Tres novidades aos amigos lavradores
SUMMARIO
O autor já tinha saudades do Casal.—Onde passou o mez de Maio.—Desencantamento que trouxe da Capital.—Insiste-se na necessidade de representação agricola.—Testemunho que lhe levantam attribuindo-lhe desejos de ser Deputado.—Rasões por que o não deve nem quer ser.—Que fazem e como são os nossos inimigos.—Não se lhes deve oppôr a violencia bruta, mas juizo, e salvarmo-nos por uma eleição de consciencia.—Duas novidades traz o autor da Côrte—Primeira: que a Sociedade de Agricultura Michaelense vai sendo imitada em Portugal.—Segunda: a publicação do Guia e manual do cultivador.—Louvor d’esta obra, e de quem a fez.—A Sociedade promotora da Agricultura a coroou—O que os premios produzem de bem.—Torna-se ao projecto da Ordem do arado.—Noticia do banquete da Sociedade da Agricultura.—Hymno dos Lavradores.
Já tinha saudades de vós, meus bons amigos. Lá passou, e bem a meu pesar, o mez de Maio, sem eu visitar este casal.
¡Maio sem vós! ¡e sem campo! ¡Maio n’uma cidade, e Capital! ¡e das maiores! ¡onde o que só dá flores, mas não para frutos, é a rhetorica dos politicos, e onde, para nada verdejar, nem sequer esperanças já verdejam!
¡Oh meus excellentes lavradores! Quizera eu, não que vos arrancasseis do vosso torrão, para irdes ver o que é uma Côrte, e aprenderdes a amar-vos; mas que ao menos a sonhasseis uma vez, tal como ella é, e como são todas: magnifica de marmores e architecturas, rumorejante de festas e musica, trovejada de carroagens, refulgente de gaz, que supprime a noite, alardeando senhores e principes, remirando-se nos enxames de suas damas; mas, no meio de tudo aquillo, esteril, desencantada, e não tirando de si os olhos com medo de os lançar para o futuro...
Pois se fosseis lá com algum pensamento sincero de amor dos homens, com alguma santa loucura de alma desinteressada, d’estas que alguma vez devaneámos na calada das vossas solidões, e que tão faceis foram de realisar; se vos désse em ir mendigar para a civilisação, e para os filhos e netos de nós todos, algum favor muito pequeno, e muito justo, ¡como vos não recolherieis ás vossas poisadas, descrentes e esmorecidos, para nunca mais arredardes d’ellas nem os pés, nem os olhos, nem o pensamento!
Meus amigos, meus amigos, deixae falar os nescios, que tão mal vos querem a vós como a mim; e crêde no que vos repito com a mão na consciencia e nos Evangelhos: para que, do meio das leivas rusticas, nos saiam emfim Deputados representantes da terra, semeemos o juizo, se desejamos colher a felicidade; se não fôr já hoje a hora do desengano, medo tenho de que seja amanhan a de acabarmos.
¿Sabeis o que dizem lá nos seus pagodes estes mexeriqueiros ruins, vossos inimigos e meus? ¿estes ingratos, que, devendo-vos tudo, invejam até o pé do inhâme que semeais para os filhos, e, de vaidosos que são, até a figura humana vos tirariam, se podessem? ¿Sabeis? ¿adivinhais, não o que elles pensam, mas o que elles dizem? Dizem, que no dar-vos este conselho, o unico bom conselho que hoje se vos pode dar, só armo á popularidade, para algum dia me ir d’aqui, Deputado feito por vós, sentar-me triumphalmente n’uma cadeira do Parlamento.
¿Então que lhe quereis? Dão o que teem, e fazem o que podem e costumam.
¡E dizer que ha ainda ferrenhos, que não crêem na jumenta de Balaão!
Não, boa gente, nem vós, quando escolherdes os vossos pares na lavoira, me haveis de nomear a mim, que desgraçadamente o não sou, nem, que o fizesseis, eu vos acceitaria a nomeação. Essas honrarias, já por mais de uma vez as rejeitei; e não foi para me andar agora á caça d’ellas.
