Á UMA DAMA ESQUIVA

Filena, eu que mal vos fiz,
Que sempre a matar-me andaes,
Uma vez quando me olhaes,
Outra quando me fugis?
Vi-vos e logo vos quiz
Tão inseparavelmente,
Que nem a vista o presente,
Nem menos sabe dizer-me
Entre o ver-vos e o render-me
Qual foi primeiro accidente.
Vós sois tão esquiva e tal,
Que outras coisas não sabendo,
Da vossa esquivança entendo
Que meu amor vos faz mal:
Não cabe em meu natural
Fugir de quem me maltracta,
E si me sahir tão barata
A vingança de adorar-vos,
Quero querer-vos e amar-vos,
Porque fiqueis mais ingrata.
Não sinto esta pena atroz
Que me fazeis padecer,
Antes folgo de morrer,
Vendo que morro por vós:
E si com passo veloz
Presinto a morte chegar,
Não sinto o ver-me acabar,
Sinto a gloria que vos cresce,
Que uma ingrata não merece
A gloria de me matar.
Vivam vossas esquivanças
E vossa crueldade viva,
Que a sem razão de uma esquiva
Acredita as esperanças.
Tudo tem certas mudanças,
Tambem se muda o rigor;
E si amor me dá valor
Para soffrer-vos e amar-vos,
Claro está que hão de mudar-vos
Firmezas do meu amor.