Fraternisação da cidade e campo
SUMMARIO
Uma boa Lei sonhada.—Os proprietarios
ruraes, residentes na Cidade, são obrigados a viver algum tempo nas
suas fazendas.—Delicias novas que essa obrigação lhes proporciona.—Nos
campos ha um vislumbre de egualdade.—Bens que a estada dos senhores no
campo trará por elles aos camponezes, e pelos camponezes a elles.—O
autor sabe, por experiencia, o como nos campos a Natureza mesma nos
melhora e suavisa.—Os camponezes são menos ruins e infelizes que
os cidadãos; e mais felizes e melhores se hão-de tornar, quando
a Lei passar de sonho a realidade.—Apontam-se alguns dos muitos
melhoramentos, materiaes.—agricolas, economicos, artisticos, etc., que
hão-de com o tempo brotar d’esta Lei.
Sonhei eu, meus bons amigos, que se tinha a Providencia achado n’estes nossos tempos em maré de muita poesia: que já existia de veras um Parlamento de lavradores, e que as Leis, e com ellas os costumes, tinham chegado a final a grande concerto e formosura.
Uma d’estas Leis bemditas vos quero eu contar; porque se algum dia (que pode ser) as nossas semeadas Sociedades de Agricultura pegarem, e, por diligencias d’ellas, tal Parlamento chegar a apparecer, lá considerareis, com o vosso vagar, se do sonho se não deveria fazer realidade. O que lhe deu péga foi aquella nossa pratica do serão ultimo, sobre a obrigação que todo o dono de terra tinha de a aproveitar.
Sonhava eu pois, que todos os proprietarios de bens rusticos, a quem não assistia alguma particular rasão muito attendivel para o contrario, eram obrigados a morar nos seus campos alguma parte do anno.....
Reverdecia a primavera, e eil-os lá sahiam das cidades, colmeias grandes, onde, entre muitos zumbidos, se fabricam favos de fel. Até ás barreiras, ainda iam murmurando contra a salutar violencia, que os bania temporariamente.
Logo ali, ao desembocarem das ruas estreitas e sombrias, que nenhuma estação altéra, para a amplidão de campos e horizontes, a serenidade do ceo azul se lhes começa a filtrar dos olhos para a alma. A madre-silva de cima do cômoro lhes dá as suas rescendentes boas-vindas; e para o coração se lhes côa parte da bemaventurança que inspira aos seus filhinhos libertos o aspecto das papoilas côr de fogo, a rir na verdura sem limites; dos rebanhos, que ondeiam branquejando pelas planicies; dos moinhos, que bracejam cantando pelos oiteiros. Tudo para elles é descobrimento e maravilha: os passaros, que altercam graciosos pelos ramos; as aguas, que manam, a debuxar os arvoredos toucados de flores e sol; os cantares dos rusticos no trabalho; a choupaninha pobrissima, mas que tem ainda com que albergar hospedes; as andorinhas, que tambem vieram lá de outras terras pendurar-lhe por cima da janella unica, e ao abrigo do tecto de palha, o berço dos filhos.
Atravez d’estas scenas, tão antigas e sempre novas, tão sem artificio e tão cheias de harmonias, tão casuaes e tão sabiamente variadas e contrapostas, toda aquella opulenta familia cidadan vai já invejando a boa sorte dos filhos das aldeias, para quem só parece existir a Natureza. Ao estrépito da sua carroagem saem ás portas as creanças, cuja nudez mostra carnes dignas do cinzel de um Assis Rodrigues, e que riem sempre, como os Seraphins do retábulo da freguezia; moças esbeltas, a quem o carmim da aurora corou as faces, como pomos, e que em seus trajos de lan resplandecem como dahlias soberbas em vazos pobres; e bons velhos, que entre tres e quatro gerações de descendentes seus ainda os ajudam com o conselho, e o pão que em ocio lhes comem, lh’o pagam com as vivazes historias do passado.
