Á UMA DAMA
A QUEM O P. EM CERTA OCCASIÃO ACHOU MAIS FORMOSA DO QUE COSTUMAVA VER

Tenho por admiração,
Menina, e por cousa rara,
Que mudasseis vós de cara,
Porém não de condição:
Vendo-vos nesta occasião
De feições tão desmentida,
Mais dura e mais sacudida,
Vos julguei, porque o revele,
Qual cobra que muda a pelle,
Mas não põe emenda á vida.
Como não terá desgosto
Quem adora uma belleza,
Si sem mudar natureza,
Tão mudada está de rosto?
Para vós me dares gosto
E pagares minha fé,
O que haveis de fazer é,
Por dar-me algum galardão,
Mudares de condição:
Mas de cara para que?
Cara que já me agradára,
Por bonita e por graciosa,
Commigo é mudança nova,
Comvosco é mudança cara.
Si amor vos desenganára,
Que me parecieis bem,
Não tivereis vós por quem
Fazer esta variação,
Sendo varia na feição,
E tão firme no desdem.
Não digo, minha senhora,
Mal da vossa perfeição:
Quero Marianna de então,
E não Marianna de agora;
Que quem vos ama e adora
Tão firme e constantemente,
Quer que saiba toda a gente
Que minha alma enamorada
Não dá Marianna passada
Por Marianna presente.
Quem faz mudanças na cara,
Bem que não no coração,
Sempre deixa a presumpção
Que por pouco se mudára.
Eu a amar-vos não chegára,
Sem ter por delicto atroz
Que haja mudança entre nós;
Pois não só mudar se chama
Ires vós para outra dama,
Como de vós para vós.
Ou mudada ou não mudada,
Vos affirmo reverente
Que sois mais moça ao presente,
Para ser fructa passada.
E está tão idolatrada
De mim essa cara bella,
Que ou seja esta ou aquella,
O que agora importa é
Que deis um geito com que
Eu pobre me logre d’ella.