CARTA PRIMEIRA.
SUMARIO.

Motivo desta conrespondencia: e como se-deve continuar. Mostra-se, com o exemplo dos-Antigos, a necesidade de uma Gramatica Portugueza, para comesar os estudos. Dá-se uma ideia, da-melhor Ortografia Portugueza: e responde-se aos argumentos contrarios. Que o Vocabulario do-Padre Bluteau se-deve reformar, para utilidade da-Mocidade.

Meu amigo e senhor: Nesta ultima carta, que recebo de V. P. entre varias coizas que me-propoem, é a principal, o dezejo que tem, de que eu lhe-diga o meu parecer, sobre o metodo dos-estudos deste Reino: e lhe-diga seriamente, se me-parece racionavel, para formar omens, que sejam utis, para a Republica, e Religiam: ou que coiza se-pode mudar, para conseguir o dito intento. Alem disto, quer tambem, que eu lhe-dé alguma ideia, dos-estudos das-outras Nasoens, que eu tenho visto. Quanto às outras proguntas, parece-me que bastantemente respondo, inviando-lhe o papel incluzo: no-qual achará, tudo o que queria saber. Mas polo que respeita ao negocio, dos-metodos diferentes de estudos, duvidei por-algum tempo, se obedeceria a V. P. e tinha algumas razoens, que me-pareciam forsozas; suposta a grande pratica que tenho, deste mundo, e deste Reino. Eu sou Estrangeiro: e com dificuldade me-explicarei em uma lingua, que nam mamei no-berso. Que nas minhas cartas particulares, eu cometa erros, a bondade de V. P. mos-desculpa. mas se eu escrever em materia, que se-posa mostrar a outrem; e me-fugir da-boca, alguma expresam menos propria; averá censores tam dezumanos, que me-condenem, por-escrever em lingua alheia, talvez sem advertirem, que iso está sucedendo todos os dias, aos mesmos nacionais, que frequentemente os-cometem. Alem disto, sempre foi coiza odioza, dar regras em caza alheia: e lembrando-me eu de alguns, que me-diseram muito mal, do-grande serviso que fez ao Reino o P. Bluteau, compondo o seu Vocabulario; via de longe, a tempestade que se-levantaria contra mim, se este meu parecer tivese a infelicidade, de sair das-maons de V. P. Mas a maior razam era, porque isto, de emendar o mundo, e principalmente o querer arrancar certas opinioens, do-animo de omens envelhecidos nelas, e consagradas ja por-um costume, de que nam à memoria; é negocio, que excede as forsas de um só omem: e principalmente de um omem, de tam pouco merecimento, e autoridade como eu. E V. P. que é tam versado na Istoria, pode trazer à memoria, mil exemplos destes, que deram, e ainda oje dam, ao mundo Literario, materia de grande admirasam. Lembrou-me tambem, que eu sou Religiozo, em uma Religiam, em que geralmente florecem pouco os estudos: e que, por-este principio, nam faltariam omens, ainda prezados de doutos, que, se chegasem a saber, de quem eram as cartas, as-desprezasem; sem terem a paciencia, de examinar as minhas razoens: por se-persuadirem, que certos acidentes exteriores, de emprego, vestido, &c. conduzem muito, para o merecimento das-obras: e que, sem pizar os ladrilhos de certas Universidades, nam se-pode fazer coiza boa.

Estas, e outras coizas, que se me-ofereceram à memoria, me-tiveram, como lhe-dise, duvidozo. Finalmente as repetidas instancias que V. P. me-faz: a sua grande autoridade: e as plauziveis razoens que me-alega, me-fizeram pegar na pena, para escrever o meu parecer. V. P. segura-me certas coizas, que nam sam de pouca considerasam. Diz-me, que oje á muita gente do-seu parecer, nam só entre os Seculares, mas tambem entre os Regulares: de que me-cita bons exemplos. Diz-me, que o bom gosto nas Artes, e Ciencias, se-comesou a introduzir em Portugal, no-feliz reinado deste Augusto Monarca: o qual nisto, tem ajudado mais o Reino, que todos os seus antecesores. Finalmente promete-me, que as minhas cartas, nam sairám da-sua mam, ao menos em meu nome. Com, estas condisoens, obedeso a V.P. e me-gloreio muito, que um omem da-sua literatura, nam despreze o parecer, de um sugeito de tam pouca doutrina. Dividirei o argumento, em varias cartas: e como as minhas ocupasoens, e molestias mo-permitirem, irei comunicando a V. P. as minhas reflexoens. Devo porem, nesta primeira carta, fazer algumas protestas. Primeira: Que eu nam acuzo, ou condeno, pesoa alguma deste Reino. Se às vezes nam me-agradam as opinioens, nem por-iso estimo menos os sugeitos, e autores, distingo muito o merecimento pesoal, do-estilo de cada um, ou metodo que observa: e poso fazer esta separasam, sem ofender pesoa alguma.

Esta reflexam para V. P. é superflua, pois conhese mui bem o meu animo; e sabe, que eu só pego na pena, para lhe-dar gosto. Mas porque poderá ler esta carta, a algum ignorante, ou malevolo; que intenda, que eu, dizendo o que me-parece dos-estudos, com isto digo mal, da Religiam da-Companhia de Jezu; que neste Reino, é a que principalmente ensina a Mocidade: devo declarar, que nam é ese o meu animo. Eu venero esta Religiam doutisima, por-agradecimento, e por-justisa. Por-agradecimento, porque ese pouco que sei, eles mo-ensináram: e aindaque nas escolas nam aprendese tudo, aprendi-o conversando com eles particularmente, e lendo os seus autores. Sempre conservei com eles, intrinseca amizade: e disto conservarei uma memoria sempiterna. Por-justisa, porque sendo todas as Religioens veneraveis; esta o-é mais que todas, segundo a minha opiniam. Parece que mandou Deus à Igreja estes Religiozos, unicamente para utilidade dos-proximos, pois eles ensinam a doutrina, e piedade, com grande amor, e trabalho: sacrificam-se polos Fieis, em todas as ocazioens: e sam perpetuos defensores da-Igreja Catolica, como confesam os mesmos Erejes. Estes sam os motivos da-minha venerasam, e parcialidade por-eles. Mas asimcomo nem todos os Jezuitas, seguem as mesmas opinioens de doutrina, mas permitem aos seus mesmos, a liberdade de filozofar, dentro dos-limites do-justo; e uns sam contrarios de sentimentos a outros: Asimcomo alguns Jezuitas Estrangeiros, tem reprovado diante de mim, o metodo de Portugal; e alguns Portuguezes me-confesáram, que o-seguiam por-necesidade, e nam por eleisam; e confesáram limpamente, que se-podia, e devia emendar em muitas coizas: (achará V. P. muitos, que lhe-digam, que aquela Logica Carvalha, e Barreta, nam se-deviam explicar nas escolas, mas coizas mais utis: o que eu ouvi muitas vezes) Asim tambem nam será maravilha, que eu me-desvie em muitas coizas, do-estilo que seguem, os Religiozos da-Companhia neste Reino: e reprove outras, que observam alguns dos-seus autores. Para tudo teria exemplos na mesma Companhia, e tambem em Portugal. Mas nam me-é necesario tanto: porque os mesmos Jezuitas, reconhecem de antemam esta verdade; e sabem, que, sem injuriar uma Religiam, pode um omem, ser de contrario parecer. Conhecem muito bem estes doutos Religiozos, que nestas diferensas de pareceres, nam deve entrar o corasam, porque estam fóra da-sua jurisdisam: e se-podem dar entre pesoas, mui unidas de inclinasam. Os Jezuitas todos sam prudentes: e nenhum omem prudente ignora, e contrareia estas coizas. Os individuos de uma comunidade, nem todos sam de igual talento: e as comunidades de uma Religiam, nem todas seguem o mesmo metodo. Alem diso, aqui em Portugal, á muita outra gente que ensina. os outros Religiozos, ensinam os seus, e os de fóra. os mestres seculares, tambem ensinam. E asim as minhas opinioens, podem ter por-objeto, nam uma só pesoa. Isto me-basta advertir, a estas pesoas, que querem saber mais que os autores: e quererám explicar, e interpretar mal as minhas palavras. Onde concluo, que a todos venero, e estimo mui particularmente: somente direi, o que me-parece se-devia fazer, para poder instruir com fruto. A segunda coiza é: que eu nam me-cansarei, em escrever Portuguez elegante: mas me-servirei das-palavras, de que comumente me-sirvo, no-discurso familiar. Nas materias de doutrina, por-forsa devo servir-me, de algumas palavras, que nam sam Portuguezas: o que tambem fazem os Latinos, quando tratam semelhantes pontos. porque no-estado em que as coizas estam, nam se-servindo das-ditas palavras, nam é posivel, explicar bem as materias. E asim deve V. P. estar preparado, para nam se-admirar, de alguns termos novos; e para me-desculpar, os erros que posa cometer. Ocorre-me ainda terceira: e vem aser, que eu suponho, que V.P. me-dispensa, de citar todos os momentos autores, de que tiro algumas das-noticias, que lhe-diser. com tanto que eu aponte, o que é necesario, nam emporta quem o-diz. Basta que eu diga, uma vez por todas, que a major parte do-que digo, experimentei eu mesmo: outras coizas, observei em terceira pesoa; ou li em autor aprovado. V.P. olhe para a razam, em que eu me-fundo: porque esta deve valer mais, que a autoridade extrinseca. Tambem incidentemente digo, nam a V. P. que sabe conhecer as coizas; mas a algum, que posa ler estas cartas: que, se algumas vezes apontar como optimos, alguns autores Erejes; nam louvo neles a sua particular religiam, mas a erudisam, ou metodo. Comumente avizarei, quais sam os Erejes, paraque nam se-leiam, sem licensa devida. Mas se acazo me-esquecer entam advertilo, aqui o-advirto para sempre.

Comeso pois nesta carta, pola Gramatica: que é a porta dos-outros estudos: da-qual depende, a boa eleisam dos-mais. Porque muitos nam intendem, o que significa este nome, por-iso nam fazem, grande progreso na Gramatica. Eu, ainda que falo com V. P. que o sabe, falarei daqui emdiante, como se faláse, com quem o-nam-soubese.

