Senhor Ignacio, é possivel
Que quizestes desdizer
D’aquella boa opinião
Que eu tinha na vossa fé?
É possivel que um amigo,
De que tanto confiei,
Nem por escripto me falla,
Nem em pessoa me vê?
É possivel que uma ausencia
Tanta potestade tem,
Que ao vivo morto reputa
No que toca ao bem querer?
Si isto em vós a ausencia faz,
Como em meu peito o não fez?
Não sois vós o meu ausente,
Que em meu peito viveis?
O certo é, meu amigo,
Disse amigo, mas errei,
Que não sois amigo já,
Sois o meu socio talvez.
Fostes socio nos caminhos
D’aquella terra infiel,
Onde Luzia traidora,
E Catona descortez,
Me privaram dos sentidos,
E me deixaram crueis
O corpo uma chaga viva
A golpes de seus desdens.
Mas eu me não queixo d’ellas,
Que de nenhuma mulher,
Má ou boa, ha de queixar-se
Homem que juizo tem.
Queixo-mo de vosso tio,
Que se foi por me empecer
Esta terceira jornada
Para acabar o entremez.
Praza a Deus que ache Simoa,
A quem amante foi ver,
Como ha de achar Antonica
Farta de xesmininez.
D’aquella Antonica fallo,
Que pôz no negro poder
Das Quitas, para que a guardem,
E a guardarem ao revez.
Que a Silvestre a entregaram,
O qual, como vós sabeis,
Apezar dos dias sanctos
Lhe deu tanto que fazer.
Mas pois em Pernamirim,
E em suas cousas toquei,
Neste mesmo assumpto quero
Me façais uma mercê.
Dizei-me si está o Antonio
Recolhido a seu vergel,
Onde era geral Adão
Das Evas que Deus lhe deu.
E si acaso tiver vindo,
Vos peço que lhe mandeis
Este romance fechado
Em um molhado papel.
Porque no molhado veja
O chôro com que lancei
Estes versinhos tão tristes
Por amar e querer bem,
A elle, que me fugiu
D’esta casa, ha mais de um mez,
E á Catona que o imita
No esquivo e no infiel.
E com isto, e outro tanto
Que me fica por dizer,
Adeus, até que tenhais
Quem vos traga a meu vergel.