Somente porei z em lugar de s, no-fim de algumas disoens, de que se-formam outras, como asima dise: porque o uzo introduzio esta pronuncia do-z, semelhante ao s. o que suspeito que provèm de uma Apocope, que se-acha nas tais palavras: e que antigamente despois do-z se-punha uma vogal: como á exemplo em muitas linguas, e também na Portugueza.
Lendo eu a este intento o Bluteau nos-opusculos,[9] fiquei confirmado, que poucos omens pensam bem, ainda dos-que tem bom nome. Confesa, que muitos eram de parecer, que s’escrevese Filozofia, sem ph: e que sempre se-avia de seguir a pronuncia, pois era esta a maior excelencia do-Portuguez; no-qual as letras dobradas eram inutis. Que desta opiniam era Duarte Nules de Leam, & Joam de Barros, nas suas Ortografias; e outros muitos autores, que escrevèram da-lingua. Contudo diz, que na Academia do-Ericeira se-asentára, que nem sempre se-devia escrever como a pronuncia: Mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens sem corrusam, s’escrevesem como na sua etimologia, quando as letras nam fosem como a pronuncia: e asim Coro, e nam Choro: Monarquia, e nam Monarchia: E que os zz s’evitasem muitas vezes, servindo-se do-s. Confeso a V.P. que nam pude ler isto sem rizo. Eu nunca li as obras do-Leam, ou Barros, nem me-cansei em buscalas: mas agora fico formando melhor conceito deles. Polo contrario nam sei, quais eram os votantes na dita conferencia: porem olhando para o que asentáram, formo mao conceito do-seu juizo: pois conhecendo a razam, e tendo bons autores, que os-apadrinhasem; ainda asim quizeram seguir os prejuizos e preocupasoens que mamáram, somente por-serem antigas. Isto certamente nam é emendar a Ortografia. O pior é, que o Bluteau conhecendo isto mesmo, como em algumas partes confesa, deixa-se guiar da-corrente. Asima mostrei, que Monarchia, deve-se escrever com ch, vistoque asim escrevem Archanjo os contrarios &c. e nam tem divesa razam, sem cairem em uma superfluidade. Devendo pois desterrar o ch, é melhor servir-se de k; mas nunca de q. O mais tambem ja fica advertido.
Certamente que o dizer o Bluteau, que nos-nomes se-deve observar, a Ortografia da-derivasam, como em Philosophia &c. porque de outra sorte nam se-saberám buscar nos-Dicionarios; é reflexam que merece rizo: porquanto as derivasoens, só as-procuram os doutos: e estes bem as-sabem. os ignorantes, nem asbuscam, nem necesitam de buscalas, aindaque queiram falar, e escrever puramente.
Até aqui tenho feito algumas reflexoens, principalmente sobre as coizas, que se-devem deixar: agora farei outras, sobre as que se-devem acrecentar. Nam cuide V. P. que estas sam de menor momento nesta materia: antes muitas vezes delas depende o aumento, a pureza, e elegancia da-lingua. Ponho em primeiro lugar os Acentos: que creio, sam indispensavelmente necesarios, para distinguir muitas palavras. Nam podemos sem eles saber, se Amara, é preterito, ou futuro: e damesma sorte em outras muitas palavras. Tambem para distinguir os Nomes, dos-Verbos, vg. Pronuncia nome, de Pronuncîa verbo. Asimque este deve ser todo o cuidado dos-mestres: que devem advertir aos discipulos, em que partes se-devem pòr, para bater com mais, ou menos forsa as vogais, e distinguir os tempos, e as vozes: vistoque os Portuguezes nam tem letras dobradas, que antigamente serviam a outros, para mostrar as diferentes pronuncias. Porque eles com as dobradas, pronunciavam diferentemente: e os Portuguezes, tirando em pouquisimas palavras, pronunciam como se estivese uma simplez letra.
Nam ignora V.P. que as virgulas, pontos, e dois pontos, foram inventados, para distinguir melhor o discurso. Este é um dos-defeitos da-antiga escritura, que tinha poucos sinais destes: e por-iso é às vezes bem embrulhada. Muitas vezes verá V.P. um ponto, despois de cada palavra: o que faz grandisima confuzam. Outras vezes, o lugar em que punham o ponto, mostrava a diversidade da-pontuasam: quero dizer, que o polo na cabesa, ou no-corpo, ou no-pé da-letra, mostrava que era virgola, dois pontos, e ponto. E como nam temos documentos bem claros, ainda oje vareiam muito os Gramaticos no-determinar, quando era ponto, e quando virgula &c. Com efeito eu vi uma lapide antiga, na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio, no-corpo das-letras: o que aumentava a confuzam. Os Modernos mais advertidos inventáram estes diversos sinais, para nam nos-enganar-mos nas pauzas, e no-sentido do-discurso. Mas ainda nisto procedèram devagar: e eu vi livros impresos nos-primeiros tempos, quero dizer, nos-fins do-seculo XV. e principios do-XVI. nos-quais nam avia mais que virgulas, e todas damesma figura: o que aumentava sensivelmente o embaraso: sendo necesario um grandisimo estudo, para distinguir os sentidos. E isto se-pratîca ainda oje nos-originais das-Bulas Romanas, escritos sem virgulas, nem pontos: os quais quem nam é pratico dos-estilos da-Dataria, nam pode ler; nam só polo carater Gotico, mas pola Pontuasam. Os Modernos evitáram isto, com a diferensa de figuras. Onde sendo os Acentos, os que tiram a confuzam à pronuncia, e ensinam, como se-devem distinguir as partes do-discurso; valem infinito preso, e devem praticar-se com cuidado. Nam digo, que escrupulozamente pratiquemos as trez sortes de acentos: pois nem os mesmos Romanos se-serviam muito do-circumflexo, que com o tempo perdèram. basta uzar do-agudo, que se-escreve asim (´) para bater mais as silabas: do-grave neste modo (`) para as particulas, que se-tocam menos: em algum cazo quem quizese podia pòr o circumflexo sobre o î, para dar lugar ao ponto desima. Ifto é o que basta.
Aos acentos seguem-se as linhas, que se-escrevem entre as disoens, para as-juntar, ou dividir na pronuncia. Os Ebreos tambem tinham estas linhas, e alguns Povos Europeos. Algum Portuguez a-uza. mas serîa justo que a-uzasem mais, e com regras determinadas: pois ajuda muito a pronuncia, e distingue muito as disoens, principalmente as compostas. Julgo, que se-deve uzar naquelas, que compoem duas palavras perfeitas, que costumam estar às vezes separadas. v.g. Fazemos-lhe, lhes-fazem, nos-dizem, dizem-no &c. Com isto se-mostra, quando os Pronomes unem com os Verbos, nam só no-sentido, mas na pronuncia: e finalmente, quando muitas disoens na pronuncia compoem uma. Deve-se tambem pòr entre a Particula se, quando é Pronome, e o Verbo. v.g. Se se-fizer. o primeiro se, é Conjunsam condicional: o segundo, é Pronome, e une com o Verbo. Onde a dita linha é de grande utilidade, para mostrar as palavras, que devem pronunciar-se unidas. v.g. o Nos, algumas vezes é Nominativo, Nós fazemos; e pronuncia-se separado, e com acento forte: outras vezes é Cazo, v.g. nos-fazem: o que se-distingue mui bem com a dita linha. Tambem às vezes serve, para distinguir os tempos. v.g. Amáse preterito, e Ama-se prezente, com esta linha se-distinguem: porque esta separasam de vozes mostra, que, quando chegamos ao a, deve correr a pronuncia, para apanhar o se: que é o mesmo que dizer, deve nam parar no-a, nem carregalo: no-que se-distingue o tempo. Sei, que com os acentos se-podem distinguir estas coizas, digo, este ultimo cazo; e por iso digo, que ou uma, ou outra coiza se-deve praticar: aindaque eu, por-intender que sam necesarias, pratîco ambas.
