Mas eu considerando o tal Epigrama acho, que é uma completa parvoise, desde-a primeira palavra, até a ultima. Nam acho nele, conceito algum: as palavras sam improprias: e muitas nam tem significasam certa: e nam conclue com pensamento que eleve, que é a obrigasam do-Epigrama. Nam sei como o dito Poeta nam fez outro, a um burro de Valada, ou macho de Almagro; pola metafora da-Logica, ou Geometria. Podia descobrir na seriedade destes animais, semelhansas de um omem que filozófa: no-seu paso grave, o fundado do-juizo: tambem nas suas orelhas, semelhansas de uma sesam conica: no-corpo, vestigios de um paralelogramo: no-movimento, a ideia de varias linhas: e nas unhas, uma porsam de circulo: com outras ridicularias destas. As metaforas podem ter lugar; mas nam devem ser estas, que sam arrastadisimas. Isto nam intendem os que o-louvam: mas isto deviam intender, os que prezumem ser Poetas.
O outro ponto dos-encarecimentos, é frequentisimo nestes paîzes. Nam á coiza mais comua, entre estes chamados Poetas, doque encarecimentos incriveis; e servir-se de palavras, que nam significam nada. E sem saîr do-Chagas, que parece a muitos, que é bom Poeta; considere V. P., o que ele diz neste Soneto, feito a um pé pequeno de uma Dama.
Este Soneto tem tido mil aplauzos: e ja achei quem me-disese, que era onde podia chegar, o ingenho umano. Contudo iso eu defendo, que os que o-louvam, proguntados polas palavras do-Soneto; ám-de confesar, que o-nam-intendem. Primeiramente estas palavras, instante de jazmin, concepto breve, atomo presumido, sospecha de cristal, susto de nieve, ancias del sentido: sam frazes que nada significam: e nam só em Portuguez, mas em nenhuma lingua. Dezafio todos estes poetas Portuguezes, paraque me-digam, se ouvisem um omem falar em proza daquela sorte, se o-intenderiam: pois é bem claro, que o que nada significa em proza, muito menos significa no-verso. E temos, que o primeiro quarteto nada significa: porque querendo ele significar, um pé pequeno; serve-se de termos, que nam significam iso. Na segunda quadra sobe de ponto o encarecimento: e nam se-contentando de dizer, que é pequeno, e é um ponto; acrecenta, que nam á tal pé no-mundo; pois somente fica a duvida, se o-ouve, ou nam ouve. Nos-tercetos desfaz, quanto tinha dito. Primeiro asenta, que o pé se-ve: despois diz, que nam é asim, e que somente se-pode saber por-tradisam, que á tal pé: e conclue, que nam existe senam na imaginasam, e nam é posivel que se-veja. Esta é a analize do-dito Soneto. Ora diga-me V.P. polo amor de Deus, se intende o que quer dizer, este Poeta. Primeiramente, ele nam conseguio o seu fim, que era mostrar, que o pé da-sua Dama era pequeno: provou mais doque queria; e mostrou, que nam avia tal pé. Alem diso nam adverte, a inverosimilidade do-conceito. Nam consiste a beleza de uma figura, em ter um ponto por-pé; antes isto é deformidade: consiste, em ter um pé proporcionado: e nas-molheres, a sua proporsam é, que o pé seja mais pequeno. E eu intendo, que a Dama ficaria mais contente, de ter um pé grande; doque de nam ter pés, e necesitar de moletas.
Dirmeá V. P. que o Poeta deve fingir, e inventar alguma coiza, para louvar: concedo: mas nam devem ser semelhantes parvoices, que em vez de agradar, fazem nauzea. Podem-se dizer muitas coizas daquele pé: mostrar, que para o complemento da-beleza, nam á proporsam melhor, que um pé pequeno: que nisto excede ela muito, todas as mais senhoras: que a sua brancura, e delicadeza é inimitavel: que tem toda a grasa que se-pode imaginar, em semelhante parte do-corpo. Isto, quanto ao serio. Pasando ao burlesco, podem-se dizer mil outras coizas: e pode o Poeta inventar, alguma coiza galante; com que adorne estes conceitos. Asim torno a dizer, que os que louvam o Soneto, sem considerarem isto, nam o-intendem.
Se V.P. examina o motivo, de todos estes encarecimentos; achará que provèm, do-que no-principio apontamos. Todo o ponto destes Poetas está, em singularizar-se, seja como for: e asim buscam argumentos esquipaticos, os quais obrigam a procurar, conceitos despropozitados. E unido a isto, que eles sabem pouco, o que quer dizer elogiar; daqui vem, que amontoam conceitos inverosimeis; e servem-se de expresoens, que nada significam: as quais ou por-forsa do-consoante, ou da-novidade, agradam aos ignorantes. Que o Poeta disèse maos conceitos; aindaque fose um grande defeito, era mais toleravel: mas que, por-querer dizer coizas peregrinas, diga parvoices, e contrariedades; e fale em uma lingua, que ninguem intende; isto sim que se-chama, grande defeito de Poezia. Conheso, que os sinonimos sam às vezes necesarios: que os epitetos dam muita galantaria, nos-poemas: mas com algumas condisoens. 1.o ám-de ser coizas, que signifiquem. 2.o distribuidos com moderasam. Mas estas duas coizas sam, as que pola maior parte ignoram, estes Poetas: e com tantoque consigam o consoante, nam reparam, em tudo o mais. Mas sobre todos, este tal Frei Antonio das-Chagas, caio nisto: quazi todas as suas obras, consistem em palavras, sem conceito, e sem significado. Os Romances sam menos maos: tambem o Saco da-Jeruzalem Celeste, aindaque cheio de aluzoens mui destemperadas, pode pasar: os Sonetos quazi todos sam peste: e o mesmo digo da-Filis, que muitos louvam, porque a-nam-intendem. Sei que se V. P. ler isto ao P. * * * me-terá por-um Cafre, que nam intende, que coiza é Poezia: mas eu nam falo sem prova: e quando ele me-souber responder, entam lhe-darei razam.
Basta que V. P. leia os titulos, de muitos Sonetos; para conhecer o que digo. Quando eu leio estas inscrisoens:==Achando na beleza de Filis, razam para deixála==aos olhos de Filis com nevoas==fineza de nam amar a Filis==fazendo merito da-ouzadia==duvidas de declarar-se==fazendo razam do-atrevimento==confuzam do-seu amor==saindo Filis de noite ao campo==: e outros asumtos semelhantes; ja sei, que as compozisoens sam parvoises: e com efeito compare V. P. os do-Chagas, com estes titulos; e veja se concordam, e se os-intende. O mesmo lhe-digo do-Pina, e outros semelhantes. Persuada-se V. P. que um asumto mao, á-de produzir más obras: porque se um argumento fecundo, tratado por-um omem que sabe, às vezes nam saie bem; que fará um infecundo, principalmente tratado, por-quem nam sabe elogiar? É necesario ter muito ingenho, e juizo, para saber tratar bem, semelhantes argumentos. E porque muitos nam tem, estas duas circunstancias; por-iso nacem estas compozisoens, de que nós nos-rimos.
