Tractam de diminuir
O dinheiro a meu pezar,
Que para a cousa baixar
O melhor meio é subir:
Quem via tão alto ir,
Como eu vi ir a moeda,
Lhe prognosticou a queda,
Como eu lh’a prognostiquei:
Dizem que o mandou El-Rei,
Quer creais, quer não creiais,
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Mandam a força do fado,
Por ser justo que o dinheiro
Baixe a seu valor primeiro
Depois de tão levantado:
O que se vir sublimado
Por ter mais quatro mangabas,
Hão de peza-lo ás oitavas,
E por leve hão de engeita-lo:
E si com todo este abalo
Por descontentes vos dais,
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
As pessoas de quem rezo
Hão de ser como o ferrollho:
Val pouco tomado a olho,
Val menos tomado a pezo.
Os que prézo, e que desprézo,
Todos serão de uma casta,
E só moços de canasta,
Entre veras e entre chanças
Com pezos e com balanças
Vão á justiça os mais:
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Porque como em Maranhão
Mandam novelos á praça,
Assim vós por esta traça
Mandareis o algodão:
Haverá permutação,
Como ao principio das gentes,
E todos os contrahentes
Trocarão droga por droga,
Pão por sal, lenha por soga,
Vinhas por cannaviaes:
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Virá a frota para o anno,
E que leve vos agouro,
Si não tudo a pezo de ouro,
A pezo tudo de engano:
Não é o valor deshumano,
Que a cada oitava se dá,
Da prata, que corre cá,
Pelo meu fraco conceito;
Mas o cobrar fiel direito,
E obliquo quando pagais:
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Bem merece esta cidade
Esta afflicção, que a assalta,
Pois os dinheiros exalta
Sem real auctoridade:
Eu si hei de fallar verdade,
O aggressor do delicto
Devia ser só afflicto:
Mas si estão tão descançados,
Talvez que sejam chamados
Nesta frota que esperais:
Não vos espanteis, que ainda lá vem mais.