Quanto ao se, nam só deve ter linha, quando se-une imediatamente ao Verbo, mas tambem quando s’interrompe com a Particula negativa. v. g. se-nam-faz, quando vale o mesmo que, nam se-faz. porque aindaque a Particula paresa que separa; contudo no-dito cazo a negasam é unida ao Verbo, e faz com ele um só corpo, e sentido: damesma sorte que entre os Latinos, a particula in unida aos Verbos. Onde a separasam, é somente quanto à vista: e as duas linhas ensinam, que se-deve pronunciar tudo, como uma só palavra. Serve às vezes a dita linha nam só para unir as palavras, que ese é o seu principal fim; mas para evitar os equivocos. E asim poem-se na Particula Por, quando significa cauza &c. para distinguila do-Verbo Pôr. tambem nas Particulas no, do, da, para as-distinguir dos-Sustantivos nó, e dó, e do-Verbo dá, ou dás. Em todas estas, e outras semelhantes, milita a mesma razam. nas quais porem será justo pòr acento, quando deve ser.
Em outras partes tenho visto uzar estas linhas, que nam me-parecem de tanta necesidade. v.g. Fazemos: que algum douto escreve: Faze-mos: ou tambem quando uma consoante se-converte n’outra, para evitar o concurso de muitas vogais: v.g. Fazé-la, Amá-la, que vale o mesmo que, Fazer-a, Amar-a. Mas nestas primeiras pesoas do-plural parece escuzada, porque se-intendem muito bem, e estam muito em uzo. E o mesmo julgo, dos-segundos exemplos: muito mais porque nestas em que vai La, muitas nam se-acham separadas às vezes, v.g. Quere-la &c. Mas quem nestes segundos exemplos ateimáse a praticala, nam faria erro. O que porem me-parece afetasam é, querer separar esta voz Mente, dos-nomes com que faz Adverbio: Pia-mente, Antiga-mente &c. Na pronuncia destas disoens, nam pode aver engano: e quem as-separa, intende mal as coizas.
Podem opor-me uma dificuldade, vem aser, quando se-dividem as palavras no-fim das-regras, como á-de conhecer quem copeia, se na seguinte regra deve pòr a palavra inteira, ou com a dita linha. Mas a isto respondo, que se-conhece muito bem deste modo: se as palavras se-dividem por-necesidade da-regra, poem-se no-fim duas linhas asim =: quando se-dividem na divizam da-linha, basta pòr uma só linha. Primeiro exemplo asim: Fa=zia: segundo exemplo: Faz-me. Se no-fim da-regra se-acha o Fa= com duas linhas, é sinal que na imprensa, ou copia deve ser inteira a disam: se tem só uma linha, sucedendo ficar toda a disam na seguinte regra, deve ter tambem a linha: e isto é facil de praticar.
Creio que será mui justo, introduzir na lingua Portugueza, os Apostrofes: que sam umas virgulas, que se-escrevem no-alto de uma consoante antes da-vogal seguinte; para mostrar, que falta uma vogal, e que a consoante se-deve unir na pronuncia, com a vogal da-seguinte disam. Digo na proza, porque no-verso o Camoens, e outros ja os-introduzîram. Os nosos Italianos introduzîram os Apostrofes, para abreviarem as disoens: vistoque, comendo-se as ditas vogais na-pronuncia, é superfluo escrevelas: bastando ali pòr o sinal, de que deveriam estar. O mesmo fazem os Francezes: e cuido que, sem alguma censura, o-podem introduzir os Portuguezes. Onde será permetido escrever, Amor d’ Antonio: Cam d’agua &c. A razam disto é, porque ou na proza, ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal: e asim podemo-nos dispensar de a-escrever. Em 2. lugar, porque nam se-perde com isto o sentido, nem se-faz equivoco. Em 3. porque faz a pronuncia mais doce. o que principalmente se-conhece, quando as vogais sam semelhantes: no-qual cazo pronunciar dois ee, ou dois aa, é aspero, e cansa. Asim cuido, que neste cazo, é necesario; nos-outros, mui agradavel o Apostrofe. Nem isto é tam novo em Portugal, que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia: antes nam á coiza mais frequente. Considere V.P. estas palavras, Deste, Daquele, Damesma, e outras semelhantes; e verá nelas o que digo. Antigamente escrevia-se, De este, De aquela, De a mesma &c. o que facilmente alcansa quem considera, o que vale aquele d, e com que motivo se-introduzio. Mostrou a esperiencia, que, pronunciando estas particulas separadas, ficava aspera a pronuncia: e asim deitaram-nas fóra até da escritura. O que suposto, o que eu aconselho é, que pratiquem com as outras disoens, que se-unem na pronuncia, o mesmo que tem praticado com estas: e que em ambas as partes ponham o Apostrofe, para mostrar a vogal que falta; e com isto ensinar melhor a compozisam das-disoens, sabelas conhecer, e buscar. Apostarei eu, que de dezmil omens Portuguezes, a um só nam veio nunca à imaginasam, que Deste &c. é composta de De, e Este. Proguntei isto a alguns, e nam me-souberam responder: e contudo serviam-se indiferentemente destes termos. Eu teria uzado mais amiudo dos-Apostrofes: mas como ainda nam estam bem introduzidos, temo que me-nam-intendam. pouco a pouco devemos acostumalos a isto.
Outra coiza tenho que repreender, na maior parte dos-Portuguezes, e vem aser, que dividem muitas disoens, que deviam estar juntas. Vg. escrevem, Ainda que, Para que, Com que, Por que, e outras conjunsoens semelhantes. Mas erram, porque aquelas palavras quando se-seguem umas a outras, devem estar unidas, e fazem uma só palavra: e até isto pode ser necesario, para fugir de equivocasoens. Se eu diser: Para que omem me-manda! Com que razam me-persuade! neste cazo o que, é Relativo. e deve estar separado. Mas quando significa o mesmo, que etsi, ut, igitur, quia, como nas quatro asima apontadas; deve estar junto: o que servirá muito, para os-distinguir ambos. Isto mesmo praticáram os Romanos. Attamen, Etenim, sam compostos de At, tamen; Et, enim. Quamobrem é composto de trez disoens, nenhuma das-quais é Adverbio: e contudo juntas fazem de muitos nomes um. E isto mesmo devem fazer os Portuguezes nestas disoens indeclinaveis: e ainda algumas vezes nas declinaveis, que se-unem com o Articulo &c. o que o uzo ensinará; e a pratica dos-omens doutos confirmará.
Tambem sobre os Plurais serîa necesario, establecer um uzo constante. O P. Bento Pereira diz, que o plural de al, é ais, e nam aes. e parece que tem razam; porque a pronuncia mostra um i, e nam um e. Mas nisto á tanta variedade, que uns escrevem ais, outros aes: e o pior é, que o mesmo escritor serve-se às vezes, d’ambas as terminasoens. Um destes é o Bluteau: que, tendo aprovado na Proza Gramatonomica a opiniam do-Pereira, contudo escreve Misaes, e outros plurais semelhantes. Mas ja adverti, que o Bluteau é inconstante na Ortografia. Mais controversos sam, os que acabam em er, como Chanceler, cujo plural querem muitos que seja Chancereis: e nisto tropesa muita gente boa. Cuido, que é mais proprio, e mais chegado à analogia, Chanceleres: e asim todos os mais. Damesma sorte Almiscar, deve fazer, Almiscares. Tambem é mui duvidozo o plural de Simplez, como tambem Feliz. Muitos escrevem o primeiro com x, em ambos os numeros: o que aumenta a confuzam. Outros escrevem no-singular, Simplice: que parece afetasam vergonhoza. Ou acabe em s, ou z no-singular, o plural deve acrecentar somente um es: v.g. Simpleses, ou Simplezes. O mesmo digo, dos-que afetam dizer no-singular, Felice, e plural Felices. Digo, que no-singular deve-se dizer Feliz, ou com s, ou z; e no-plural Felizes: e asim dos-mais. as palavras Indice, e Index, ja oje se-recebem indiferentemente em Portugal. Que Brazil, fasa Brazis, está muito bem: mas que Malsim, Beleguim, fasam Malsis, Beleguis, como querem alguns; é contra a pronuncia boa, que mostra um n mui claro. E asim estes em im, devem acabar em ins, Malsins. Os outros plurais em aons, aens, e oens, é facil determinalos; advertindo as anomalias que se-acham nas tais regras, que nam sam poucas.
