Tempo, que tudo trasfegas,
Fazendo aos pelludos calvos,
E pelos tornar mais alvos
Até os bigodes lhe esfregas:
Todas as caras congregas,
E á cada uma pões mudas;
Tudo acabas, nada ajudas:
Ao rico pões em pobreza,
Ao pobre dando riqueza,
Só para mim te não mudas.
Tu tens dado em malquerer-me,
Pois vejo que dá em faltar-te
Tempo só para mudar-te,
Si é para favorecer-me:
Por conservar-me e manter-me
No meu infeliz estado,
Até em mudar-te has faltado,
E estás tão constante agora,
Que para minha melhora
De mudanças te has mudado.
Tu que esmaltas e prateias
Tanta guedelha dourada,
E tanta face encarnada
Descoras, turbas e affeias:
Que sejas pincel não creias,
Si não dias já passados,
Mas si esmaltes prateados
Branqueam tantos cabellos,
Como branqueando pellos,
Não me branqueias cruzados?
Si corres tão apressado,
Como paraste commigo?
Corre outra vez, inimigo,
Que o teu curro é meu sangrado:
Corre para vir mudado,
Não pares por mal de um triste;
Porque si pobre me viste,
Paraste ha tantas Auroras,
Si de tão infaustas horas,
O teu relogio consiste?
O certo é, que és um caco,
Um ladrão da mocidade,
Por isso nessa cidade
Corre um tempo tão velhaco:
Farinha, assucar, tabaco
No teu tempo não se alcança;
E por tua intemperança
Te culpa o Brazil inteiro;
Porque sempre és o primeiro
Movel de qualquer mudança.
Não ha já quem te supporte,
E quem armado te vê
De fouce e relogio, crê
Que és o precursor da morte:
Vens adeante de sorte
E com tão fino artificio
Que á morte forras o officio;
Pois ao tempo de morrer,
Não tendo já que fazer,
Perde a morte o exercicio.
Si o tempo consta de dias,
Que revolve o céu opaco,
Como tu, tempo velhaco,
Constas de velhacarias?
Não temes que as carestias,
Que de ti se hão de escrever,
Te darão á aborrecer
Tanto ás futuras edades,
Que ouvindo as tuas maldades
A cara te hão de trocer.
Si porque penas me dês,
Páras cruel e inhumano,
O céu sancto e soberano
Te fará mover os pés:
Esse azul movel que vês
Te fará ser tão corrente,
Que não parando entre a gente
Preveja a Bahia inteira
Que has de correr a carreira
Com pregão de delinquente.