Mas pasemos dos-Sonetos, ao poema Epico, à famoza Filis do-dito Chagas; e verá V. P. que nada mais é, que uma enfiada de antitezes, que nada significam: e que só agradam a estes, que se divertem com consoantes Gregos, sem intenderem o que lhe-agrada. Tudo isto se-ve, no-principio do-poema: ousa V.P. a primeira Oitava.
Nesta oitava acham-se mil coizas galantes: dulces tiranias==agradables daños==menti las horas== e outras coizas destas, que jogam os murros. Especialmente considero, a estrutura da-Oitava. Na primeira quadra diz isto: Que ele, que no-principio da-sua idade, fizera versos amatorios, e asim pasára os dias: Esta parte pedia outra segunda, em que disèse: Que agora, dezinganado daquelas puerilidades, se-ocupava em fazer, um poema Epico, e serio. Asim comesa Virgilio a sua Eneide, e outros Poetas: mas isto é o que nam diz o noso Chagas. Parece-me, que na palavra numerosos, queira significar metricos: e iso cuido que nam significa, mas que só significa muitos: porem isto nam é nada. A parentezis==Si llanto son las consonancias mias== nam tem conexam, com o que asima dise: as consonancias, ou os versos podem ser choro, e canto; quero dizer, alegria. Mas nem menos concorda com o que abaixo diz, o que asima dise: porque nam é boa opozisam esta: Tendo até aqui feito versos amatorios; agora com muitos dezinganos, (se é que os meus versos sam choros) chóro o amor, e canto a tragedia. A palavra canto na primeira quadra deve significar, nam quem canta cantigas, mas quem faz poemas: e neste sentido a-tomam todos os Poetas, e o Chagas tambem: pois o que quer dizer é isto: Que tendo feito muitos versos, na sua mocidade; agora se empregava em outros asumtos. O que suposto, opondo-lhe na segunda quadra, o choro; diz uma parvoice: pois o contrario a poezias amatorias, é cantar coizas graves. Onde contrapondo-lhe o choro; vem a tomar a palavra canto, como equivoca; que é coiza indigna de um poema Epico. Tambem aquela antiteze ultima==lloro el amor, y la tragedia canto== é uma puerilidade. Bem se-mostra que o Poeta, novamente quer introduzir por-equivoca, a palavra canto. Alem diso, se o argumento da-sua obra, é uma tragedia amatoria; separando o amor da-tragedia, diz outra parvoice. Pasemos à segunda Oitava.
Tem V. P. nesta Oitava, quazi as mesmas incoerencias. Musa candida, eu nam sei o que quer dizer. Amaneciste en las auroras de mi oriente, sam trez sinonimos viciozos: amanhecer na aurora, é uma parvoice: aurora do-oriente, é ainda maior parvoice. Aquela repetisam==Tu afecto ardiente== nam tinha lugar despois de furor: porque a Muza comunica o seu furor, ou veia; quero dizer, dirige o Poeta no-canto: mas nam comunica o seu afeto. Concepto triste, impropriamente se-aplica à Muza: a qual nam é triste: e muito menos, quando inspira Epopeia. Finge-se que a Muza seja uma Deuza, toda ocupada em alegrias; a quem o Poeta invoca, paraque lhe-conceda um espirito, digno do-Parnazo. Una voz doliente, supoem, que o Poeta está aflito: e isto é improprio em um Poeta, que nam escreve os seus tormentos, mas os alheios. Que outra coiza avia dizer Demofonte, se compuzese a sua istoria? O ultimo verso é uma antiteze ridicula, e verdadeiramente coiza de rapaz: novamente opoem aqui o Poeta o choro, ao canto; sendo coizas, que no noso cazo nam sam opostas: porque canto aqui nam significa cantar. O que diz o Poeta, se-reduz a isto: Que a dor á-de cantar, e a consonancia, ou o verso á-de gemer: e quem pode ler isto sem rizo?
Finalmente eu paro aqui: porque se quizese examinar todas as Oitavas, comporia um volume. Basta que V. P. o-leia, e examine, e achará que todo o livro se-compoem disto; e de palavras que nam se-intendem; e epitetos que nam significam nada. Confeso, que ainda nam vi Poeta, que escrevendo tanto, disèse tam pouco, como o Chagas. Estas reflexoens que faso a V. P. sobre o Chagas, poso fazer em outras obras; nam só de autores das-duzias, mas ainda daqueles que se-acham joeirados, na Fenix Renacida; e em outras colesoens de poemas. Mas escolhi este autor, porque é mui conhecido, e louvado, e procurado de muitos: e asim quiz apontar um, para exemplo. O que porem digo dele, deve-se aplicar a todos os outros, que seguem o mesmo estilo. O ponto está ter bem na cabesa, as regras da-Poezia; e examinar sem paixam, as obras; que facilmente se-descobrirám, os defeitos.
Se V. P. com estes principios, toma o trabalho de examinar, muitos dos-seus Poetas, ou a maior parte deles; achará, que tropesam no-mesmo defeito do-Chagas; com a unica diferensa de mais, ou menos: e ainda muitos dos-que tem bom ingenho; porque lhe-falta o juizo, para saberem examinar as materias. A regra que eu observo neste particular, é esta: quando vejo um Poeta destes, que se-serve de expresoens, que nada significam; ou que compoem de sorte, que o-nam-intendem; asento que nam quiz ser intendido; e em tal cazo, procuro fazer-lhe a vontade, e nam o-leio. Com esta sorte de omens faso o mesmo, que com os laberintos, e enigmas &c. os quais nunca me-cansei em decifrar. eles que o-fazem, que se-divirtam com iso. Se todos asentasem neste principio, veria V. P. como se-mudava a Poezia nestes paîzes: porque seriam obrigados os Poetas, a lerem somente as suas obras: e asim, ou se-dezinganariam eles mesmos com o tempo; ou, nam inganariam os outros: e poderseîam achar Poetas, de algum merecimento: principalmente se chegasem a conhecer, quais sam os requizitos necesarios, para a Poezia. A razam destes inconvenientes é, porque se-persuadem comumente, que para ser Poeta, basta saber a medida de quatro versos: e saber ingenhar conceitos exquizitos. Quem se-funda nisto, nam pode saber nada: sam necesarias muitas outras noticias. É necesario doutrina, e intender bem as materias que se-tratam. é necesaria a Filozofia, e saber conhecer bem, as asoens dos-Omens, as suas paixoens, o seu carater: para as-saber imitar, excitar, e adormecer. Aqui entra novamente a Retorica, que supoem todas aquelas coizas: entra uma pouca de istoria, para nam dizer parvoices: entra a istoria da-Fabula &c. Tudo isto se-mostra manifestamente, nos-melhores poemas que temos da-Antiguidade. Virgilio, e Oracio &c. eram omens que intendiam perfeitamente, o que tratavam: e sabiam muita coiza, que introduziam proprisimamente, nos-seus poemas; de que se-compoem, o ornamento deles. O mesmo digo, de outros Poetas modernos, e insignes. Onde, quem nam tem estes fundamentos, é versejador, mas nam Poeta: e necesariamente á-de dizer, muita parvoice.