¡Eu Deputado!... ¿Para quê?
Aqui, no vosso serão, ou entre outros amigos, n’um colloquio poetico, ou na minha cellasinha phantasiando para um papel alguns amores do coração, tenho o meu préstimo como outro qualquer. Passeio na herdade em que me creei; não tenho medo de me perder. ¡Mas a bordo d’aquella grande náu! ¿Quem me ensinou a mim a sua mareação? ¿E depois ... o enjôo!... ¿Eu na tribuna? ¡eu orador?! Melhor sorte me dê Deus.
Sou muito humilde, ou muito soberbo, para lá subir. Assentae bem isto em lettras grandes na vossa folhinha detraz da porta. Votae em amigos vossos, sinceros e desenganados como eu, porém mais sabedores e praticos, do que eu, de vossas coisas, e mais affeitos ao mundo positivo, que o escrevedor de livrinhos, que metade de sua vida a passa por essas nuvens, e a outra metade entre creanças. Affronta vos faria ao bom-juizo, se vos allegasse mais rasões.
Quando se trata de lavras, não é a andorinha, nem a cotovia, que vós jungís á canga do arado. Assim, não é do poeta, que vós, gente grave e sizuda, farieis o vosso representante; como tambem o não farieis d’esses descendentes da jumentinha de Balaão, que, sendo muito pobres de cérebro, muito mais o são ainda de coração.
A mim já vós me conheceis; mas ¿quereis acabar de os conhecer tambem a elles? Pois ouvi.
Fundou-se ahi uma Sociedade de Amigos das Lettras e Artes, para fazerem, a bem da instrucção primaria e dos officios mechanicos, o mesmo que em vosso proveito faz a Sociedade da Agricultura. Era santo instituto; ¿não era? Pois declararam-lhe guerra, pozeram-lhe nomes, levantaram-lhe testemunhos pela bocca pequena, enredaram com cartas anonymas, que mandaram imprimir n’outras terras, imprimiram outros aleives aqui mesmo, mas com datas fingidas e de longe, porque tamanhas vergonhas eram, que, sem mascara, nem elles as ousariam; peitaram, por baixo de mão, creancinhas desvalidas a desertarem das nossas escolas, para continuarem a apodrecer na ignorancia; aos que eram seus servos, prohibiram-lhes frequental-as.
Quando me eu ia de proposito, viagem de mais de duzentas leguas por esses mares de Christo, para requerer se nos désse aqui um chãosinho em que edificarmos, á nossa custa, uma albergaria para as pobres Lettras e Artes, mandavam elles, atravez de egual Oceano, quem lá fosse pedir que nos indeferissem; quem nos denegrisse bem denegridos; quem patrocinasse e advogasse, por todos os modos (sobre tudo pelos secretos), a causa da ignorancia; quem lidasse por vos perpetuar na condição ignominiosa de servos da gleba, um pouco mais que troncos, um pouco menos que bestas de carga.
—«¿E vingaram esses tramas diabolicos?»—perguntareis vós.
¡Quem sabe! talvez sim; o tempo o descobrirá.
Ahi tendes o que elles são; guapos corações, e guapissimas cabeças para legisladores; admiraveis amigos da terra em que nasceram, ou que os abortou, e do Povo, que sua de trabalho para que elles suem de praseres, que anda nu para que elles se enroupem com arminhos, e cospe sangue nas mãos por elles, que lhe cospem desprezo sobre ambas as faces.
Meus amigos, se queremos ser salvos, é olharmos por nós, e forcejarmos por destecer todas estas cerradas teias de barbarias. Trabalhemos tão activamente, de dia, e ao sol, como elles o fazem de noite, nos esconderijos, com vigilantes expertos e terriveis a guardal-os. Opponhâmos ás mentiras traidoras, e ás cobardes calumnias, a verdade e a franqueza; ao anachronico feudalismo, o seculo XIX, que é o nosso, que é vivo, e que é forte. Nada de violencia; a força bruta nada cria, e ameaça tudo; o incendio, o exterminio, as sublevações, o converter as enxadas em machados, e as arvores, que alimentam, em clavas que derribem, fôra curar a doença com a morte, enredar-se mais nas cadeias, pretendendo sacudil-as, querer subir ao cume, e afogar-se no abysmo.