Mas nam pára a qui a reforma: deve-se dar um paso mais adiante, e acrecentar muita coiza, em que é defeitoza a lingua Portugueza. Consiste a primeira, em adotar algumas palavras Estrangeiras, para explicar melhor o que queremos. Nam acho em Portugal palavra, que explique a idea que formam os nosos Italianos, (e ainda os Francezes) quando proferem esta palavra, Penso: dizendo, Um omem que pensa bem: Que pensa mal &c. Dizer, Ajuizar, nam explica: porque ajuizar é uma especie de Pensar; mas nam compreende tudo quanto diz, Pensar. Nem menos serve, Considerar: porque considerar é o mesmo que Meditar, Examinar uma materia; e Pensar diz mais. Um meu amigo, para dezatar este nó, servio-se de Pensamentear: mas parece afetado. É mais proprio e natural, servir-se do-Verbo Pensar, que compreende todas as operasoens do-intendimento. Onde, diremos que um omem Pensa bem, quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento, como deve ser.
A mesma dificuldade pode nacer em outras palavras. Aqui confundem Iuizo, e Intendimento: sendo coizas muito diferentes. porque cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma, esta de intender, aquela de julgar. A estas duas unem outras duas, Ingenho, e Talento: as quais nam só sam diferentes das-ditas, mas entre si. Ingenho, somente explica a facilidade que temos, para unir diferentes ideias, de um modo que eleve. Talento, significa a capacidade tanto de intender, como de julgar, e discorrer. Serîa bom, que se-distinguisem estes significados, e se-explicasem aos rapazes, para nam confundir as palavras. Parece-me, que para explicar aquilo, a que os Latinos chamam, Mens, Intelligentia, e algumas vezes Intellectus, se-podia adotar em Portugal a palavra Mente, como fazem os nosos: a qual explica melhor tudo. O uzo tem introduzido, que Intendimento seja sinonimo de Mente.
A estas se-podiam ajuntar outras muitas palavras Estrangeiras, que explicam melhor o que se-quer dizer; principalmente quando se-trata de Artes e Ciencias: cujos termos é necesario uzar, mas com cautela. Nam digo, que se-devam adotar cem mil termos Latinos, que no-Portuguez sam inutis: antes condeno isto muito em bastantes Portuguezes, que enchem os seus escritos, de mil palavras Latinas sem tom nem som, somente para parecerem eruditos. Este é aquele vicio dos-pedantes ou ignorantes, a que os nosos chamam, Pedanteria. O que digo é, que nam avendo termo proprio em Portuguez, se-pode, e deve buscar fóra: e muitas vezes pode-se buscar fóra, nam tanto por-preciza necesidade, quanto para maior ornato da-lingua: aqual é justo que nam seja tam pobre, que nam tenha algumas ocazioens dois ou trez sinonimos, para explicar as mesmas coizas: outras vezes para adosar a pronuncia aspera de algumas vozes antiquadas: e fazer seja mais bela, e mais suave a lingua materna. Mas aqui é que está o juízo, em sabelos adotar sem afetasam. Porei um, ou dois exemplos. Em Portugal nam á nome proprio, para nomiar aquele criado de libré, que acompanha seu amo a pé vizinho à carruagem, ou cavalo. Os nosos Italianos explicam isto com uma palavra, Staffiere, ou Palafreniere. Porque nam uzaremos destes termos em Portugal? Chamamos aqui Letrado, ao que advoga nas cauzas: chamamos aos omens doutos, Letrados. Mas isto é uma impropriedade. Letrado, Douto, Erudito, Sabio, sam sinonimos, mas de significasam mui generica. Aos que advogam, deviam chamar Advogados: que é o seu nome proprio, ainda na lingua Latina, como diz Quintiliano, e Asconio: Advocatus, i. e. Patronus, Caussidicus. Adotáram os Portuguezes estas palavras, Berlinda, Paquebote, Estufa, Sege &c. para distinguir as diferentes sortes de carruagens de que uzam: mas podiam adotar muitas mais: avendo aqui outras carruagens, que nam tem nome proprio, que em outras partes o-tem. As artes Liberais, Ciencias &c. tratando-se em Portuguez, devem ter os seus nomes Estrangeiros, mas aportuguezados. Finalmente, se eu ouvese de escrever tudo, o que me-ocorre nesta materia, faria um groso volume: e asim contento-me, de apontar estes exemplos. O que encomendo muito é, que com este pretexto, nam nos-encham a lingua de Latinismos, Francezismos, e Italianismos, como entre outros fez Inacio Garcez, nas Notas ao Camoens.
Serîa mui util, que os omens doutos introduzisem uma terminasam certa, em todos os Patronimicos de Provincias &c. no-que falta muito a lingua Portugueza. A um omem das-Provincias, chamam Algarvio, a outro Alemtejam, a outro Minhoto, Beiram &c. E ainda estes nomes nam sam geralmente, e benignamente recebidos; porque se-reputam injuria. Mas o pior é, quando pasamos aos Patronimicos de Cidades; comumente nam se-acham: mas dizem: Um omem d’Evora: Um d’Elvas &c. Neste cazo parece licito, fazer nomes novos, e dizer, Evorense, ou Eborense, Coimbrense, Portuense &c. E o mesmo dos-outros antecedentes: os quais podem terminar-se em duas maneiras: v.g. Algarviense, ou, com outra dezinencia Romana, Algarviano: Alemtejense, Alentejano: Beirense, Beirano &c. Nos-nomes de Provincias Ultramarinas, deve-se observar o mesmo. v. g. Brazileense &c. Insolense, Indiano &c.
Em todo o cazo porem, tanto na introdusam de nomes novos, como na pronuncia dos-antigos, sempre se-deve cuidar, em adosar a pronuncia, e fazela, quanto mais puder ser, facil. Nisto pois á muito que condenar em Portugal, principalmente nestes modernos eruditos; que, querendo parecer elegantes, e mui versados na sua lingua, e origens dela; dizem coizas, que é uma piedade ouvilos. V.g. Escrevem, Volumozo: sendo Voluminozo muito mais suave, e mais chegado à analogia Latina. Dizem, Exceptas: sendo mais natural Excetuadas, que vem do-Verbo Excetuar, que é mui Portuguez: quando polo contrario nam acho nela, o verbo Exceptar. Dizem, Eregia: que ofende os ouvidos com a pronuncia: sendo melhor Erezia, que é mais doce e nem por-iso menos conforme ao Latim. Dizem, Pesoa comum: que é uma verdadeira ridicularia: porque aindaque a palavra comum, signifique coiza de muitos; deve ter as suas duas terminasoens em Portuguez, asimcomo tem no-Latim, em que explica diferentemente o Neutro: e o superlativo Communissimus, tem trez mui redondas. Onde deve dizer-se, Coiza, ou pesoa comua &c. Finalmente, (deixando por-agora outras reformas destes escrupulozos) nóto que escrevem Pai, Mai, ou com y, ou com i. Quanto ao primeiro concordamos: mas nam no-segundo: porque na pronuncia ouve-se um e, e n mui redondo: e asim deve escrever-se Maen, porque asim pronunciam os omens de melhor doutrina. Nem vale o dizer, que com isto se-conformam mais, com outras semelhantes palavras Portuguezas: porque, como ja dise, o uzo, fundado sobre a pronuncia mais doce, faz lei neste particular[10]. Tambem eles dizem Catam, Varram &c. e no-mesmo tempo dizem Cicero, Pollio &c. e nam Ciceram, Polliam &c. sendo a mesma razam. No-mesmo Latim, ou Italiano vemos, que uma palavra se-pronuncîa de um modo, e outra, que vem damesma origem, diferentemente. o que V. P. pode ver nos-livros de Cicero, que apontei asima, que traz exemplos de tudo: por-nam citar agora exemplos vulgares, que sam muitos. Asim asento, que, com esta regra diante dos-olhos, é que se-deve emendar e reformar a lingua.
