DESCREVE
O P. RACIONAL E VERDADEIRAMENTE QUEIXOSO OS EXTRAVAGANTES MEIOS COM QUE OS EXTRANHOS DOMINAM INDIGNAMENTE SOBRE OS NATURAES NA SUA PATRIA

ROMANCE

Senhora Dona Bahia,
Nobre e opulenta cidade,
Madrasta dos naturaes,
E dos extrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa
Em que fundais o dictame
De exaltar os que aqui vêm,
E abater os que aqui nascem.
Si o fazeis pelo interesse
De que os extranhos vos gabem,
Isso os paisanos fariam
Com conhecidas vantagens.
E supposto que os louvores
Em bocca propria não valem,
Si tem força essa sentença,
Mór força terá a verdade.
O certo é, patria minha,
Que foste terra de alarves,
E inda os resabios vos duram
D’esse tempo e d’essa edade.
Haverá duzentos annos,
Nem tantos podem contar-se,
Que ereis uma pobre aldêa,
Hoje sois rica cidade.
Então vos pizavam Indios,
E vos habitavam Cafres,
Hoje chispais fidalguias,
E arrojais personagens.
A essas personagens vamos,
Sôbre ellas será o debate,
E Deus queira que o vencer-vos
Para envergonhar-vos baste.
Sae um pobrete de Christo
De Portugal ou de Algarve,
Cheio de drogas alheias
Para d’ahi tirar gages.
O tal foi sóta tendeiro
De um christão novo em tal parte,
Que por aquelles serviços
O despachou a embarcar-se.
Fez-lhe uma carregação
Entre amigos e compadres,
E ei-lo commissario feito
De linhas, lonas, beirames.
Entra pela barra dentro,
Dá fundo, e logo a entonar-se
Começa a bordo da nau
Co’um vestidinho flammante.
Salta em terra, toma casas,
Arma a botica dos trastes,
Em casa come balêa,
Na rua antoja manjares.
Vendendo gato por lebre,
Antes que quatro annos passem
Já tem tantos mil cruzados,
Conforme affirmam pasguates.
Começam a olhar para elle
Os paes, que já querem dar-lhe
Filha e dote, porque querem
Homem que coma e não gaste.
Que esse mal ha nos mazombos:
Têm tão pouca habilidade,
Que o seu dinheiro despendem
Para haver de sustentar-se.
Casa-se o meu matachim,
Põe duas negras e um pagem,
Uma rede com dous Minas,
Chapéu de sol, casas grandes.
Entra logo nos pelouros,
E sae do primeiro lance
Vereador da Bahia,
Que é notavel dignidade.
Já temos o canastreiro,
Que inda fede aos seus beirames,
Metamórphosis da Terra,
Transformado em homem grande:
E eis-aqui a personagem.
Vem outro do mesmo lote,
Tão pobre e tão miseravel,
Vende os retalhos, e tira
Commissão com coiro e carne.
Co’o principal se levanta,
E tudo emprega no Iguape,
Que um engenho e tres fazendas
O tem feito um homem grande.
E eis aqui a personagem.
De entre a chusma e a canalha
Da maritima bagagem,
Fica ás vezes um christão,
Que apenas benzer-se sabe.
Fica em terra resoluto
A entrar na ordem mercante,
Troca por covado e vara
Timão, balestilha e mares.
Arma-lhe a tenda um ricaço,
Que a terra chama magnate,
Com pacto de parceria,
Que em Direito é sociedade.
Com isto o marinheiraz
Do primeiro jacto ou lance
Bota fóra o .. breado,
As mãos assimilha em guantes.
Vende o cabedal alheio
E dá com elle em levante,
Vai e vem, e ao dar das contas
Diminue, e não reparte.
Prende aqui, prende acolá,
Nunca falta um bom compadre,
Que ou entretenha o credor,
Ou faça esperar o alcaide.
Passa um anno, e outro anno,
Esperando que elle pague,
Que uns lhe dão para que ajuncte,
E outros para que engane.
Nunca paga, e sempre come,
E quer o triste mascate,
Que em fazer a sua estrella
O tenham por homem grande.
O que elle fez foi furtar,
Que isso faz qualquer birbante,
Tudo o mais lhe fez a terra,
Sempre propicia aos infames:
E eis aqui a personagem.
Vem um clerigo idiota,
Desmaiado como um gualde,
Os vicios com seu bioco,
Com seu rebuço as maldades.
Mais sancto do que Mafoma
Na crença dos seus Arabes,
Lettrado como um matullo
E velhaco como um frade.
Hontem simples sacerdote,
Hoje uma gran’dignidade,
Hontem selvagem notorio,
Hoje encoberto ignorante.
A tal beato fingido
É força que o povo acclame,
E os do governo se obriguem,
Pois edifica a cidade.
Chovem uns e chovem outros
Co’os officios e os logares,
E o beato tudo apanha
Por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro e em respeito,
Vai remettendo as fundagens,
Compra toda a sua terra,
Com que fica um homem grande:
E eis aqui a personagem.
Vêm outros lotes de requiem,
Que indo a tomar o caracter,
Todo o Reino inteiro cruzam
Sobre a chança viandante.
De uma provincia para outra
Como dromedarios partem,
Caminham como camellos,
E comem como selvagens.
Mariolas de missal,
Lacaios missa-cantantes,
Sacerdotes ao burlesco,
Ao serio ganhões de altares.
Chega um d’estes, e toma amo,
Que as capellas dos magnates
São rendas que Deus creou
Para estes Orate fratres.
Fazem-lhe certo ordinario,
Que é dinheiro na verdade
Que o Papa reserva sempre
Das cêas e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
Porque o reverendo padre
É do sancto neque demus
Meritissimo confrade.
Com este cabedal juncto
Já se resolve a embarcar-se,
Vai para a sua terrinha
Com fumos de ser abbade:
E eis aqui a personagem.
Vêem isto os filhos da terra
E entre tanta iniquidade,
São taes que nem inda tomam
Licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre callam,
Até que Deus lhes depare
Quem lhes faça de justiça
Esta satyra á cidade.
Tão queimada e destruida
Te vejas, torpe cidade,
Como Sodoma e Gomorra,
Duas cidades infames.
Que eu zombe dos teus visinhos,
Sejam pequenos ou grandes,
Gozos, que por natureza
Nunca mordem, sempre latem.
Porque espero entre os Paulistas
Na Divina Magestade,
Que a ti São Marçal te queime,
E a mim São Paulo me guarde.