A carroagem passa por entre essa multidão, tão afortunada quanto na terra se pode ser; passa; mas no seu vôo colheu e deixou sorrisos de benevolencia.
Chegada á sua nova residencia a familia cidadan, sente-se mais á larga em quartos pequenos, d’onde se descortinam campos e montes, do que lá nos doirados e espaçosos carceres de seus salões.
Tudo para todos os sentidos lhe é novo: a linguagem chan e respeitosa dos visinhos; as horas e qualidade das refeições; as danças e cantares do serão; o deitar antes que o sete-estrello vá alto; o erguer muito primeiro que o sol, e quando o passarinho vem dizer á vidraça que já é dia; o lavar e almoçar na fonte, por baixo da parreira; o sahir para toda a parte sem a pesada libré das galas; o descobrir em cada passeio um sitio incognito, e menos esperado do que para Colombo o foi o Novo Mundo. Não ha pessoa que os não saude pelos seus nomes, que não procure algum pretexto para lhes falar, que se não julgasse feliz de os poder servir. Os obsequios mais delicados lhes affluem a cada hora ás portas, trazidos por mãos, que só os seus callos accusam de grosseiras. Na cidade os visinhos não se conhecem, ou são inimigos mutuos; os do campo, quaesquer que sejam as differenças de gerarchia e fortuna, são irmãos da mesma tribu.
A donzella de vestido branco não teme perder o seu Dom dançando no seu jardim ao domingo com a filha do seu honrado hortelão; nem o mancebo esbelto, que sabe de cór todas as arias novas, e ambas as chronicas de cada prima-donna, se crê deshonrado passando na caça o dia com o soldado velho, que ainda voltou das guerras para vir morrer na freguezia de seus paes.
Ao luar, nas médas da eira, ¡vel-os como correm folgando, vozeando, mergulhando na palha, e reapparecendo ao som de palmas, os imberbes herdeiros de oito e dez nomes, e os pequeninos, que, sem terem menos avós, não receberam mais nomes que os de seus paes!
Se em alguma parte se encontra um vislumbre da egualdade, sonhada pelos philosophos para consolar penas, é só nos campos que essa filha de Deus se entrevê formosa, travêssa e risonha, como a Galatêa de Virgilio por entre os salgueiros.
¡D’esta convivencia, que as semanas e os mezes vão apertando cada vez mais, que vantagens não redundam para os moradores do palacio rustico, e para os camponezes! Os primeiros esquecem muito passatempo ruinoso, que julgam indispensavel; os segundos muita grosseria de trato, em que nunca haviam advertido. A casinha terrea ensinou ao solar sobriedade, e amor do trabalho; mas d’elle aprendeu o aceio, as commodidades faceis, e o gosto. O senhor deixou-se entrar da caridade, presenceando as fadigas e miserias dos seus rendeiros; o trabalhador, vendo-o bom, cessou de o temer e odiar como o seu genio mau e invisivel. As relações e valimentos na côrte attrahiram muitos favores, quando menos alguma justiça, ora para a viuva, a quem pretendiam arrancar o filho para o Exercito; ora para o lavrador, a quem contratempos desmerecidos vedaram pagar ao Fisco. As damas, quando se ausentarem, haverão deixado amigas, que repitam o seu nome sem inveja, e os seus louvores com desvanecimento; e lá para o inverno, a poisada em que tudo falta a fóra a esperança, verá muita vez acorrer-lhe lá de longe, do meio da Babylonia, a sua providencia: o fatinho conchegado para as creanças, o enxoval para a filha casadoira, o tabaco para a caixa vasia do velho, o linho para as rocas e o fiado para o tear, e a paga adiantada, para que o jantar não sejam suspiros, e a ceia lagrimas.
