IX
Terceiro serão do casal

Indole campestre da Poesia

SUMMARIO

A Poesia nasceu nos campos, e para elles propendeu sempre.—Quem foi Ovidio.—O seu poema dos Fastos.—Duas amostras d’este poema.—Festa das sementeiras entre os Romanos.—Festa do deus Término.

Dizia-vos eu, meus camponezes, que todos os poetas de veras eram vossos amigos; não ha nada mais certo.

A Poesia nasceu nos campos, e por muito tempo só conheceu esse viver viçoso e perfumado. Veio a fazer-se dama ambiciosa de mais refinadas delicias; assentou vivenda nas cidades; fez-se muito sabia, muito altiva muito malédica, muito contradictoria; ora devota, ora impia, ora frivola, ora profunda; mas lá os seus campos nunca se lhe desluziram da lembrança.

Em nenhuma parte a ouvirieis cantar combates, viagens, descobrimentos, artes, luxo, amores, ou desejos de melhor vida para alem-mundo, que lhe não fugisse um olhar de saudade para o seu paraiso de flores.

A edade de oiro, que é a sua scisma contínua, posta umas vezes no passado, outras no futuro, a edade de oiro (que Deus sabe se é tão fabulosa como cuidam, a não ser em relação ao seu titulo), ¿que era ella se não a Arcádia, o viver campestre, manso e regalado?

Livros dos mais antigos do mundo, os de Moisés e os de Homero, uns e outros mananciaes de Poesia, não teem pagina, que nos não espelhe uns reflexos das bemaventuranças patriarchal e heroica, que são tambem Arcadia, com leves modificações.

Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares. Nos escritos que de então sobreviveram, ¿que é o que mais nos encanta? Não são por certo as descripções dos seus usos exclusivos, ainda que para ahi se attrai fortemente a curiosidade; são, sim, os toques allusivos ao viver rural, porque emfim, ahi é que é o ponto de contacto de todas as edades, e de todas as civilisações. O campo é que é o centro de unidade da especie humana.


Se tivessemos vagar, muito nos haviamos de entreter relendo em commum, aqui no vosso casal, alguns dos mais guapos trechos dos poemas de eras mui diversas, e paizes mui remotos, por onde acabarieis de conhecer quanto o vosso trato namorou sempre aos bons engenhos. Fôra leitura para cem annos bem aproveitados.

Falemos de um só autor, mas, que, pela grandeza do seu talento, vale centos.

Nasceu este na Italia, em tempo do poderio Romano, vai em dezanove seculos, e quando o latim era ainda lingua viva e bizarra. Chamava-se Publio Ovidio Nasão, e era cavalleiro, ou fidalgo d’aquellas eras. Vivia na Côrte, bem relacionado com a principal Nobreza, e mui cabido no paço dos Imperadores.

Tinha um engenho prodigioso para a Poesia; cultivou o com os estudos da eloquencia, com o trato dos outros poetas contemporaneos, com as sciencias, com as viagens á Grecia, que era a França d’aquelles tempos, e Athenas a sua París. Compôz uma quantidade de obras, que ainda existem quasi todas; a maior parte amorosas e voluptuarias.

As mulheres eram para elle o maior bem do mundo; o segundo, as amenidades da Natureza (ninguem dirá que tivesse mau gosto o nosso Ovidio).

Este homem, depois de ter gosado quanto era possivel da vida de Roma, de repente, e já ao descahir para velho, é desterrado. ¡E que desterro! ¡De Italia, para a Russia! ¡do seio das delicias, para uma povoação barbara, glacial, sempre em contingencias de guerras! Ali se vê, longe de sua mulher, de sua filha, de seus amigos, dos campos do seu nascimento, das damas, e dos applausos.

A causa do seu desterro é um enigma, que tem desatinado os historiadores, e a que ainda ninguem rastreou solução provavel. Coisa de amores (ou seus ou alheios) deveu por certo de andar por ahi. O que sabemos é que, lá no desterro, lembrando-lhe com muitas saudades tudo quanto havia perdido, nada lhe doía mais no coração, que o ver-se privado do seu quintalinho nos arrabaldes de Roma, onde outr’ora a mão que tão gentis coisas escrevia se deliciava, muita vez, em podar e enxertar as suas arvores.

—«¡Coitado de mim!—dizia elle—ainda que eu aqui me quizesse metter a lavrador, os bois d’esta terra não entendem latim.»

