Cançado de ver pregar
Cultissimas prophecias,
Quero das cultinarias
Hoje o habito enforcar:
De que serve o rebentar
Por quem de mim não tem magua?
Verdades direi como agua,
Porque todos entendaes,
Os ladinos o os boçaes,
A Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?
O fallar de intercadencia,
Entre silencio e palavra,
Crer que a testa se vos abra,
E encaixar-vos que é prudencia:
Alerta, homens de sciencia,
Que quer o Xisgaraviz
Que aquillo que vos não diz,
Por lh’o impedir a rudeza,
Avalieis madureza,
Sendo ignorancia traidora.
Entendeis-me agora?
Si notais ao mentecapto
A compra de Conselheiro,
O que nos custa dinheiro,
Isso nos sae mais barato:
E si na meza do trato
Da bolsa, ou da Companhia,
Virdes levar senhoria
Mechanicos deputados;
Crede que nos seus cruzados
Sangue esclarecido mora.
Entendeis-me agora?
Si hoje vos falla de perna
Quem não podia hontem ter
Ramo, de quem descender,
Mais que o da sua taverna;
Tende paciencia interna,
Pois foi sempre Dom dinheiro
Poderoso cavalheiro,
Que com poderes reaes
Faz eguaes aos deseguaes,
E conde ao villão cada hora.
Entendeis-me agora?
Si na comedia ou sainete,
Virdes que um Dom fidalgote
Lhe dá no seu camarote
A chicara do sorvete;
Havei dó do coitadete,
Pois numa chicara só
Seu dinheiro bebe em pó,
Que o senhor, cousa é sabida,
Lhe dá a chupar a bebida,
Para chupa-lo noutra hora.
Entendeis-me agora?
Não reputeis por favor,
Nem tenhais por maravilha
Vê-lo jogar a espadilha
Co’o marquez, co’o grão senhor;
Porque como é perdedor
E mofino adredemente,
E faz um sangue excellente
A qualquer dos ganhadores,
Qualquer d’aquelles senhores
Por fidalgo egual o afóra.
Entendeis-me agora?