Toda a cidade derrota
Esta fome universal,
E uns dão a culpa total
Á Camara, outros á frota;
A frota tudo abarrota
Dentro dos escotilhões,
A carne, o peixe, os feijões;
E si a Camara olha e ri,
Porque anda farta até aqui,
É cousa que me não toca:
Ponto em boca.
Si dizem que o marinheiro
Nos precede a toda a lei,
Porque é serviço do rei,
Concedo que está primeiro:
Mas tenho por mais inteiro
O Conselho que reparte,
Com egual mão e egual arte,
Por todos jantar e ceia;
Mas frota com tripa cheia,
E povo com pança ôca,
Ponto em boca.
A fome me tem já mudo,
Que é muda a boca esfaimada,
Mas si a frota não traz nada,
Porque razão leva tudo?
Que o povo por ser sisudo
Largue o ouro, largue a prata
A uma frota patarata,
Que entrando com véla cheia,
O lastro, que traz de areia,
Por lastro de assucar troca:
Ponto em boca.
Si quando vem para cá
Nenhum frete vem ganhar,
Quando para lá tornar
O mesmo não ganhará:
Quem o assucar lhe dá
Perde a caixa e paga o frete,
Porque o anno não promette
No negocio que o perder:
O frete por se dever
A caixa porque se choca.
Ponto em boca.
Elle tanto em seu abrigo,
E o povo todo faminto,
Elle chora, e eu não minto,
Si chorando vo-lo digo:
Tem-me cortado o embigo
Este nosso General,
Por isso de tanto mal
Lhe não ponho alguma culpa;
Mas si merece desculpa
O respeito, a que provoca,
Ponto em boca.
Com justiça pois me tórno
Á Camara nó Senhora,
Que pois me trespassa agora,
Agora leve o retorno.
Praza a Deus que o caldo morno,
Que a mim me fazem cear
Da má vacca do jantar,
Por falta do bom pescado,
Lhes seja em cristéis lançado;
Mas si a saude lhes toca,
Ponto em boca.