Seguia-se despois destas reflexoens gerais, falar especialmente, nos-defeitos das-particulares: mas nem eu tenho tempo para isto, nem o-permite, a brevidade de uma carta. Onde, somente direi alguma coiza mais geral, que compreenda as compozisoens pequenas; e tambem alguma coiza do-poema Epico; vistoque o Dramatico nam tem uzo, em Portugal. Digo pois, que nestes paîzes vejo, mui radicada certa opiniam, de chamar Poeta, a quem o-nam-é: e dar estimasam a poezias, que a-nam-merecem. Uma vez que um omem faz um Soneto, com algum conceito; ou Decimas, com alguma naturalidade; acham-se logo mil admiradores, que dizem, ser famozo Poeta. V. P. terá ouvido frequentisimamente, que quando em um Oitero se-gloza um mote, com facilidade; estam promtos mil aplauzos, para o Poeta: eu o-prezenciei muitas vezes: e esta é a comua opiniam. Mas na verdade é um ingano comum, porque aquilo nam é ser Poeta, nem para lá vai. Semelhantes sortes de compozisoens, nam dam credito a ninguem: isto persuade a boa razam, e a experiencia: Quanto à experiencia, progunte V. P. (o que eu ja fiz) a um destes Glozadores, qual é o artificio da-Poezia; e verá que nam sabe de que cor é: e nam digo só destes das-duzias, mas ainda dos-que glozam felizmente: e conseguentemente nam é Poeta. A razam confirma o mesmo: porque o artificio destas obras nam é nenhum: a sua contextura é tam facil, que por-mao que seja o Poeta, sempre acerta com elas. A Decima, a Quintilha, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lirico, Quartetos puros, e de pé quebrado, Tercetos &c. nada mais pedem, que a naturalidade-do-conceito, e expresam: quando muito, algum bocadinho daquele ingenho mixto; que consiste, em ter no-fim algum pensamento meigo; explicado com alguma fraze agradavel, e delicada, ou coiza semelhante. Isto nam pede talento, mas somente alguma imaginasam: a qual nam se-acha omem tam desgrasado, que a-nam-tenha. Onde, posto isto em trages de Poezia, saie uma Decima, ou coiza semelhante.
Nam digo, que um bom Poeta, nam posa fazer estas coizas tam bem; que agradem aos omens, de melhor penetrasam: sendo certo, que quem tem juizo o-mostra, ainda nas coizas pequenas; como fizeram os Antigos: o que digo é, que explicando um pensamento, polo modo que aponto, pode qualquer fazer Decimas &c. que agradem. Antes é muito de advertir, que quando estes poemas pequenos se-estudam muito, e neles querem mostrar muito estudo; cheiram a Filozofia, e perdem toda a grasa. Este defeito tenho observado, em muitos Espanhoes, e Portuguezes; que se-preparam para fazer uma Decima, a uns olhos azuis; ou a uma Dama que deixou cair, uma luva em terra; ou a um sinal que se-despegou do-rosto; e outros semelhantes asumtos; como se ouvesem de cantar a guerra dos-Romanos, com Mitridates, ou com Cartago. Isto é um defeito esencial: e é nam saber aplicar o poema, ao asumto: sendo certo, que semelhantes compozisoens só se-inventáram, para asumtos ou burlescos, ou amatorios; ou de coizas domesticas, que nam permitem estudo particular: e asim todo o merecimento de semelhantes obras consiste, n’um conceito delicado, e natural. O Poeta perde a naturalidade, todas as vezes que procura, com grande estudo, mostrar ingenho: e nunca dezagrada mais, que quando procura agradar muito: porque o conceito a-de aprezentar-se, e nam procurar-se.
Por-este motivo sam dignos de rizo certos Poetas, e Poetezas, que fazem Romances, e coizas semelhantes; com tal estudo, que nam se-intendem sem comentario. A Madre Joana de Mexico, é uma delas: tambem Gongora nos-seus Romances: e dos-modernos Eugenio Gerardo Lobo: que tem alguns, que, ainda despois de muito estudo, nam se-percebem. Finalmente isto é defeito geral dos-Espanhoes: e dos-que eu li, nam achei algum, que nam pecase nisto. Dos-Espanhoes o-recebèram os Portuguezes, e poucos sam os que se-excetûam. O Chagas nos-seus Romances, tirando em certas partes, é dos-mais naturais: tambem o Camoens no-lirico. Vi tambem neste genero alguma coiza do-Conde de Tarouca, morto no-Imperio; que me-agradou pola naturalidade, e imaginasam: e algum outro, mas raro. Dos-oscuros nam cito exemplos, porque nam á coiza mais comua que isto: e neles poderá V. P. reconhecer, este defeito. O pior é, que se um omem faz uma Decima, ou coiza semelhante, como deve ser; nam agrada a esta sorte de Poetas, e chamam-lhe coiza trivial: querem ideia mais superlativa: e sempre o oscuro, inverosimel, arrastado, lhe-parece que encerra, melhor doutrina. Mas o sal do-negocio consiste, em mandar isto à sua Dama, ou a um amigo, que o-nam-intende: e ficarem lambendo os beisos, dos-aplauzos. Isto vale o mesmo, que se lhe-mandasem uma Ode de Pindaro, ou Anacreonte; porque umas e outras foram Gregas. Nam é crivel, quanta gente padece esta infermidade: que para mostrarem ou doutrina, ou ingenho; procuram nam serem intendidos, nam só nas compozisoens, mas ainda nos-discursos familiares. Achei-me em uma Prosisam de Freira, onde vi certo *** que sendo dezafiado por-uma Freira, despois de falar muito, lhe-falou nas precizoens objetivas dos-Logicos, e repetio muito verso Latino. Mas a Freira nam cedeo: porque se ele falava Latim, ela falava uma lingua, que ninguem intendia. Despois de falar muito tempo, com um profluvio de palavras incrivel; juro a V. P. que nam pude perceber, o que ela queria dizer: pois aindaque as palavras eram Portuguezas, a fraze porem era tal, que nam se-podia decifrar. Esta Freira tem muitos parentes neste mundo. Conclûo pois, que esta sorte de poemas, que pedem somente naturalidade, e alguma imaginasam; a ninguem podem dar nome, de Poeta.