N’uma palavra: as cidades conhecerão e amarão os campos; e os campos perdoarão e abençoarão a opulencia das cidades. Os grandes terão ido lá retemperar a saude gastada dos vicios e cuidados, e repoisar a bolsa, dos duellos, do jogo, das tirannias da moda, das violencias da vaidade e das paixões.
Estas ferias, dadas a tres coisas tão damnosas, como são o gasto do corpo, a inanição da alma, e o desbarate da fazenda, pode ser que em bastantes dos que as disfrutarem venham a produzir mudanças de vida, mui sinceras, mui duradoiras, e sobre modo uteis para a pessoa e para o proximo.
Eu por mim, meus ricos pobres do campo, não duvido, se não que o creio com todas as veras d’alma: porque, ¿vedes vós? eu mesmo já tambem vivi, e annos, fora e muito longe das cidades, e sei como as estrellas conversam comnosco em nos colhendo a sós n’essas vossas solidões.
Sei como deitado a um meio-dia de estio, á sombra de um dos immensos guarda-soes verdes abertos por Deus aos passarinhos, aos rebanhos, e aos homens, respiramos ares bonissimos de saude, de sabedoria e benevolencia; folheamos o canhenho do nosso passado, e sorrimos de desprezo a tanto lidar por nadas, a tanta figura anan que ali fez papel de gigante, e a tantos montes de oiro, que representaram de grãos de areia.
¿Tinha-nos irritado a malignidade de um satyrico? Passa-nos por cima da cabeça um besoiro negro, e envergonhamo-nos de lhe ter dado attenção.
¿Tinhamo-nos consternado com o mallogro de um empenho? O ciciar da seára visinha nos diz: «Tambem aqui, entre as minhas espigas, vão algumas negras e vazias; mas nem por isso me chamam pobre.»
¿Tinhamos visto nos homens o egoismo? Estamos sentindo em torno de nós a prodigalidade a palpitar, a revolver-se, a rescender, a cantar, por toda a superficie da terra.
¿Tinhamos chegado pela tristeza ao scepticismo? Por cima de nós não descortinamos senão ceo, e ceos.
Erguendo nos, e afastando-nos d’ali, quando por entre as arvores, além, nos chama o fumo da nossa cosinha, saudamos ainda mais cordealmente ao visinho ou ao passageiro desconhecido; jantamos com mais apetite; e se o mendigo, enviado pela Providencia, vem n’essa hora entoar á porta o Padre Nosso, assentamol-o á nossa direita, alegramos a sua velhice com o nosso melhor vinho; e, finda a refeição, ambos damos graças ao Pae Commum, pela esmola que a um e outro acaba de fazer.
¡Oh que sim! cada folha no campo sabe mais, e aconselha melhor, para isto de contentamento interior, que todas quantas academias existem de Pekim até Lisboa, de Lisboa até aos confins da America.
—«Mas—perguntar-me-heis vós—sendo assim, ¿por que não somos nós, os do campo, inteiramente bons e bemaventurados?»
¡Inteiramente!!.... Não pode ser, que esse inteiramente não cabe ao mundo; porém menos desgraçados e menos ruins que nós outros, os da cidade, crêde firmemente que o sois.
Padeceis minguas, que o viandante descobre pela vossa janella sem vidraças. Sim, mas lá estão muitos palacios, onde, entre arrazes e sedas, se curtem amarguras, como entre flores se escondem viboras. Ali, sem espectadores, se representam tragedias inauditas. ¡Quantos de cima de um cofre de oiro se não levantam pallidos e blasphemando, para se irem pendurar n’um laço, algozes de si mesmos! ¡Quantos n’um coche envernizado por mão de pintor heraldico, ou montados n’um cavallo que lhes custou o preço de duas herdades, não vão lavar com o proprio sangue n’um duello a afronta, talvez chimerica, que receberam, ou, para tirarem um espinho da honra, carregar-se para toda a vida com o remorso de um homicidio!
