Já que me põem a tormento
Murmuradores noviços,
Carregando sobre mim
Suas culpas e delictos;
Por credito do meu nome,
E não por temer castigo,
Confessar quero os peccados
Que faço, e que patrocino.
E si alguem tiver a mal
Descobrir este sigillo,
Não me infame que eu serei
Pedra em poço, ou seixo em rio.
Sabei, céu, sabei estrellas,
Escutae, flores e lirios,
Montes, serras, peixes, aves,
Lua, sol, mortos e vivos,
Que não ha nem póde haver,
Desde o Sul ao Norte frio,
Cidade com mais maldades,
Nem provincia com mais vicios,
Do que sou eu, porque em mim
Recopilados e unidos
Estão junctos quantos têm
Mundos e reinos distinctos.
Tenho Turcos, tenho Persas,
Homens de nação impios,
Mogores, Armenios, Gregos,
Infieis e outros gentios.
Tenho ousados Mermidonios,
Tenho Judeus, tenho Assyrios,
E de quantas seitas ha
Muito tenho, e muito abrigo.
E sinão digam aquelles
Presados de vingativos,
Que sanctidade têm mais
Que um Turco e que um Mohabito!
Digam idolatras falsos,
Que estou vendo de continuo
Adorarem ao dinheiro,
Gula, ambição e amoricos!
Quantos com capa christãa
Professam o judaismo,
Mostrando hypocritamente
Devoção á Lei de Christo!
Quantos com pelle de ovelha
São lobos enfurecidos,
Ladrões, falsos, aleivosos,
Embusteiros e assassinos!
Estes por seu mau viver,
Sempre pessimo e nocivo,
São os que me accusam damnos,
E põem labéos inauditos.
Mas o que mais me atormenta
É ver que os contemplativos,
Sabendo a minha innocencia,
Dão a seu mentir ouvidos.
Até os mesmos culpados
Têm tomado por capricho,
Para mais me difamarem
Pôrem pela praça escriptos,
Onde escrevem sem vergonha,
Não só brancos, mas mestiços,
Que para os bons sou inferno,
E para os mais paraizo.
Oh velhacos insolentes,
Ingratos, mal procedidos!
Si eu sou essa que dizeis,
Porque não largais meu sitio?
Porque habitais em tal terra,
Podendo em melhor abrigo?
Eu pego em vós? eu vos rogo?
Respondei: dizei, maldictos?
Mandei acaso chamar-vos,
Ou por carta, ou por aviso?
Não viestes para aqui
Por vosso livre alvedrio?
A todos não dei entrada,
Tractando-vos como a filhos?
Que razão tendes agora
De difamar-me atrevidos?
Meus males de quem procedem?
Não é de vós? claro é isso:
Que eu não faço mal a nada
Por ser terra e matto arisco.
Si me lançais má semente
Como quereis fructo limpo?
Lançae-a boa, e vereis
Si vos dou cachos optimos.
Eu me lembro que algum tempo,
Isto foi no meu principio,
A semente que me davam
Era boa e de bom trigo.
Por cuja causa meus campos
Produziam pomos lindos,
De que ainda se conservam
Alguns remotos indicios.
Mas depois que vós viestes
Carregados, como ouriços,
De sementes invejosas
E legumes de maus vicios;
Logo declinei comvosco,
E tal volta tenho tido,
Que o que produzia rozas
Hoje só produz espinhos.
Mas para que se conheça
Si fallo verdade ou minto,
E quanto os vossos enganos
Têm difamado meu brio:
Confessar quero de plano
O que encubro por servir-vos,
E saiba quem me moteja
Os premios que ganho nisso.
Já que fui tão pouco attenta,
Que a luz da razão e o sizo
Não só quiz cegar por gosto,
Mas ser do mundo ludibrio.
Vós me ensinastes a ser
Das inconstancias archivo,
Pois nem as pedras que gero
Guardam fé aos edificios.
Por vosso respeito dei
Campo franco e grande auxilio
Para que se quebrantassem
Os mandamentos divinos.
Cada um por suas obras
Verá contra quem me explico,
Sem andar excogitando
Para quem se aponta o tiro.