Outro:
Nas provincias do norte tambem ha certamens poeticos entre a gente do povo, especialmente no Minho. É o que lá chamam «cantar ao desafio.» E nas provincias do sul, fóra da classe dos fadistas, diz-se—cantar á desgarrada. Mas em Lisboa e seus arredores resalta uma profunda differença entre as «cantigas a atirar» e os duellos a verso das outras classes, tanto do norte como do sul.
Começa a avultar a differença na propria designação: a atirar.
Esta expressão dá logo ideia de uma classe bulhenta e desordeira, que deseja «ferir» o adversario, em vez de o vencer apenas.
Nos «desafios» e nas «desgarradas» usa-se geralmente a quadra; nas «cantigas a atirar», a décima.
É a influencia da fórma estrophica do Fado com seu mote e suas glosas.
A disputa assenta sobre a competencia ou incompetencia para cantar Fadinhos; póde o adversario ser um rouxinol, mas se não entrar bem no rythmo do Fado, é peior do que um cão a ladrar, na opinião dos fadistas seus pares.
Toda a pimponice do fadista se arreganha nas «cantigas a atirar.»
A si mesmo se exalta, elle, na recordação das suas grandes «zaragatas» em Alfama e Mouraria:
Desvanece-se de afugentar os janotas e de «resistir á policia»:
É a prosapia do «bailhão,» o mais desordeiro e implicante dos fadistas; como quem diz a «quinta essencia» da classe.
Tem seus Fados especiaes, o «bailhão». Celebra-se a si mesmo; canta a sua Odyssea.
Ha familias, dynastias de bailhões, que se fazem temer: dizem-no estas glosas, que são paginas de auto-biographia:
E, quanto ás proprias proezas, continuando as tradições de familia:
Quando o bailhão, nas «cantigas a atirar», arremessa para a nuca o barrete preto, que no trajo da classe toma a alternativa do chapéu de aba direita, é tremer d’elle: está disposto a ir passar uma temporada ao Limoeiro:
É o caminho da cadeia ou do degredo.
As «cantigas a atirar» não se confundem, pois, nem pelo texto, nem pela forma, com os «desafios» do norte e com as «desgarradas» do sul.
São o proprio Fado n’uma intenção provocante, de «zaragata» e de facada.
[16] Galeria de figuras portuguezas, pag. 112.
[17] Uma vaga tradição alfacinha diz que o fadista se deu por orgulho de classe a designação de faia, medindo-se, vaidosamente, com o aprumo e elegancia da arvore d’este nome.
[18] De faia.
[19] Bailarim, por comparação. O que pula jogando a navalha, risca, faz escovinhas, bate o Fado, etc.
[20] Epopeas da raça mosarabe, pag. 321.
[21] Antigos bandidos dos Pyrenéos.
[22] Allusão á Bisnaga escolastica.
[23] A Penha de França, segundo a Agostinheida; a Cotovia, segundo a Bisnaga. Em ambas estas eminencias, tanto ao oriente como ao poente da cidade, se feriam as batalhas garotaes. A Penha era reducto para os garotos de Alfama; e a Cotovia para os do Bairro Alto.
[24] Corpos pesados, ordinariamente pedra ou ferro, que os pescadores empregam para fundear os seus barcos.
[25] Sáfea, segundo a graphia de Gil Vicente. Reles, despresivel.
[26] Rancho de rapazes inuteis; vadios.
[27] N’outra publicação contra o padre José Agostinho, diz Pato Moniz, mais claramente, que o General Luneta era D. Thomaz de Almeida, e que o general do exercito opposto era «um preto caiandeiro.»
[28] N.º 2. 1889.
[29] Camillo, no Eusebio Macario.
[30] L. A. Palmeirim, Os excentricos do meu tempo, pag. 263.
[31] Esta decima, tendo por assignatura trez XXX, appareceu publicada no Almanach de lembranças para 1861.
[32] São fornecidas pelo Maia as seguintes relações, aliás um pouco baralhadas chronologicamente, de cultores do Fado.
Tocadores mais celebres:
Palmella, Maggyoli, José Vinagre, Thomaz do Bairro Alto, Francisco d’Alcochete, Antonio dos Fosforos, Constantino Marceneiro, Antonio, Manuel e José Casaca, João Maria dos Anjos, Paulo Pereira, Luiz Petrolino, Thomaz Ribeiro, Robles, Reynaldo Varella, Alberto Lima, Julio Silva Carvalhinho, Chico Padeiro, Carmo Dias, Julio Silva (Ourives), João da Preta, Palhetas. (Não deve esquecer o proprio Maia.)
Cantadores mais celebres: José Maior, Saldanha, José Carlos, José Borrêgo, José Petiz, Calcinhas, Pae Antonio, Patusquinho, Campanudo, Damas, José Maria Artilheiro, Sapateirinho, Batata d’Adiça, João da Matta, Isidoro Pataquinho, Serrano da Graça, Manuel Serpa, Russo do Chafariz, Manuel da Motta, Jorge Caldeireiro, Eduardo, Brazileiro, Manuel Serpa, Rosa Sapateiro, Carlos Arintho, Sepulveda, José Carlos, Zé Um, Luiz Palhinhas, José Cecilio, Chico Plainudo, Chico Torneiro, Ginguinha.
Antigos fabricantes de guitarras: mestre Jeronymo, largo da Annunciada; José Pedro o Mudo, Paço do Bemformoso; Manuel Guitarreiro, largo da Esperança; João Ramella, calçada dos Caldas.
[33] «Quando Taborda cantava na comediasita Ditoso fado algumas quadras á viola (aliás guitarra) o publico em altos gritos pedia mais, e mais, e mais, e o grande, o incomparavel Taborda entoava centenas de quadras entre applausos.» Julio de Castilho, Amores de Vieira Lusitano, pag. 127.
[34] Esta palavra tem-se graphado em portuguez dos seguintes modos: lundu, lundum, landum, londum.
[35] Marquez de Ficalho.
[36] Conde de Vimioso.
[37] Lisboa na rua, pag. 167 e seg.
[38] Pianinho é outro synonymo da guitarra, em calão fadista.
[39] Ultimamente publicou-se uma collecção de Fados infernaes, em que se encontram «Fados á campa».