O Soneto tambem pertence a esta regra: mas é certo, que pola qualidade do-verso, admite mais elevasam de expresoens, que os outros poemas nomiados. Contudo iso defendo, que o conceito deve ser natural: deve ter verdadeiro ingenho: e só na maneira de explicar-se, é que está a galantaria do-Soneto. Consiste pois a obrigasam do-Soneto, em propor na 1.ᵃ quadra o asumto: na 2.ᵃ explicálo com algum conceito: de que se-tire o argumento, para os tercetos. Os Poetas, que tem mais cabedal, expoem o asumto nos-primeiros dois versos: nos-dois segundos comesam a discorrer. Tal é o Soneto feito à morte de uma Senhora, cuido que polo Bacelar, e diz asim:
Outras vezes o Poeta expoem na primeira palavra, o asumto: e desta sorte é o Soneto, que citei a V. P. em outra carta, feito a uma cara mui feia. Mas nem todos os asumtos, se-podem propor asim; e podendo, nem todos os Poetas sam capazes, de o-fazerem. Porem é grande beleza do-Soneto, que na primeira quadra diga algum conceito; que dè materia a todo o discurso da-segunda; e encadeie naturalmente com os tercetos. E sem sair do-tal Soneto, o-repitirei novamente; porque me-parece que prova, o que digo:
Neste Soneto, que em tudo é natural, o conceito dos-dois ultimos versos da-primeira quadra, prova-se na segunda, e se-confirma nos-tercetos: dando materia ao conceito do-fecho, que é nobre e natural, e diz mais doque soa. Mas nem todos seguem este parecer: e verá V. P. infinitos Sonetos, ainda de omens que prezumem ser Poetas, que pecam contra tudo isto. Eles tem dois extremos: ou dizem conceitos inverosimeis, e encarecimentos tam fóra do-escolio, que ninguem os-pode sofrer; ou dizem frioleiras; ou finalmente servem-se de conceitos, que nam é fácil intender: e o melhor da-galhofa está, em que ornam tudo isto com frazes, que nam se-percebem. De tudo achará V. P. exemplos, sem sair do-Chagas: o qual tem Sonetos em que se-acham, estas trez coizas: inverosimilidades, oscuridades, e frialdades.
Quanto às inverosimilidades, nam queira V. P. melhor prova, que o Soneto Espanhol, feito ao pè pequeno d’aquela Senhora &c. mas ainda á outros. Faz ele alguns Sonetos, a que chama Eroicos, e entre eles algum ao Conde da-Torre, que matou de um golpe um toiro. Asumto mui mimozo dos-Portuguezes, ao qual tenho lido infinitos Sonetos, de diferentes autores. Intende V. P. que este titulo Eroico, promete um pensamento nobre e admiravel? asim devia ser; mas nada menos é: e nestes eroicos entram igualmente as sutilezas, e impropriedades. Se me-nam-dá credito, ousa o primeiro, que diz asim:
Este Soneto que V. P. aqui vè, é mui gavado: mas examinado ele bem, é parente chegado dos-outros amatorios. Na primeira quaderna se-observa a puerilidade, de chamar ao toiro, Amante de Europa; somente para dizer, que se-espantáram os mais signos celestes. Tomára que me-disèse, se se-espantou tambem o signo de Libra &c. Na 2.a quadra desfaz, o que dise na primeira: e afirma, que o Conde nam matou o toiro; mas fez somente a eroica asám, de dar em um corpo morto: e o mesmo consuma, no-primeiro terceto. O que contem o ultimo terceto, nam se-pode intender: porque que queira dizer Credito da-Morte, eu nam sei: o que sei é, que para fazer uma antiteze ridicula, de morte, e vida: compoem dois versos, que nada significam. Parece que queria dizer o Poeta, que o bruto, que era inimigo da-morte, fora com gosto oferecer-se a ela. Mas isto, alemdeque desmente o que primeiro disera, que ele nam matára o boi; nam se-pode explicar, com o ultimo verso: porque dar cauza pode alguem, sem se-oferecer à morte. Em uma palavra, isto é um conceito Grego. E disto achará V. P. frequentemente, no-mesmo autor. Os seus conceitos eroicos, sam tam superlativos, que eu os-nam-intendo. Em outro Soneto a D. Joam de Castro, sobre o mesmo asumto, conclue asim:
O consoante ultimo parece devia ser escarro, e nam escravo: mas o conceito obriga a dizer, o contrario. Porem isto é nada: o que eu digo a V. P. é, que o que querem dizer estes dois tercetos, confeso a minha ignorancia, eu nam sei: nem até aqui achei, quem mo-explicáse. V. P. terá o trabalho de o-consultar, com aquele seu amigo, que louva tanto este autor: e notar de caminho, se, escrevendo em Tartaro, podia ser menos inteligivel. Quando estes Poetas, querem fugir da-oscuridade, declinam para outro extremo; que é, dizer coizas, que nam tem grasa alguma, a que se-chama frioleiras. E tal é o fecho de outro Soneto, ao mesmo asumto, e polo mesmo autor: que eu repetirei todo, porque se no-fim é mais claro, nam é menos galante no-principio.
Este Soneto é parente do-antecedente. Esta fraze vida prezumida, nam sei o que significa: muito menos intendo, os dois ultimos versos da-primeira quadra: é tam sublime o conceito, que creio, que nem menos o seu amigo * * se-atreverá a explicálo, em boa proza. Tambem aquilo de chamar Mar roxo, ao Mar vermelho; nam se-pode perdoar a um omem, que fez, ou intentou fazer um poema Epico. A antiteze que se-acha na 2.a quadra, de Sair vida, e intrar morte, é outra inglezia. O que eu acho é, que se o toiro morreo de uma cutilada, pola mesma parte por-onde introu a morte, saio a vida no-sangue: e isto nam é puxansa nova; mas é coiza bem uzual. O ultimo terceto, tem um conceito bem ordinario, e em tudo semelhante, ao de outro famozo Soneto ao mesmo asumto, que comesa:
e conclue asim:
Mas eu devo dizer o que intendo: acho que em ambas as partes o Poetas diseram, o que diria qualquer omem de ganhar. despois de terem engrandecido tanto o golpe, sam mui frios na concluzam. Para acompanhar com o Soneto, parece-me que tinham dois conceitos, mais exquizitos. Um era dizer, que com a forsa da-caida furára o bruto, o globo terraqueo; e fora parar, no-emisferio dos-Antipodas. O outro era concluir, que ao toque da-espada, se-anihilára o bruto: tomando esta palavra, no-sentido filozofico, que supoem uma forsa mais que umana. Cuido que isto era mais conveniente, ao estilo de Portugal. V. P. diga ao seu amigo, que fasa nota destes dois conceitos; para se-servir, nas ocazioens de toiros.