A Gramatica, é a arte de escrever, e falar corretamente. Todos aprendem a sua lingua no-berso: mas se acazo se-contentam com esa noticia, nunca falarám como omens doutos. Os primeiros mestres das-linguas vivas, comumente sam molheres, ou gente de pouca literatura: de que vem, que se-aprende a propria lingua com muito erro, e palavra impropria, e pola maior parte palavras plebeias. É necesario emendar com o estudo, os erros daquela primeira doutrina. Uma razam, aindaque boa, um pensamento exquizito, exposto com palavras toscas, ou que nam signifiquem, o que se quer; dezagrada muito, e comumente nam persuade. Contudo iso por-muitos seculos, se-contentàram os Omens, de falar, como primeiro lhe ensináram. Nam foi senam despois do-terceiro milenario, que os Omens se-aplicáram a falar bem. Foram os Gregos os primeiros, de que a Istoria nos-aponta, que se-aplicasem a este estudo: e tal vez os unicos, entre todos os Orientais. A sua Gramatica consistia, em conhecer bem as diferensas das-letras: ler, escrever, e falar bem. Explicavam tambem os Poetas; nos-quais aprendiam a Politica, e Religiam. O governo da-Grecia, que era quazi todo de Republica, (nas quais as publicas asembleias do-Povo, deliberavam nos-maiores negocios) lhe-inspirou este dezejo. conhecéram eles, quanto emportava falar bem, para falar em publico: e se-aplicáram tanto a iso, que deram, e ainda oje dam, documentos a todo o mundo. Talvez niso foram mais escrupulozos doque convinha: porque, para conservar a sua lingua pura, nam queriam aprender, lingua alguma estrangeira. Estavam tam satisfeitos, das-belezas da-sua lingua, que quazi desprezavam as outras todas. desorteque quando os Romanos, despois de vencidos os Gregos, os-transportáram a Roma; avendo nesta tantos, e de diferentes gerarchias, se-observou (como nota um autor de bom juizo) que os Romanos, aprenderam o Grego: mas nenhum Grego, estudou a lingua Romana: aindaque com o uzo, alguma coiza intendese. E este costume, durava ainda nos-tempos de Cicero.

Com a lingua pasou da-Grecia para Roma, a inclinasam para a Gramatica. porque se-observou, que a lingua Latina se-comesou a aperfeisoar, desde o tempo dos-Cipioens, e continuou até o seculo de Augusto. que é justamente o tempo, em que os Gregos, destruido o seu imperio, comunicáram a sua lingua aos Romanos. Pois aindaque, desde o tempo da-guerra com os Sanitas, e outros Povos da-Magna Grecia, polos anos de Roma 471. algum Romano comesáse a intender, e falar o Grego; foi raro: e somente para poder intendelos nas Embaixadas, e coizas semelhantes, é que o-aprendiam. nam era vulgar este estilo: o que só sucedeo ao despois. Foram os Romanos os primeiros, que aprenderam voluntariamente lingua estrangeira. o que nam consta, que Povo algum, antes deles, tivese feito. E nisto mesmo, me-parecem mais racionaveis: porque conhecendo a necesidade dela, para o estudo da-Filozofia, Matematica, e belas Letras, nam se-envergonháram de receber lisoens, daqueles mesmos a quem tinham vencido, e davam leis. Este é um grande elogio, para uma Nasam tam considerada, como a Romana: conhecer que é vencida em merecimento; e confesar publicamente ese vencimento; e pór o remedio a esa falta. Paolo Emilio, aquele grande omem, que destruio na pesoa de Perseo, o imperio de Macedonia, antes de tornar para Roma, pedio aos Ateniezes, que lhe-buscasem um excelente Filozofo, para acabar de instruir, seus dois filhos. Outros omens grandes, que por-brevidade nam aponto, seguiram o seu exemplo. Lelio, e Cipiam Emiliano, que tanto rafináram a lingua Romana, eram inseparaveis, dos-seus mestres Gregos: dos-quais nam só aprendiam a Filozofia, mas tambem a Gramatica; e o modo de falar bem, e aperfeisoar a sua lingua. Os Filozofos daquele tempo, nam se-ocupavam somente, com discursos aereos de Logica; mas estendiam o seu conhecimento, para muitas outras coizas.

Mas, é necesario confesar uma verdade; em todo o tempo ouve dificuldade, em se-receberem costumes novos, aindaque fosem utis. os Velhos nam querem ceder dos-costumes, que uma vez espozáram. Isto vimos em Roma, no-consulado de Estrabo, e Messala: que publicáram um decreto, em que ordenavam aos Filozofos, e Retoricos, sairem de Roma[3]. Catam o velho, que temia, que os Romanos, pola vaidade de quererem falar bem, servisem mal à Republica no-oficio das-armas; foi um grande protetor disto. Mas a Verdade, por-mais que se encubra, sempre transpira. Trez Embaixadores Ateniezes, que, cinco ou seis anos despois do-tal decreto, vieram a Roma, namoráram todos com os seus discursos. e, nam obstante a repugnancia de Catam, e de alguns outros, os estudos das belas Letras se-introduziram em Roma, e cada dia mais se-aumentáram[4]. A Grecia foi reconhecida por-mestra: e Atenas foi sempre reputada, a Universidade de Roma: aonde se-mandavam os nobres Romanos, para aprenderem o bom gosto. Os dois celebres Antonios, Atico, Cicero pai, e filho, e muitos outros lá foram aprender o que souberam. e o que mais cauza admirasam, é, irem em tempo, que as letras tinham descaido na Grecia. tal era a boa opiniam que tinham dela! Outros muitos Gregos vinham a Roma, e publicamente ensinavam, os estudos Gregos.

Com este exemplo, pouco mais de um seculo antes de Cristo, se-abriram escolas Latinas em Roma. as quais, ainda que com alguma contrariedade, felizmente e com grande concurso se-continuáram. Delas sairam omens mui grandes, que apuráram, quanto puderam, a lingua propria. Tais foram Cota, Sulpicio, Ortensio, Marco Cicero, Caio Cezar, Marco Bruto, Messala, Asinio Pollio, e muitos outros que entam, e oje veneramos, como mestres da-lingua Latina. À imitasam dos-Gregos, comesáram os Romanos a aprender, a Gramatica da-sua lingua, no-mesmo tempo que aprendiam a Grega. A Gramatica, nam se-reputava, coiza de pouca emportancia: mas a-consideravam como baze da-Eloquencia: e por-iso a ela se-aplicavam omens grandes; e nela empregavam um tempo consideravel, os que queriam, fazer figura na Republica. Os livros Retoricos de Cicero, principalmente os trez de Oratore ad Quintum Fratrem, especialmente o ultimo: o livro intitulado: Orator ad Marcum Brutum: e o de Oratoriis Partitionibus: nam só ensinavam Retorica, mas principalmente falar a sua lingua, com toda a pureza, e grasa: que era uma parte principal da-Retorica. Caio Julio Cezar, aquele grande omem em armas, e letras, nam se-envergonhou, de escrever dois livros, sobre a Analogia da-lingua Latina[5]. Marco Terencio Varram escreveo comentarios doutisimos sobre a sua lingua, e uma Gramatica. Continuou este costume, até o tempo de Quintiliano, e seu dicipulo Plinio o moso: o qual Quintiliano, alem de nos-explicar, como se-ensinava a Gramática Latina; ele mesmo nos-deixou uns Elementos dela, no-primeiro livro das-suas Instituisoens. E é de crer, que se-continuase este estilo, até os principios do-quinto seculo de Cristo; em que os Godos entráram em Roma: ou um pouco despois, em que os Ostrogodos se-estableceram na Italia, e arruináram o imperio Latino: abrindo com isto a porta aos Longobardos, que nela domináram tantos anos. Desorteque com o Imperio no-Occidente, se-pode dizer, que se arruinou a lingua Latina: porque comesando a destruir-se, com a mescla de outras palavras, foi necesario emendála com o estudo, e fazer Gramatica dela.

Este metodo de ensinar aos nacionais, a Gramatica da-sua lingua, nam só praticáram os Antigos; mas até em um seculo barbaro, qual foi o de Carlo Magno, foi conhecido, e praticado: e o mesmo Carlo no-dito VIII. seculo, escreveo uma Gramática Tudesca, que era a lingua da-sua corte. Nos-seguintes seculos até o duodecimo, em que a ignorancia tanto dominou, nam foi ignoto este uzo. Mas alguma Gramatica que se-fazia, era para intender o Latim. os livros eram rarisimos. a critica nenhuma. e asim nam é maravilha, se nam se-aplicáram ao que deviam. Desde o seculo duodecimo até todo o seculo decimosexto, reinou outra particular ignorancia, sobre o metodo. Muitos se-aplicáram as letras, mas muito mal. só reinavam as agudezas, e o estilo ridiculo. No-seculo pasado, é que resuscitou este metodo, de ensinar a Gramatica da-propria lingua.

E, na verdade, o primeiro principio de todos os estudos deve ser, a Gramática da-propria lingua. A razam porque nos-parece tam dificultozo, o estudo da-Gramatica Latina, (alem de outros motivos que em seu lugar direi) é porque nos-persuadimos, que toda aquela machina de regras, é particular da-lingua Latina: e nam á quem nos-advirta, quais sam as formas particulares desa lingua, a que chamam Idiotismos: quais as comuas com as outras. Se a um rapaz que comesa, explicasem, e mostrasem na sua propria lingua, que á Verbo, Cazo, Adverbio &c. que á formas particulares de falar, deque se-compoem, a Sintaxe da-sua lingua: Se sem tantas regras, mas com mui simplezes explicasoens, fizesem, comque os principiantes refletisem, que, sem advirtirem, executam as regras, que se-acham nos-livros: e isto, sem genero algum de preceitos, mas polo ouvirem, e exercitarem: Seguro a V. P. que abririam os olhos por-uma vez, e intenderiam as coizas bem: e se-facilitaria a percesám das-linguas todas.

