Senhora velha, si é dado
Á quem é vosso valido
Applicardes-lhe o sentido,
Ouvi vosso apaixonado:
Dá-me notavel cuidado
Saber como ides urdindo
Um e outro sonho lindo,
Porque me atrevo á dizer
Que, para taes sonhos ter,
Sempre estivera dormindo.
Diz um portuguez rifão
Nascido em tempo dos monhos,
Que ninguem creia em seus sonhos,
Porque sonhos, sonhos são:
Eu sigo outra opinião
Dês que os vossos sonhos vi,
E tão firmemente os cri,
Que si os tenho por verdade,
É porque na realidade
Os masquei e os engoli.
Eu dormira todo o dia,
E a vida desperdiçando
Sempre estivera sonhando,
Só por sonhar que os comia:
O sonhar é phantasia
Da alma que quando descança
Não larga a sua lavrança,
O seu trabalho e tarefa,
E como a minha alma é trefa,
No que lida é na papança.
Não são sonhos enfadonhos
Sonhos tão adocicados,
Que em vez de sonhos sonhados,
São sempre engolidos sonhos:
Outros sonhos ha medonhos,
Que um homem deixam turbado
Depois do sonho acordado:
Os vossos tal não farão,
E ao menos me deixarão
Mel pelos beiços untado.