Em tal e tamanho desamparo, que até á morte lhe durou, só as Musas o não desampararam. A isso devemos duas deliciosas collecções de magoadissimas Cartas em verso, á mulher, aos amigos, a Cesar mesmo, sollicitando vir morrer onde nascêra, e metade de um poema intitulado Os Fastos.


Eram os Fastos de Ovidio uma obra em doze Livros, de que só ficaram os primeiros seis. Tinham por objecto descrever e explicar as principaes festas religiosas pagans de cada um dos doze mezes; a origem archeologica de cada uma d’ellas; e a sua coincidencia com as revoluções astronomicas.

Eis aqui o como elle prepõe a totalidade do seu plano:

Festas do Lacio anno, origens suas
quaes astros vão, quaes veem, dirão meus versos.

Esta obra, além de outras suas, traduzi eu; e por signal que offereci a traducção a um muito particular amigo d’elle, meu, e vosso, que é o Secretario da nossa Sociedade de Agricultura.

Ha nos Fastos muitas e mui bellas provas do que eu ha pouco vos dizia: do amor que o bom do Ovidio tinha á vida campestre.

Amostrar-vos-hei algumas; e vá, por estreia, o final do seu mez de Janeiro.

Canta assim:

FESTA DAS SEMENTEIRAS

Nos Annaes, onde as festas veem marcadas,
festas em vão busquei das sementeiras.
Vendo-me a folhear, cuidoso, assiduo,
e entendendo-me o empenho,—«Em balde as buscas—rindo
a Musa me diz;—«¿festas mudaveis
das fixas no registro achar querias?
Teem marcada estação, e o dia incerto;
celebram-se no praso em que estão prenhes
de sementes os chãos. Gosae do ocio
á farta manjadoira, ó bois coroados;
lá virá logo a activa Primavera,
á cerviz repoisada impondo jugo,
co’a renascente lida afadigar-vos.
No abrigo do casal durma por ora
a cançada charrua; a terra fria
não deseja, não soffre, o ser rasgada.»

Agora, que jaz finda a sementeira,
lavradores, dae folga ao solo, aos braços;
lustrem colonos sua aldeia em festa,
dêem a seus fogos a annual fogaça.
Tellus e Céres, madres das seáras
já com seus mesmos grãos se propiciem,
já coa’s entranhas da suina fêmea.
D’entre ambas nasce o grão que nos sustenta:
Céres nol-o produz; mantem-n-o a Terra.

Ó consocias em dádiva tão rica,
deusas, por quem a rude antiguidade
se abrandou, se poliu, deixada a glande
por mais nobre manjar, dae aos colonos,
em premio a seu trabalho e a seus desvelos,
colheita sem medida, e que os sacie.
Dae augmento continuo aos germes tenros,
e que a neve á nascença os não destrua.
Em quanto disparzirmos as sementes,
alimpae-nos o ceo com ventos brandos;
mal que enterrada fôr, mandae-lhe as chuvas;
e, pois são gloria vossa as pingues messes,
que em vagas de oiro, ao longo d’essas veigas,
rumorejam fartura, ¡eia, salvae-as
do avido bico das aladas hostes!
Por ora, que inda a terra o grão recata,
vós, formigas poupae-o; usura grande
havereis d’elle, se aguardais a aceifa.
Livre de tôrpe alforra a messe vingue,
e côr de alma saude o Céu lhe influa;
que nem definhe pallida, nem perca
por excesso de viço e nimia pompa.
Joio, á vista nocivo, os chãos não brotem,
nem tôrpe aveia as sementeiras mescle.
Só se vejam medrar profusamente
as cevadas, o trigo, e a rija escándia,
a escándia, a fogos dois predestinada.

Lavradores, por vós taes são meus rogos.
Co’os rogos meus os vossos se misturem,
por que uma e outra deusa os ratifiquem.

Ferina longo tempo a humanidade
só nutriu bellicosos pensamentos.
Mais apreço que a relha a espada tinha,
e em foros de nobreza era anteposto
o corsel que peleja, ao boi que lavra.
Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças
dos alviões o ferro; o ensinho em elmos.
¡Graças, deusas, a vós, a vós, ó Cesares!
o Genio marcial agrilhoado
já sob os pés de Roma em vão se extorce.
O toiro acceite o jugo; o solo, os germes;
Céres, filha da paz, co’a paz triumphe.


Ouvi-lhe agora a narração da festa, que em seu tempo se fazia no mez de Fevereiro, em honra do deus Término, ou Têrmo.