Isto suposto, julgo que este deve ser, o primeiro estudo da-Mocidade. e que a primeira coiza, que se-lhe-deve aprezentar é, uma Gramatica da-sua lingua, curta, e clara: porque neste particular, a voz do-Mestre, faz mais que os preceitos. E nam se-devem intimidar os rapazes, com mao modo, ou pancadas, como todos os dias sucede: mas, com grande paciencia, explicar-lhe as regras: e, sobre tudo, mostrar-lhe nos-seus mesmos discursos, ou em algum livro vulgar, e carta bem escrita, e facil; o exercicio, e a razam, de todos eses preceitos. Se me-tocáse o-fazelo, regularia tudo desta maneira. Primeiro, explicaria brevemente as regras: e obrigalosîa a repetir, as mesmas noticias gerais. Despois, darlheîa um livro de Cartas, vg. as do-P. Antonio Vieira: escolhendo as mais facis: ou alguma istoria pequena, digo, que tivese capitulos pequenos, e periodos nam mui compridos: e mandaria, que a-lesem: e no-mesmo tempo apontaria, quais eram as partes da-orasam. o que se-observa, com grande facilidade. Ajuntaria a isto, as regras mais principais de Sintaxe: porque como tudo isto, se-á-de recozer na Latinidade, basta nesta ocaziam, uma noticia geral. Feitos estes principios, ensinaria duas coizas, mui principais em materia de linguas. a primeira é, a propriedade das-palavras: mostrando-lhe, a forsa de cadauma daquelas, que sam menos comuas. a segunda é, a naturalidade da-fraze: ensinando-lhe, que a afetasam, se-deve fugir em tudo: e que se-deve cuidar em explicar tudo, com palavras mui naturais. Alem disto, ensinaria aos rapazes, pronunciar bem, e ler expeditamente. Este ponto, é mui necesario: achando-se todos os dias omens feitos, que lem soletrando, e cantando: e que dizem mil barbarismos. o que tudo procede, de nam terem tido mestres, que lhes-ensinasem bem. Quando os rapazes estivesem mais adiantados, obrigálosia, a escrever algumas cartas, a diversos asumtos. e introduziria entre dois, uma conrespondencia epistolar: ensinando-lhe os tratamentos, e modo de escrever, a diversas pesoas. Nesta ocaziam tem lugar, ensinar-lhe a boa Ortografia, e Pontuasam. É incrivel, a utilidade que daqui rezulta, nam só para a inteligencia da-Latinidade; mas para todos os estudos da-vida. Este estudo pode-se fazer, sem trabalho algum: e se-pode continuar no-mesmo tempo, emque se-explica o Latim: bastando meia ora cada menhan, ler, e explicar o Portuguez. Isto se-pratica oje, em algumas partes da-Europa. e só os que nam tem juizo, para conhecerem a utilidade, que daqui rezulta, é que negam, a necesidade deste metodo.

Mas aqui, deixe-me V. P. lamentar, e admirar, a negligencia dos-Portuguezes em promover, tudo o que é cultura de ingenho, e utilidade da-Republica. Ainda até aqui, nam tem cuidado nestas coizas: e será rarisimo, o que souber, que esta Gramatica pode ser util. Especialmente nóto isto, sobre a falta de escritos, para instruir um Secretario principiante. (falo dos-secretarios dos-Grandes, e de tudo o mais, fóra das-Secretarias Reais.) Nas-outras Nasoens á livros, que ensinam a qualquer, a urbanidade e ceremonial do-seu Reino. Como escrevem os Reis, e os Grandes entre si, e às pesoas de diferentes gerarchias mais inferiores. como os inferiores escrevem, a toda a sorte de pesoas de maior esfera, tanto Secular, como Ecleziastica. &c. apontam-se os sobrescritos, e poem-se algumas cartas para exemplo. Isto ensina a todos; e impede o fazer erros. Mas em Portugal, é desconhecido este metodo. Um secretario de um Bispo, ou Cardial, ou Fidalgo, ou Dezembargador &c. governa-se por-uma pura tradisam; ou porque asim vio alguma carta; sem mais conhecimento da-materia. Comtantoque um moso, tenha um carater comprido, e dezembarasado, a que eles chamam, letra de Secretaria, é o que basta. Confeso a V. P. que ainda até aqui, nam vi secretario algum destes, que soubese escrever duas palavras, com juizo. que tecese uma carta, considerando quem escreve, e a quem escreve: emque circunstancia: se com dependencia, ou sem ela: se por-agradecimento de alguma fineza, e atensam, ou por-outro motivo. Nam consideram circunstancia alguma destas: as quais porem deveriam considerar muito; porque fazem a carta, mais, ou menos abundante de atensam: Sendo certo, que o Secretario, deve conservar o decóro de seu amo: mas no-mesmo tempo deve procurar, que paresa mais cortez que posa ser. Mas isto, é o que eles nam intendem. e nada mais cuidam, que mostrar, nam digo a grandeza, mas a soberba de quem escreve. Verá V. P. um pobre Cavalheiro das-Provincias, do-qual se pode dizer, como dise aquele noso amigo==Est res angusta domi==; escrever uma carta, com mais soberania e magestade, que nam fará o Papa. porque este, comumente poem==Dilecto filio==: e aquele, comesará uma carta ex abrupto, e imprudentemente, sem atensam alguma. Os de maior gerarchia, ainda fazem pior. e apenas se achará um, que nam queira mostrar na carta, que é mais, da-pesoa a quem escreve. Por-fóra, costumam pór==do-Bispo Fulano: do-Marquez Sicrano== &c. á coiza mais digna de rizo doque esta! As cartas mandam-se lacradas, para que ninguem saiba, de quem sam; e nem suspeite, o que contem: e estes tais poem, e asinam-se de fóra! Que o-fasa o Secretario de Estado, ou outro Ministro, que tem jurisdisam publica; é justo: paraque todos conhesam, de quem é a carta; e, se mais suceder perdela, quem a-achar, a-entregue; e lhe-tenham o respeito, que é devido. mas que o-fasam os outros, e em negocios particulares; e que o-fasam por-grandeza, merece compaixam. Tenho visto milhares de cartas, de Cardiais, Principes Soberanos de outros Reinos, e muitos outros Gran-senhores, e nenhum praticava esta rapaziada. Mas eu vi mais doque isto: porque vi carta de uma grande pesoa, que V. P. conhece, que escrevia a outro mui condecorado, que tinha no-sobrescrito: A Fulano: pondo o simplez nome, sem Senhor, nem titulo, &c. e dentro asinava-se, sem lhe-fazer comprimento, como se-faz nas Patentes.

Pertencem à clase asima, os que carregam o sobrescrito, com todas as circunstancias de Pai, Primo, Cunhado &c. o que tudo pode dar ocaziam, a abrir a carta por-curiozidade. O mesmo digo, dos-que poem: Familiar do-S. Oficio, e outras coizas destas. Basta pór um titulo principal, ou, quando muito, dois maiores: os mais ja se-intendem, ou se-supoem. Estes sam semelhantes àqueles, de que ja falámos tantas vezes, que, no-titulo das-censuras dos-livros, poem uma enfiada de empregos velhos: Ex-Provincial: Ex-Difinidor: &c. e dos-quais V. P. dizia, com tanta grasa, que lhes-faltava pór: Ex-Porteiro: Ex-Guardiam: Ex-Procurador. &c. O pior é que nisto, caiem tambem os Seculares: e poem frequentemente: Colegial que foi no-Colegio de S. Paulo: Lente que foi de Leis, ou de Instituta. &c. só lhes-falta acrecentar a prepozisam, e dizer: Ex-Colegial: Ex-Leitor: Ex-Secretario: Ex-General: Ex-Coronel. Que tendo os empregos, o-declarem; é mui justo: mas que ponham os que tiveram, e sam inferiores aos que oje tem; é uma vaidade mal fundada: e é querer ser estimado, mais polos empregos, que polo merecimento. Leia V. P. a istoria, que escreveo Alexandre Ferreira, e verá, que no-titulo da-obra, escreve toda a sua vida. Outros fazem dedicatorias de livros, a pesoas Grandes, e enchem boa meia folha de papel, de titulos: Capitam-mor de cá: Alcaide-mor de lá: &c. Quando tivesem dito: Marquez, ou Conde; Conselheiro, ou General &c. estes titulos sorvem todos os outros. Destes se-pode tambem dizer, que lhes-esqueceo escrever, todas as quintas, e cazas, que posuem em diversas Vilas, e Cidades, as pesoas a quem louvam, e dedicam as obras.

Em Italia, seria grande injuria, tratando-se com um grande Principe, por-lhe todos os titulos: porque era mostrar, que sam menos conhecidos polo nome, e pesoa. Á cazas, que tem muitos Principados, Marquezados, Condados: e nam somente de titulo, mas com inteira jurisdisam e dominio, pois tem o direito==Vitæ & Necis: e contentam-se com um só titulo, ou, quando muito, dois: Vg. Lourenso Colona, Duque de Paliano, Condestavel do-Reino de Napoles. Domingos Orsini, Duque de Gravina. Prospero Conti, Duque de Poli. Estas cazas tam antigas, que algumas contam mais de mil anos, e tem dado, alem de infinitos Cardiais, 13. Papas, outras cinco, à Igreja de Deus; nam fazem vaidade destes ridiculos titulos; porque sabem, que sam mui bem conhecidas. Mas os *** e principalmente os Portuguezes, governam-se por-outros principios. Tem alem diso estes Senhores por-injuria, se lhe-escrevem por-secretario; e quando nam vem toda a carta, de proprio carater, tocam a fogo. Veja V. P. quam diferentes sam, os costumes estrangeiros! Em Roma, aonde o ceremonial está tanto em vigor, que às vezes é excesivo, nam se-faz cazo de tal coiza. escreve um Cardial a outro, por-secretario. escrevem os inferiores &c. por-secretario. Isto nam prova descortezia, mas que um omem, é sumamente ocupado. nem pesoa alguma faz cazo disto. Somente se-pratica, escrever de proprio punho, quando é primeira carta de ceremonia a pesoa grande, ou quando respondo, a quem escreve de proprio punho: ou n’outros cazos asim. Mas aqui, seria um cazo rezervado, praticar o contrario.

