Venha o diabo á escolha,
Não sei qual mais approvar;
Que tu a cantar fadinhos
És mesmo um gato a miar.
Amigo, por compaixão,
Não estafes esta gente,
Que sabe perfeitamente
Qual a tua presumpção:
P’ra nossa satisfação
Mette na bôcca uma rolha;
Assim escondes a bolha
E passas por mais sensato:
Entre a tua e a voz do gato
Venha o diabo á escolha.
Quem nos ouvidos soffrer
Do teu canto o som bravio,
Sentirá um arrepio
E febre julgará ter.
D’um caldeireiro o bater
É custoso de aturar;
Inda assim se o comparar
Á tua voz desabrida,
Não sei por qual me decida,
Não sei qual mais approvar.
Os cães á lua ladrando,
Os burros a darem zurros,
Os leões soltando urros,
Corvos aos mil crocitando;
Todos vão atordoando
Os ouvidos, coitadinhos!
Mas não sei se estes brutinhos
(Sem pretenções a encantar)
São menos de apoquentar
Que tu a cantar fadinhos
Deixa essa balda ruim,
Não te mettas a finorio,
Se não queres que o auditorio
Te rogue pragas sem fim.
Vae-te já com tal chinfrim
De cantigas p’ra enfadar;
Não tens voz para cantar,
Jamais serás cantador,
Porque, sem tirar nem pôr,
És mesmo um gato a miar

Outro:

Quando ás vezes a mostarda
Chegar sinto ao meu nariz,
Tenho cá um vinagrinho
P’ra os piar no almofariz.
Suas basofias insanas
Pôem-lhe os queixos em perigo;
Se me conhecesse, amigo,
Deixaria essas lampanas;
Metto-o no rol dos parranas,
Apesar de vestir farda...
Tambem traz o burro albarda
E eu não tenho medo d’ella.
É bom fazer-se de vella
Quando ás vezes a mostarda...
Se você, seu borra-botas,
De ser valente tem fama,
Eu já fiz lá para Alfama,
Fugir duzias de janotas;
Não sou de soffrer chacotas,
Repare bem no que diz:
Nem dez policias civis
Me põem na casa da guarda
Quando cá certa mostarda
Chegar sinto ao meu nariz!
Seu palerma atrevidete,
Pergunte aqui e acolá,
Depois logo saberá
A firma com quem se mette!...
Se p’ra traz lanço o barrete
E torço um pouco o focinho,
Vae tudo por mau caminho,
Porque nunca fui dos mansos;
E p’ra dar ensino a tanços
Tenho cá um vinagrinho...
Saiba você, seu marau,
Meu senhor, rei dos pandilhas,
Que vae parar a Cacilhas
Se lhe atiro um chimbalau.
Vou fazer-lhe o catatau,
Se o que disse não desdiz.
Se tem dó do seu nariz
Perca as basofias insanas,
Porque me não faltam ganas
P’ra o pisar no almofariz.

Nas provincias do norte tambem ha certamens poeticos entre a gente do povo, especialmente no Minho. É o que lá chamam «cantar ao desafio.» E nas provincias do sul, fóra da classe dos fadistas, diz-se—cantar á desgarrada. Mas em Lisboa e seus arredores resalta uma profunda differença entre as «cantigas a atirar» e os duellos a verso das outras classes, tanto do norte como do sul.

Começa a avultar a differença na propria designação: a atirar.

Esta expressão dá logo ideia de uma classe bulhenta e desordeira, que deseja «ferir» o adversario, em vez de o vencer apenas.

Nos «desafios» e nas «desgarradas» usa-se geralmente a quadra; nas «cantigas a atirar», a décima.

É a influencia da fórma estrophica do Fado com seu mote e suas glosas.

A disputa assenta sobre a competencia ou incompetencia para cantar Fadinhos; póde o adversario ser um rouxinol, mas se não entrar bem no rythmo do Fado, é peior do que um cão a ladrar, na opinião dos fadistas seus pares.

Toda a pimponice do fadista se arreganha nas «cantigas a atirar.»

A si mesmo se exalta, elle, na recordação das suas grandes «zaragatas» em Alfama e Mouraria:

Eu já fiz lá para Alfama
Fugir duzias de janotas.

Desvanece-se de afugentar os janotas e de «resistir á policia»:

Nem dez policias civis
Me põem na casa da guarda.

É a prosapia do «bailhão,» o mais desordeiro e implicante dos fadistas; como quem diz a «quinta essencia» da classe.

Tem seus Fados especiaes, o «bailhão». Celebra-se a si mesmo; canta a sua Odyssea.

Ha familias, dynastias de bailhões, que se fazem temer: dizem-no estas glosas, que são paginas de auto-biographia:

Quando as costellas n’um feixe
O amigo ao outro fazia,
E allumiava a Mouraria
A luz do azeite de peixe;
(Não é mau que isto se deixe
Escripto como passou)
Alto nome conquistou
Meu avô, pae do barulho;
E, eu o digo com orgulho,
Bailhão foi o meu avó!
Pimpões em cantar mil fados
Nos sujos becos d’Alfama,
Meus manos tiveram fama,
Dando baixa de soldados.
Mesmo p’la pinga azoinados
Ninguem lhes dava bananos.
Um d’elles fazia abanos,
Outro fazia gaiolas,
E ambos de finas escolas
Foram bailhões os meus manos...
Com familia tão honrada,
Seria grande desgraça
Que eu desdissesse da raça
Que sahiu tão apurada!
Mas, sem basofia e sem nada,
Direi que mais se apurou.
Sabei, de pêtas não sou,
E presto culto á verdade,
Quando digo á sociedade:
O rei dos bailhões eu sou.