Em outra parte faz o mesmo Chagas dois Sonetos, que acabam com duas frioleiras insoportaveis. Um é feito, à morte da-Infanta D. Joana, e conclue asim:
O outro é feito, a outro cavalo do-Conde de Sabugal, que campiava bem. Este autor era tentado com tais asumtos: e creio que na cavalarisa do-dito Conde, nam deixou animal sem Soneto: finalmente fez um, que concluîa asim:
Estes dois fechos sam as majores frialdades, que eu ainda vi: nam se-podem ler sem compaixam: e isto alem de terem antitezes, e versos, que nam se-intendem.
E nam cuide V. P. que isto sucede somente no-Chagas, e outros Poetas; acha-se nos-melhores: e Camoens é um deles. Este omem, que no-Lirico tinha muita naturalidade; querendo introduzila nos Sonetos, fez a maior parte deles sem grasa alguma. Ponho neste numero os dois gavadinhos, que se-tem glozado cem-mil vezes: comesa um:
e conclue asim:
outro comesa:
e acaba:
Considere V. P. sem paixam, estes dois Sonetos; e observe se acha neles, o carater do-Epigrama. Eu digo que nam: porque o Epigrama deve concluir, com algum conceito que agrade, e arrebate com a novidade; e deixe intender mais, doque nam diz: e iso é o que eu nam acho, em nenhum deles. O primeiro contem uma istoria, sem artificio algum poetico: e conclue com um comprimento bem uzual. Um amante logrado, que menos podia dizer que isto: Mais servîra, se nam fora pouco todo o tempo, para empregar no-seu serviso? Contudo iso, nam obstante ser uma coiza fria, eu observo outro defeito maior, que é a impropriedade. Para fazer uma antiteze, de amor longo, vida curta; serve-se de uma fraze impropria: pois amor longo, é parvoice; porque refere-se a tempo: e aqui deve-de referir a grandeza; e dizer, amor grande: no-qual cazo vai por-terra, o conceito. Do-outro Soneto digo o mesmo: todo ele se-reduz a isto = Tu que estás la no-Ceo, pede a Deus, que me-leve a ver-te depresa: e que menos se-pode dizer, a um morto amado? Este é outro fecho semelhante ao do-Borges, que fazendo um Soneto, à morte da-Infanta D. Francisca, falando com a Morte, conclûe asim:
Se o-disèse ao principio, e dele deduzise alguma coiza boa; serîa menos mao: mas rezerválo para o fim, é nam intender este oficio. Esta especie de conceitos, nam é necesario dizelos: estam ditos por-si, e todos os-diriam. Neste mesmo fecho do-Camoens, noto outra impropriedade. A palavra cedo no-primeiro verso, refere-se a tempo; e quer dizer, depresa e logo, sem reparar em idade, ou coiza semelhante. O que posto, compara muito mal o Camoens um cedo, com outro cedo, sendo coizas diferentes; e vale o mesmo que dizer: Asim como tu partistes na flor da-idade deste mundo, asim eu parta logo &c. a qual propozisam manifestamente se-ve, ser uma parvoise. Toda a grasa pois do-dito conceito, se-reduz à palavra cedo: que aqui é um rigorozo equivoco: coizas indignas de um Soneto. Onde conclûo, que no-Camoens nam vejo, o espirito do-Epigrama; porque a sua naturalidade talvez afetada, o-faz languido: e o Epigrama, aindaque natural, deve ter outra elevasam. E asim os que querem fazer bem Sonetos, devem evitar nam só a inverosimilidade, e oscuridade; mas tambem a frialdade.
Muitas coizas reduzidas a Decima, ou outra tal compozisam, parecem bem; que em Soneto parecem muito mal. No-estado em que está oje a Poezia; pode intrar no-Soneto, alguma coiza de ingenho mixto: porque estes costumam agradar mais. Creio porem que é melhor, fazer poucos e bem, que muitos dos-comuns. Esta sorte de poemas imperfeitos valem pouco, e nam sam capazes de darem nome, a um Poeta. Onde quando nam sam superlativos, nam se-podem sofrer. Este porem é o defeito, de muitos Portuguezes; que, fazendo Sonetos mal, ainda asim nam cesam de fazèlos: faram dez e doze a uma roza, e asumtos semelhantes: outros em um Oiteiro fazem bastantes glozas, a um só mote: e se os primeiros sam maos, os ultimos sam peste. Mas, tornando ao ingenho, concluo, que em toda a sorte de poemas pequenos, deve o Poeta ter sempre diante dos-olhos; que o esencial deles é, a naturalidade, unida a um pensamento galante, exposto com delicadeza. Esta pode consistir, em um sentido oculto, que diz muito, quando parece que nam diz nada: em alguma pancada picante, coberta com um veo modesto: em uma grasa, exposta ironicamente com maneira seria: em um pensamento fino, coberto com uma palavra groseira. No-Soneto porem deve praticar-se isto, com menos meiguise, e mais elevasam. No-que reprovo o estilo de muitos, que se-servem dos-Sonetos, ou Romanses Eroicos, para coizas amatorias; nas quais nam entram bem: porque o verso endecasilabo, pede emprego mais sezudo: o Lirico é proprio para estas coizas.
O que digo do-Epigrama Portuguez, digo tambem do-Latino, porque as regras sam as mesmas: e com mais razam se-devem nele evitar, os equivocos &c. porque a lingua Latina nam sofre, semelhante estilo. Os Epigramas dos-Gregos eram naturais, aindaque com grasa: este estilo seguio Catûlo. Porem Marcial no-tempo dos-Vespazianos, principalmente de Domiciano; que era a declinasam da-eloquencia Latina; e quazi o principio da-idade de bronze, segundo os que intendem melhor; foi o que comesou a introduzir, ou rafinar as agudezas, e equivocos, nos-Epigramas: o que agradou entam, porque se-comesava na-Corte a perder, o bom gosto da-Eloquencia. Com efeito alguns dos-seus Epigramas podem pasar, em obzequio daquele tempo; e tambem do-nosso, que ainda está alguma coiza ocupado, com sutilezas: mas sam rarisimos, e apostarei que nam chegam a quinze, os bons. A maior parte porem sam frialdades, e parvoises, que os omens de juizo tem desprezado; e reconhecem estar muito abaixo, da-nobreza de Catûlo. Mureto, que imitou tambem Catûlo, que parece o mesmo autor, chama a Marcial, Bobo de Comedia: e o noso Lilio Gregorio Giraldo, a quem todos os doutos reconhecem, por-omem de juizo exatisimo nestas materias; diz deles com galantaria, que só podem agradar, aos asnos. Temos mais alguns antigos Epigr. que podem pasar. Dos-modernos acham-se alguns bonitos: mas incontrei tambem, colesoens de Epigramas modernos, indignisimos; e a maior parte sam asim: e asim é necesario lelos, com muita advertencia. O ingenho mixto reina, nestas compozisoens; principalmente desde o fim do seculo XVI. a esta parte. Chamo felicidade fazer um Epigrama, que seja bom. Onde diz com grasa o douto P. Rapin, que o Epigrama se nam é excelentisimo, nada vale: e que tam dificultozo é, fazer um bom, que se-pode contentar, quem chega a fazer um, em toda a sua vida.
