Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem aplicar.
Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, & outras accidentaes.
As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias sem comer, ficam sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa de algũa quebra nos bichos.
As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ; do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende.
Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.
Quando se leuanta algum vento frio, & desabrido, conuem ter a caza bem fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o vento.
Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, & janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas, porque lhe causaõ muito calor.
Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que estam, & darlhe nouas folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.
E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão.
Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à mudar lhe as camas, & perfumar os partileiros, & se ouuer lugar, melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha, se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso, beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as brazas.
Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao, & apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores, despertam, alegrão, & sarão aos bichos.
Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro, como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes.
O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.
As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto lhe durar este achaque, porque isto os mata.
He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas, que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa doenças nas mudas.
Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que estiuerem por ser este o tẽpo da força do seu trabalho, em que começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, & depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar, se naõ desinquietàraõ os bichos.
Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das quaes os poderà liurar o cuidado, que se terà delles.
As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou pella difficuldade de ter boa folha.
Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma, que tenho dito.
Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto, ou chouriço fritos, ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, & poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande sobresalto.
Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ, quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os que se acharem com esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous, antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, & das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar, borrifando os, & passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão; & em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.
Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas bordas dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar, que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.
Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais, para que a criaçam se faça com a desejada quantidade; meia onça de mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.
Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.
Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes, nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito danoso aos bichos, como faz o fumo de couros queimados, de sedas de porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os bichos, he peçonha.
Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer, em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser esta malicia tam refinada, como a dos que vendem as sementes assadas no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem a criação, & nam dos que vendem a semente.
Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se seruissem das das outras Naçoens.
Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste Reyno poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas, que nos vem de fora.