Este deus não era mais nem menos que um marco, de pedra ou pau, que extremava os predios. Com rasão lhe davam aquelle culto; nada mais respeitavel, que a propriedade; nada mais judicioso, que santifical-a.

FESTA DO DEUS TÉRMINO

Finda a noite, alvoreça a costumada
festa do deus que nos comparte os campos.

Quer tôsca pedra, ó Término, te embleme,
quer tronco informe pela mão de antigos
enterrado no chão, sempre és deidade.

Para ti donos dois, de oppostas partes,
c’rôa e c’rôa te cingem; bôlo e bôlo
te vem de cá, de lá; como á porfia,
ahi se te engenhou ara campestre.

Lá nos traz a açodada fazendeira
no seu testo quebrado as áscuas vivas
que apurou do borralho. O bom do velho
racha a lenha miuda, ergue-a em pyramide;
sua a cravar no chão ramos festivos.
Agora em cascas sêccas ceva o fogo,
tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra,
o filhinho abraçado a largo cesto.
Tres vezes d’ali tira e lança ao fogo
punhados de aurea Céres. Toma os favos,
que a filha pequenina lhe apresenta
pelo meio cortados. Trazem outros
o vinho; tudo aqui se liba ás chammas.

Alvitrajada a turba espectadora
religioso silencio attenta observa.
Co’o sangue quente de immolada ovelha
¡que ufano purpureja o vulto informe
do commum velador, o honrado Término!
e quando, em vez de ovelha, haja leitôa,
não temais que se anoje. O brodio é franco
aos bons visinhos, corações lavados,
que o celebram com fé, que jubilosos
vão tecendo um louvor a cada prato.
Ouvi, ouvi seu rustico descante;
é do deus do festejo o panegyrico:

¡Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas
bairros, cidades, reinos! cada campo
fôra sem ti um campo de batalha.
Mantens, desambicioso, insubornavel,
as herdades em paz das Leis á sombra.
Se a terra Thyreátide te houvéra,
não ceifaria a morte heroes seiscentos
de Argos e Esparta no fatal duello;
não se lêra de Othryades o nome
n’um vão tropheo de mentirosas armas,
que inda á Patria infeliz custou mais sangue.
Capitolino Jupiter que diga
que invencivel te achou, quando ao fundar-se-lhe
a área do templo, ao passo que os mais numes
para dar-lhe logar retrocediam,
tu só, qual nol-o conta annosa fama,
ousaste resistir, ficar, ter parte
no templo augusto, e adorações com Jove;
e inda lá, por que nada alfim te ensombre,
sobre ti ao ceo livre é rôta a abobada.
Nume de tão gentil perseverança,
em qualquer a leveza achára venia;
contradicção em ti suicidio fôra.
Mantém pois sempre, ó sacra sentinella,
mantém pois sempre, ó Término, teu posto.
Despréza os rogos do vizinho avaro;
não lhe concedas do terreno um ponto.
¡Ceder a humanos quem resiste a Jove?!
¿Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado?
proclama a vozes: «Meus confins são estes;
d’além, tu; d’aquem, elle; ambos cohibo,
e em cohibir aos dois aos dois protejo.»

Uma estrada une Roma aos Laurentinos,
reino que o Teucro prófugo buscára;
lá, dos marcos o sexto em honra tua
vê que lanosa victima se immola.
Término, já que acceitas cultos nossos,
ampara nos; sustenta o nosso Imperio.
De cada povo o espaço é circumscripto;
são de Roma os confins confins do globo.


¡Quão grande, meus amigos, não era o Povo em que um Poeta podia dizer isto, sem medo de que o mundo, nem a posteridade, o desmentisse!

E nós tambem, nós, os Portuguezes, já houve um tempo, em que pouco menos fomos.

Ouvi como o nosso Camões o cantava:

Mas em tanto que cegos, e sedentos
andais do vosso sangue, ó gente insana,
não faltarão christãos atrevimentos
n’esta pequena Casa Lusitana.
De Africa tem maritimos assentos;
é na Asia mais que todas soberana;
na quarta parte nova os campos ara,
e, se mais mundo houvera, lá chegára.

¿Hoje...¿ que são aquella Roma, e este Portugal?

Roma pereceu. Portugal, se não agonisa, enferma gravemente.

Mas para Roma não ha já esperança; para nós ha ainda uma ¿Sabeis qual?

Sois vós, vós mesmos, vós unicamente, ó Lavradores.

Março de 1849.