DANDO UMA QUEDA
Á VISTA DE UMA DAMA QUE SE ENTENDE SER A CELEBRADA BABÚ.

Filena, o ter eu cahido
Nenhum susto me tem dado,
Porque a vossos pés prostrado
Me julgo então mais subido:
Direis que fiquei sentido,
Mas sabei que não sentira,
Inda que me não subira
A cahir onde cahi,
Si como no chão me vi,
Com vosco em terra me vira.
Porém que isso me succeda,
Por mais quédas que inda dê,
Não creio, pois vejo que
Não tenho com vosco quéda.
Vossa crueza me veda
Este bem que eu tanto abraço:
Quem viu similhante passo,
Que encontre meu desvario,
Filena, em vosso desvio
A minha quéda embaraço.
Confesso que então cahido
Fiz tenção de me sangrar,
Mas não me quiz mais picar,
Porque assaz fiquei corrido.
Não andei pouco advertido,
Fallo como quem vos ama;
Porque eu sei, formosa dama,
Que por mais que me sangrasse,
Livre estou de que chegasse
A vêr-me por vós na cama.
E com toda essa desgraça
Por satisfeito me dera
Si com cahir merecêra
Siquer cahir-vos em graça:
Mas porque, Filena, faça
D’esta quéda estimação,
Inda sobeja razão,
Si a quéda motivo é
De prostar-me a vosso pé
Para beijar-vos a mão.
Dizeis que quereis tomar,
Para dar, vosso conselho:
Quereis conselho de velho?
Nunca o tomeis para o dar:
Os olhos se hão de fechar
Para o dar, e abrir da mão,
Com razão ou sem razão,
Que os negocios que se tractam,
Com conselhos que dilatam,
Nunca se conseguirão.
Si conselhos não tomaes,
Quando alvedrios rendeis,
Como conselhos quereis,
Quando alvedrios pagaes?
Sem conselho me mataes,
E daes-me a vida em conselho?
Este estylo é já tão velho
Na eschola da tyrannia,
Que da mais tyranna harpia
Podereis vós ser espelho.