Esta materia dos-Epigramas, que sam rigorozas inscrisoens funebres na sua origem; aindaque ao despois se-aplicasem, a outras materias; me-conduz a falar, nos-Elogios lapidares: que sam um quid medium, entre a proza e o verso; e o Juglar lhe-chama, libera Poësis. Nesta materia tenho pouco que advertir a V. P. porque o-reduzirei a duas palavras. Nenhum omem de juizo, deve seguir o estilo, do-Tezauro, Juglar, Masenio, Labbé &c. se é uma rapaziada condenavel, introduzir na lingua vulgar equivocos, e sutilezas; e que nenhum omem douto faz; que será introduzilos na Latina, em que nós nam temos jurisdisam? Alem diso, a lingua Latina nam permite isto. os que estimam a bela Latinidade, devem escrever, como os da-idade de oiro; ou quando muito de prata; e nadamais se-deve imitar. Nos-fins da-idade de prata, é que se-comesáram a introduzir tais agudezas, por-culpa de Seneca Filozofo, e seu sobrinho Lucano: mas principalmente de Marcial, que floreceo pouco despois. Motivo porque muitos bons criticos querem, que a idade de prata acabe com Nero, no-ano 67. de Cristo: vendo quanto dali para diante, descaio a Eloquencia. Mas ainda nos-fins da-idade de prata, nam estava o cazo tam arruinado: o que alcanso, das-inscrisoens dese tempo. Do-tempo dos-Antoninos para diante, quero dizer, desde os principios do-segundo seculo de Cristo, é que totalmente se-comesou a arruinar, e intráram as sutilezas: mas pior que tudo, desde a metade do-dito seculo para baixo. Finalmente arruinou-se a lingua Latina, com o imperio Romano, no-quinto seculo: daî para diante reinou a ignorancia, até o meio do-decimoquinto seculo. Contudo atrevo-me a dizer, que nam só nos-fins do-Imperio, mas nem ainda nos-seculos da-ignorancia, se-acha muita sutileza, e equivocos; se os-comparamos com os nosos. Somente nos-fins do-decimosexto seculo, comesáram a aparecer: mas totalmente se-rafináram, nos-principios do-decimosetimo: e duráram quazi até os fins do-dito: até que aparecèram omens, que reprováram este estilo, e seguiram a Antiguidade. Isto basta para mostrar, que se-deve desprezar esta novidade; que é incompativel, com a beleza das-expresoens, e magestade da-antiga Eloquencia. Os ingenhos pobres, é que vam detraz destas ridicularias, para serem estimados; visto nam o-poderem conseguir, por-outro estilo. No-tempo de Augusto, em que cozinheiros, pasteleiros, e mosos dos-moinhos, sabiam mais de Eloquencia, e bom gosto; doque a maior parte destes modernos doutores; nam se-escrevia asim: as inscrisoens eram naturais, claras, e em poucas palavras. Abra V. P. o. Grutero, Reinecio &c. e verá provado o que digo. Ainda na idade de prata, e bronze, a maior parte das-inscrisoens sam naturalisimas: o que eu observei muitas vezes, examinando os antigos monumentos, que existem em Roma; esculpidos no-quarto, e quinto seculo: como tambem uma infinidade de sepulturas particulares, dos-seculos inferiores, escritas com toda a naturalidade, e grasa. E isto deve fazer, quem quer mereser louvor: e nam seguir os pasos destes ignorantes, que fazem Latins novos.
Quanto às divizoens de regras em grandes, e pequenas; é certo, que algumas se-acham na Antiguidade; mas raras: e regularmente por-necesidade, de comesar outro capitulo &c. Comumente escreviam sem divizoens, e muito menos divizoens afetadas; como quem escreve carta. O que eu observei muitas vezes: e nam só nas antiquisimas; mas ainda nos-monumentos escritos, atè a ruina do-Imperio, e inferiormente. No-fim do-XVI. seculo, é que comesáram a introduzir, esta ridicularia. Comesou polos titulos dos-livros: pasou aos arcos triunfais &c. De entam para cá estilo lapidar significa, um Latim escrito em diferentes regras maiores, e menores, segundo a eleisam de quem escreve. Eu certamente nos-principios de livros, &c. deixaria as coizas como estam: mas nas inscrisoens lapidares, nam me serveria destas divizoens de regras à moderna: porque se aquilo nam é verso, que necesidade á, de dispolo daquela sorte? Alem diso, as inscrisoens lapidares devem ser brevisimas, e clarisimas: e asim nam é necesario divizam, porque nam á motivo, para se-confundir a gente. Isto é o que eu nam poso sofrer, nestes modernos pouco advertidos; que fazem inscrisoens eternas. Mas isto é contra o bom gosto: a Antiguidade explicava-se em duas palavras: a simplicidade, e brevidade, era toda a galantaria das-inscrisoens. Li muitas vezes, e sempre com particular gosto, as inscrisoens que ainda oje vemos,nos-antigos monumentos, que existem em Roma. No-portico do-Pantheon ainda oje lemos: M. Agrippa L. F. Cos. Tertium Fecit: que quer dizer, Marco Agripa, filho de Lucio, terceira vez consul, fundou este portico. Esta é do-seculo de Augusto. Mas ainda as inferiores sam asim. Vencèra Tito Vespaziano os Judeos: demolîra Jeruzalem: concluîra uma das-mais obstinadas guerras, que tiveram os Romanos: o Senado, levantando-lhe um arco Triumfal perpetuo, nam dise uma arenga sempiterna; contentou-se de escrever estas palavras: Senatus Populusque Romanus Divo Tito, Divi Vespasiani F. Vespasiano Augusto. No-frontispicio do-templo consagrado polo Senado, ao Imperador Antonino, e sua molher; lem-se estas palavras: Divo Antonino, & D. Faustinae. S. C. No-pedestal da-coluna Antonina, le-se: M. Aurelius Imp. Armenis, Parthis, Germanisque bello maximo devictis, triumphalem hanc columnam rebus gestis insignem Imp. Antonino Pio patri suo dedicavit. E na coluna Trajana triumfal lemos ainda: Senatus P. R. Imp. Cæsari Divi Nervæ F. Nervæ Trajano Aug. Germ. Dacico Pontif. Max. Trib. Potest. XVII. Imp. VI. Cos. VI. P. P. ad declarandum quantæ altitudinis mons, & locus tantis operibus fit egestus. Deixo de citar outras, porque é coiza bem vulgar. Nestas inscrisoens ve V. P. a naturalidade, simplicidade, brevidade: sem divizoens, mas com fraze continuada. Se porem algumas vezes, eram as inscrisoens mais compridas, provinham dos-titulos dos-Imperadores, que se-costumavam escrever: ou porque nela se-nomiavam varias pesoas, cadauma com o seu titulo; que é o mesmo que diferentes inscrisoens: mas isto é raras vezes: o comum era polo contrario. Nam asim nos-modernos, que fazem inscrisoens eternas, sem nobreza, ou grasa alguma; e com divizoens importunas e afetadas. Mas quando quizesem seguir estas divizoens, pouco importaria; contantoque fugisem, dos-vicios apontados. Uma coiza porem nam poso sofrer, e vem aser, escreverem livros em estilo lapidar, com as divizoens ditas. Se eles intendem, que este estilo é tam proprio das-lapides, que nam pode aver lapide, por-outro estilo; quizera que me-disesem, porque compoem livros asim: ou é lapide, ou é livro. Nam á coiza mais ridicula que esta. Mas o que merece mais rizo é ver, que quando algum compoem um destes livros, saiem logo os censores, canonizando o dito estilo; e dizendo mal, dos que desprezam estas rapaziadas. * * * Um bocadinho de melhor gosto na lingua Latina, e um bocadinho mais de reflexam, pouparia estas criticas injustas.