¿Vedes vós?... E não vedes ainda nada; e nem eu vol-o quero nem devo mostrar.
Mas crêde; fiae-vos em mim: Lançadas bem as contas por quem experimentou ambos os vivêres, os menos maus dos maus, e dos infelizes os menos desaventurados, sois vós.
E a mais ireis, quanto mais d’estas verdades vos convencerdes; que já lá dizia, ha dois mil annos, outro poeta bem vosso amigo (como todos os de veras o são), um poeta que só para vós escreveu uma das mais admiraveis obras do mundo:—«¡Oh! ¡ditosos, ditosissimos os lavradores, se elles acabassem de entender as suas ditas!....»
Já vêdes, como podeis esmolar virtudes e satisfação aos desconsolados das ruas largas e das praças espaçosas.
Só por isto, já valia bem a pena de que o nosso Parlamento de amigos da terra promulgasse, muito depressa, a Lei com que eu sonhava, e com que ainda sonho.
......Mas cavae-me bem fundo com o discurso n’esta materia, e vereis¡ quantos outros bens vos não promette!
A vossa estrada e os vossos caminhos transversaes estão por fazer; o vosso rio, a obstruir-se de todo, a comer-vos os campos com areias, e as vidas com febres. Na vossa capella assovia o vento e côa a chuva; o seu calix é de estanho; o seu Missal rôto; o seu Crucifixo perdeu o doirado, e as rosas da corôa da Mãe de Deus, ainda que artificiaes, estão murchas como as das suas faces. O vosso cemiterio augmenta o horror á morte, pelo desamparo; lá os vossos parentes não teem sombra de arvore piedosa, onde a saudade sinta delicias em orar; e os cães e animaes do monte podem ir pela noite desenterral-os e comel-os.
Não digais nada a ninguem; mas todas essas lastimas, que vós deplorais ha tantos annos, hão-de findar, como quer que seja, com a estada dos ricos entre vós.
O solo mesmo sente que em vossas casas fallece a prata e o cobre. Ora deixae-os residir por ahi alguns mezes, e dir-me-heis, e dir-me-ha o mesmo solo, e ainda mais galhardamente que vós, se das cidades enriquecidas pela Agricultura não refluiu a final algum oiro para os campos.
Os vossos filhinhos carecem de mestres; os da cidade tambem teem coração, e tambem teem filhos; vereis como vos brindam com escolas.
Hoje frequentemente vos acontece desejardes n’um repente um bom conselho, que só a Sciencia pode dar, já para o vosso trato agrario, já para a vossa industria, já para o vosso commercio, já para a vossa demanda, ou para o governo da vossa vida. Esses homens da cidade teem livros; teem certas tinturas geraes, que dá o trato do mundo; teem amigos e conhecidos, a quem podem escrever e consultar. Até o amor proprio (quando não fosse já a humanidade) vol-os tornaria serviçaes.
O vosso domingo só escápa do tédio pelo somno, pela conversação ociosa, que degenera em maledicencia, ou... pelos praseres grosseiros, perigosos e funestos, da taberna. As vossas dansas já a vós proprios vos cançam de monótonas, e os vossos cantares sem pensamento já faziam bocejar aos bisavós.
Deixae estar: aquella gente da cidade vos trará (até por seu interesse), e vos ensinará, recreios que vos encantem. Vereis o que é um theatro. Amareis e cultivareis a musica. E Deus sabe ¡quantos talentos, que por entre vós se perdiam, se não hão-de aproveitar! ¡quantas divindades não dareis ainda ás adorações da Capital! ¡quantos brasões de verdadeiros meritos não grangeará para si o vosso logarejo!
Pensae n’isto, pensae n’isto, meus amigos; e (rebente de inveja quem rebentar, definhe quem quizer, de odio contra a ventura do Povo) trabalhae, e orae a Deus, para que venhamos a ter aquellas Côrtes que sabeis.
Fevereiro de 1849.