Mas o que me-dá mais vontade de rir é, ver as cautelas que praticam, para dizerem, Porco. Uns dizem, o Gado mais asqueroso: outros dizem, Carne suina: e louvam muito isto em alguns antigos escritores. Tudo puerilidades. Porco nam é palavra obcena: dizem-na os Latinos, e os nosos Italianos diante do-Papa. Antes creio que asquerozo, traz a memoria nam só coiza suja, como o porco, mas coiza que volta o estomago. Estas delicadas orelhas pronunciam, sugidade, escremento, lesmas, ratos, persevejos, piolhos, pulgas, e outras coizas imundisimas sem dificuldade: e acham-na grande em pronunciar, Porco. Que lhe-parce a V. P. a esquipasam?
Finalmente devo advertir a V. P. que estes seus nacionais, ainda falando, pronunciam mal muitas letras no-meio; mas principalmente nos-fins das-disoens. V.g. e final, pronunciam como i: como em De-me, Pos-me &c. todo o o final, acabam em u: v.g. em Tempo, Como, Buxo &c. cujos nomes quem quer pronunciar à Portugueza, deve acabar em u. todo o m final, e no-meio, como n. todo o e antes de a no-meio da-disam, pronunciam como se-fose um tritongo. v.g. Cea, Vea: que pronunciam Ceia, Veia: namobstanteque na escritura, comumente nam ponham o i. E nisto merecem rizo alguns Portuguezes, que nas suas Ortografias impresas ensinam, que na lingua Portugueza se-devem pronunciar algumas letras, aindaque nam estejam escritas: e que umas letras devem pronunciar-se por-outras; v.g. achando-se Outo Dous &c. se-deve pronunciar o u, como i. Isto, como digo, é querer confirmar os rapazes, nos-seus erros. Deveriam polo contrario dizer, que, pronunciando-se o i em Cea, se-deva escrever tambem com i, para se-conformar com a pronuncia: Muito mais porque eles escrevem Meio, Veio, Correio com i, e a mesma razam milita, nos-que apontamos, e semelhantes. Damesma sorte achando-se escrito Outo com u, deveriam ensinar aos rapazes, a conformar-se com a escritura, se intendem que é arrezoada: se porem intendem, como na verdade é, que parece aspera e dura; deviam dizer, que se-escrevèse com i; e nam enganar os rapazes na pronuncia.
E na verdade nam poso intender, por-que razam, pronunciando os omens doutos nos-seus discursos, Dois, Oito, Oitenta, Toiros, Coizas &c. devam na escritura mudalo em u; se nam é por-se-conformar com quatro velhos impertinentes, que intendem e julgam mal das-coizas. Este é o mesmo cazo de Optumus, Maxumus, Dividundo, Faciundo, e outros semelhantes dos-Latinos. Cicero, Cezar, Nepote, e outros omens cultos, nam puderam sofrer aquela pronuncia; e convertèram aquele u em i, para fazer suave a lingua: Salustio, que nos-ultimos tempos o-quiz conservar, foi criticado: e nem menos agradou Varram, que era o protetor das-antiguidades. Onde deve isto tambem ser permetido na lingua Portugueza, que filha damesma maen, tem as mesmas qualidades. Parece coiza galante, que estes omens, em vez de facilitar aos Estrangeiros, a pronuncia da-sua lingua; só busquem meios de aumentar, a aspereza dela. Certamente que o Camoens no-XVI. seculo, apurou muito a sua lingua, servindo-se da-Italiana &c. e isto devemos nós tambem fazer, emendando os erros de Camoens, nam só no-que digo; mas em outras coizas, em que ele pecou, e eu podia advertir. Concluo dizendo, que na lingua Portugueza, nam só se-devem tirar as letras superfluas, onde nam se-pronunciam; mas escrever outras, que se-pronunciam, e até aqui se-deixavam. Onde, todas as vezes que se-pronuncîa o i entre e, e a; deve-se escrever. V.g. Cadeia, Ideia, Ceia, Veia &c. vistoque os Portuguezes escrevem comumente, Meia de calsar, meia duzia &c. e a razam é a mesma em ambas as partes. Por-esta mesma razam se-deve escrever em todos os Verbos, como Leia, Paseia &c. porque se os-pronunciasem como Ceo, Plebeo, Chapeo &c. neste cazo era justo que lho-tirasem: mas levando o i na-pronuncia, tambem o-deve ter na escritura. Desta sorte somente, se-poderá introduzir uma Ortografia certa, e geral, que nam necesite dar diversas razoens em todas as palavras. Repare V. P. que eles escrevem Aia, Maia &c. com i, porque o som desta vogal é claro: e porque nam faram o mesmo com outros nomes, que sam puros Portuguezes?
Acho alem disto omens, que aconselham, se-tire de Arrecadar, Arrematar &c. o arre; e se-diga, recadar, rematar. Sam deste parecer o Bluteau, e algum outro. Mas estas orelhas tam delicadas e escrupulozas, que se-ofendem com tais minucias; nam tem dificuldade, de se-servirem em todas as paginas destes termos, Com noticia; &c. o que abunda no-Bluteau: ou, como diz o Vieira, Por razam, e outras tais. Parece-me, que estas cacafonias menos sofriveis, se-deveriam evitar; deixando as outras que nada ofendem. Este metodo de reformar a Ortografia, era melhor que se-nam-impremise.
Ora deste dano de pronunciar mal o Portuguez, de que até aqui fizemos mensam; rezulta outro, de conservar no-Latim os mesmos erros. onde serîa mui util, que se-emendasem quanto pudesem. Sei, que isto tem sua dificuldade, porque os ignorantes sam muitos, e pronunciam mal: mas Roma nam se-fez em um dia. Seja V. P. um dos-primeiros a dar exemplo: persuada isto mesmo aos seus amigos: que os outros os-imitarám. Deste modo introduzirám em Portugal uma Ortografia, quanto mais poder ser, constante; o que até aqui nam tem avido: e asim será mais bela, e facil a pronuncia; e mais armoniozos os versos Portuguezes.
Isto me-parece basta advertir, sobre a Ortografia Portugueza, visto nam fazer tratado dela. muito mais, porque com estas poucas regras, se-pode responder, às outras dificuldades que ocorrerám. Algumas observasoens de menor momento, podem-se ver, nas Ortografias Portuguezas: tendo a advertencia, de nam se-deixar enganar, das-regras que dam, porque comumente sam mui más. O P. Bento Pereira, que cuido foi dos-primeiros que escrevèram nesta materia, dá muito más regras; e só proprias para destruir, o que cada um sabe. O Barreto, o Leam, o Vera, tem algumas coizas boas, entre outras muito más. Na mesma clase ponho, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas; e algum outro. Tais autores copiaram-se fielmente uns a outros, sem examinarem a materia.
Sei que alguns, dam em razam do-que escrevem, acharem-no asim escrito, nos-antigos Portuguezes. Mas esta razam, é de caboesquadra. Porque tratando-se de linguas vivas, que nam estavam purgadas polo pasado, mas que na nosa idade, se-vam reduzindo à perfeisam; e desta, da-qual no-noso tempo, apareceo o primeiro Vocabulario; nam devemos estar, polo que diseram os Velhos: mas examinar, se á razam, para se-dizer asim. Observe V. P. que os que asim respondem, contrareiam-se na pratica: porque nam uzam daquelas palavras toscas, que ainda lemos nas leis antigas, nos-testamentos, doasoens, e outros documentos, que deixáram os Antigos. Serîa uma ignorancia manifesta, e afetasam indesculpavel, falar oje com muitas palavras, de que uzáram os antigos Portuguezes. E isto, nam por-outra razam, senam porque a lingua se-foi purgando, e os omens mais capazes intendèram, que se-devia falar de outra maneira. E se isto se-pratîca, com inteiras palavras, porque o-nam-praticaremos, com melhor pronuncia?
