Clara sim, mas breve esphera
Ostenta em purpureas horas
As mais bellas tres Auroras,
Que undoso o Tejo venera;
Tantos raios reverbera
Cada qual quando amanhece
Nas almas á que apparece,
Que não foi muito esta vez,
Que sendo as Auroras tres,
Pela tarde amanhecesse.
Clara na brancura rara
E de candidez rica,
Com ser freira Dominica,
A julguei por freira Clara;
Tanta flor, á flor da cara
Dada em tão varias maneiras,
Que entre as cinzas derradeiras
Jurou certa maripoza,
As mais por freiras da Rosa
Clara por Rosa das freiras.
Branca si por varios modos
Airosa o arco conspira,
Inda que a todos atira,
É Branca o branco de todos;
Mas deixando outros apodos
Dignos de tanto esplendor,
Vibrando o arco em rigor
Parece em traje fingido
Venus, que ensina a Cupido
Atirar settas de amor.
Maria a imitação
Por seu capricho escolheu,
Ser freira branca no véu,
Já que as mais no nome o são;
E em tão candida união
Com as duas irmãs se enlaça,
Que jurada então por graça,
Chove-lhe a graça em maneira,
Que sendo a Graça terceira,
Não é terceira na graça.
Entoando logo um solo
Em consonancia jocunda
Prima terceira e segunda,
A lyra formam de Apollo;
Vaguei um e outro polo,
Mas foi diligencia vã,
Porque a cara mais louçã
Cotejando-a nas brancuras
Com as tres irmãs formosuras,
Não vi formosura irmã.
Vendo tão raros primores,
Para em retrato adorar-vos,
Tractaram de retratar-vos
Estes meus versos pintores;
E me tendo já de côres
Essas vossas luzes puras
Entre metricas pinturas
Ficam, de muito emendados,
Meus versos os retratados,
E não vossas formosuras.