Ora tudo isto, é intender mal as coizas: é falta de educasam: falta de livros bons: e é expor-se ao rizo dos-omens de juizo. Isto pois deve acautelar o mestre, quando instrue os rapazes. deve informar-se das-coizas: ensinar-lhe como se-devem regular: e finalmente dizer-lhe em poucas palavras aquilo, que, por-falta de livros, somente se-pode saber, com uma longa experiencia. Estas coizas devem-se tratar, nestes primeiros estudos.

Despois de ter escrito isto, me-veio à mam, uma Gramatica Portugueza, composta polo P. Argote, Teatino. Verdadeiramente nam é Gramatica completa: mas o autor declara, que só dá regras, para facilitar a inteligencia da-lingua Latina. O juizo que formo desta Gramatica, é este. O autor, introduzindo um dialogo enfadonho, dise, em muitas folhas, o que podia dizer, em poucas regras. Os dialogos nam servem mais, que de fazer mil repetisoens sem necesidade. servem de cansar á memoria aos rapazes, sem fruto: ensinando-os a falar como papagaio: vistoque nam intendem o que dizem. quando polo contrario poucos preceitos, bem explicados com a viva voz do-Mestre, ensinam mais, com menos trabalho. Isto, quanto ao metodo. quanto às regras: O que diz da-Analogia das-vozes, parece-me mui bem; e pode-se ensinar com utilidade. A Sintaxe de concordar, pode pasar: a de reger, nada me-agrada. O P. Argote dezemparou o seu mesmo metodo, por-seguir os erros de Manoel Alvares, e multiplicar regras sem necesidade; asinando regencias falsas: quando tudo aquilo se reduzia, a explicar a regencia dos-Cazos, polas regras fundamentais; que sam mui poucas. Isto é o que deve cuidar o Mestre: reduzindo as regras, às verdadeiras cauzas da-regencia: apontando algum particular idiotismo &c. porque isto basta: vistoque a Gramatica Latina, tambem se-deve explicar em Portuguez, e com poucas regras. A terceira parte, da-sintaxe Figurada, tirando a extensam, tambem pode pasar. Na quarta parte, o que diz dos-Dialetos &c. pode pasar: aindaque tudo aquilo se dizia, em duas palavras. o que diz do-modo de reger a lingua Portugueza, é uma grande superfluidade, e pedanteria: vistoque nam á mestre tam tolo, que nam saiba, como á-de reger, uma carta Portugueza. Isto se-faz, quando o estudante nas escolas, vai lendo a lingua dita: e o mestre lhe-explica, o dialeto da-proza, e do-verso. Antes seria loucura, querer explicar ao principio, o dialeto do-verso. porque os Poetas, que pola maior parte nam pezam bem as coizas, sem excetuar o Camoens; caîram na parvoice, de aportuguezar mil palavras Latinas, sem necesidade alguma: e asim nam é coiza para rapazes. Antes, polo contrario, deve o mestre advertir-lhe, que ese estilo, nam se deve uzar. Finalmente, a Ortografia do-P. Argote nada vale, como abaixo direi. Mas, em quanto nam aparece outra, ou se-reforma esta arte; pode o mestre uzar dela, com as ditas cautelas.

Devo tambem dizer a V. P. alguma coiza, sobre a Ortografia Portugueza. noticia que me-parece mui necesaria, e que com todo o cuidado se-deve comunicar aos principiantes: pois da-falta desta doutrina nace, que em toda a sua vida, escrevam mal: e, ainda despois de estarem em lugares de letras, é lastima ver, como muitos escrevem. E estas reflexoens, servirám para emendar, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas, e algum outro.

Isto suposto, e compreendendo em pouco, o muito que outros escrevem nesta materia, digo, que os Portuguezes devem pronunciar, como pronunciam os omens de melhor doutrina, da-Provincia de Estremadura: e, posto isto, devem escrever a sua lingua, da-mesma sorte que a-pronunciam. Esta é uma singularidade da-lingua Portugueza, que só se-acha nela, na Italiana, e na Castelhana: aindaque esta tenha sua variedade: ponho de parte a Latina, que é morta. Daqui fica claro, que devem desterrar-se da-lingua Portugueza, aquelas letras dobradas, que de nada servem: os dois SS. dois LL. dois PP. &c. Na pronuncia da-lingua, nam se-ouve coiza alguma, que fasa dobrar, as ditas consoantes. Que se-escreva Terra, Perra, com dois rr, intendo eu a razam: e o ouvido me-aviza, que a pronuncia é fortisima no-r. pois quando nam é forte, como em Pera, Caracol, escreve-se um só r. mas em Elle, Essa, é coiza superflua: porque ou tenha um, ou dois ss. sempre seá-de pronunciar, da-mesma sorte. Nas linguas mortas, faso escrupulo, de mudar uma letra: mas nas vivas, em que nós temos todo o poder, e uzo, quando a boa pronuncia nam ensina o contrario, sam superfluas as repetisoens.

Os nosos Italianos somente dobram as letras, quando a pronuncia é diferente: e sam tam escrupulozos observadores da-pronuncia, que nam á Nasam, que os-iguale. De que nace, a grande dificuldade que os Estrangeiros tem, em pronunciar bem a nosa lingua, nam obstante ser labial. porque nam tendo eles, ouvido tam esperto, para poder perceber, a diferente pronuncia das-letras dobradas; na pronuncia delas, servem-se de uma pronuncia doce e simplez; a qual os-acuza, por-Estrangeiros. O motivo que os Nosos tem, para pronunciarem asim, é uma antiga tradisam, desde o tempo em que a lingua Latina, era viva e domestica entre os seus antepasados. pois é sem duvida, que os Romanos cuidavam muito, em pronunciar bem a sua lingua; e que os mestres, ensinavam isto aos dicipulos com cuidado. Esta tradisam conservou-se sempre em Italia. e nacendo o Italiano, da-corrusam do-Latim, conserváram sempre as mesmas letras dobradas, que os Latinos tem: e talvez acrecentáram mais alguma. Donde vem, que os Italianos, achando no-Latim as letras dobradas, pronunciáram-nas como dobradas: e, por-este mesmo principio, pronunciando o Italiano, com alguma semelhansa do-Latim, dobráram tambem as letras da-sua lingua por cuja razam, sam nela desculpadas, as repetisoens. Os Francezes dobram algumas letras, por-necesidade, para distinguirem as pronuncias: outras dobram, porque tomáram os ditos nomes, dos-Gregos, e Latinos, entre os quais antigamente se-pronunciavam, e escreviam asim: como mostram os omens, que escreveram nesta materia. Tambem nisto tem variado muito: e nam sam aprovados, polos melhores criticos. E oje os Francezes mais doutos, regeitam muitas letras, que parecem escuzadas, por se-nam-pronunciarem: como adverte o P. Lima, na sua Arte Portugueza, e Franceza. Muitos Francezes sam de parecer, que se-devam desterrar todas. e talvez com o tempo, escrevam como falam: vistoque ainda nam á muito tempo, que esta lingua se-comesou a purificar: o que nam excede o tempo, de Luiz XIV. Mas concedamos-lhe o mesmo, que oje concedemos, aos Ebreos, Caldeos &c. é certo, que a lingua Portugueza, todos asentam, se-deve escrever como se-pronuncîa: e asim, nam deve receber letras, que se-nam-proferem.

Deste meu parecer, sam muitos Portuguezes de boa doutrina, com quem tenho conversado nesta materia: os quais nam podiam sofrer, que, sendo a pronuncia a regra da-Ortografia; ainda asim ouvesem omens prezados de doutos, que embrulhasem a Ortografia, com a preocupasam de quererem seguir, a derivasam e origem. Se eu ouvese de escrever, tudo o que me ocorre nesta materia, ou tudo o que se-pode dizer nela, faria um longo tratado; que seria contra o meo asumto, e tambem contra a necesidade da-materia, a respeito de V. P. Direi somente, o que pertence ao meu argumento. Nam obstante que eu á muitos anos, viva nesta opiniam, que a Ortografia comua é muito má; e, com esta ideia, tenha feito um tratadinho dela, para uzo, e regulamento meu; contudo nam me-atrevia, a declarar a todos, o meu animo, como faso a V. P. sabendo, que ainda os mais doutos se-ririam, de que um Estrangeiro, viese dar regras, nesta materia: Sem se-lembrarem, que tambem os que nestes ultimos seculos, escrevèram sobre a Ortografia Latina, eram Estrangeiros nela: semque por-iso, sejam mal ouvidos. Mas agora, devendo dizer a V. P. o meu parecer nela, puz de parte, todos os respeitos politicos; e nam só quiz apontar, o que condeno; mas, para o-fazer melhor, tive a curiozidade de ler, o que dise nesta materia o P. Bluteau. cuja leitura me-confirmou, no-meu propozito, e me-convida, a abrir-me mais promtamente: porque alfim vejo, que tenho mais padrinhos, doque nam cuidava[6].

