Quem canta seus males espanta,
Quem chora seus males augmenta,

diz o nosso povo como um axioma de therapeutica prática para curar as doenças da alma.

O Fado abre uma valvula de segurança ao desafogo da escória social, tão abundante em todas as capitaes, especialmente em Lisboa, que é uma cidade indolente e pobre.

Todo o portuguez é poeta. São numerosos os improvisadores em Portugal, até nas classes menos cultas, e especialmente entre ellas.

A lingua parece auxiliar esta predisposição hereditaria, tradicional, não só por ser triste e convidar á cadencia dolente, mas tambem por se adaptar facilmente á metrificação, especialmente á redondilha, que se encontra feita e perfeita em todos os prosadores.

Castilho deu-se, com uma paciencia de cégo, ao trabalho de «medir» a prosa de alguns classicos, e achou dentro d’ella a contextura espontanea de varios metros.

Os musicos em Portugal não são tão abundantes como os poetas, o que mostra que se repete uma banalidade, com resaibos mythologicos, quando se diz que a musica é irmã da poesia.

Aprendemos sem esforço as melodias simples e singellas, como as do Fado corrido, porque são como que uma resonancia natural do proprio genio da lingua, uma especie de metrificação musical, parallela á versificação instinctiva do povo.

Mas os bons compositores de musica, tanto nas classes illustradas como nas populares, não avultam pelo numero.

O Fado das ruas, cujo rythmo é facil, muito adaptavel á memoria e ouvido do povo, póde ter escasso merito litterario e artistico, mas tem sempre um alto valor ethnographico: é a historia cantada das classes e dos individuos inferiores.

Não padece duvida que muitos dos nossos Fados populares provéem de pessoas mais instruidas do que o povo; mas são escriptos para elle, que não os assimilará se os não entender.

Por isso grande numero dos nossos Fados mira á observação de phenomenos sociaes quotidianos, de interesses e particularidades de classe, ao retrato e biographia de typos da rua, quanto mais despresiveis mais apreciados pelo povo, que os conhece de perto.

Outros Fados, especialmente os politicos, e os que celebram algum acontecimento grave, são uma exploração de momento, um recurso de occasião, que pretende aproveitar a sensação causada no povo tanto pelas tranquibernias dos governos e dos collegios eleitoraes, como pelos factos de importancia occorridos nas classes superiores.

De modo que, póde bem dizer-se, o Fado é em nossos dias um poderoso instrumento de divulgação, que se transmitte facilmente, por meio da imprensa, com uma rapidez electrica.

Sob o ponto de vista da satyra e do epigramma, os Fados substituem os mordentes Pater noster de outr’ora, que não encontravam tão faceis meios de circulação como aquelles que a publicidade moderna proporciona.

Camillo, referindo-se a um Pater noster castelhano, que satyrisava Clemente VII, diz com razão: «É o que hoje chamaríamos o Fado do Papa

Caricatura do typo fadista no cortejo com que os estudantes da Escola Polytechnica de Lisboa celebraram a publicação do «Decreto do cuspo».

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] A lingua portuguesa, noções de glottologia geral e especial portugueza, por F. Adolpho Coelho.

[2] Historia do theatro portuguez no seculo XVIII, pag. 153.

[3] O sr. visconde de Castilho (Julio) quando, ao descrever uma noite de S. João na quinta da Boa Vista em Carnide, põe Vieira Luzitano, que nasceu em 1699, a arranhar na banza, como outros rapazes, «os accordes lacrimosos e dulcissimos de um fado», dá a esses accordes um nome que se não podia referir á epoca do serão, mas emprega uma designação generica em o nosso tempo, por dar a impressão da indole melancolica que sempre tiveram entre nós as canções populares.

Tomada ao pé da lettra, com relação áquella época, a palavra Fado seria um anachronismo.

[4] «É um canto plangente, estremamente singelo em estylo de fabordão. Pode-se por isso acreditar na sua origem popular; tem pelo menos esse caracter.» Ernesto Vieira, A arte musical, n.ᵒ 79, IV anno.

[5] A ultima nau portugueza, reminiscencias por Theodoro José da Silva, Lisboa, 1891.

[6] O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. I, pag. 62.

[7] O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. I, pag. 385.

[8] Pag. 321.

[9] Ainda em 1886 o sr. Borges de Figueiredo escrevia no seu livro Coimbra antiga e moderna: «A viola foi sempre um dos instrumentos mais favoritos dos conimbricenses. Nas serenatas do Mondego e n’outras pelas ruas e suburbios da cidade, reina ella a par da flauta e do violão (viola franceza), já enchendo os ares de suas harmonias, já formando o acompanhamento de graciosos cantares.»

[10] Revista Portugueza, n.ᵒ 6, 1894-95.

[11] No mesmo periodico, n.ᵒ 1.

[12] Os nomes d’estas canções variam, segundo o seu genero, de terra para terra: são cantigas, modas, lôas, reisadas, chulas, trobos, remances (nos Açores, aravias) jacras (xácaras) etc.

[13] Ernesto Vieira, Dicc. Mus.

[14] A Tradição, revista de ethnographia portugueza, IV anno, n.ᵒ 1.

[15] Historia da poesia popular portugueza, pag. 89, e Epopeas da raça mosarabe, pag. 321.