Veiu aqui o Moçorongo
Tão occulto e escondido,
Que não sei si o tenha a elle,
Si a vós por meu inimigo.
Chegou terça feira á tarde,
Metteu-se em casa de Chico,
Passou a tarde e a noite,
E o peior é que dormindo.
Porque havia de dormir
O Moçorongo maldicto,
Sabendo que estava eu
Desvelado e affligido?
Amanheceu quarta feira,
Chegou o nosso Arcebispo,
Gastou-se toda a manhã
Com visitas e visitos.
Deu meio dia, e fui eu
Para casa dos amigos
Esfaimado como um cão,
E como um lobo faminto.
Quando o cão do Moçorongo
Sahiu do seu escondrijo,
E sem lhe occorrer o encontro
Deu de focinhos commigo.
Alegrei-me, e enfadei-me,
Que ha casos em que é preciso
Que se mostre ao mesmo tempo
Alegre um peito e mofino.
Amofinou-me a traição
Com que elle esteve escondido,
E alegrei-me de encontrar
Com gente d’esse districto.
Perguntei logo por vós,
Por Ignacio e Antonico,
Por Luzia e por Catona,
E mais gente d’esse sitio.
Todos estão com saude,
Me disse o crioulo esquivo,
Um tanto triste da cara,
Pouco alegre do focinho.
Mas eu fiz-lhe muita festa,
Assim por ser seu amigo,
Como por ser cousa vossa,
E neste pasto nascido.
Perguntei si me escreveras,
Zombou d’isso, e deu-me um trinco
Zombou com cara risonha,
Trincou com dedo tangido.
D’isto formo a minha queixa,
D’isto fico mui sentido,
Pois sei que tendes papel,
Tinteiro, penna e juizo.
Mais andar lá nos veremos,
E vereis que de sentido
Vos hei de estrugir a vozes,
E me hei de espojar a gritos.
Meus recados a Luzia,
E que estou já de caminho,
Porque só ella me farta,
E á fome aqui me entizico.