Quiz ir a festa da Cruz
Ignacia, e faltou-lhe a rede,
Como que foi força ficar
Paredes entre paredes.
Outros dizem que uma amiga
Lhe pediu o manto adrede,
Pela ter emparedada
Todo o dia, em que lhe peze.
Não sei a verdade d’isto,
Sei que eu paguei a patente,
Tendo um dia de trabalho,
Porque de festa lh’o désse.
A saber que estava em casa,
Visitara-a como sempre,
E fizera o que costumam
Casados in facie Ecclesiæ.
Fôra-me pôr á janella,
Porque o calor me refresque,
Fallára co’as Guapas sujas,
Que são limpas guapamente.
Marianna se agastára,
Que tudo escuta e attende,
Por isso diz o adagio:
Manso, que ouvem as paredes.
Sabendo d’este ciume
Foram as Guapas contentes,
Que inda que mulheres feias,
São feias, porém mulheres.
Ignacia se socegára,
Que é moça mansa e alegre,
E com dous mimos se põe,
Sendo Ignacia, uma clemente.
Da sua amiga me queixo,
Que cão de horta me parece,
Pois em todo o dia nunca
Comeu, nem deixou comer-me.
Com Ignacia já não quero
Lançar mais barro á parede,
Que de mui sêcca receio
Que alli meu barro não pegue.
Uma mãe com duas filhas
Na verdade é pouca gente,
Para que eu possa cantar
Prêso entre quatro paredes.
Tres só não fazem prisão,
Porque um triangulo breve,
Que um sino Salmão figura,
Mais enfeitiça que prende.
Mas a parede de Ignacia,
Com ser uma tão sómente,
Como é tão forte e tão rija,
Bastou só para prender-me.
Perdi o ganho essa tarde,
E cuido que para sempre,
Quem m’a pegou uma vez,
Não quero que outra me pegue.
Da Sancta Cruz era a festa,
E a maldicta da Paredes,
Com cruz e sem cruz receio
Me faça calvarios sempre.
Eu perdi moça que agrade,
Ella velho que aconselhe,
Ambos ficámos perdidos,
Quem o vê que o remedeie.