A redempção, toda a redempção, só Leis sabias, e zelosamente mantidas, nol-a hão de trazer; e é para as termos, que eu vos exhorto e vos supplico vos associeis, para darmos a um Povo, que é e deve ser agricola, umas Côrtes agrárias e um Ministerio lavrador; isto é: a um Paiz, que pode e quer produzir, uma providencia e cultura apropriadas. Pelo menos, façâmos o que de nós depende para o bem, como os inimigos fazem quanto podem para o mal. E depois... sahirá o que Deus quizer.
Por novidades da Côrte me requereis. Das politicas, nenhuma vos trago, que não curei d’ellas, nem já entendo essa linguagem. Das operas e passeios, das modas, e do aformoseamento das praças, não curais vós. O que só vos importa, é a terra.
Pois bem: duas novidades vos trago quanto á terra, que vos devem ambas aprazer.
A primeira, é que a vossa tão bem augurada Sociedade promotora da Agricultura Michaelense, ao mesmo passo que vos fecunda por cá o solo por via da instrucção, faz nascer lá pelo Reino, por via da emulação, outras semelhantes Sociedades, que, se forem avante, e imitarem sempre a sua predecessora, transformarão a final a Patria, de mendiga despresada e decrepita, em abastada, juvenil, e formosa, mediante aquelle Congresso e aquelle Ministerio que já sabemos, e para que ellas hão-de, quando crescerem e se propagarem, contribuir infallivel e irresistivelmente.
A outra novidade, tambem para alviçaras, é um Livro.
Um Livro nem sempre é uma obra; as mais das vezes é palavras, das quaes as obras distam muito.
Este, porém, que vos eu annuncio, deveras é obra; custou bom estudo; fez-se com amor e consciencia; allumiará os vossos espiritos; e contém em germes grande copia de frutos, que, em vós querendo, entrarão logo a rebentar pela superficie do vosso solo. Tem por titulo Guia e Manual do Cultivador, ou Elementos de Agricultura.
Antes que d’elle vos fale, ou para supprir o que d’elle vos poderia encarecer, deixae-me falar-vos do seu autor, que, melhor do que eu, sabeis vós como pela arvore se adivinha o fruto.
José Maria Grande, Doutor abalisado em Medicina e Philosophia, e Lente ha annos de Botanica e Agricultura na Escola Polytechnica de Lisboa, é um d’aquelles espiritos eleitos, que a Providencia predestina ao bem commum, e que, para melhor se habilitarem ao desempenho do seu sacerdocio, lhe saem das mãos ao mesmo tempo graves, e amenos; sizudos, e poeticos; para a rasão, convincentes; para a vontade, persuasivos.
Desde a flor da mocidade o amo eu, que desde então nos conhecemos. N’aquellas famosas festas da Primavera, celebradas nas margens ridentissimas do Mondego, e de que já póde ser ouvirieis falar ou ler alguma coisa, foi elle um dos que mais por engenho se extremaram.
D’ahi para cá (e não são tão poucos annos), sem renegar o culto das Musas, que tão dadivosas o prendaram, entrou, comtudo, a combinar com aquelle affecto outro mais alto; com a poesia espontanea da imaginação, que é só rosas e fragrancias, a poesia cultivada e frutifera da Natureza. As sciencias d’ella, foi-as enxertando no talento, foi-as nutrindo e robustecendo com a seiba, assim melhor aproveitada, do seu engenho. Imaginae ¡o que não estarão hoje produzindo!
Então, era a primavera, a florescencia, o poeta. Hoje, é o sabio, a meditação, o outono, a abundancia. Então, o rouxinol que enfeitiçava as ociosas noites de luar. Hoje, a aguia que se remonta ás alturas, d’onde abrange largo mundo, e que fita os olhos escrutadores no proprio sol. Coração e indole não lhe mudaram; mas os amores que tinha, ideaes e volateis, concentrou-os no amor grande, no que é bemvindo em todas as edades, e a todas as ennobrece: no amor dos homens. Como Virgilio, passou das cadeias de rosas de Amaryllis, ao magisterio das Georgicas, á grave doutrinação dos camponezes.
