EPISTOLA AO CONDE DO PRADO

ROMANCE

D’aqui d’esta praia grande
Onde á cidade fugindo,
Conventual das arêas
Entre mariscos habito:
A vós, meu conde do Prado,
A vós, meu principe invicto,
Illustrissimo Mecenas
De um poeta tão indigno,
Enfermo da vossa ausencia,
Quero curar por escripto
Sentimentos, saudades,
Lagrimas, penas, suspiros.
Ausentei-me d’esta Terra,
Porque esse povo maldicto
Me poz em guerra com todos,
E aqui vivo em paz commigo.
Graças a Deus que não vejo
Neste meu doce retiro
Hypocritas embusteiros,
Velhacos intromettidos.
Não me entram nesta palhoça
Visitadores prolixos,
Politicos enfadonhos,
Ceremoniosos vadios.
Visitam-me o lavrador
Sincero, simples e liso,
Que entra co’a bocca fechada,
E sahe co’o queixo cahido.
Dou na varanda um passeio,
Ouço cantar passarinhos
Docemente, ao que entendo,
Excepto a lettra e tonilho.
Vou-me logo para a Praia,
E vendo os alvos seixinhos,
De quem as ondas murmuram,
Por mui brancos e mui limpos,
Os tomo em minha desgraça
Por exemplo expresso e vivo,
Pois eu por limpo e por branco
Fui na Bahia mofino.
Queimada veja eu a Terra
Onde o torpe idiotismo
Chama aos entendidos nescios,
E aos nescios chama entendidos.
Queimada veja eu a Terra,
Onde em casa e nos corrilhos
Os asnos me chamam asno;
Parece cousa de riso.
Eu sei de um clerigo Zote,
Parente em grau conhecido
D’estes que não sabem musa,
Mau grego e peior latino,
Ambicioso avarento,
Das proprias negras amigo,
Só por levar a gaudere
O que aos outros custa gimbo;
Que si acaso em mim lhe fallam
Torcendo logo o focinho,
«Não me fallem neste asno»,
Responde em todo o seu sizo.
Tambem sei que um certo Beca,
No Pretorio presidindo,
Onde é salvage em cadeira,
Me pôz asno de banquinho.
Por signal que eu respondi
A quem me trouxe este aviso,
Si fôra asno, como eu sou,
Que mal fôra á esse ministro.
Era eu em Portugal
Sabio, discreto, entendido,
Poeta, melhor que alguns,
Douto como os meus vizinhos.
E chegando á esta Terra,
Logo não fui nada d’isto,
Porque um direito entre tortos
Parece que anda torcido.
De noite vou tomar fresco
E vejo em seu epicyclo
A lua desfeita em quartos,
Como ladrão de caminhos.
Faço versos mal limados
Á uma moça como um brinco,
Que hontem foi alvo dos olhos,
E hoje é negro dos sentidos.
Esta é a vida que passo,
E no descanso em que vivo,
Me riu dos Reis de Hespanha
Em seu celebre Retiro.
Si à quem vive em solidão
Chamou beato um gentio,
Espero em Deus que hei de ser
Por beato inda bemquisto.
Mas aqui e em toda a parte
Estou tão offerecido
Ás coisas do vosso gosto,
Como ás do vosso serviço.