Muito mentes, mulatinha!
Valha-te Deus por Damazia,
Não sei quem, sendo tu escura,
Te ensina a mentir ás claras.
Tal vestido, e com tal pressa!
Não vi mais ligeira saia:
Mas como a seda é ligeira,
Foi a mentira apressada.
Tal vestido não é teu,
Nem tu tens, Damazia, cara
Para ganhar um vestido,
Que custa tantas patacas.
Tu ganhas dous, tres tostões
Por duas ou tres topadas,
Não chegam as galaduras
Para deitar uma gala.
Nem para os feitios chegam
Os troquinhos que tu ganhas,
Pois não vale o teu feitio
Mais que até meia pataca.
De soldado até sargento,
Ou até cabo de esquadra,
Não passa o teu roçagante,
Não te chega a triste alçada.
Estes que te podem dar
Mais que uma vara de cassa,
Uma cinta de baeta
E saia de persiana;
Collete de chamalote,
E de vara e meia a fralda,
Que fazem oito mil réis,
Que é valor da pobre farda.
Todos sabem que o vestido,
Que em verdes campos se esmalta,
É verdura de algum besta,
Que em tua senhora pasta.
Mas o que é d’ella teu é,
Que é outra que tal jangada,
E talvez por t’o emprestar
Se ficaria ella em fraldas.
Apostemos que não vestes
Outra vez a verde saia!
E nem de a vestires mais
Te ficam as esperanças.
Ora toma o meu conselho,
E vive desenganada,
Que emquanto fores faceira
Não has de ganhar pataca.