A ANTONIA
MOÇA PARDA, CHAMADA A MARIMBONDA, QUE MORAVA NA RUA DA POEIRA, E A VIU O P. NO CAMPO DA PALMA DEBAIXO DE UMA URUPEMBA EM CASA DE UMA AMIGA. ALLUDE AO REMEDIO SYMPATHICO DE SE QUEIMAR A CASA DOS MARIMBONDOS, PARA SE EXTINGUIR LOGO A DÓR DAS SUAS PICADAS

Fui hoje ao Campo da Palma,
Onde com subito estrondo
Me investiu um marimbondo,
Que me picou dentro da alma:
Era já passada a calma,
E eu me sentia encalmado,
Corrido e injuriado,
Porque sendo obrigação
Metter-lhe eu o meu ferrão,
Eu fui o que vim picado.
Fiz por fecha-lo na mão,
Mas o marimbondo azedo
Me picava em qualquer dedo
E escapava por então:
Desesperada funcção
Foi esta, pois me fui pondo
Tão abolhado em redondo
Por cara, peito e vasios,
Que estou com febres e frios
Morrendo do marimbondo.
Dizem que a vingança está
Em lhe saber eu da casa,
Porque deixando-lh’a em braza,
Um fogo outro abrandará:
Mas temo não arderá,
Por mais que toda uma matta
Lhe applique com mão ingrata,
Porque o que eu lhe hei de pôr
Ha de ser fogo de amor,
Que inda que abraza, não mata.
Nesta afflicção tão penosa
D’onde me virá o soccorro?
Morrerei, pois por quem morro,
Morro uma morte formosa:
Esta dôr tão tormentosa
Me levará de maneira,
Que, ou ella queira ou não queira,
Em chegando á sua rua,
Si acaso se mostrar crua,
Tudo irá numa poeira.