XVII
Festa da Redempção

25 de Dezembro

Nada mais inexplicavel, que a opposição constante, que de muito fazem ao Christianismo tres raças de homens, todos influentes: os chamados Liberaes, os chamados Philosophos, ou sabios, e os chamados Mundanos, ou partidarios dos deleites.

Os primeiros deviam ver n’elle o santo dogma da egualdade e fraternidade; os segundos, a chave que abre todos os enigmas, e o unico principio da Moral; os terceiros, as unicas verdadeiras alegrias concedidas á terra, a serenidade do animo, as esperanças infinitas, a beneficencia mutua e universal, a arte divina de converter os tormentos em gosos, as humiliações em glorias, a velhice em alvorada, e a morte em triumpho.

Os que, não podendo chamar outra coisa ao Christianismo, para o deshonrarem lhe chamaram triste, não tinham jamais comparado os rostos da multidão pobre e humilde, que pela manhan cedo sai do templo mui serena, aos semblantes do tropel, que, pelas horas mortas, vem golfando dos espectaculos, das assemblêas, das espeluncas da crápula e do jogo, cançado, aborrido, parte melancolico, parte cuidadoso, parte ébrio; uns vazios do oiro que lhes havia de sustentar os filhos; outros, opulentados a subitas, para se arremessarem mais affoitos á ruina; estes, com a fama denegrida; aquelles, com a alma hydrophóbica ainda a babar veneno; frutos de cinza e fel dentro em casca brilhante; favos escondidos no escuro vão de um tronco.


Todas estas excellencias nos traz epilogadas a festa grande, que prende ao fim do anno velho o principio do anno novo, e que é uma como absolvição do preterito, e santificação do porvir.

N’estes treze dias temos em formoso drama um symbolo completo da origem, da indole, e dos fins, da Religião do Nazareno; é a apotheóse da humanidade; a subversão das pompas vans; a infusão do Ceo na terra, e a escada mystica da terra aos Ceos, que apparece resplandecente no meio das trevas com as azas prateadas de todos os Anjos, e ressoando com os córos de ¡GLORIA E PAZ; GLORIA AOS CEOS, E PAZ AOS HOMENS DE BOA VONTADE!


¡Que risonha e que magnifica não é, ao mesmo tempo, a primeira scena d’este drama, annunciado e preludiado, largos seculos havia, pelos grandes lyricos da Fé, os Prophetas!

Eis o presepio de Belem. Os mysterios, em tão pequeno espaço contidos, adoram-se com o silencio. Adoremol-os.

Mas como o dia é de jubilos e boas-festas, chamemos pelos nossos camponezes, como os Anjos chamaram pelos da Judêa, para que venham, primeiro adorar, como nós, e depois alegrar-se com ufania.

Não foi nos palacios, não foi em Roma, não foi no Capitolio, que o Filho do Senhor de tudo quiz nascer; foi nos campos, foi na mais rustica poisada; não entre Principes, se não entre pobres. Os animaes, symbolos da lavoira e do trabalho, lhe fazem côrte. Os primeiros convocados para o verem, os primeiros que o louvam, o beijam, e o querem, são os pastores.

Os primogenitos do Ceo fostes vós, e soil-o ainda, homens simplices e laboriosos. Os das pompas, os da riqueza, os da sciencia, virão tambem prostrar-se a este Menino, que ennobrece a tudo quanto se prostra; virão, que o destino d’Elle é a dominação universal; mas só chegarão depois de vós. Para vós, bastou um convite melodioso; para elles será necessaria uma revolução nos astros.

¡Eil-os emfim, os Reis!


Noite de Natal, ¿quem te não ama?! Noite das virgens e das mães, dos meninos e dos velhos, dos camponezes e dos Soberanos, noite dos Anjos e dos homens, ¿qual será o coração que tu não alvoróces? Até o incrédulo se alegra, vendo refulgir no meio das trevas o templo enflorado, e escutando-lhe os cantares triumphaes. Do alto dos campanarios rebentam á porfia os repiques, luctando com os ventos impetuosos do inverno, e vencendo-os, e indo levar uma saudade, ainda suave, ao leito solitario do paralytico.

Toda esta musica, toda esta claridade, todo este calor, toda esta vida no coração do inverno, e á meia-noite, condizem com uma Religião, que venceu o inferno, os Cesares, os deuses; que triumphou, triumpha, e triumphará sempre, dos temporaes da perseguição, das trevas da ignorancia, e das trevas, muito mais trevas, da presumpçosa Sciencia.

Sim, sim; o presepio, tal como ainda ao presente o vemos reluzir allumiado, até por sotãos e cabanas, o presepio com todos os seus chamados anachronismos, com os seus castellos artilhados, os seus monges, os seus Romanos antigos, os seus pastores modernos, os seus camellos carregados de oiro, as suas gentis damas, e os seus pavilhões campestres inglezes; embora nescios o commentem por delirios e absurdos artisticos, é a mais verdadeira de todas as Historias, e de todas as Prophecias a mais infallivel: é um espelho longinquo, no qual todos os pontos da terra e todas as edades se estampam, convergindo para a adoração do Creador Universal.

1849.