Digo pois, que da-observasam que asima fiz, e maxima que estableci, se-devem tirar as reflexoens, para as outras letras, e para todas as mudansas e corresoens da-Ortografia. E comesando pola letra A, dobram alguns esta letra, em Menhaan, Vaan &c. e deste parecer, é Duarte Nunes de Leam. Nam se-pode intender, a razam destes omens. Na pronuncia, nam se-ouve aquele segundo A, e seria verdadeiro ridiculo, quem o-quizese pronunciar. e asim porque se-aja de escrever, eu nam intendo. O certo é, que a regra da-pronuncia, ensina o contrario. Daqui pasando ao B, digo, que esta nam se deve conservar, senam naqueles nomes, que especialmente a-tem na pronuncia, como obstaculo, obstante &c. mas naqueles, que oje se-pronunciam sem ela, parece-me escrupulo demaziado. Sobre o C, acha-se alguma diversidade entre os mesmos Portuguezes, em que lugares deve entrar quando tem cedilha, ç. Comumente antes das-terminasoens em ão o-escrevem, e mais em outras partes: sobre o que nam á regra alguma mais, que o uzo. Nisto alguns sam tam escrupulozos, que se encontram escrito com s, Sapato, fazem um orrivel espalhafato. Outros desterram o dito c, e em seu lugar escrevem dois ss. Mas para falar a verdade, e examinar as coizas sem paixam, tudo isto sam iluzoens. Nenhuma diferensa na pronuncia se-acha entre o c, e o s: se alguem contrareia isto, que me-fasa a merce de mo-provar: porque o meu ouvido, que é bastantemente advertido, nam conhece esta diversidade. Isto suposto, pór dois ss, em lugar do c, é uma solenisima ridicularia, sem mais razam, que querer distinguir-se dos-outros. Mas, nam merecem mais indulgencia, os que se-escandalizam de lerem, Sapato, Surrador &c. com s: porque na minha estimasam asim se-deve escrever. Eu verdadeiramente nam sei donde veio, que o ça, se-pronunciáse sa: mas se é permitido conjeturar em materia tam oscura, suponho que foi, por-engano de quem escrevia, que pintava mal o s: e asim com o tempo tomáram-no por-c: Porque a falar a verdade o c com cedilha sam dois cc contrapostos, e que imitam bastantemente um s, asim c c: onde continuando a pronuncia do-s por-tradisam; e achando-se escrito o dito ç; intendèram que era uma particular especie de c, e asim o-escreveram. Seja como for, o c, em tais cazos vale um s. e por-esta razam cuido, que é mais proprio, e mais natural, servir-se desta letra simplez, que do-dito c. Desta sorte averia menos confuzam na Ortografia Portugueza, se asentasem todos, a nam escrever antes de a, ou o, ou u, senam um s, e nunca o dito c. Dirmeám alguns, que tambem o c antes de e, ou i, vale um s: e que será tambem necesario desterralo, e convertelo em s. Mas eu respondo, que á mui diferente razam. porque o c, antes de e, ou i, tem o seu proprio soido, sem violencia alguma: e aindaque se-posa compensar com s, contudo neste cazo deve-se permitir alguma coiza ao uzo, que o-introduzio. Nam asim o c antes de a: pois para fazer o soido que eles querem, deve violentar-se, sem ter analogia com as linguas, de que deriva, a nosa Portugueza: e asim parece-me grande superfluidade. Este é o meu parecer: Contudo se alguem ateimáse a servir-se do-dito c, nam faria disto um cazo rezervado: comtantoque confesase, que igualmente se-pode escrever com s: e que nam se-escandalizase, de quem fizese o contrario.

Desta regra, de escrever conforme a pronuncia, crejo que se-pode achar excesam no-Ch. Tem esta letra aspirada com o h, uma pronuncia em Portugal semelhante ao x. e asim dizemos Choro, Chove &c. como se estivera escrito, Xoro, Xove. Contudo algumas vezes se-deve pronunciar; como se-fose um k. o que intendo dos-nomes que vem do-Grego, e nos-quais se-ouve o k na pronuncia. vg. Architetura, Machina, Chimica &c. O Bluteau nam admite isto, nos Opusculos; e defende, que sempre o ch se-deve pronunciar quazi semelhantemente ao x. Mas ele mesmo se-contrareia no-Dicionario: pois diz, que em Portuguez se-deve escrever, Archanjo, Patriarcha &c. com ch, aindaque se-pronuncie o k: Tomára pois que me-dese a diversa razam, porque em outros nomes oriundos da-mesma Grecia, se-deva escrever com qui v.g. Monarquia &c. O certo é, que em ambas as partes a razam é a mesma. Antes parece-me, que com maior razam se-deve fugir o qui: porque em Portuguez despois do-q, sempre se-pronuncia o u, desorteque o q por-si só nam une com as vogais, sem se-pronunciar o u. E como seria erro pronuncialo, em Monarchia, Chimica &c. daqui vem que também é erro, escrevelo. A quem nam agradar esta minha opiniam, de escrever estes nomes por-ch, sou de parecer, que adóte o k dos-Gregos: pois é melhor chamar de fóra, uma letra Estrangeira, doque escrever o q, que em Portugal geralmente tem diferente pronuncia: o que nam sucede no-ch, que ja em muitas disoens está recebido em Portugal, com privilegios de k.

E nam obsta, que a maior parte dos-Ortografos Portuguezes digam, que o k é superfluo no-Portuguez: nam é o mesmo dizelo, que provalo: aqui nam á meio, ou se-deve admitir o ch com privilegios de k; ou adotar o k, em seu lugar. Sei que podem argumentar com Aquele, Aquilo &c. em que parece nam se-ouve o u: mas isto provèm da-pronuncia, que o-toca levemente; porque em todas as palavras Portuguezas o q faz pronunciar o u: Quando, Quanto &c. E principalmente avendo-se de introduzir, em disoens novas, ou Gregas, deve sempre observar-se o uzo mais comum. Duarte Nunes poem sempre c antes de t, como em Docto, Doctrina &c. Desta afetasam zomzombam os omens de melhor juizo; e cuido que com razam: pois se aos nosos ouvidos é insoportavel, quem fala asim, porque á-de ser toleravel, quem o-escreve? Bluteau admite o tal estilo alguma vez, para evitar o equivoco; v.g. Compacto, e Compato: mas eu nam vejo nisto equivoco, pois na segunda disam o Com, deve estar separado. Mas aindaque ouvese equivoco, o contexto o-tira. Outros em lugar do-c, sempre poem u, e dizem, Auto &c. tambem esta afetasam é condenavel: porque Ato, é mui boa palavra, e todos a-intendem. Em Douto &c. pode-se conceder alguma coiza ao uzo.

Costumam muitos Portuguezes dobrar os ee finais em muitas vozes, especialmente em Fée, Sée &c. e alguns dobram-nos em muitas outras palavras, inclinando-se, segundo dizem, a uma antiga pronuncia. Mas ou seja antiga, ou seja de novo inventada, deve-se fugir esta introdusam, pola mesma razam que disemos, de ser contraria à pronuncia. Concorda o Bluteau dizendo, que em algumas palavras se-supre, com um acento sobre o é. Mas eu digo, que nam sò em algumas, mas em todas se-deve escrever um só e. e quanto ao acento agudo, digo, que se-lhe-deve pór, nam para mostrar, que falta um e; mas para mostrar, que se-deve carregar a vogal; porque asim ensina a pronuncia.

Pola mesma razam da-pronuncia, se-deve desterrar das-palavras ou Portuguezas, ou aportuguezadas o Ph, em lugar de F. Muitos Portuguezes introduzem, sem advertencia, em lugar do-f, o dito ph: outros dam longuisimas regras para distinguir, quando se-deve escrever um, quando outro. mas uns e outros discorrem muito mal. O ph dos-Gregos era um p, aspirado com muita forsa, e que alguma coiza declinava para f. e nam avendo em Portugal semelhante pronuncia, é erro introduzir o dito p, quando temos cá o f, que tem o seu próprio soido. Daqui vem que aindaque Filozofia, Triumfo &c. na sua origem tivesem o ph, contudo oje que sam palavras Portuguezas, nam só adotadas polos doutos, mas de que indiferentemente se-servem todos; devem-se escrever com simplez f. Temos o exemplo nos-mesmos Latinos, que, quando adotavam algumas palavras Estrangeiras, pronunciavam-nas com a pronuncia Romana: e davam-lhe as proprias declinasoens Latinas. Talvez lhe-conservavam algumas proprias letras, em atensam de serem linguas vivas. E muitas vezes, para se-livrarem da-impropriedade, escreviam, e pronunciavam as ditas letras em Grego puro: como todos os momentos encontramos nos-seus escritos, principalmente nas cartas de Cicero, e alguns outros. Esta liberdade de acomodar as palavras, ao estilo da-propria lingua, tiveram sempre todos os Povos cultos: e devem ter tambem os Portuguezes. e asim significando o ph um p aspirado, com algum soido de f; nam o-devemos uzar, vistoque nas palavras Portuguezas, nam temos tal pronuncia.

Quanto aos nomes, que ainda nam estam em uzo por-todos, mas que somente uzam, ou para melhor dizer, algumas vezes se-servem deles os literatos; deve-se praticar outra regra. Se sam nomes (falo dos-Latinos, Gregos, Ebreos &c.) de coizas pertencentes a Artes, ou Ciencias, parece-me que se-devem escrever, com as suas letras originais. Vg. se quizer-mos explicar, ou escrever os nomes pertencentes à Anatomia, que sam todos Gregos, segundo o estilo do-Portuguez; escreveremos palavras, que se-nam-intenderám: e asim é melhor, seguir a derivasam Grega. O mesmo digo, de algumas partes da-Medicina, da-Filozofia &c. Muitos destes nomes ou nam se-podem escrever de outra maneira, v.g. Pneumatologia &c. ou, aindaque se-posam escrever, nam estam geralmente recebidos, nem ainda polos mesmos eruditos: e asim nam gozam, do-privilegio Portuguez. Se sam nomes Proprios, entra a mesma regra: ou sam pouco uzados; e em tal cazo é obrigasam escrevelos, com as suas proprias letras. Onde nam condeno quem escreve, Homero, Herodoto, Herodes &c. aindaque estes trez, e outros semelhantes que estam ja muito em uzo, podem mui bem escrever-se sem h: o que ate os nosos Italianos ja fazem: Mas sempre é mais desculpavel, se em semelhantes nomes se-uzam letras da-origem. Quanto porem aos outros, que servem de diferenciar as pesoas Portuguezas, e já estam totalmente naturalizados; devem-se vestir, com o traje de Portugal. E este uzo acho praticado, em todas as Nasoens de melhor doutrina. Quazi todos os nomes da-Sagrada escritura, se-acham mudados na nosa Vulgata. Vg. nós dizemos, o Mesias: e se ouvesemos pronunciar como está no-texto Ebreo, deveria-mos dizer, Maxiaggh com pronuncia forte, e gutural no-g. o que fizeram os Latinos, para adosar a pronuncia forte, e aspera dos-Ebreos. Traduzindo os Gregos este nome, escreveram, Christos: os Latinos, Christus: de que nós tomámos a palavra, Cristo. Podia apontar mil exemplos, que deixo por-brevidade. Os Gregos quando pronunciavam os nomes Latinos, faziam-no com o dialeto Grego. e por-iso nós achamos, que nas medalhas Gregas dos-Consules, e Imperadores Romanos, os nomes estam transformados. Vg. este nome, Marcus Tullius Cicero, os Gregos escreveram-no nas medalhas, Markos Tyllios Kikeron, que tem bastante diferensa do-Latino. Os Latinos, como ja disemos, davam a terminasam Latina, aos nomes Gregos: e muitas vezes deitavam-lhe fóra algumas letras. basta abrir os Dicionarios, para reconhecer esta verdade. Os nosos Italianos italianizam todos os nomes Estrangeiros, que lhe-chegam às maons, quando eles sam tais, que se-podem pronunciar à Italiana: e, seguindo a pronuncia Franceza, desterram da-escritura, os ditongos, e tritongos; pondo somente a letra que conresponde ao tal ditongo. outras Nasoens fazem o mesmo. Se pois em todos os tempos ouve esta liberdade; tambem se-deve praticar em Portugal. E asim parece-me escrupulo ridiculo, querer conservar em Ieronimo, o h, e y: e em Iozé, o ph &c. tudo isto se-deve evitar, escrevendo os nomes com as letras, com que-se pronunciam em Portugal.

