Vá de retrato
Por consoantes;
Que eu sou Timantes
De um nariz de tocano côr de pato.
Pelo cabello
Começa a obra,
Que o tempo sobra
Para pintar a giba do camello.
Causa-me engulho
O pêllo untado,
Que de molhado,
Parece que sae sempre de mergulho.
Não pinto as faltas
Dos olhos baios,
Que versos raios
Nunca ferem sinão em coisas altas.
Mas a fachada
Da sobrancelha
Se me assimelha
A uma negra vassoura esparramada.
Nariz de embono
Com tal sacada,
Que entra na escada
Duas horas primeiro que seu dono.
Nariz que falia
Longe do rosto,
Pois na Sé posto
Na Praça manda pôr a guarda em ala.
Membro de olfactos,
Mas tão quadrado
Que um rei coroado
O póde ter por copa de cem pratos.
Tão temerario
É o tal nariz,
Que por um triz
Não ficou cantareira de um armario.
Você perdôe,
Nariz nefando,
Que eu vou cortando
E inda fica nariz em que se assôe.
Ao pé da altura
Do naso oiteiro
Tem o sendeiro
O que boca nasceu e é rasgadura.
Na gargantona,
Membro do gosto,
Está composto
O orgão mui subtil da voz fanhona.
Vamos á giba:
Porém que intento,
Si não sou vento
Para poder subir lá tanto arriba?
Sempre eu insisto
Que no horizonte
D’esse alto monte
Foi tentar o diabo a Jesu-Christo.
Chamam-lhe auctores,
Por fallar fresco,
Dorsum burlesco,
No qual fabricaverunt peccatores.
Havendo apostas
Si é home’ ou féra,
Se assentou que era
Um caracol que traz a casa ás costas.
De grande arriba
Tanto se entona,
Que já blazona
Que engeitou ser canastra por ser giba.
Oh pico alçado!
Quem lá subira,
Para que vira
Si és Etna abrazador, si Alpe nevado.
Cousa pintada,
Sempre uma cousa,
Pois d’onde pousa
Sempre o vêm de bastão, sempre de espada.
Dos Sanctos Passos
Na bruta cinta
Uma cruz pinta;
A espada o pau da cruz, e elle os braços.
Vamos voltando
Para a dianteira,
Que na trazeira
O lhe vejo açoitado por nefando.
Si bem se infere
Outro fracaso,
Porque em tal caso
Só se açoita quem toma o miserere.
Pois que seria,
Si eu vi vergões?
Serão chupões
Que o bruxo do Ferreira lhe daria?
E a entezadeira
Do gram ...,
Que em sujo trapo
Se alimpa nos fundilhos do Ferreira.
Seguem-se as pernas,
Sigam-se embora,
Porque eu por ora
Não me quero embarcar em taes cavernas.
Si bem assento
Nos meus miolos,
Que são dois rôlos
De tabaco já podre e fedorento.
Os pés são figas
Á mór grandeza,
Por cuja empreza
Tomaram tanto pé tantas cantigas.
Velha coitada,
Cuja figura
Na architectura
Da pôpa da nau nova está entalhada.
Boa viagem,
Senhor Tocano,
Que para o anno
Vos espera a Bahia entre a bagagem.