Pasando agora às compozisoens modernas, pouco me-fica que dizer. As mais consideraveis entre as pequenas sam, a Egloga, Elegia, Ode. A Egloga nam tem uzo em Portugal: em que nam se-aplicam a descrever, a imagem da-vida pastoril, cujo carater é a simplicidade, e moderasam: nem tambem esta compozisam, pede muito ingenho: basta ser acertado. Camoens nas suas Eglogas, introduz tanta variedade de versos, que nam se-pode ler com gosto; porque faz perder, a ideia da-Egloga. Alguma delas consta de Oitavas, Cansam, Tercetos &c. mas isto nam se-deve imitar. Pode alguma vez variar-se, a uniam das-rimas: mas na mudansa de versos, deve-se proceder com cuidado; porque é muito impropria. As outras duas compozisoens, sim se-uzam em Portugal: mas comumente debaixo de outros nomes. A Elegia, tem por-emprego, descrever sentimentos ou amores; ou expremir qualquer paixam amoroza. Donde vem, que o seu carater deve ser, o enternecido, explicado por-um modo animado; mas quanto mais pode ser natural: que é o que faz quem chora, ou ama: e aqui tem lugar, as Figuras proprias desta paixam. Cuido que para isto é mais proprio, o Romance Lirico, e a Silva; porque sam compozisoens naturais, e que se-podem animar, como cadaum quer: o Endecasilabo nam me-parece tam proprio para isto; porque as de Camoens em Tercetos, nam soam bem. Neste particular acho um notavel defeito, em alguns Poetas, que querem fazer do-Soneto Elegia: e afetando um só conceito final, mostram tanto estudo; que destruem a ideia da-Elegia. Uma paixam nam se-dezafoga, em 14. versos: pede compozisam mais comprida, e livre de afetasoens: acrecentando a-isto, que nem menos o verso os-ajuda. Mas ainda o Lirico, se se-compoem de discursos separados, como sam as Decimas; nam permite liberdade da-expresam, para dezafogar a paixam. Tambem nam aprovo os quartetos Liricos, porque mostram afetasam. Com efeito muitas que eu vi, nestes dois generos, cuido que mais moviam as Damas a rizo, que a compaixam.
A Ode é aquela compozisam, com que se-louvam as asoens dos-Deuzes, ou omens ilustres. Esta explicasam basta para mostrar, que pede um grande ingenho, imaginasam elevada, expresam nobre e correta; e toda a galantaria e vivacidade, que se-acha na arte de persuadir. Quer-se juizo, para tecer uma Ode com magestade, e sem defeitos. A Antiguidade nos-propoem Oracio, como o melhor exemplo nesta materia: porque soube unir duas coizas bem dificultozas, a elevasam, com a delicadeza e dosura. Para isto na lingua Portugueza parece proprio, o Romance Eroico, a Cansam, Tercetos Eroicos, quero dizer, endecasilabos: mas o Lirico nam creio que posa satisfazer, toda a grandeza do-argumento. Sobre tudo reprovo muito, elogiar as asoens de um omem, em um Soneto: este só pode servir, para uma asám. O verso endecasilabo é sezudo, grave, e parece proprio, para estes argumentos: mas deve a compozisam ter, o comprimento necesario, de outra sorte sofóca-se: motivo porque nunca pude perdoar a Camoens; principalmente fazer compozisoens amatorias, com o titulo de Ode. Estas trez compozisoens, que aqui nomiamos, reduzem-se ao poema Narrativo Epico, de que sam partes, ou dependencias.
A Satira é parte da-Comedia, para a qual se-reduz: contudo muitos que nam fazem Comedias, divertem-se em fazer Satiras. Mas é necesario muita advertencia, nesta materia. A Satira nam deve repreender, senam o que verdadeiramente é viciozo; para instruir os Omens, do-que devem fugir: e para conseguir isto, quer-se muita delicadeza. Quem repreende o Vicio abertamente com invetivas, conclûe pouco: por-este motivo nam agrada Juvenal, que é um declamador. O melhor é, pintar com galantaria, o ridiculo do-Vicio, quazi como quem o-nam-quer mostrar. Este foi o metodo de Oracio; que por-iso agradou muito: mas nam foi ele o inventor; foi o Filozofo Socrates, que tinha uma arte particular, de descobrir as ignorancias dos-Omens, mostrando de o-nam-querer fazer. Os modernos que seguîram este metodo, conseguîram melhor que outros, o seu intento. A istoria de D.Quixote, é neste genero famoza, e galante: gostei muito de a-ler. Polo contrario, os que fazem Satiras oscurisimas, como Persio, e dos-modernos Gracian no-seu Criticon, e Barclai no-seu Euformiam &c. nam se-podem sofrer: e eu creio, que eles mesmos em varias partes, nam intendem o que dizem. Os nosos Italianos tem um gosto particular, para as Satiras; porque em duas palavras dizem muito, e com galantaria; deixando intender mais, doque nam explicam. Tenho visto algumas Latinas belisimas, e bem modernas: como tambem Comedias, no-seu genero famozas.
Isto digo da-Satira em comum: nam aconselho a ninguem, que fasa Satiras a pesoas particulares, aindaque sejam viciozas; porque é contra a caridade. Em Portugal ainda nam li uma Satira bem feita, ainda das-particulares: as que vi eram afrontas e injurias, nam Satiras. Conclúo dizendo, que o verdadeiro modo, que os omens inteligentes tem achado, para compor estes pequenos poemas; é, despois destas gerais reflexoens, aprezentar-lhe os melhores exemplos na materia: e mostrar-lhe com o dedo, o artificio, e toda a galantaria. Só asim se-observa, que coiza é ingenho, e agudeza; como, e quando se-pode uzar dela.
