Senhora, estou já em crer,
Que não é vosso rigor
Crueldade, mas temor,
Que tendes de vos render:
Hei de dar-vos á entender,
Por mais vos desenganar,
Que só pretendo adorar
Isento e independente,
Que o querer do pretendente
É mui distincto do amar
Bem posso, sem ser amado,
Amar-vos, minha senhora,
Porque amor sempre melhora
O fino em o desgraçado.
No impossivel adorado
Está o affecto maior;
Que quem aspira ao favor
Em sua dor importuna,
Faz lisonjas á fortuna,
E não serviços á amor.
Si do meu conhecimento
Nasceu a minha vontade,
Não pague uma divindade
Ter eu este entendimento.
Que mais agradecimento,
Quer uma amante paixão
Que amar e amar com razão!
E si é preciso querer
Ao bello, porque ha de ser
Merito a obrigação?
O amar correspondido
Não é o mais perfeito amar,
Que não se hão de equivocar
Amante e agradecido.
Sempre contingencia ha sido
O rigor ou a clemencia,
E si da correspondencia
Nascêra sempre a vontade,
Não fôra amor divindade,
Porque o fôra a contingencia.
O amante que procura
Ser em seu amor ditoso,
Tem ambição ao formoso,
Não amor á formosura.
Quem idolatra á luz pura
Da belleza rigorosa,
Cora fineza generosa,
Ame sempre despresado,
Porque o ser eu desgraçado,
Não vos tira o ser formosa.
Não ser de vós admittido
Acredita o meu cuidado;
Logo á ser tão despresado
Devo estar agradecido.
Rigores peço soffrido,
Não clemencia, nem piedade;
Porque inutil é a vontade,
Que deixa em sua fineza
Pelos logros da belleza
Respeitos da divindade.