Um cruzado pede o homem,
Annica, pelos sapatos,
Mas eu ponho isso á viola
Na postura do cruzado.
Diz que são de sete pontos,
Mas como eu tanjo rasgado,
Nem nesses pontos me metto
Nem me tiro d’esses trastos:
Inda assim si eu não soubera
O como tens trastejado
Na banza dos meus sentidos,
Pondo-me a viola em cacos:
O cruzado pagaria,
Já que fui tão desgraçado,
Que boli co’ a escaravelha,
E toquei sôbre o buraco.
Porém como já conheço
Que o teu instrumento é baixo,
E são tão falsas as cordas,
Que quebram a cada passo:
Não te rasgo, nem ponteio,
Não te ato, nem desato,
Que pelo tom que me tanges,
Pelo mesmo tom te danço.
Busca outros temperilhos,
Que eu já estou destemperado,
E estou na quinta do Pegas
Minhas cousas cachimbando.
Si tens o cruzado, Annica,
Manda tirar os sapatos,
E sinão lembre-te o tempo,
Que andaste de pé rapado.
E andavas mais bem segura,
Que isto de pizar em saltos
É susto para quem piza,
E a quem paga é sobresalto.
Quem te curte o cordavão
Porque não te dá sapatos?
Mas eu que te rôo o osso
É que hei de pagar o pato?
Que diria quem te visse
No meu dinheiro pizando?
Diria que quem t’o deu
Ou era besta, ou cavallo.
Pois porque não digam isso,
Leve-me a mim São Fernando,
Si os der, e si tu os calçares,
Leve-te, Annica, o diabo.
De mais, que estou de caminho,
E seria mui grande asno
Estar para dar a sola,
E a ti deixar-te os sapatos.
Agora si eu cá tornar,
Trarei pelles de veado
Para dar-te umas chinelas
Duraveis, que é mais barato.
Fica-te na paz de Deus,
Saudades até quando,
Vem-te despedir de mim,
Porque de hoje a oito parto.