Emfim a regra é geral, que todos os nomes de origem antiga &c. ou sejam Proprios, ou Apelativos, que estam naturalizados, e sam frequentemente uzurpados, ou por-todos os omens, como Ieronimo, Triumfo, &c. ou polo comum dos-doutos, como Filozofia, Teologia, Fizica, Metafizica, e mil outros; devem-se escrever como se-pronunciam. Os nomes ditos que nam sam geralmente uzados, v.g. Themistio, Theopompo &c. por-nam escandalizar os ouvintes, ou confundir os ignorantes, é melhor escrevelos com as letras originais. Os nomes, em que entra duvida se sam, ou nam uzados, podem-se escrever, com as letras da-sua derivasam; pois a duvida mostra, que nam é uzual. Isto digo dos-nomes, que sam puramente antigos, ou que se-derivam de linguas mortas, como a Latina, Grega, Ebraica, Caldaica &c. Quanto pois aos nomes de linguas vivas, principalmente das-linguas do-Norte, em que se-acham muitas consoantes seguidas &c. acho que é melhor, e às vezes preciza necesidade, escrevelos com todas as suas letras: porque sem isto, nam se-poderám distinguir e reconhecer, os Autores, as Cidades &c. e nacerá grande confuzam. Aquelas consoantes que a nós parecem superfluas, nam o-sam para eles, porque as-pronunciam, supondo-lhe vogais: onde tirando-as, nem os-intenderemos pronunciar, nem os-saberemos procurar nos-livros.

Esta doutrina que atè aqui establecemos, deve-se aplicar, a todos os outros cazos que ocorrerem, de quaisquer letras que se-nam-pronunciam: E asim nam é necesario repetila especialmente, em todas as palavras: pois qualquer por-simesmo pode aplicála. Onde, seguindo a ordem do-Alfabeto, deve-se desterrar o G. de Madalena &c. Polo contrario deve conservar-se em Significar, Magnifico &c. porque na pronuncia s’exprime.

A mesma razam persuade, que nenhum Portuguez deve servir-se do-H, senam quando tem diferente pronuncia. v.g. despois de c, como em Chave, despois de n, como em Minha &c., nunca porem quando se-diz, He, Hei &c. Desta opiniam foram alguns antigos Portuguezes, como Joam Franco Barreto na sua Ortografia; que quer se escrevam, sem h: e o P. Bento Pereira na sua Grammatica Linguæ Lusitanæ, que concede, que em algumas partes se-pode deixar. Muitos Portuguezes que atualmente vivem, e de mui boa doutrina, defendem fortemente, que se-exclua o h. e achei um, que somente o-admitia, quando distinguia uma disam da-outra. v.g. Ouve pode significar, teve, e também, está ouvindo: onde no-significado de teve, punha-lhe o h, para nam cauzar confuzam. Conheso, que o contexto mostra bem, em que sentido se-toma: e sei que no-Latim, á infinitas palavras, que tem terminasoens equivocas, cujo verdadeiro significado se-alcansa, polo contexto. E ainda no-Portuguez Amára, e Amará, se acazo nam tem acento, somente se-distinguem polo contexto. da-mesma sorte Cria verbo que significa, Tirar do-nada: cria verbo que significa, Produzir a terra: cria verbo que significa, Dar leite ás criansas: e cria, imperfeito do-verbo crer: nam se-distinguem senam polo contexto: o que tambem sucede em muitos outros. Digo somente, que nam condenaria, quem o-escrevese nestes cazos: aindaque eu pratique comumente o contrario. Fóra daqui, julgo que nam se-deve escrever, em nenhuma outra disam; porque todas se-distinguem mui bem, sem ese sinal de aspirasam. O Bluteau, que no-Dicionario diz, que em algumas partes se-podia deixar de pòr o h no-principio; em outros lugares porem defende, a introdusam do-h, querendose desculpar, com a lingua Italiana. Mas erra manifestamente no-que diz. porque nam só os omens mais doutos na lingua Italiana desterráram o h do-principio, e de muitas partes do-meio das-disoens, deixando-o somente despois de c, e g, como em Bianche, Vaghe; porque aqui é verdadeiramente aspirasam forte, e tem seu particular soido: mas tambem a mesma Academia da-Crusca no-seu Vocabulario Compendiado e Correto, declara, que somente uza do-h, para evitar algum equivoco. v.g. Hanno, Verbo que quer dizer, tem; de Anno, nome que significa, o ano. Como tambem em, Ho, Hai, Ha, inflexoens do-mesmo Verbo; para as-distinguir de algumas Particulas, que tem a mesma terminasam. aindaque neste cazo nam condenam, quem deixa o h. Quando muito admitem o h, em Hui, Hoi, exclamasam de quem se-queixa, ou outro semelhante monosilabo: declarando porem, que aqui, e em quatro vozes que apontam, s’introduzio por-erro antigo dos-impresores, e nam por-alguma fundada razam. O que é muito de notar: sendoque os Toscanos aspiram fortemente todos os monosilabos, semque por-iso escrevam h. Fóra destas circunstancias, nenhum Italiano douto escreve h: onde falsamente se-serve o Bluteau do-seu exemplo.

Mas, deixando o que fazem os outros, e pasando ao que devem fazer os Portuguezes, digo, que nam devem escrever h senam, quando cauza diferente pronuncia, como em Minha, Diz-lhe &c. O é quando é Verbo, muito bem se-distingue do-e Conjunsam, pondo-lhe emsima um acento. Nem eu poso intender porque razam é Verbo, deva escrever-se com h, e era, eram &c. que sam inflexoens do-mesmo Verbo, sem ele. Também o ás, á, Verbos que significam ter, mui bem se-distinguem de às, à Particulas, com a diversidade do-acento grave. Tudo isto asim distinguem os nosos Italianos, que participam mais que ninguem da-lingua Latina, e que sam mui advertidos nestas pronuncias. Onde é erro dizer, Huma, Humilde &c. mas deve-se escrever, Uma, Umilde &c. Nem é obscura a razam: basta olhar para à pronuncia, para saber, que é erro, pòr o h. Antigamente o h era sinal de uma forte aspirasam[7]. (intendo por esta palavra aspirasam, deitar para fóra o ar que se-recebeo, para refrescar o interior, e ajudar a circulasam do-sangue: o que advirto, porque me-parece, que entre muitos Portuguezes, nam é bem certa a significasam desta palavra, aspirasam) Deste final pois somente se-serviam, para suprir as letras aspiradas dos-Gregos. Onde somente s’escrevia antes das-vogais, cuja pronuncia era bem aspirada, e gutural, como adverte Cicero[8]. e talvez antes desas nam se-punha. Mas no-tempo da-pureza da-lingua Latina, nunca os omens doutos escreveram h despois de consoante: mas somente no-principio da-disam, e antes de vogal: e nam escreviam Pulcher, mas Pulcer: nam Charitas, mas Caritas &c. o que ainda oje vemos, nos-melhores manuscritos, e inscrisoens lapidares. Mas se alguma vez a-punham despois de consoante, somente o-faziam nas palavras Gregas, ou que de lá traziam origem. De que fica claro, que na lingua Portugueza, em que nam á aspirasam alguma nem forte, nem branda; nam se-deve pòr aquele sinal, que só serve de avizar o Leitor, que aquela letra deve ser aspirada. Somente do-U duvidei por-algum tempo, se admitia antes de si h: porque, a falar verdade, parece-me ser aquela letra, que em Portugal se-pronuncia, com alguma aspirasam; porque a mesma natureza da-letra o-permite. mas dezenganáram-me os meus Italianos, que, sendo tam escrupulozos observadores da-pronuncia, nam poem h antes de disam alguma, que comece por-u: falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam. Onde nem menos os Portuguezes devem ter escrupulo, de os-escrever sem h.

Sobre as diferentes especies de II. é incrivel a bulha que alguns fazem, especialmente para determinar, quando se-deve pòr j rasgado, ao principio das-disoens. Cuido que esta grande bulha, se-pode reduzir a duas palavras. Distinguir o i vogal do-consoante, é mui necesario, para saber quando fere, ou nam fere a vogal. chamamos rasgado, ao consoante; pequeno, ao vogal; e distinguem-se pola figura. Quanto ao escrevelos ao principio, pouca dificuldade pode nacer, em quem escreve em Portuguez; vistoque rarisima palavra Portugueza comesa por-i vogal, antes de outra vogal. Onde tirando, îa Verbo, ou alguma outra rarisima, que agora nam me-ocorre; em todas as palavras Portuguezas, que comesam por-i antes de vogal, a dita letra é consoante, e deve-se escrever rasgada; ou de forma pequena, ou maiuscula, segundo a necesidade. Alguma dificuldade pode nacer, no-principio das-palavras impresas. Neste cazo nam dezaprovo, que o i de Joannes v.g. e outros semelhantes seja rasgado, para evitar alguma confuzam. Mas isto intende-se nos-nomes de fórma pequena: porque nos-de fórma grande, que é a maiuscula Romana, pouca necesidade temos de escrever i rasgado no-principio: pois com o outro, igualmente se-pronuncia bem. Quem porem em ambas as partes quizese pòr i rasgado, nam o-condenaria: principalmente se comesasem por-alguma das-duas Portuguezas, que asima aponto.

