Naquelle grande motim,
Onde acudiu tanta gente,
A titulo de valente
Tambem veiu o Valentim:
Puxou pelo seu faim,
E tirando-lhe a barriga,
Você si quer que lh’o diga,
Disse ao ourives da prata,
Na obra d’esta mulata
Mette muita falsa liga.
Briga, briga.
É homem tão desalmado,
Que por lhe a prata faltar,
E estar sempre a trabalhar
Bate no vaso sagrado?
Não vê que está excommungado
Porque com tanta fadiga
A peça da egreja abriga
Numa casa excommungada,
Com censura reservada,
Pela qual Deus o castiga?
Briga, briga.
Porque com modos violentos
A um vigario tão capaz,
Sôbre os quatro que já traz,
.. lhe põe quatrocentos?
Deixe-se d’esses intentos,
E reponha a rapariga,
Pois a repô-la se obriga
Quando affirma que a possue;
E si ésta razão não conclue,
Vai ésta ponta á barriga.
Briga, briga.
Senhor ourives, você
Não é ourives de prata?
Pois que era essa mulata,
Que cobre ou tambaca é?
Restitua a moça, que
É peça da egreja antiga;
Restitua a rapariga,
Que se vingará o vigario
Talvez no confessionario,
Ou talvez na desobriga:
Briga, briga.
Á mulata ja lhe pêja
De trocar odre por odre,
Porque o leigo é membro podre,
E o padre é membro da egreja:
Sempre esta telha gotteja,
Sempre dá grão esta espiga:
E a obra da rapariga
Quer desfazer esta troca,
E deixando a vossa toca,
Quer fazer co’o padre liga:
Briga, briga.
Largue-lhe a mulata, e seja
Logo logo a bom partido,
Que como tem delinquido,
Si quer recolher á egreja:
Porque todo o mundo veja
Que quando a carne inimiga
Tenta a uma rapariga,
Quer no cabo, quer no rabo,
A egreja vence o diabo
Como outra qualquer estriga:
Briga, briga.