Não sei para que é nascer
Neste Brazil impestado
Um homem branco e honrado
Sem outra raça.
Terra tão grosseira e crassa,
Que a ninguem se tem respeito,
Salvo si mostra algum geito
De ser mulato.
Aqui o cão arranha ao gato,
Não por ser mais valentão,
Sinão porque sempre a um cão
Outros acodem.
Os brancos aqui não podem
Mais que soffrer e calar,
E si um negro vão matar
Chovem despezas.
Não lhe valem as defezas
Do atrevimento de um cão,
Porque acorda a Relação
Sempre faminta.
Logo a fazenda e a quinta
Vão com tudo o mais á praça,
Onde se vendem de graça,
Ou de fiado.
Que aguardas, homem honrado,
Vendo tantas sem razões,
Que não vais para as nações
Da Barbaria?
Porque lá se te faria
Com essa barbaridade
Mais razão e mais verdade
Do que aqui fazem.
Por que esperas? que te engrazem
E exgotem os cabedaes
Os que têm por naturaes,
Sendo extrangeiros?
Ao cheiro dos teus dinheiros
Vem c’um cabedal tão fraco,
Que tudo cabe num sacco
Que anda ás costas.
Os pés são duas lagostas,
De andar montes, passar vaus,
E as mãos são dous .... ....
Já bem ardidos.
Sendo dous annos corridos,
Na loja estão recostados
Mais doces e afidalgados
Que os mesmos Godos.
A mim me faltam apodos
Para apodar estes taes,
Maganos de tres canaes,
Té a ponta.
Ha outros de peior conta,
Que entre estes e entre aquelles
Vêm cheios de pez, e elles
Atraz do hombro.
De nada d’isto me assombro,
Pois os bota aqui o Senhor
Outros de marca maior,
Gualde e tostada.
Perguntae á gente honrada
Porque causa se desterra?
Diz que tem quem lá na terra
Lhe queime o sangue.
Vem viver ao pé de um mangue,
E já vos veda um mangal,
Porque tem mais cabedal
Que Porto Rico.
Si algum vem de agudo bico,
Lá vão prende-lo ao sertão,
E ei-lo bugio em grilhão
Entre galfarros.
A terra é para os bizarros,
Que vêm da sua terrinha
Com mais gorda camizinha
Que um traquete.
Que me dizeis do clerguete
Que mandaram degradado
Por dar o oleo sagrado
Á sua ..?
E a velhaca dissoluta,
Déxtra em todo o artificio,
Fez co’oleo um maleficio
Ao mesmo zote.
Folgo de ver tão asnote
O que com risinho nos labios
Anda zombando dos sabios
E entendidos.
E porque são applaudidos
De outros da sua facção,
Se fazem co’a descripção
Como com terra.
E dizendo ferra ferra,
Quando vão a pôr o pé
Conhecem que em boa fé
São uns asninhos.
Porque com quatro ditinhos,
De conceitos estudados,
Não podem ser graduados
Em as sciencias.
Então suas negligencias
As vão conhecendo alli,
Porque de si para si
Ninguem se engana.
Mas em vindo outra semana,
Já cahem no peccado velho,
E presumem dar conselho
A um Catão.
Aqui frizava o Frizão
Que foi o heresiarca
Porque os mais da sua alparca
O aprenderam.
As mulatas me esqueceram,
A quem com veneração
Darei o meu beliscão
Pelo amoroso.
Geralmente é mui custoso
O conchego das mulatas,
Que se foram mais baratas
Não ha mais Flandes.
As que presumem de grandes
Porque têm casa e são forras,
Têm, e chamam de cachorras
Ás mais do trato.
Angelinha do Sapato
Valeria um pipo de ouro,
Porém tem o ... ...
Muito abaixo.
Traz o amigo cabisbaixo
Com muitas aleivosias,
Sendo que ás Ave-Marias
Lhe fecha a porta.
Mas isso em fim que lhe importa,
Si ao fechar o põe na rua,
E sobre a ver ficar nua
Ainda a veste.
Fica dentro quem a investe,
E o de fóra suspirando
Lhe grita de quando em quando:
Ora isso basta.
Ha gente de tão má casta,
E de tão vil catadura,
Que até esta ...
Bebe e vérte.
Todos a Agrella converte,
Porque si com tão ruim ....
A alma ha de ser dissoluta,
Antes mui sancta.
Quem encontra ossada tanta,
Dos beijos de uma caveira
Vai fugindo de carreira,
E a Deus busca.
Em uma cova se offusca,
Como eu estou offuscado,
Chorando o magro peccado
Que fiz com ella.
É mui similhante a Agrella
Á Mingota do Negreiros,
Que me mammou os dinheiros,
E poz-se á orça.
A Manga, com ser de alcorça,
Dá-se a um pardo vaganau,
Que a Cunha do mesmo pau
Melhor atocha.
A Marianna da Rocha,
Por outro nome a Pellica,
A nenhum homem já dedica
A sua prata.
Não ha no Brazil mulata,
Que valha um recado só,
Mas Joanna Picaró
O Brazil todo.
Si em gostos não me accommodo,
Ao mais não haja disputa,
Cada um gabe a sua ...,
E haja socego.
Porque eu calo o meu emprego,
E o fiz adivinhação,
Com que tal veneração
Se lhe devia.
Fica-te embora, Bahia,
Que eu me vou por esse mundo,
Cortando pelo mar fundo
Numa barquinha.
Porque inda que és patria minha,
Sou segundo Scipião,
Que com dobrada razão
A minha idéa
Te diz: Non possidebis ossa mea.