A maior dificuldade consiste em determinar, quando se-poem G, quando I, antes de e, ou i, nas palavras Portuguezas. v.g. Gente escreve-se com g: Ereje uns o-escrevem com g, outros com i, Ieronimo com i: Giro escreve-se com g: E outras vezes antes do-e &c. poem-se um j consoante. Para dar razam destas variasoens, tem alguns escrito longas paginas: mas nenhuma Regra das-que li, deixa de ter suas excesoens. Dizem, que em Gente, Giro &c. a derivasam aponta o g. concedo: mas que derivasam aponta a letra, que devemos escrever em Ereje, e outros semelhantes, que nam tem analogia alguma, com as letras da-sua derivasam? O meu parecer é este: Que os doutos, sigam a derivasam Latina, especialmente no-principio; e tanto nos-Apelativos, como Proprios, que sempre comesam por-i: tirando quando despois se-segue outro i, que entam é melhor, converter o primeiro em g, como Ginja. Que no-meio, uzem mais do-g, que do-i: vistoque nisto tambem á diversidade, ainda nos-que derivam do-mesmo Latim. Mas, nam se-lembrando da-derivasam, &c. posam servir-se indiferentemente de ambas. Os ignorantes sigam o costume e a pràtica, dos-que melhor escrevem. Nem devemos admirar-nos, se em alguma letra nem todos concordem: nam sendo posivel, que convenham todos, em materia tam duvidoza e arbitraria.

Tambem sobre as terminasoens, am, e , fazem alguns longuisimas disputas, e mui superfluamente. Confesa o Bluteau na sua Proza Apologetica, que ja saîram livros inteiros, para deitar fóra o : e que outros lhe respondèram dizendo, que o til nam era letra, mas risco. O Bluteau protege a pose do-. mas declara, que o til supre a letra n: e defende constantemente, que nam se-deve tirar o til, porque a terminasam , segundo ele diz, é mais engrasada, que o am; e por-este motivo deve-se conservar: muito mais porque seria necesario tambem, desnaturalizar as palavras, Birimbao, Catimbao, Pao, &c. Mas o Bluteau nesta materia, deixou-se guiar por-alguns prejuizos. Dizer, que o til é risco, e nam letra, é o mesmo, que nam dizer nada. O certo é, que este risco faz, que eu pronuncie um n demais, que as letras que ali vejo: onde, chamem-lhe como quizerem, é um verdadeiro n. Dizer, que a terminasam am, é diferente na pronuncia, de , é outro engano: pois em qualquer disam Portugueza, que se-ache a terminasam am, todos a-pronunciam como : e Portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas: e cuido que com muita razam; se è que a segunda se-deva tolerar.

Os que contrareiam isto, nam intendem bem a materia; nem d’onde naceo, esta particular pronuncia em . Quem bem considera o ponto, reconhece facilmente, que aquele til, é um rigorozo m final: e deveria escrever-se, Falaom: porque escrevendo-se desta sorte, e pronunciando-se depresa, faz o mesmo soido, que Falaõ. Daqui naceo, aquela particular terminasam em dos-Portuguezes: porque com a presa de pronunciarem, tocam tam de pasagem o o; que nam se-ouve mais, que o m: o qual, em vez de o-pronunciarem com os beisos fechados, que é a sua propria pronuncia; pronunciam com um soido fanhozo do-nariz: que é o estilo prezente de pronunciar todo o m final, em Portugal: nam avendo aqui m, que se-pronuncie como deve ser. Alemdeque bastava alguma reflexam, para conhecer isto; acha-se manifesta razam, para o-persuadir. A plica ou til, deve significar alguma letra: de outra sorte seria superflua, e nam produziria algum efeito. Esta letra só pode ser m, ou n, e ambos finais: porque de outra sorte sería, Falamo, ou Falano: o-que nam pode ser. Onde fica claro, que Falam, é uma sincope de Falaom: e que tanto se-pode escrever um, como outro. Reconhece-se isto melhor nos-plurais. v.g. Maõ, faz maons: Varaõ, varoens: nos-quais declaradamente se-ve o m, ou n, segundo a pronuncia. E eu creio, que antigamente nestes plurais, em vez de n, punham m; e que a dificuldade de pronunciar o m junto com o s; ou o som do-nariz, que pouco a pouco se-foi introduzindo no-m, o-converteo em n nestas terminasoens: pois ainda oje escrevendo-se com um m final, a pronuncia o-faz parecer, como n. O que, como dise, é um idiotismo particular dos-Portuguezes.

E esta é a razam, porque os Estrangeiros, nam podem pronunciar bem estas dezinencias; que na verdade sam feias, e asperas terrivelmente: porque nam á quem lhe-explique, que o til de , é um m, que os Portuguezes, por-corrusam, pronunciam como um n; nam só no-fim, mas ainda no-meio das-palavras. Reconheci isto por-experiencia: pois tantoque dei esta explicasam a alguns, e mostrei o vicio da-linguagem; pronunciáram melhor, que os outros. Daqui concluo, que as ditas terminasoens, , e am, podem-se uzar indiferentemente; vistoque uma é sincope da-outra: tendo introduzido o uzo, nam pronunciar na segunda, o o. Onde dise um erro Inacio Garcez Ferreira, e alguns outros, quando quizeram defender, que estas dezinencias eram diferentes no-soido: e quando ele lhe-chamou, sincopes das-Castelhanas. E nam sei, se confirma tambem o que ate aqui dise, ver, que na Provincia de Entre Doiro, e Minho, ainda oje se-pronuncîa, em muitas destas palavras, o o; pois dizem, Tabaliom, Escrivom &c.

Mas eu digo mais, e asento, que aindaque uma seja abreviatura da-outra, emportava muito à lingua Portugueza, que se-deitase fóra o til, e a terminasam , escrevendo-se tudo extensamente: e uma de duas, ou que se-escrevese Falaom; ou, abreviando, Falam. Introduzir a primeira escritura, serîa mais dificultozo; porque estes amigos nam querem reformas utis: e asim será melhor, preferir a segunda am, que ja está recebida em Portugal. Certo é, que quando os Portuguezes escrevem, a dita terminasam am, pronunciam : e tambem é certo, que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam. Este modo de escrever, encostava-se mais para a pronuncia: e com ele se-evitavam confuzoens. serîa também a lingua mais facil de ler, e pronunciar, aos Estrangeiros: pois bastava advertir-lhe, que entre, o a e m, deve-se pòr um o, e pronuncialo depresa. Advertimos porem, que aindaque os Portuguezes tenham, esta pesima pronuncia na sua lingua; quando porem pronunciam a dita terminasam am, no-Latim; devem pronunciala com os beisos fechados, como em seu lugar advertiremos: poisque a lingua Latina nam está sugeita, às suas leis.

Querem alguns, que em Tempo, e outras palavras, em lugar do-m, se-ponha n, porque asim soa. Cuido, que dizem mal: porque aindaque alguns pronunciem o dito m, como n, pronunciam muito mal; pois nesta voz muito bem se-ouve o m, e em outras tambem. E aindaque em outras partes, nam seja tam sensivel o m, deve conservar-se: pois se ouvesemos de tirar todos os mm, que nam se-explicam bem, poucos mm ficariam em Portugal. Em Contigo, Consigo &c. podem tiralo. Contudo quem o-quizese tirar em todas as outras, nem por-iso o-condenaria como erro.

A terminasam an, tambem cauza duvidas, a muitos Portuguezes: e eu julgo, que nam deve ter nenhuma. Acham-se omens que asentam, que nam á tal terminasam no-Portuguez, e defendem isto, com muita forsa. Se disesem, que a terminasam an, antigamente era am, nam diriam mal: mas querer defender, que oje nam á tal terminasam, é dizer um erro. Distinguem-se oje os nomes Femininos, dos-Masculinos, com esta terminasam. Vg. Vam, e Van: Irmam, e Irman. Nem me-digam, que o til é risco, e nam letra: pois ja asima mostrei, que o til é uma letra; e que a pronuncia ensina, que á-de ser n. Por-esta razam concluo, que será necesario, pòr o dito n expreso, deitando fóra o til. Muitos Portuguezes doutos seguem esta opiniam: os quais rim-se de Duarte Nunes, que queria se-dobrasem os aa, dizendo Vaã, Menhaã.

Sobre o P, ja asima dise, que nam se deve escrever ph por-f: Agora digo, que nem menos se-pode sofrer, o que muitos fazem, pòr p, antes de t, em muitas disoens. vg. Prompto &c. Esta é uma afetasam pouco toleravel: vistoque a pronuncia Portugueza, tem ja desterrado este p. Onde nam é a mesma razam do-b, ou do-g, ou do-d, que se-conservam nas palavras, Obscuro, Significo, Adverte: porque este, ouve-se mui bem: e o p, nam se-ouve sem afetasam. E nam falta quem diga, que nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo, deixar aquelas letras na pronuncia: o que eu nam condeno: como nem menos condeno, quem as-pronuncîa. Pode ser que com o tempo, se-deixem totalmente.

Quimera por-Chimera, defende Bluteau, e alguns outros: eu julgo, que sem razam alguma; sendoque o qui, tem mui diferente pronuncia, doque a que se-ouve na palavra, Chimera. Ja asima dise, que a quem nam agrada, escrever estas palavras, por-ch, é melhor, uzar o k dos-Gregos, doque o qui; que tem em Portugal diferente pronuncia, na qual expresamente se-ouve o u.

Introduzio o uzo em Portugal, dobrar os rr, quando tem pronuncia forte: e parece-me que este uzo se-deve observar, nam fazendo cazo, do-que aconselham alguns, que um só r bastava.