Alem disto, é ja coiza muito antiga, que o uzo e juizo dos-omens doutos, e de boa eleisam, decida neste particular. E como ajam muitos Portuguezes inteligentes, que escrevem polo contrario; e asinam boa razam do-que dizem; nam tem lugar nisto, uma prescrisam sem fundamento. No-tempo de Cicero, a lingua Romana tinha de idade, polo menos, uns setecentos anos; (contando somente da-fundasam de Roma: porque sabemos, que a lingua do-Latio é muito mais antiga) e contudo ele, e outros omens doutos, a-purgáram muito bem. Observe V. P. os fragmentos que temos, de Livio Andronico, Enio, Estacio Cecilio, Pacuvio &c. e as obras de Catam o velho, de Plauto; e achará, palavras dezuzadas, e mui toscas; e, em algumas obras, uma compozisam languida, e sem grasa. Prosiga mais para baixo, examine as obras de Terencio, Lucrecio, Varram, Catúlo, Salustio &c. achará neles a lingua mais mudada, e palavras mais polidas. Desa finalmente à ultima fineza da-idade de oiro da-Latinidade, quero dizer, aos que melhor faláram, no-seculo de Augusto; e sempre lhe-crecerá a admirasam, porque crece a mudansa. Pacuvio, e Estacio tem tanta semelhansa com Cicero, Cezar, Cornelio Nepote, Virgilio, Oracio &c. como o dia com a noite. naqueles, tudo é inculto: e nestes, tudo é polido, palavras, fraze, e metodo. E mais todos entram na idade de oiro! O mesmo Cicero, em alguns seus tratados, adverte, quanto trabalhára neste particular, para apurar a lingua. Oracio tambem adverte, que o bom uzo, é o que emenda as linguas. Finalmente advertiram os Gramaticos, e Oradores de melhor nome, que a Ortografia, está sugeita ao costume[11]: e um douto Latino, deixou escrito nesta materia: Antiquitatem posterior consuetudo vicit[12]. E nem somente encontrará V. P. palavras mudadas, mas novas. Os Romanos nam tinham palavras para tudo: e asim foi necesario tomalas prestadas: principalmente em materias de Ciencias, e Artes: as quais adotáram como Latinas. Este é o privilegio das linguas vivas. Mas certamente nam conhece este privilegio, quem se-escandaliza, como vi alguns, de que se-recebam palavras estrangeiras em Portugal. Se os Portuguezes as-nam-tem, que mal fazem, em pedilas aos outros? Nam aprovo porem, o que muitos fazem, servir-se sem tom nem som, de vozes estrangeiras, e palavras puramente Latinas, tendo outras Portuguezas tam boas. O que observo em muitos, que prezumem de Criticos, e Poetas: especialmente no-dito Inacio Garcez Ferreira. O que digo é, que nam se-achando proprias, nam é delito, procuralas em outras linguas; ou fazelas novas: e que, quando as proprias sam asperas, se-devem adosar.
Este mesmo uzo, de purgar as linguas, melhorando na boa pronuncia, e enriquecelas com palavras novas, quando á necesidade; está geralmente introduzido. Achei livros, ainda impresos, Inglezes, Francezes, Espanhoes, e Italianos, com infinitas palavras, que ja oje nam estam em uzo, e com um estilo de fraze pouco uzada. e lembro-me agora, ter visto á anos, um livro de Genealogias de Flandres, escrito polos anos de Cristo 1400., em um Francez tam embrulhado, que o-tinham imprimido, com a versam de Francez moderno a lado: sem o qual socorro, nam era facil intendelo. Os nosos antigos Poetas tem palavras, que oje se-nam-recebem. Em Dante, e Petrarca, acham-se coizas nam mui finas; e tambem em outros. Os Modernos de todas estas Nasoens, melhoráram sobre os Antigos, e serviram-se do-seu direito, para emendar a lingua. os mesmos Portuguezes o-fizeram. Finalmente isto é tam claro, que me-envergonho de o-provar. E com efeito, a estes que asim respondem, ou asim argumentam, seria mais acertado, nam-lhe-responder. É fazer-lhe muito favor mostrar, que tais argumentos tem resposta. Mas eu o-faso aqui, porque a amizade de V.P. me-obriga a obedecelo: e escrevo isto, mais para satisfazer ò seu dezejo, doque à materia.
A outra razam, que outros afinam, para se-desculparem dos-seus erros é, que umas vezes dobram as letras, para mostrarem donde se derivam: outras, para a significasam, quero dizer, os diversos tempos: E asim escrevem Escritto com dois tt, para mostrar, que vem de Scriptus: e Amasse com dois ss, para o-distinguir do-prezente Ama-se. Esta razam achará V. P. em alguns livros impresos. Mas, com todo o respeito que devo, a quem uza dela, digo, que nada vale. A maior parte das-palavras Portuguezas, tem origem Latina: o que até as criansas sabem: quizera pois que me-disesem, porque se-devem dobrar em vinte, ou trinta palavras, e nam nas mais? Alem diso se V. P. observa, muitas palavras Portuguezas, achará, que nam só tem origem, mas sam puras Latinas. V.g. Aplaudo, Aplico &c. e nestas será tambem necesario dobrar os pp, e escrever trez consoantes seguidas, como no-Latim. Será tambem necesario pòr o s, antes de Ciencia. e finalmente comesar muitas disoens, por-duas consoantes, mn, pn, sp, ps: porque tudo isto á no Latim. O c antes de t, tambem se-deve pòr, em muitas palavras, como em Benedicto, Doctor, &c. E nam sei, se, os que seguem o dito parecer, admitirám todos estes acrecimos: o que nem menos o Italiano, que se-preza de filho primogenito do-Latim, admite em tudo. Crece o argumento se observamos, que o Portuguez tem palavras Arabias, Goticas, Inglezas, Tudescas &c. o que suposto, será necesario em cadauma, pòr a sua diferensa original: ou ao menos nas Latinas, para as-nam-confundir com as outras. Finalmente se a tal razam valese, nam deveria quem uza dela; pòr h, em é verbo, e outros destes: porque na sua origem nam o-tem.
Mas, deixando outras observasoens, com que podia provar, a insufisiencia das-ditas razoens; darei só uma, que prova por-todas: e esta especialmente serve, contra aqueles Portuguezes que dizem, que se-devem dobrar muitas letras, porque se-pronunciam dobradas; e expresamente se-ouvem os dois mm, em comum, e outras semelhantes. Digo, que para responder a estes, basta citar-lhe o exemplo, da-lingua Italiana. Nam vi ainda Portuguez algum (nam falo dos-que pasáram a Italia até a idade de 7 ou 8 anos: porque estes perdèram a sua lîngua, e falam o Italiano, como lingua propria) por-mais estudiozo, e diligente que fose, que aprendèse a pronuncia, principalmente Toscana, ou Romana: em que expresamente se-pronunciam as duas letras consoantes: todos as-pronunciam como una simplez. V. g. Distinguem os nosos Capello, que significa Cabelo, de Cappello, que significa Chapeo; com pronunciar dois pp, e dois ll no-2. Nenhum Portuguez o-chega a distinguir: e por-iso sam logo conhecidos, por-Estrangeiros. O mesmo digo em todas as outras dobradas: O mais que vi foi, pronunciar os dois zz, v.g. em Palazzo, Ragazzo: mas isto com muito esforso, e pola razam, de que se-pronunciam diferentemente: quero dizer, que os dois zz, pronunciam-se como ds: que, se tivesem soido igual, nam os-pronunciariam. Esta experiencia constante mostra, que é falso dizer, que os Portuguezes, na-sua pronuncia natural, e sem fazer um grande esforso, pronunciem as dobradas. Do-que se-segue, que sam inutis as tais letras. E em tal cazo entra a minha regra, que as letras inutis, se-devem desterrar, da-lingua Portugueza.
