Á D. JOÃO DE ALENCASTRE
QUE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLA POR ESCALA A BAHIA, E ESTANDO NELLA HOSPEDE DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO, SEU CUNHADO, EM CUJO DESAGRADO SE ACHAVA O P., SE QUEIXOU DE QUE ESTE O NÃO HOUVESSE VISITADO, PEDINDO-LHE QUE AO MENOS LHE FIZESSE UMA SATYRA POR OBSEQUIO

A quem não dá aos fieis,
Perdão se lhe ha de outorgar,
E eu hoje vo-lo hei de dar,
Pedindo me perdoeis:
Dou-vos o que mais quereis,
E o que pedis por favor,
Que quando chega um senhor
A pedir por não mandar,
Mal lhe podia eu faltar
Co’ uma satyra em louvor.
Não fui beijar-vos a mão,
E dar-vos a bem chegada,
Porque nessa alta morada
Nunca tive introducção:
Até agora a indignação
Não quiz tão altivo tracto,
Mas hoje é quasi distracto,
Porque em todo o mundo inteiro
De fidalgo e de escudeiro
São brincos de cão com gato.
Os fidalgos e os senhores
Fartos de jurisdicção
Fazem tudo e tudo dão
Á amigos e servidores:
Os que jogam de maiores
Por sangue, e não por poder,
Fazem jogo de entreter,
Porque o sangue desegual
Sempre bota ao natural,
E o mando bota a perder.
Perdoae a digressão,
Porque esta preluxidade
É boa luz da verdade
E excusa satyra então:
Quando se offereça occasião,
Meu senhor, de que vos veja
(Na egreja ou na rua seja)
Hei de prender-vos os pés,
E estai certo, que essa vez
Vos não valerá a Egreja.
Estou na minha quintinha,
Que é chacara soberana,
Ora comendo a banana,
Jogando ora a laranginha:
Nem vizinho, nem vizinha
Tenho, porque sempre cança,
Quem tudo vê e nada alcança,
E na cidade são raros
Os olhos, que não são claros,
Si olhos são de vizinhança.
Mas inda que desterrado
Me tem o fado e a sorte
Por um Juiz de má morte,
De quem não tenho appellado:
É hoje, que sois chegado,
Senhor, o tempo em que appelle,
Fazei, que el-rei o desvele
Pagar o serviço meu,
Pois é bizarro, e só eu
Não vim muito pago d’elle.