REDARGUE
O P. A DOUTRINA OU MAXIMA DO BEM VIVER QUE MUITOS POLITICOS SEGUEM DE INVOLVER-SE NA CONFUSÃO DE HOMENS PERDIDOS E NESCIOS, PARA PASSAR COM MENOS INCOMMODO ESTA HUMANA VIDA

Que nescio que eu era então
Quando cuidava o não era!
Mas o tempo, a edade, a era
Puderam mais que a razão:
Fiei-me na discrição,
E perdi-me, em que me pez,
E agora dando ao travez,
Vem no cabo á conhecer
Que o tempo veiu a fazer
O que a razão nunca fez.
O tempo me tem mostrado
Que, por me não conformar
Com o tempo e com logar,
Estou de todo arruinado:
Na politica de estado
Nunca houve principios certos,
E posto que homens expertos
Alguns documentos deram,
Tudo o que nisto escreveram
São contingentes acertos.
Muitos por vias erradas
Têm acertos mui perfeitos,
Muitos por meios direitos
Não dão sem erro as passadas:
Cousas tão disparatadas
Obra-as a sorte importuna,
Que de indignos é columna.
E si me ha de ser preciso
Lograr fortuna sem sizo,
Eu renuncio á fortuna.
Para ter por mim bons fados
Escuso discretos meios,
Que ha muitos burros sem freios
E bem afortunados:
Logo os que andara bem livrados,
Não é propria diligencia,
É o ceu e sua influencia,
São forças do fado puras,
Que põem mentidas figuras
No theatro da prudencia.
De diques de agua cercaram
Esta nossa cidadella,
Todos se molharam nella,
E todos tontos ficaram:
Eu, á quem os céus livraram
D’esta agua, fonte da asnia,
Fiquei são da fantasia
Por meu mal, pois nestes tratos
Entre tantos insensatos
Por sisudo eu só perdia.
Vinham tontos em manada,
Um simples, outro doudete,
Este me dava um moquete,
Aquell’outro uma punhada:
Tá: que sou pessoa honrada,
E um homem de entendimento,
Qual honrado ou qual talento?
Foram-me pondo num trapo,
Vi-me tornado um farrapo,
Porque um tolo fará cento.
Considerei logo então
Os baldões que padecia,
Vagarosamente um dia,
Com toda a circumspecção:
Assentei por conclusão
Ser duro de os correger,
E livrar do seu poder,
Dizendo com grande magua:
Si me não molho nesta agua,
Mal posso entre estes viver.
Eia: estamos na Bahia,
Onde agrada a adulação,
Onde a verdade é baldão,
E a virtude hypocrisia:
Sigamos esta harmonia
De tão fatua consonancia,
E inda que seja ignorancia
Seguir erros conhecidos,
Sejam-me a mim permittidos
Si em ser besta está a ganancia.
Alto pois com planta presta
Me vou ao Dique botar,
E ou me hei de nelle afogar,
Ou tambem hei de ser besta:
Do bico do pé até a testa
Lavei as carnes e os ossos:
Ei-los vêm com alvoroços
Todos para mim correndo,
Ei-los me abraçam dizendo:
«Agora sim que é dos nossos.»
Dei por besta em mais valer,
Um me serve, outro me presta,
Não sou eu de todo besta,
Pois tractei de o parecer:
Assim vim á merecer
Favores e applausos tantos
Pelos meus nescios encantos,
Que emfim e por derradeiro
Fui gallo do seu poleiro
E lhes dava os dias sanctos.
Já sou na terra bem visto,
Louvado e engrandecido,
Já passei de aborrecido
Ao auge de ser bemquisto:
Já entre os grandes me alisto,
E amigos são quantos topo:
Estou fabula de Esopo,
Vendo fallar animaes,
E fallando eu que elles mais,
Bebemos todos num copo.
Seja pois a conclusão,
Que eu me puz aqui a escrever
O que devia fazer,
Mas que tal faça, isso não:
Decrete a Divina mão,
Influam malignos fados,
Seja eu entre os desgraçados
Exemplo da desventura,
Não culpem minha cordura,
Que eu sei que são meus peccados.