E, quanto ás proprias proezas, continuando as tradições de familia:

Tenho armazem de cantigas,
O que se chama o beijinho,
E por mim dão o beicinho
As mais bellas raparigas;
Não me tem faltado as brigas
Em que sempre fui pimpão;
Tenho dado ao escrivão
Boa quantia em metal...
Já disse a um juiz criminal:
Eu sou fadista bailhão.

Quando o bailhão, nas «cantigas a atirar», arremessa para a nuca o barrete preto, que no trajo da classe toma a alternativa do chapéu de aba direita, é tremer d’elle: está disposto a ir passar uma temporada ao Limoeiro:

Se p’ra traz lanço o barrete
E torço um pouco o focinho,
Vai tudo por mau caminho.

É o caminho da cadeia ou do degredo.

As «cantigas a atirar» não se confundem, pois, nem pelo texto, nem pela forma, com os «desafios» do norte e com as «desgarradas» do sul.

São o proprio Fado n’uma intenção provocante, de «zaragata» e de facada.

NOTAS DE RODAPÉ:

[16] Galeria de figuras portuguezas, pag. 112.

[17] Uma vaga tradição alfacinha diz que o fadista se deu por orgulho de classe a designação de faia, medindo-se, vaidosamente, com o aprumo e elegancia da arvore d’este nome.

[18] De faia.

[19] Bailarim, por comparação. O que pula jogando a navalha, risca, faz escovinhas, bate o Fado, etc.

[20] Epopeas da raça mosarabe, pag. 321.

[21] Antigos bandidos dos Pyrenéos.

[22] Allusão á Bisnaga escolastica.

[23] A Penha de França, segundo a Agostinheida; a Cotovia, segundo a Bisnaga. Em ambas estas eminencias, tanto ao oriente como ao poente da cidade, se feriam as batalhas garotaes. A Penha era reducto para os garotos de Alfama; e a Cotovia para os do Bairro Alto.

[24] Corpos pesados, ordinariamente pedra ou ferro, que os pescadores empregam para fundear os seus barcos.

[25] Sáfea, segundo a graphia de Gil Vicente. Reles, despresivel.

[26] Rancho de rapazes inuteis; vadios.

[27] N’outra publicação contra o padre José Agostinho, diz Pato Moniz, mais claramente, que o General Luneta era D. Thomaz de Almeida, e que o general do exercito opposto era «um preto caiandeiro.»

[28] N.º 2. 1889.

[29] Camillo, no Eusebio Macario.

[30] L. A. Palmeirim, Os excentricos do meu tempo, pag. 263.

[31] Esta decima, tendo por assignatura trez XXX, appareceu publicada no Almanach de lembranças para 1861.

[32] São fornecidas pelo Maia as seguintes relações, aliás um pouco baralhadas chronologicamente, de cultores do Fado.

Tocadores mais celebres:

Palmella, Maggyoli, José Vinagre, Thomaz do Bairro Alto, Francisco d’Alcochete, Antonio dos Fosforos, Constantino Marceneiro, Antonio, Manuel e José Casaca, João Maria dos Anjos, Paulo Pereira, Luiz Petrolino, Thomaz Ribeiro, Robles, Reynaldo Varella, Alberto Lima, Julio Silva Carvalhinho, Chico Padeiro, Carmo Dias, Julio Silva (Ourives), João da Preta, Palhetas. (Não deve esquecer o proprio Maia.)

Cantadores mais celebres: José Maior, Saldanha, José Carlos, José Borrêgo, José Petiz, Calcinhas, Pae Antonio, Patusquinho, Campanudo, Damas, José Maria Artilheiro, Sapateirinho, Batata d’Adiça, João da Matta, Isidoro Pataquinho, Serrano da Graça, Manuel Serpa, Russo do Chafariz, Manuel da Motta, Jorge Caldeireiro, Eduardo, Brazileiro, Manuel Serpa, Rosa Sapateiro, Carlos Arintho, Sepulveda, José Carlos, Zé Um, Luiz Palhinhas, José Cecilio, Chico Plainudo, Chico Torneiro, Ginguinha.

Antigos fabricantes de guitarras: mestre Jeronymo, largo da Annunciada; José Pedro o Mudo, Paço do Bemformoso; Manuel Guitarreiro, largo da Esperança; João Ramella, calçada dos Caldas.

[33] «Quando Taborda cantava na comediasita Ditoso fado algumas quadras á viola (aliás guitarra) o publico em altos gritos pedia mais, e mais, e mais, e o grande, o incomparavel Taborda entoava centenas de quadras entre applausos.» Julio de Castilho, Amores de Vieira Lusitano, pag. 127.

[34] Esta palavra tem-se graphado em portuguez dos seguintes modos: lundu, lundum, landum, londum.

[35] Marquez de Ficalho.

[36] Conde de Vimioso.

[37] Lisboa na rua, pag. 167 e seg.

[38] Pianinho é outro synonymo da guitarra, em calão fadista.

[39] Ultimamente publicou-se uma collecção de Fados infernaes, em que se encontram «Fados á campa».