Finalmente tendo pasado brevemente, polas compozisoens pequenas; direi alguma palavra da-Epopeia, ou poema Epico. Se ouvèse de falar nisto como devo, faria um tratado: e asim nam saindo do-meu estilo, farei somente algumas reflexoens. Este poema, como ja dise a V. P., é a coiza mais dificultoza, da-Poezia: quer tal ingenho, tal erudisam, tal juizo, que quem o-considera bem, nam se-atreve a fazèlo: muito mais se observa os defeitos, em que caîram muitos, dos-que o-tem emprendido. Asima dise a V. P. qual é o artificio deste poema, que compreende em si, todas as especies do-Narrativo: e que por-iso pede, grandisimo fundamento de Retorica, para o-poder tratar bem. Nam é esta a fruta dos-Sonetos, e Decimas, que nacem a cada canto; é coiza mais dificultoza: as regras sam tantas, e tam dificultozas, que sam poucos os que se-atrevam, e rarisimos os que nam pequem, contra algumas. Este é o motivo, porque nam produzirei muitos testemunhos, principalmente sendo o meu argumento, conter-me nos-limites de Portugal. Certamente neste Reino, é rarisimo o poema Epico. O Condestavel de Francisco Rodriguez Lobo, o Macabeo de Miguel da-Silveira, a Ulisea de Gabriel Pereira de Castro, por-confisam dos-mesmos Portuguezes de melhor doutrina, nam merecem este nome: algum outro que posa aver manuscrito, e que agora nam me-ocorre, pertence à mesma clase. Asim parece, que com razam se-dise; que a unica Epopeia que apareceo em Portugal, foi a de Camoens. Mas isto mesmo confirma o que digo, da-dificuldade do-poema Epico.
Se V. P. consulta os seus nacionais, os-achará tam preocupados polo Camoens; que mais facilmente ouvirám dizer mal, da-religiam, doque do-poema Epico de Camoens. Os que deviam fazer a critica do-dito autor, fazem o elogio. Um destes é Manoel de Faria e Sousa, que de comentador, se-converteo em panegirista: e em vez de explicar, o que o Poeta quiz dizer, nos-diz o que lhe-parece: vendendo-nos as suas imaginasoens, polas ideias do-Poeta: e querendo desculpálo ainda nas coizas, em que é mais condenavel. Com efeito este comentador, mostra intender pouco, a materia que trata: ao mesmo tempo em que diz mal, de todos os melhores Poetas Estrangeiros, que certamente ele nam leo, ou nam chegou a intender; nam obstante que muitos o-louvem, como um oraculo. Inacio Garcez Ferreira, que fez as notas ao Camoens, intendeo melhor a materia. Dos-livros que ele cita, se-conhece logo, que á-de ajuizar melhor; porque se-servio dos-melhores na Poetica, tanto Francezes, como Italianos. Alem diso, escreveo em Italia, onde teve tempo de consultar, os omens mais inteligentes; sobre as dificuldades, que lhe-ocorresem. E com efeito ajuiza melhor: mas nam tam bem, que em algumas partes nam se-ingane: como serîa facil mostrar, se tivese tempo. Contudo este Portuguez sinceramente reconhece, algumas faltas sustanciais no-Camoens. O que basta para me-livrar da-calunia, dos-que me-quizesem condenar, por-meter colherada, nesta materia. Mas como eu intendo bem, a lingua Portugueza; parece-me que nam sou improprio, para julgar.
Avemos de confesar, que Camoens teve muito ingenho, imaginasam fecunda e grande: e que se-tivese estudado ou tratado, com quem ensináse bem, as coizas que devia; poderia dezempenhar o argumento da-Epopeia. Com efeito o que fez de bom, tomou dos-nosos: pois nas suas obras reconheso eu, que intendia o Italiano, e que se-aproveitou bem do-Petrarca, Boccaccio, e outros. Teve finalmente muitas qualidades de Poeta: e para aquele tempo, em que nam avia, os conhecimentos que oje á, é maravilha, que escrevèse tam bem. Mas querèlo comparar com Omero, como fazem muitos: ou querèlo colocar, sobre os das-outras Nasoens todas; com a razam, de que o seu poema o-traduzio um Francez na sua lingua; e o Paggi na nosa Italiana; iso nam deixa de ser temeridade, fundada em uma prova fóra do-cazo. Tambem um curiozo se-divertio, em traduzir o Vieira em Italiano; e contudo ninguem faz cazo de tal tradusam, e autor: e o mesmo sucede ao Camoens; que a maior parte dos-nosos bons Poetas, nam sabem que o-ouve no-mundo. Alem diso, serîa necesario provar primeiro, que estes tradutores eram Poetas, e nam Versejadores: que intendiam bem a materia; e nam se alucináram na tradusam. As versoens Espanholas nem menos concluem: porque foram feitas, debaixo do-mesmo clima: Os outros Estrangeiros que o-louvam, fundam-se no-que dizem os Espanhoes, ou Portuguezes, como V. P. pode observar: e alguns que chegáram a lelo, nam dizem bem dele.
Na verdade o Camoens, entre muito boas qualidades, tem muitos defeitos, nacidos de dois pontos: o primeiro, falta de erudisam: o segundo, de juizo e dicernimento. Primeiramente, errou o titulo da-obra. Os mestres da-arte tomam o titulo, ou da-pesoa, como Odyssea, Eneide: ou do-lugar da-asám, como Iliade, que é tomado da-Cidade de Ilio primaria da-Troade. O Camoens em vez de tomar o dito titulo, de Vasco da-Gama &c. toma-o de todos os Portuguezes: buscando para isto um termo Latino, que tanto calsa aos Portuguezes navegantes, como aos que ficáram no-Reino: e o pior é, que o-toma no-plural, que nam tem exemplo, na boa Antiguidade. Errou a propozisam do-Poema: pois devendo esta conter, uma só asám principal; ele porem em vez de propor, a navegasam do-Gama, que era a sua asám; propoem todos os varoens illustres, de que se-compoem a inteira istoria de Portugal; com expresa divizam das-coizas da-Europa, Africa, e Azia: e deles expresamente promete a El-Rei D. Sebastiam, cantar as asoens eroicas: o que diz desde a Estancia ou Oitava 12.ᵃ do-primeiro Canto, para diante. Com efeito executa literalmente, o que promete: porque no-principio do-Canto III. descreve a Europa: e desde a Estancia 21. dese Canto, até o fim do-Canto IV. expoem as coizas da-Europa, e Africa até El-Rei D. Manoel. No-fim do-Canto IV. entra com o descobrimento da-India; e continua no-V. até o X. em que fala nos-Governadores da-India: e de-pasagem toca na America. Desorteque este Poeta na propozisam, inclue todas as partes da-fabula do-poema: que é um erro masicho. Isto verá V.P. nas-duas primeiras Estancias.