mas o rio era profundo,
Não se podiam juntar.
Nunca o sol encontra a lua.
Tal andava aquelle par.
............. flores
..... á agua iam dar;
........ os beijos
Ficavam todos no ar.
A moça ...............
Disse adeus ao namorado;
E foi ................
...... bandas do povoado.
Elle ficou amarello,
Como a vela d'um altar.
Mas se o rio ..........
Não se podiam juntar.
Anoiteceu..............
Por alli andou penando:
E por fim lançou-se ao rio,
E o rio ...............
.........................
.........................
Mas as flores foram prender-se
Nas suas mãos côr de cera.
Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos d'uma velha cantiga, alguem escreveu estas notas desordenadas e extranhas:
Ó dôce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre nova! Ainda hoje o triste anda penando nas aguas escuras; e os teus olhos, ó serena rapariga, são eternamente falsos!
Não era assim que eu pensava no tempo d'aquelles nossos amores, ó nome que eu não escrevo! d'aquelles amores tão dôces como a suavidade das nossas noites d'outomno—tão coloridos e vagos como aquellas nuvens, que sempre no ar andavamos formando e desmanchando!
Ó voluptuosidade! tu és a imagem do Oceano nos teus caprichos. Agora embalas-te, dôcemente doirada com os ultimos raios do sol: depois dormes tranquilla, aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de tempestades.
E, quando eu te via, não via mais as flôres, nem as pombas, nem as estrellas: mas, quando pensava em ti, via-te delicada como todas as flores, voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as estrellas.
Ás vezes, solitario e silencioso, via passar na sombra, diante de mim, como uma legião d'inspirações rhapsodicas, os teus olhos humidos, como violetas debaixo d'agua—depois os teus braços da côr do marmore—depois os teus cabellos negros e fluctuantes... Em fim, sobre um fundo maravilhoso, tu apparecias superiormente serena, perfeita e luminosa!
De cada um dos teus desejos nascia uma flôr.
E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam dôcemente aquellas flôres marginaes.
E as flôres cresciam, cresciam até se tornarem magnolias grandes; o vento tomava-as preguiçosamente pela haste; e ellas, inclinando os seus rostos pallidos, contavam-lhe os perfumes de mais segredo.
E as magnolias iam crescendo até se tornarem n'uma arvore immensa. Então o vento enroscava-se no tronco, insinuava-se nos ramos, e fazia palpitar as folhas sonoras.
E então a arvore estremecia, como n'um sonho agitado; depois adormecia—e dava em redor uma sombra serena e consoladora.
Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as dôces melancolias d'amor, como na primavera se reanimam as aves e desabrocham as violetas.
Quando me fallas, tudo se alumia com constellações apaixonadas, e parece que passam dentro de mim todos os aromas das magnolias.
Mas se me dizes que me queres muito, sinto que vem logo um estranho inverno descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as emoções, e cobrir de geada todos os loucos desejos.
Oh! nunca me digas que me queres muito!
Tua irmã é carinhosa, e dôce, e meiga, e casta, e consoladora.
Tu és altiva, inquieta, e desdenhosa.
Tua irmã!... Mas se ella não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso fulgor dos teus olhos, a côr mimosa dos teus cabellos! Mas se ninguem tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte!
Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os seus olhos azues são como duas dôces elegias.
E a flor do lotus, a apaixonada flor do lotus, sómente se abre á doçura immensa da lua!
Oh! minha bem amada! eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente, como duas estrellas negras de melancolia: tinhas tu então rasgado um veu côr de papoula, que te cobria.
Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma fidalga hespanhola.
Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia—Jesus!
Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios corria um sorriso, que só dizia—amor!
Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos esfomeados, e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas.
Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.
Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!
Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu vestido!
Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas pequenas—as pobres ondas!—soluçando, choravam sobre a areia.
Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e a sua nudez era doce e melodiosa.
Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos, as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias; serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.
Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da frescura das plantas.
Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens. E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam, junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!
Esta historia é de ha seiscentos annos—e de hontem á noite...
Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia.
Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta.
Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de sarabanda—e de cachucha.
Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas, como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos cyprestes:—depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos;—e mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e que o enche.
E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu.
Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido de seda, todo forrado de arminhos.
E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o de golpe, com um rosto colorido de risos.
Mas o vestido estava collado ao corpo—vinte vezes collado ao corpo: e tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida!
Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.
Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia, como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos, uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da lua.
Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, pequeno, e feminino;—e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que lhe dei um beijo!
Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios—e olhava para as nuvens.
Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante.
Outr'ora—ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas romanticas!—outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e todas as côres.
E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos.
Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes, loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da folhagem.
O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos serios d'um craneo immenso.
Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher.
Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas. A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos lacteos. Nos corações nascem amores sombrios e loucos. E tudo porque um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte!
Onde estará ella agora—a minha bem-amada, aquella creança de olhar profundo?
Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella passava—e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e perfumavam.
A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas! Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos!
Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.
«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas que me consolem! Só resta morrer.»
E o corpo diz á alma:
«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te, filha, como eu velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim, onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te voluptuosamente—a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos! E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»
E a alma dizia ao corpo:
«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada, indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo. Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas, que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.
«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda, que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em breve não te lembrarás mais de mim.
«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem alma como eu—ou se chamem aroma—ou, então, se chamem som.
«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia, encontrares os átomos d'aquella que eu tanto amei, não te juntes com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a flôr ha-de mirrar-se;—se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de apagar-se;—se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»