Eu vos retrato Gregorio,
Desde a cabeça á tamanca,
Co’ um pincel esfarrapado
Numa pobrissima tabua.
Tão pobre é nossa gadelha,
Que nem de lendias é farta,
E inda que cheia de aneis,
São aneis de piassaba.
Vossa cara é tão estreita,
Tão faminta e apertada,
Que dá inveja aos Buçacos,
E que entender ás Thebaidas.
Tende dois dedos de testa
Porque da frente á fachada
Quiz Deus e a vossa miseria
Que não chegue á pollegada.
Os olhos dois ermitães,
Que em uma lobrega estancia
Sempre fazem penitencia
Nas grutas da vossa cara.
Dois arcos quizeram ser
As sobrancelhas, mas para
Os dois arcos se acabarem
Até de pello houve falta.
Vosso pae vos amassou,
Porém com miseria tanta,
Que tremeu a natureza
Que algum membro vos faltára.
Deu-vos tão curto o nariz,
Que parece uma migalha,
E no tempo dos defluxos
Para assoar-vos não basta.
Vós devieis de ser feito
No tempo em que a lua se acha
Pobrissima já de luz,
Correndo á minguante quarta.
Pareceis homem meminho,
Como o meminho da palma,
O mais pequeno na rua,
E o mais pobresinho em casa.
Vamos aos vossos vestidos,
E peguemos na casaca,
Com tento, porque sem tento
A leva qualquer palavra.
Anda tão rota, senhor,
Que tenho por coisa clara
Que no Tribunal da Rota
De Roma está sentenciada.
A vossa grande pobreza
Para perpetua lembrança
Dedico á de Manuel Trapo,
Que foi no mundo affamada.