Adeus, amigo Pedro Alvres,
Que vos partistes d’aqui
Para geral desconsolo
D’este povo do Brazil.
Partiste-vos, e oxalá
Que então vos vira eu partir,
Que sempre um quarto tomára
A libra por dous seitis.
Puzera o quarto em salmoura
E no fumeiro o pernil,
O pé não, porque me dizem
Que vos fede o escarpim.
Guardára o quarto de sorte,
Que se vos podera unir
Na surreição dos auzentes
Quando tornasseis aqui.
Mas vós não fostes partido,
Mente quem tal cousa diz;
Antes fostes muito inteiro,
E sem se vos dar de mim.
Saudades não as levastes,
Deixaste-las isso sim,
Porque de todo este povo
Ereis o folgar e rir.
Desenfado dos rapazes,
Das moças o perrixil,
O burro da vossa casa,
E da cidade o rossim.
Lá ides por esses mares,
Que são vidraças do anil,
Semeando de asnidades
Toda a vargem zaphir.
O piloto e a companha
Apostarei que já diz
Que vai muito arrependido
De ires no seu camarim.
O homem se vê e deseja,
E desesperado emfim,
Acceita que a nau se perca,
Por vos ver fóra de si.
Deseja ver-vos luctando
Sôbre o elemento subtil,
Onde um tubarão vos parta,
Vos morda um darimdarim.
Deseja que os peixes todos
Tomem accôrdo entre si
De vos darem nos seus buchos
Sepultura portatil.
Sente que em amanhecendo
A fina força ha de ouvir
Os bons dias de uma bocca,
Cujo bafo é tão ruim.
Sente que não empregando
Nem um só maravedí
Em queijos frescos, a elles
Vos trezande o chambaril.
Mas vós heis de ir a Lisboa
Apezar de villão ruim,
E el-rei vos ha de fazer,
Com mil mercês, honras mil.
Os cavalheiros da côrte,
Trazendo-vos juncto a si,
Vos hão de dar como uns doidos
Piparotes no nariz.
E como vós sois doente
De fidalgos phrenesis,
Por ficar afidalgado
Toda a mofa heis de rustir.
O que trazeis de vestidos,
Uns assim, outros assim,
Sereis o moda dos modas,
E o modelo dos Torins.
A conta d’isto me lembro,
Quando em Marapé vos vi
Vestido de pimentão,
Com fundos de flor de liz.
Em verdade vos affirmo
Que então vos suppuz e cri
Surrada tapeçaria,
Tisnado guadamecim.
O que dizeis de mentiras,
Quando tomardes aqui,
Amizades de um visconde,
Favores de um conde vis.
Valído de um tal ministro,
Cabido de um tal juiz,
E até do mesmo Cabido
Leiguissimo mandarim.
El-rei me fez mil favores,
Mil favores, mais de mil,
Bem fez com que eu lá ficasse,
Mas não o pude servir.
Quem casou, como eu casei,
Com mulher tão senhoril,
É captivo de um ferreiro,
Não me posso dividir
De el-rei é a minha cabeça,
Porém o corpo gentil
Todo é de minha mulher,
Não tem remedio, hei de me ir.
Achou-me razão el-rei,
E na hora de partir,
Pondo-me a mão na cabeça,
Medisse: Perico, adi.
Ide-vos Perico embora,
Ide-vos para o Brazil,
Que quem vos tirou da côrte
Não vos tirará d’aqui.
E pondo em seu peito a mão,
Eu que a fineza entendi
Chorei por agradece-la
Lagrimas de mil em mil.
Botei pelo paço fóra,
Metti-me no bergantim,
Cheguei a bordo, embarquei-me,
Levámos ferro, e parti.
Os cavalleiros da côrte
Choraram tanto por mim,
Como por uma commenda
De Sanctiago ou de Aviz.
Hontem avistámos terra,
E quando na barra vi
Coqueiros e bananeiras,
Disse comigo: Brazil!