Lavrador elle mesmo, e imbuido copiosamente nas theorias por sua experiencia verificadas, comprehendendo (até onde é dado) os mysterios da Natureza, affeito a explical-os, e sabendo realçal-os ainda com a lucidez e côres do estylo, commetteu com a melhor estreia, e com as fadas mais propicias conseguiu, crear para vós o que de toda a parte, ha muito tempo, se pedia em vão: o codigo succinto, mas completo, dos vossos trabalhos.
Em dois volumes, e não grandes, é a sua obra repartida. O 1.º anda já no Publico, procurado e festejado; o 2.º não tardará, podendo-se-lhe desde já prophetisar egual fortuna.
Presente bem rico vos será já per si o que vos trago. N’elle aprendereis, como introducção ao que vos cabe fazer, para que a fazenda, como dizia Virgilio, satisfaça ás vossas cubiças, parte do muito, e do infinito, que a Divina Sabedoria fez para vós e para todos, ao crear a terra, as aguas, os ares, e as plantas.
N’este sentido, o livrinho, sem o dizer, é tambem dos mais religiosos. Descobrir os segredos da Creação é adorar o Creador. Newton, que mais os sondou, nunca de Deus falava sem inclinar aquella grande cabeça, que abrangia mundos.
Quando houverdes lido, no vosso Guia e Manual, os maravilhosos segredos do nascimento e crescimento, da florescencia, frutificação e reproducção das plantas, da sua alimentação, da sua vida, do seu respirar, do seu dormir, dos seus amores, das suas relações de beneficios mutuos com o ar, com a terra, com os animaes, e comnosco; fico-vos eu que a minima hervinha vos inspirará mais devoção, e vos dará mudamente mais conselhos, que a mais devota Imagem da vossa aldeia. O que no campo vos parecia solidão e ermo, deixará de o ser aos vossos olhos, porque direis:
«Tudo isto, que vegeta em derredor de mim, me está amando, e amando a seu modo ao nosso Deus; tudo isto é vivo, tudo isto é sabedoria e bondade em acção.»
E depois, com este conhecimento especulativo, que vos ala para as alturas, ¡quantas ideias para applicação e pratica! Cada verdade, cada phenomeno, que se descobre dos entes a dentro, é um raio de luz que nos encaminha no mais acertado modo de os servirmos e os aproveitarmos. A herdade d’aquelle que aprendeu o capitulo da grande Theologia Universal chamado Botanica, entre os predios dos ignorantes se distinguirá, como a porção de terreno em que Franklin mandou á Natureza escrever com grandes lettras viçosas um invento prestadio. Isto foi adubado com gesso—bradavam aos olhos, no meio de um prado mal fértil, pomposas lettras de verdura. Isto pertence a quem entende o viver das plantas—dirá a duplicada fertilidade da vossa lavoira.
Para que não suspeiteis que é a amisade quem me fascina, quando assim vos exalto o valor e prestimo do livro; ou para que, por ser de extranho á vossa bella arte, me não desdenheis a recommendação, haveis de saber que o mesmo que vos eu digo, foi já sentença de tribunal mui competente, qual é a vossa Sociedade promotora.
Tanto a obra lhe cahiu em graça por sua singelez e verdade, por sua sciencia e clareza, pelo mui serviçal que se vem accommodando a esta e áquella necessidade do lavrador, e pela segura sonda com que o autor vai tenteando as novidades antes de as adoptar (o que nem sempre se acha nos agrónomos que só teem por geira a folha de papel, por charrua a penna, por bois os dedos, e por experiencia as suas phantasias), emfim por sua sciencia e consciencia, tanto namorou o livrinho a estes sinceros juizes, que, a par com os louvores e agradecimentos, que já não seriam pequena corôa, lhe decretaram unanimes uma medalha de oiro. Fizeram o que o Governo havia de fazer, se já existira n’elle o que em nossos votos existe ha muito: um paternal Ministro da Agricultura.