Sobre a pontuasam, tenho pouco que advertir a V. P. É claro, que a Virgula foi inventada, para denotar a interrusam que se-faz, quando se-toma a respirasam: e para dar alguma distinsam ao discurso, e impedir a equivocasam nele. Tem seu proprio lugar, quando se fazem distinsoens de Nomes, ou de outras palavras, que dependem do-mesmo Verbo, e se-unem em uma propozisam. v. g. Pedro foi soldado, capitam, coronel, e chegou a ser general. Uza-se tambem dela, antes da-Conjunsam copulativa, e adversativa. v.g. Pedro, e Paulo partîram: Nem Pedro, nem Paulo partio. Mas nam se deve uzar, quando a conjunsam está entre sinonimos: v. g. Antonio tem eloquencia e facundia. Pedro tem grande animo e valor. Porem muito bem se-uza entre propozisoens, que signifiquem o mesmo; a que podemos chamar sinonimas. v.g. Cezar subjogou todo o imperio Romano, e com a serie das-suas vitorias conseguio, que os Governadores, o-reconhecesem soberano. aindaque entre estas, sendo longas, podese escrever ponto e virgula, ou dois pontos.
Utilmente se-uza da-virgula, para distinguir e fazer mais claro o discurso: o que se-faz em trez cazos. I. separando as propozisoens, regidas pola mesma pesoa, ou coiza. v.g. Umas vezes ri, outras chora. Tomou uma lansa, e lhe-atravesou o peito. II. interrompendo o sentido, com outras palavras. v. g. Deus, autor do-mundo, é pai de mizericordia; e tem providencia das-criaturas; mas quando a interrusam é comprida, é melhor pór-lhe ponto e virgula; como abaixo diremos. III. separando aquelas propozisoens, emque a segunda, é objeto da-primeira. v.g. Dezejo ver, como sucederá o negocio. Quererá Deus, que iso nam se-verifique.
Finalmente se às vezes nam se-poem virgula, pode nacer confuzam no-discurso. v. g. Cuidando na minha aflisam, e ocupado neste pensamento, confuzo saî de caza. se nam ouvése virgula, em pensamento, podia unir-se com confuzo, e cauzar nova confuzam. Mas nisto das-virgulas, é necesario ter muito cuidado, de nam ser excesivo: como fazem alguns, prezados de doutos, que em cada palavra poem virgula. o exceso, e a falta igualmente se-devem evitar.
Tambem a parentezis, é especie de virgula: e consiste neste sinal, () com o qual se-compreendem algumas palavras. Escreve-se, quando dentro de uma propozisam, se-inclue outra, separada do-sentido; ou para excesam, ou declarasam de alguma coiza. v.g. Deixo de dizer (aindaque poderia com razam) as atrocidades que cometeo. O Amor, (como achamos escrito na Sagrada escritura) é tam forte como a morte. Porem, se a interrusam é breve, bastam duas virgulas. v.g O Amor, como ja dise, é uma grande paixam.
Despois da-virgula, seguem-se os dois pontos. Estes se-poem, quando o sentido da-orasam é completo, quanto à sustancia; mas nam em quanto ao fato: quero dizer, quando o que se-escreveo, faz por si só sentido perfeito; desorteque podia-se terminar com um só ponto: mas quem escreve, ainda tem alguma coiza que acrecentar, para melhor declarar a coiza, ou expremir alguma circunstancia, com a qual se-acabe de todo o periodo. v.g. Recebi o doutisimo livro que v.m. me-mandou: para me-obrigar com isto ainda mais, doque estava. Neste periodo, despois de mandou, escrevem-se dois pontos: porque o sentido, ja está completo; mas ainda á que acrecentar. E estes dois pontos se-podem replicar, em um longuisimo discurso, tantas vezes, quantas o sentido da-orasam for suficientemente completo. Mas a melhor regra que nisto se-pode observar, é esta: Se a propozisam que se-segue, nam é muito independente da-antecedente, deve-se pòr dois pontos. v. g. Estudar varias ciencias, no mesmo tempo, antes confunde, que doutrina: como tambem o comer no-mesmo tempo comeres diferentes, tanto nam engorda, que ofende. Mas se eu comesáse a segunda, por-palavras menos dependentes, deveria pòr um ponto. v. g. Estudar varias ciencias, no-mesmo dia, antes confunde, que ensina. Damesma sorte, como dizem os Medicos, mui diferentes comeres no-estomago, impedem a digestam. neste cazo ponho ponto, porque o sentido é mais separado. Porem se as propozisoens sam breves, intendo mais acertado, separalas com uma virgula. v. g. O estudar muito junto faz confusam, como tambem o comer muito.
O ponto, costuma-se pòr, no-fim do-periodo, e quando o sentido é totalmente completo. Neste particular observo, que muitos em Portugal ensinam, que despois de ponto, sempre se-poem letra grande. O que é um engano manifesto; e contra a pratica dos-que melhor escrevem: que dizem, que quando os periodos sam breves, e em certo modo dependem uns dos-outros; basta despois de ponto, pòr letra pequena: e quando isto sucede no-fim do-verso, poem-se dois pontos: vistoque o verso seguinte deve sempre comesar, por-letra grande. Onde os omens doutos advertem, que nam só se-pode escrever letra pequena, despois de ponto final; mas tambem algumas vezes, despois de dois pontos, letra grande: quando o periodo é comprido, e se-tem posto muitas vezes dois pontos: ou tambem quando se-introduz alguma pesoa que fala, ou coiza semelhante.
E aqui incidentemente advirto, que nisto de escrever letra grande, á um grande abuzo: avendo escritores que a-escrevem, em mil coizas desnecesarias: o que ofende a vista. E asim, nam avendo razam forsoza, deve-se escrever letra pequena, que é mais natural. As regras que nisto dam, os omens mais advertidos, se-reduzem a estas. Poem-se letra grande. I. quando se-comesa o discurso. II. nos-nomes proprios, e sobrenomes tanto de Pesoas, como Provincias, Cidades, Ilhas, Montes, Mares, Rios, Ventos, e Animais. III. nos-nomes de dignidade, ou abstratos, como Bispado, Papado &c. ou concretos, como Papa, Rei, Abade, Conego, Senador &c. mas nam se-poem nos-de oficios inferiores, como soldado, pintor, sapateiro. IV. nos-nomes apelativos, quando se-tomam por-alguma coiza particular. v. g. O Orador Romano, por-Cicero: o Doutor Angelico, por-S. Tomaz: Religiam, pola vida Religioza &c. V. nos-nomes do-genero, ou especie, quando significam todo o genero, ou especie. v. g. A Terra é redonda.Os Rios correm para o mar. porque significando um individuo particular da-dita especie; v.g. um bocado de terra &c. basta letra pequena. VI. as coizas inanimadas tomadas como pesoas, ou polo genero. v. g. A Ira é uma grande paixam. O Amor cega os mais doutos &c. VII. os Adjetivos tomados como Sustantivos. v.g. O Amigo, é outro eu. O Forte, aumenta o animo nos-perigos. VIII. os nomes que significam multidam. v.g. Senado, Republica, Cabido, Turcos, Inglezes &c. IX. os nomes da-materia, de que principalmente se-trata. v.g. A Incarnasam, a Simonia. ou tambem os nomes das-principais partes, em que se-divide um todo. v.g. Neste cazo pecam alguns, por-Ignorancia, ou por-Malicia. Por-Ignorancia, pecam aqueles &c. X. quando no-discurso se-introduz alguma pesoa, que fala. v.g. Voltando-se entam para o ceo S. Paulo, dise, Senhor, que quereis que eu fasa? mas se o discurso que se introduz, fose mui longo, serîa mais acertado, separalo com um ponto sinal. E a palavra que se-segue, despois do-ponto interrogativo, nam deve ter letra grande; porque nam comesa um sentido novo.
Estas sam as regras, establecidas polo melhor uzo. Contudo á alguns, que ainda às vezes as-limitam, quando intendem, que nam sam necesarias. v. g. Vindo juntos dois nomes, um generico, e outro particular, como Seita Turquesca, Igreja Catolica, Senador Romano, Academia Real, Concilio Toletano, Concilio Geral, &c. deitam fóra a letra grande dos-primeiros, e somente a-conservam nos-segundos, que distinguem os primeiros. Porque ainda-que em outras ocazioens, achando-se somente a palavra, Igreja, oncilio, &c. tenha letra grande; neste cazo porem, parece ser escuzada: o que eu aprovo. Outros ainda fazem mais, que, achando muitas destas ultimas palavras, que aponto, como Senador, Consul, &c. escrevem-nas com letra pequena: principalmente se está unida a algum sustantivo Proprio. v. gr. Joannes rex. Cicero consul. E isto achamos mui praticado, em antigos manuscritos; e belisimas edisoens de livros modernos, emendadas por-omens mui doutos. Onde nam se-deve condenar, se algum o-praticar em alguma conjuntura, para evitar tanta letra grande.
