RETRATO
DO GOVERNADOR ANTONIO DE SOUSA DE MENEZES CHAMADO O BRAÇO DE PRATA

SYLVA

Oh! não te espantes não, dom Antonia,
Que se atreva a Bahia
Com expremida voz, com plectro esguio,
Cantar ao mundo teu rico feitio,
Porque é já velho em poetas elegantes
O cahir em torpezas similhantes.
Da pulga acho que Ovidio tem já escripto,
Luciano do mosquito,
Das rans Homero, e d’estes não desprézo,
Que escreveram materia de mais pezo
Do que eu, que canto cousa mais delgada,
Mais chata, mais subtil, mais esmagada.
Quando desembarcaste da fragata,
Meu Dom Braço de prata,
Cuidei que a esta cidade, tonta e fatua,
Mandava a Inquisição alguma estatua,
Vendo tão expremido salvajola,
Visão de palha sobre um mariola.
O rosto de azarcão afogueado,
E em partes mal untado,
Tão cheio o corpazil de godilhões,
Que o tive por um sacco de melões,
Vi-te o braço pendente da garganta,
E nunca prata vi com liga tanta!
O bigode fanado posto ao ferro
Está alli num desterro,
E cada pello em solidão tão rara,
Que parece ermitão da tua cara;
De cabelleira tal affirmam cegos
Que a mandaste comprar no Arco dos pregos.
Olhos ... .. ... sempre á porta,
Me têm esta alma absorta,
Principalmente vendo-lhe as vidraças
Nos grosseiros caixilhos das couraças;
Cangalhas que formaram luminosas
Em dois arcos de pipa duas ventosas.
De muito cego, e não de malquerer,
A ninguem pódes ver,
Tão cego és que não vês teu prejuizo,
Sendo cousa que se olha com o juizo;
Tu és mais cego do que eu, que te susurro,
Que em te olhando não vejo mais que um burro.
Chato o nariz, de cócaras sempre posto,
Te corre todo o rosto
De gatinhas buscando algum jazigo,
Aonde o desconheçam por embigo,
Té que se esconde d’onde mal o vejo,
Por fugir ao fedor do teu bocejo.
Faz-lhe tal visinhança a tua bocca
Que com razão não pouca
O nariz se recolhe para o centro,
Mudado para os baixos lá de dentro,
Surge outra vez, e vendo a baforada,
Lhe fica alli a ponta um dia engastada.
Pernas e pés defendem a tua cara
Velhaca, e quem cuidára,
Tomando-te a medida das cavernas,
Se movesse tal corpo com taes pernas?
Cuidei que eras rossim das Alpujarras,
E já frizão te digo pelas garras.
Um cazaquim trazias sobre o coiro,
Qual odre, a quem o toiro
Uma e outra cornada deu traidora,
E lhe deitou de todo o vento fóra;
Tal vinha o teu vestido de enrugado,
Que o tive por um odre esfuracado.
O que te vir ser todo rabadilha
Dirá que te perfilha
Uma quaresma, chato percevejo,
Por arenque de fumo ou por badejo;
Sem carne e osso, quem ha ahi que creia
Sinão que és descendente de lampreia?
Livre-te Deus de um sapateiro ou xastre,
Que te temo um desastre;
E é que por sovéla ou por agulha
Armem sobre levar-te alguma bulha,
Porque, depositando-te a justiça,
Será num agulheiro ou em cortiça.
Na esquerda mão trazias a bengala,
E, ou por força ou por gala,
No sovaco por vezes a mettias,
Só por fazer infindas cortezias,
Tirando ao povo, quando te destapas,
Entonces o chapéu, agora as capas.
Fundia-se a cidade em carcajadas,
Vendo as duas entradas
Que fizeste do mar a Sancto Ignacio,
E depois do Collegio a teu palacio,
O rabo erguido em cortezias mudas,
Como quem pelo .. tomava ajudas.
Ao teu palacio te acolheste, e logo
Casa armaste de jogo,
Ordenando as merendas por tal geito,
Que a cada jogador se dá um confeito:
Dos tafues um confeito era um boccado,
Sendo tu pela cara o enforcado.
Depois déste em fazer tanta parvoice,
Que ainda que o povo risse
A principio, cresceu depois a tanto
Que chegou a chorar com triste pranto:
Chora-se nú de um roubador de falso,
E vendo-te eu de riso me descalço.
Chinga-te o negro, o branco te pragueja,
E a ti nada te aleja;
E por teu sem-sabor e pouca graça
És fabula do lar, riso da praça,
Té que a bala, que o braço te levára,
Venha segunda vez levar-te a cara!