Em quanto o não ha, nem Côrtes que legislem premios condignos a taes serviços, necessario é que a virtude dos particulares vá pagando, como pode, dividas sacratissimas, que não são só do Estado, se não tambem da Humanidade. ¡A Deus praza que as outras Sociedades agronomicas do nosso Portugal, edificadas com o santo exemplo o imitem, e o subam ainda por sua parte a maior ponto!
Os talentos dos que podem escrever para utilidade dos seus semelhantes, são como as flores femininas: conteem no seu ovario, lá bem no fundo do calix, germes optimos; mas o pólen, que os fecunda para frutos, só lhes vem na aura do favor publico. Esse pólen fragrante, que os activa deliciando-os, e encantando a quantos no transito o aspiram, é o louvor e o premio.
Flores d’alma hermaphroditas, que a si mesmas se bastem para frutificarem, tambem as ha, tambem; mas são muito raras.
Sem premio, nem esperança d’elle, nasceu em verdade, e amadureceu, e está já colhido, o Manual do lavrador; mas agora, depois do exemplo, ¿quem póde calcular o que no engenho e saber de outros procreará a louvavel ambição?
¿Lembrais-vos d’aquellas condecorações em que vos eu falava aqui ha tempos, que se deviam instituir com titulo de Ordem do Arado, e de que tanto escarneceram os parvos, que, a propôr-se a votos uma Ordem da maledicencia, calumnia, e mexericos, talvez a approvariam? ¿Lembrais-vos, meus amigos?
Pois, se tivesse já havido um Parlamento que a decretasse, e tivessemos um Ministerio dos Negocios da Agricultura.... um Commendador da Ordem do Arado para venerações teriamos nós já; e vós m’o direis quando houverdes devorado o livro.
Antes de nos apartarmos, falemos de outra coisa, que tambem vos toca.
Sabereis, que, no dia folgasão do nosso patricio Santo Antonio, teve a Sociedade promotora da Agricultura Michaelense um banquete campestre, muito lauto, muito alegre, mas (o que mais vale, que tudo isso, quanto a mim) muito excitativo para mutuas harmonias de vontades, e muito desafiador de forças para os trabalhos que mais importam. Com vinho patrio se bebeu á vossa saude, á prosperidade da lavoira, e á perseverança e bons fados da Sociedade, que tanto lhe quer a ella, e mais a vós.
Em nossos precedentes serões, aqui no casal, vos ponderava eu, e vos provava com exemplos, como os poetas foram sempre os mais certos amigos e devotos dos campos e vida rustica. No livro que vos hoje trouxe lá vereis mais uma prova; e agora concluirei com uma recentissima, de minha lavra; é o Hymno dos lavradores, que eu apresentei como postre entre os vinhos e fruta da vossa terra, n’aquelle patriotico jantar de nossos amigos e irmãos.
Tambem eu, ensinado pelos annos, passei das festas da primavera para as do trabalho. Outros tempos, outros gostos; os mais seguros e abençoados sempre são esses.
Ouvi pois o vosso Hymno; se vos aprouvér decorae-o, e no meio de vossos trabalhos entoae-o muitas vezes. Poesia e Musica são uns bons adubos, que se haviam de empregar muito mais a miudo, para estimulo de entendimentos perguiçosos e vontades indolentes. De Poesia e Musica muito se ajuda a civilisação onde ha philosophia, como em terras de Allemanha. Os Antigos por instincto o adivinharam, quando metteram entre as lições de suas fabulas a de Orpheu e de Amphião domando rudezas, amançando feras, e erigindo cidades de cem portas e immenso trato, ao som de suas lyras.
O que a minha entoou para inspirar o santo amor dos campos, ainda que não seja de nenhum Amphião nem Orpheu, eil-o aqui. Com mãos limpas vol-o entrego; recebei-o com boa sombra.
HYMNO DOS LAVRADORES
Junho de 1840