Outros ainda limitam, o que se-diz nos-numeros V, e IX. porque intendem, que nem sempre é necesaria, a dita letra grande. E em tal cazo, ou escrevem letra grande, só na primeira vez: ou poem uma risca por-baixo, escrevendo; o-que na imprensa convertem em letra cursiva: ou nam a-poem: Nam parecendo muito bem um papel, em que repetidas vezes se-encontram as mesmas palavras, com letra grande: o que ofende a vista.
Tornando pois aos pontos: algumas vezes o periodo inteiro, é acompanhado de admirasam, ou interrogasam: e em tal cazo o ponto se-acompanha, com o final proporcionado. A admirasam, nota-se asim, (!) v.g. Morreo, cazo admiravel! dezesperado. ou em qualquer outra parte, em que entre a admirasam, ou simplez exclamasam. A interrogasam, ou progunta, distingue-se com este final, (?) v.g. E porque nam poderei eu fazer isto? qual de vos outros mo-pode impedir? Muitas vezes sucede, que a înterrogasam é acompanhada de exclamasam. v. g. Ó que grandes consequencias, seám-de seguir de um tal fato! ou tambem: E como é posivel, que te-occorrese fazer isto? e nestes cazos, é licito pòr um, ou outro final, como melhor lhe-parecer. É porem de advertir, que quando a progunta é mui comprida, e que na longueza, perde a forsa de progunta; os omens mais doutos, nam costumam pòr-lhe no-fim, o final de interrogasam: mas se lho-poem, é no-principio, ou no-fim do-primeiro periodo, ou nam lho-poem. V.g. Julgas tu, que á omens de tam pouca considerasam, que siguam um tal estilo, nem fasam cazo da-palavra, nem procurem ileza a sua onra, nem tenham diante dos-olhos estas circunstancias: as quais se eu nam tivese executado, totalmente me-faltaria aquela benevolencia, que certamente me-mostram, os que examinam as minhas asoens =. Neste periodo, ou se-deve pòr ponto de interrogasam, despois de tu: ou, despois de circunstancias: ou, em nenhuma parte: vistoque o contexto mostra bem, em que sentido se-fala.
Finalmente deve-se advertir, que á outra separasam de periodo, a que chamam Paragrafo: o qual se-comesa, quando a materia que se-trata, se-acabou; e se-pasa a outra materia. Muitas vezes se-comesa paragrafo, quando o discurso tem sido comprido, e, por-nam-fazer confuzam, é necesario varialo. o que sucede, quando sobre a mesma coiza, alego muitas razoens, e cada uma ocupa uma meia pagina. Em tal cazo, para evitar a confuzam, e dar mais gosto, e repoizo a quem le; é justo comesar paragrafo. O que porem se-deve regular, pola prudencia de quem escreve: pois tam enfadonho é, comesar paragrafo, despois de trez folhas, como despois de trez ou quatro regras. Caiem no-primeiro destes defeitos, alguns prezados de doutos: que, ouvindo dizer, que os Antigos nam uzavam das-separasoens de capitulos; sem mais outra reflexam, fazem um longuisimo discurso, sem divizam de paragrafos: em modo tal, que se-perde a respirasam lendo-os. No-segundo, caiem muitos Escolasticos, que de cada texto fazem um paragrafo. Uma, e outra coiza se-deve evitar.
Alem das-ditas pontuasoens; inventáram os escritores, principalmente modernos, outra, a que chamam, ponto e virgula. e isto para variar a pontuasam, e para evitar pòr tantas virgulas seguidas, antes dos-dois pontos, nos-periodos longos. Este ponto e virgula, é uma pauza, maior que a virgula, e menor que os dois pontos. Poem-se, quando a orasam ja faz algum sentido; mas nam o que basta para se-intender, de que se-fala: e ainda a primeira propozisam, espera pola segunda, para se-poder intender. v. g. Aindaque eu nam tenha, todo o dinheiro necesario, para a compra; farei o posivel, polo alcansar: para concluir de uma vez, este negocio. No-qual periodo, quando chegamos à palavra, compra; ja temos algum sentido: e quer dizer, que nam tem dinheiro para a compra. mas fica o sentido imperfeito, por-cauza da-palavra ainda: a qual faz que eu espere, pola seguinte propozisam até alcansar, onde faz suficiente sentido.
Daqui fica claro, que ponto e virgula tem o seu proprio lugar, despois das-prepozisoens, que comesam por-como, qual, quanto, se, aindaque &c. as quais introduzem aquela dependencia, que digo. Finalmente despois de qualquer prepozisam, em que aja palavras, que unam com as palavras seguintes. Especialmente se-poem, quando se-fala de coizas opostas: ou quando se-faz enumerasam de muitas partes, e se-especificam todas. v. g. Destruia cazas, e templos; o sagrado, e profano; o seu, e o alheio, &c. Adverte-se porem, que os periodos, os quais, sendo longos, podem receber ponto e virgula; em cazo que sejam curtos, basta que tenham virgula: por-nam fazer tam enfadonha a repetisam dos-pontos e virgulas. v. g. Neste particular à duas opinioens: uma é de Cujacio; a outra seguem Joam André, e Ostiense. parecerá a muitos, que em Cujacio, basta uma virgula, o que eu nam dezaprovo: outros quererám ponto e virgula. e asim é livre a cada um, fazer o que lhe-agradar. Polo contrario, se os periodos fosem mui compridos, se-deveria pòr ponto. v. g. se eu disese: Prova-se isto com duas razoens. A primeira é, porque &c. neste cazo se a explicasam desta primeira razam, se-estendèse até metade da-folha, ou ainda mais; no-fim, deve-se pòr ponto somente: e muitas vezes pode ser necesario, comesar a segunda razam, nam só com letra grande, mas ainda em novo paragrafo. Tambem quando se-tem posto algumas vezes, ponto e virgula; costumam os omens doutos, escrever dois pontos; aindaque o sentido nam seja completo quanto ao fato: para mostrar, que se-deve fazer maior interrusam; e descansar quem le, e quem ouve.
Isto é, o que me-ocorre advertir, neste particular da-pontuasam. Devo porem declarar a V. P. que esta materia, nam é ponto matematico, que nam admite mais, ou menos: antes, polo contrario, depende muito, da-vontade de quem escreve. Porque aindaque todos convenham, na-razam das-regras; quando porem decemos aos cazos particulares, e a examinar, se neste, ou naquele cazo, deve entrar virgula, ou ponto e virgula &c. acha-se muitas vezes diversidade, ainda entre os omens doutos. Eu neste particular, propuz o que vejo praticar, aos que melhor escrevem; e que se estriba, na razam das-regras: mas nam condenarei, quem se-afastar alguma vez destas advertencias, comtantoque nam se-desvie em modo, que fasa despropozitos. Eu mesmo sou o primeiro, que as-nam-sigo escrupulozamente: antes muitas vezes, em lugar de ponto e virgula, escrevo virgula: em vez de dois pontos, ponho virgula e ponto: e quando os periodos sam curtos, nam tenho às vezes dificuldade, de escrever virgula, em lugar de ponto: ou outra semelhante mudansa. O que faso quando me-parece, que com estes sinais, fica bastantemente separado o discurso, e livre de confuzam: e porque vejo, que muitos escrevem damesma sorte, e me-intenderám tambem. Esta é a principal regra, em materia de pontuasam: evitar as confuzoens, e procurar que os outros intendam, tudo quanto eu quero dizer. Devo porem dizer a V. P. que vejo muitos autores Portuguezes bem modernos, que fazem gala, de as-desprezar: e publicam obras, nas quais em uma pagina tudo sam virgulas, e apenas se-acha um ponto. Especialmente * * * e outros que V. P. bem conhece. O Conde da-Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes tambem seguia esta doutrina: pois em algumas suas aprovasoens de livros, que tenho visto, tudo sam virgulas: desorteque ninguem o-pode ler seguidamente, porque cansa a respirasam. E se isto pode ser louvavel, eu o-deixo julgar aos dezapaixonados inteligentes.
