Á ANTONIA
MOÇA PARDA DE PERNAMIRIM CHAMADA VULGARMENTE CATONA

Que pouco sabe de amor
Quem viu, formosa Catona,
Que ha nessa celeste zona
Astro ou luminar maior.
Tambem a violeta é flor,
E mais é negra a violeta,
E si bem póde um poeta
Uma flor negra estimar,
Tambem eu posso adorar
Nos céus um pardo planeta.
Catona é moça luzida,
Que á pouco custo se asseia,
Entende-se como feia,
Mas é formosa entendida:
Escuza-se commedida,
E ajusta-se envergonhada,
Não é tão desapegada
Que negue á uma alma esperança,
Porque emquanto a não alcança,
Não morra desesperada.
Piza airoso e compassado,
Sabe-se airosa mover,
Calça que é folgar de ver,
E mais anda a pé folgado:
Conversa bem sem cuidado,
Ri sizuda na occasião,
Escuta com attenção,
Responde com seu desdem,
E inda assim responde bem,
E bemquista a sem razão.
É parda de tal talento,
Que a mais branca e a mais bella,
Podéra trocar com ella
A côr pelo entendimento
A um prodigio, um portento;
E si vos espanta ver,
Que adrêde me ando a perder;
Dá-me por desculpa amor,
Que é femea trajada em flor,
E sol mentido em mulher.