Nam poso sofrer, que o Bluteau na sua Proza Gramatonomica, queira introduzir, no-principio das-palavras Portuguezas, o s antes de consoante: e escrever, Squeleto, Spasmo, Scena, Sciencia &c. Esta corresam é tam fora do-escolio, que nenhum Portuguez, que nam seja Latino, saberá pronunciar aquele s, no-tal lugar: e o que souber Latim, será necesario, que pronuncie um e mui redondo. A razam disto é, porque o s Portuguez, que nam é final, é um verdadeiro sibilo ou letra sibilante, que faz ouvir a vogal ou antecedente, ou consequente. e asim, querer escrevela sem vogal, é mudar a pronuncia da-letra, e é fazer uma ridicularia, fundada unicamente em querer mostrar, que sabe a derivasam daquelas palavras. Abrasáram algumas pesoas cegamente, a opiniam do-Bluteau: mas nem por-iso dam razam, ou fazem autoridade nesta materia. Onde, antes de consoante, nunca se-deve escrever s simplez.

Deve-se com cuidado distinguir o u vogal, do-consoante v, ou v, para nam originar duvidas. O que muitos nam fazem, ainda prezados de doutos: pois vejo escrituras deles, que merecem compaixam. Isto porem nam só no-Portuguez, mas ainda no-Latim é necesario: Pois aindaque antigamente, (que os Romanos escreviam com letras maiusculas) todos os vv tinham a mesma figura: oje que, com muita razam, se-introduzio esta necesidade, devemos, no-carater pequeno, distinguir na figura estas duas letras, asimcomo as-distinguimos na pronuncia. E fazem mui bem os Alemaens, que, ainda nas letras maiusculas, distinguem o vogal, do-consoante, nos-livros impresos.

Diz Alvaro Ferreira Vera, que nenhuma disam Portugueza, deve acabar em x. Muitos porem acabam em x algumas palavras, e entre elas, Felix, Simplex &c. O que eu sei é, que a pronuncia Portugueza acaba em x, todas as palavras que acabam em s: quero dizer, que todo o s final pronunciam como x. de que nam quero outra prova mais, que cada um observe, como pronuncia o s final; e que diferensa tem do-s, que pronunciam no-meio das-disoens. O que suposto, se seja mais util, acabar em x, o que se-pronuncia como x, ou pronunciar diferentemente os ss finais; eu o-deixo considerar a V. P. Mas deixemos o s, na sua pose: observo, que nam só o s final se-pronuncîa como x, mas também o z final: o que V. P. pode ver em, Diz, Luiz, Fiz &c. E daqui cuido que naceo a facilidade, de pòr o z, em lugar de s final, naquelas vozes de que se-formam outras: como, Diz, dizes; Faz, fazes; para por-este meio fazer os plurais, somente com acrecentar es. O que eu nam condeno, mas antes aprovo, e pratîco com o exemplo, e com a razam: e cuido asim se-deve fazer. Nesta letra é digno de atensam, o demaziado escrupulo de alguns, que magistralmente decidem, que o x tem diferente pronuncia do-ch, antes de e, ou i: e que é erro dizer, Xapeo; mas que se-deve pronunciar, Chapeo, carregando muito no-ch, para o-distinguir do x: e advertem, que é erro da-pronuncia da-Estremadura, pronunciar o ch, como x. Mas, sem fazer cazo da-decizam destes Senhores, julgo, que devemos continuar, na pronuncia da-Estremadura. Nam digo, que na escritura convertamos o ch, em x: deixo as coizas como se-acham: só digo, que na pronuncia, nam á diferensa entre uma, e outra letra. Em materia de pronuncia, sempre se-devem preferir, os que sam mais cultos e falam bem na Estremadura, que todos os das-outras Provincias juntas. Ora é certo, que os ditos pronunciam docemente como um x: e nem só eles, mas muitisimos de outras Provincias, tem a mesma pronuncia. Somente alguma diversidade achei nos-Beirenses, que batem mais o dito c, encostando-se à pronuncia Romana do-c. Mas seja como for, estas nam sam razoens, para persuadir um omem, a que pronuncie o dito ch, diferentemente do-x: quando a pronuncia comua está a seu favor: a qual por-iso mesmo que é mais suave, deve ser preferida à outra. E saiba V. P. que notei outra coiza, e vem aser, que os que querem pronunciar o ch, nam como x, esforsam-se desorte, que, na violencia comque pronunciam, mostram bem, que nam é esa a sua pronuncia. O dizer, que se-devem distinguir na pronuncia, nem menos persuade: porque eles mesmos admitem que s, e c, antes de e, e i, pronunciam-se da-mesma sorte: onde nam tem que se-escandalizar. E asim o dizerem eles, é erro, nam faz forsa: devemos responder-lhe, que eles sam os que erram. Advirto porem, que no-meio das-disoens introduzio o uzo, nam pronunciar o x, como no-principio; mas segundo o estilo Latino, como se fose um cs brando, tocando ligeiramente o c: v. g. em Reflexam, Conexam &c. porque asim é mais suave. mas Paixam, ainda se-conserva em toda a sua forsa; e nam sei qual outro.

O Y tem tantos apaixonados, principalmente entre os modernos Portuguezes, que quazi abuzam dele: e acham-se livros, em que sam mais os yy, que os ii: especialmente o Curvo na sua Atalaia da-Vida, e alguns outros. O Bluteau, seguindo a Bento Pereira, diz, que se-deve admetir nas palavras, para mostrar a origem remota delas, principalmente do-Grego &c. Como se sem esta noticia, nam pudesemos saber Portuguez! Tomára porem que me-disese, se Meio, Cuidado, Saia &c. em que poem o tal y, tem alguma analogia com a origem. Outros dam outras razoens, que nam merecem reflexam, nem resposta: O certo é, que esta vogal antigamente valia o mesmo, que o u, ou tinha um soido mais semelhante a u, que a i. onde se a-quizer-mos tomar, no-seu antigo vigor, faremos uma voz desemelhante, à que queremos pronunciar: e se acazo deve valer um i simplez, tomára que me-disesem, por-qual razam a-poem, onde nam é necesaria. Daqui vem, que é erro escrever, Meyo, Ley, Hey, Rey &c. tudo isto se-deve escrever sem y, porque nam sam nomes Gregos, mas puros Portuguezes. Onde nam só os Portuguezes, mas os mesmos nomes Gregos, quando estam bem aportuguezados, como Idropezia, Ulizes &c. se-devem escrever sem y. Confeso, que nam pude sofrer o Bluteau, o qual, seguindo ao Pereira, quer, que a vogal i nam seja suficiente, para fazer ditongo com a, dizendo, Pai, Dai, &c. mas que seja de necesidade pòr o y, para o ditongo. Este parecer nam necesita de confutasam: pois quemquer conhece, que com ai, se-pronuncîa, da-mesma sorte que ay: onde o uzo serve de resposta; e nam temos necesidade do-y, para fazer o mesmo, que fazemos com o i.

Paso daqui ao Z, aquela letra desgrasada, que teve a infelicidade de dezagradar, à maior parte dos-escritores Portuguezes deste seculo: os quais nam só a-desprezáram, para introduzir em seu lugar o s; mas alguns deles com decreto asentáram, que se-devia desterrar do-meio das-disoens, e prover o seu lugar no-s. Estes Senhores escrevem quazi tudo com s. Achará V. P. em alguns dos-bem modernos * * * Cezar, Fazer, Quizeram, Miudeza, Reduzir, Fazenda &c. tudo escrito com s. Entre eles achei um, de mui boa fama, que em uma orasam * * escreve, Alteza, Solenizado com z: e pouco abaixo, Usurpáram, Lisonja com s. poem Riqueza, e logo Luminoso, Profusam. poem Fazem, e logo Religioso. Emfim a maior parte destes modernos doutisimos escrevem, Alteza, Luzes, e outras poucas palavras com z: e tudo o restante, em que devia entrar o z, vai com s. O Vieira, e outros, que nam admitem tantos ss, contudo em algumas disoens seguem o mesmo, e escrevem vg. Brazil, com z, e Reside, com s. Mas eu creio, que é necesaria mui pouca meditasam para conhecer, que todos estes erram. Os Portuguezes tem a pronuncia do-z asperisima: que creio lhe-ficou, da-comunicasam com os Moiros, e Arabios, que abundam muito diso: e eu acho em Portugual, muitos vocabulos destas Nasoens. Onde tendo o s, e z, diferentisimas pronuncias, é erro sem desculpa, pòr o s, em lugar do-z, quando este deve ter toda a sua forsa, como no-principio, ou meio das-disoens. Dezafio todos os Portuguezes, paraque pronunciem estas palavras diferentemente, vg. Luzes, e Lizonja; Abrazado, e Plauzivel; Riqueza e Religiozo. nam averá algum que se-atreva a dizer, que nas primeiras se-ouve z, e nas segundas s: mas em ambas as partes se-ouve um z mui grande, e gordo. Sendo pois esta pronuncia particular na lingua Portugueza, acha V. P. que se-pode sofrer, desterrar todos os zz, para introduzir uma letra, que soa diferentemente? a isto chamo eu destruir, nam emendar, a boa Ortografia. Alem diso, eu acho em Portugal motivo, para dizer o contrario. ponhamos exemplo nestas duas palavras, Azeite, e Aceite; ou tambem, Razam, e Raçam. Ninguem dirá, que estas duas palavras soam da-mesma sorte: porque em tal cazo nam averia motivo, para as-distinguir na pronuncia. todos tambem conhecem, que o c, com cedilha ç, antes de vogal, pronuncia-se como s; e que por esta razam muitisimos Portuguezes indiferentemente uzam delas. Daqui pois segue-se, que se z, se-deve pronunciar como s, os ditos pares de vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte. Mas sem eu perguntar isto a omens doutos, mas somente ao leigo da-cozinha de V. P. sei que me-responderá, que Razam, e Raçam, sam coizas mui diferentes: Azeite, e Aceite, nam menos: E asim nam tenho lugar de duvidar, que, pronunciando-se diferentemente, devem tambem escrever-se, com letras diferentes. Se concedem, que o z se-deve conservar, em algumas vozes, como todos concedem; que razam á, para o-nam-conservar nas outras? Se dizem, que o dito s se-deve pronunciar como z, merecem rizo quando querem pòr aquele por-este. ou deitem fóra esta letra do-alfabeto; ou escrevam-na onde deve entrar. Fazer o contrario, é destruir a pronuncia da-lingua, ou batizar de novo as letras.