NO BOQUEIRÃO
DE S. ANTONIO DO CARMO, DENTRO DE UMA PEÇA DE ARTILHARIA DESCAVALGADA ESTEVE MUITOS DIAS UMA COBRA SURUCUCÚ ASSALTANDO AOS QUE PASSAVAM COM MORTE DE VARIAS PESSOAS, SENDO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA (É ESTE O ASSUMPTO DA POESIA QUE SE LÊ EM SEGUIDA)

ROMANCE

Acabou-se esta cidade,
Senhor, já não é Bahia.
Já não ha temor de Deus,
Nem d’El-Rei, nem da Justiça.
Lembra-me que ha poucos annos,
Inda não ha muitos dias,
Que para qualquer funcção
De um crime a prisão se urdia.
Iam por esse sertão
Ao centro da Jacobina
Prender algum matador,
Inda que fosse á espadilha.
Mas hoje dentro na praça,
Nas barbas da infantaria,
Nas bochechas das Granachas,
Com polé e forca á vista:
Que esteja um surucucú
Com soberana ousadia
Feito Parca da cidade,
Cortando os fios ás vidas!
Com tantas mortes ás costas,
E que não haja uma rifa
De paus, que ao tal matador
Lhe sacuda o basto em cima.
É mui barbaro rigor
O d’esta cobra atrevida,
Que esteja na estrada posta
Fazendo assaltos á vista.
Onde está Gaspar Soares,
Que não vai á espora fita
No lazão lançar-lhe a garra,
E mette-la na enxovia?
Si está no matto emboscada,
No seu mocambo mettida,
Mandem-lhe um terço ligeiro
De infantes de Henrique Dias.
Si dizem que está na peça,
Dem-lhe fogo á colubrina,
Já que faz peças tão caras,
Custe-lhe esta peça a vida.
Vão quatro ou seis artilheiros
Cavalgar-lhe a artilharia,
Porque em sendo noite dá
Fogo a toda cousa viva.
Fira com balas hervadas,
A que não ha medicina,
Porque as traz sempre na bocca
Com venenosa saliva.
O caso é monstruosidade,
Porém não é maravilha,
Que haja cobras e lagartos
Entre tanta sevandija.
Só digo que é boa peça,
Porque na peça escondida,
Vella na peça de noite,
Dorme na peça de dia.