A JOÃO GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO
FILHO DO DITO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA, TOMANDO POSSE DE UMA COMPANHIA DE INFANTES EM DIA DE S. JOÃO BAPTISTA, ASSISTINDO-LHE DE SARGENTO SEU TIO DOM JOÃO DE ALENCASTRE

No culto que a terra dava,
Equivocava-se a vista,
Si celebrava ao Baptista,
Si a Coutinho celebrava:
Um e outro João estava
Arrojando a sua planta
Tanto applauso e festa tanta;
Mas viu-se, que ao mesmo dia
Em que o Baptista cahia,
O Coutinho se levanta.
Viu-se que um João Baptista
Na terça feira cahira,
E que o outro João subira
A imperar nesta Conquista:
Mas não se enganou a vista
Por desacerto ou desgraça,
Antes com divina traça
Se notou e se advertiu,
Que si um com graça cahiu,
Outro nos cahiu em graça.
Brava occurrencia se achou
No Martyrologio então,
O dia era de um João,
E outro João lh’o levou:
Toda a cidade assentou
Por razão e por carinho,
Ser mais acerto e alinho
Preferir entre dous grandes
Como um Silva a um Fernandes,
A um Baptista um Coutinho.
Mais concurrencias se deram
Porque pasmasse a Bahia,
Dous num dia ha cada dia,
Mas tres nunca concorreram:
Tres de um nome então vieram,
E qual mais para applaudido;
E assim confuso o sentido,
Ficou, com tão nova traça,
Restaurada a nossa Praça
E o Kalendario aturdido.
Si de um só João no dia
Se abalára a Christandade,
Por tres de tal qualidade
Quem se não abalaria?
Tudo quanto então se via,
Se via com grande abalo,
Um mar de fogo a cavallo,
A pé um Etna de flores,
E por ver tantos primores
O céu dava tanto estalo.
A ver o grande Lencastro
Quem não fez do aperto graça?
Si sahiu o Sol á Praça
Fazer Praça á tanto astro?
O bronze pois e alabastro,
Por solemnisar a gloria,
Consentiram que esta historia
Fique, por mais segurança,
Nos archivos da lembrança,
Nos volumes da memoria.