Muitas outras miudezas, se-podiam advertir, tanto na materia de Pontuasam, como de Ortografia: mas estas ou se-acham, nas instrusoens impresas a este intento; ou, se nam se-acham, como na verdade as-nam-vemos; aprendem-se com o uzo: e quem percebe bem, as advertencias que temos dado, escreverá sem embaraso algum com perfeisam: e poderá rezolver, qualquer das-que ocorrerem. Eu nam determinei, escrever um tratado completo: mas unicamente, sugerir a V. P. o que se-acha mais bem notado, nesta materia: e o que deve ensinar um mestre, ao dicipulo, a quem explica a lingua Portugueza. Para V. P. é isto superfluo: e para os ignorantes, é ainda muito. mas eu tomo a liberdade de falar com V. P. como com um principiante, porque asim mo-tem ordenado. Somente acrecento, que isto que dise da-Pontuasam, se-deve intender, nam só no-Portuguez, mas no-Latim; e nas-mais linguas, que desta nacèram.
Concluirei esta carta lembrando a V. P., que, para facilitar este estudo à Mocidade, seria necesario, que algum omem douto, abreviáse o Dicionario do-P. Bluteau, e o-reduzise à grandeza, de um tomo em folha, ou dois em 4.o Ninguem pode olhar para a obra do-P. Bluteau, sem ficar esmurecido, pola quantitade de volumes. Este Religiozo era douto, e infatigavel: e fez à nasam Portugueza um grande serviso; compondo um Dicionario, que ela nam tinha: e quem diser mal dele neste particular, é invejozo, ou ignorante. Mas tem alguns defeitos, que serîa necesario emendar: Era mui medrozo: e nam tinha metodo. O medo, reconhece-se em cada pagina das-suas obras. Fora maltratado por-alguns Portuguezes injustamente; e a cada paso se-queixa, e dá uma satisfasam. Os Prologos, tanto na primeira Obra, como no-Suplemento, sam insoportaveis: e apostarei, que se-nam-acha omem, de tanta paciencia, e tam mao gosto, que os-posa ler todos seguidamente: porque a cada momento, repete as mesmas coizas. E o pior é, que com dizer tanto, nam explica o que deve: pois querendo um leitor saber, o que ele faz no-Dicionario, e que razam dá da-obra; nam sabe por-onde á-de comesar. Com um só titulo dirigido ao leitor * * * compreendia todos, os que ele poem no-seu Prologo: e com um Prologo mui breve, dava razam de toda a obra. Os omens doutos, intendem mui bem as coizas: e sabem desculpar um autor, que escreve uma voluminoza obra: especialmente um que escreva um Dicionario, que seja o primeiro que aparece naquela lingua. Nam á pior trabalho que este: e nam á algum que menos paresa grande, a quem o-nam-provou, doque este. Desorteque chegou a dizer o douto Escaligero[13], que era pior este trabalho, que ser condenado às minas, como faziam os Romanos. Comque a estes, bastam poucas palavras: a os ignorantes, nam se-devem dar satisfasoens, ou digam bem, ou mal. Nem menos me-agrada o titulo da-obra, que é mui afetado, e cheio de superfluidades. Ja se-sabe que um Dicionario, compreende todas as palavras, com que se-explicam na dita lingua, todas as coizas imaginaveis. E o exemplo que ele traz de Furetiere, Moreri, Hofman, que enchèram o titulo, de semelhantes coizas, nam desculpa os seus erros: porque se-caza muito bem, que errem dois omens de diferentes Nasoens, na mesma materia.
Avulta tambem muito a obra, porque as explicasoens sam longas, e o carater é mui grande. O que tudo se-podia reduzir, a menor extensam: bastando um exemplo de um bom autor, e deitando fora tantos Latins, e citasoens superfluas. E asim, todo aquele grande Vocabulario, se-pode reduzir nas segundas-impresoens, a trez ou quatro volumes, se lhe-tirasem o que tem de superfluo: e serîa tambem mais barato, e mais util à Republica. Mas, ainda despois de tudo iso, serîa necesario, fazer um Compendio, para uzo dos-rapazes. Que é o que os Nosos tem feito, compendiando o Vocabulario da-Crusca, quero dizer, da-lingua Toscana, (sam trez ou quatro volumes) em dois tomos de 4o. Mas neste Dicionario, se-deveria acautelar outra coiza, em que caio o P. Bluteau; que foi, nam distinguir as palavras boas, de algumas plebeias, e antigas. Ele ajuntou tudo: e ainda muitas palavras Latinas, que muitos Portuguezes modernos afetadamente aportuguezáram. E este é o maior defeito que eu acho, naquele Dicionario. porque nam ensina a falar bem Portuguez; como o da-nosa Crusca, que nam tem, senam o que é puro Toscano; e nota às vezes o que é antigo, ou poetico &c. Sei, que alguma diversidade se-acha: porque os nosos autores, que fazem texto, sam os que escrevèram, em um seculo determinado: e asim tudo o que é moderno, entre nós é barbaro. Polo contrario a lingua Portugueza, como á pouco tempo que comesou a aperfeisoar-se, nam pode excluir, tudo o que é moderno. Contudo, deveria o P. Bluteau, nam abrasar senam os autores, que faláram melhor. v. g. desde o fim do-seculo pasado para cá: ou encurtar mais o tempo. E ainda neses, que talvez nam seram iguais em tudo, escolher, o que é mais racionavel: e nam tudo o que aportuguezáram alguns destes, prezados de eruditos; que, por-forsa, querem introduzir, uma mixtura de Portuguez, com Latim. Temos o exemplo da-Academia Franceza, a qual no-seu Dicionario, nam poz as vozes plebeias, e antigas; mas as puras, e que oje falam os omens cultos. Aindaque, como diz o Senhor de Furetiere,[14] é justo, que se fasa um Dicionario à parte, das-vozes antigas, e baixas: paraque, por-meio dele, posamos intender, os antigos documentos. Isto fizeram muitos na lingua Latina, compondo somente Vocabularios da-inferior Latinidade, como Vossio, Izidoro, Spelman, Du Cange: o qual ultimo fez tambem outro, para o Grego inferior. E isto mesmo deveria ter feito Bluteau: pondo em um volume, as palavras boas; no-outro, as antigas &c. O certo é, que os Nosos no-Compendio da-Crusca, somente puzeram as puras: e advertîram as que sam poeticas, e nam tem lugar na proza. O mesmo Bluteau em certa parte[15], reconhece a necesidade deste distinto livro; e deu uma ideia dele, nos-Catalogos que traz, no-Suplemento. Mas se o dito P. o-nam-fez, porque quiz compreender, tudo o que se-acha em Portuguez, ou por-outro motivo; no-Compendio porem do-dito Dicionario, nam se-deviam escrever, senam palavras puras e boas, e segundo a pronuncia mais suave. E.g. nam escrever Devaçam, porque o dise o Vieira: mostrando a analogia, que se-deve dizer Devosam: muito mais, porque asim o-pronunciam os doutos, e é mais agradavel. O mesmo digo, de Outo &c. porque escrevendo muitos omens doutos comumente, Oitenta; nam acho que tenham boa disparidade, para, no-mesmo livro, escreverem, Outo: como V. P. verá em muitos livros modernos. E asim a pronuncia melhor, sendo apadrinhada por-omens doutos, deve ser preferida. Tambem se-devia no-dito cazo, emendar a Ortografia do-Bluteau, que é variante: e establecer uma certa, e sempre a melhor. Este Compendio seria mui necesario. os que quizesem majores noticias, podiam procurálas no-Vocabulario grande. Isto é o que me-ocorre. V. P. conserve-me a sua benevolencia, e rogue a Deus por-mim nos-seus sacrificios. Deus Guarde &c.