Á ANTONIO DE ANDRADE
SENDO DESPENSEIRO DA MISERICORDIA

Senhor Antonio de Andrade,
Não sei si vos gabe mais
As franquezas naturaes,
Ou si a christã charidade:
Toda esta nossa Irmandade,
Que á pasmos emmudeceis,
Vendo as obras que fazeis,
Não sabe decidir não
Si egualaes o amor de irmão,
Ou si de pae o excedeis.
Ou, senhor, vós sois parente
De toda esta enfermaria,
Ou vos vem por recta via
Ser pae de todo o doente:
Quem vos vê tão diligente,
Tão caritativo e tão
Inclinado á compaixão,
Dirá de absorto e pasmado,
Que entretanto mal curado,
Só vós fostes homem são.
Aquella mesma piedade,
A que vos move um doente,
Vos mostra evidentemente
Homem são na qualidade:
De qualquer enfermidade
São aphorismos não vãos,
Que enfermarão mil irmãos:
Mas si o contrario se alude
Somente a vossa saude
Foi contagio de mil sãos.
Quem não sarou d’esta vez
Fica muito temeroso,
Que lhe ha de ser mui penoso
Acabar-se-vos o mez:
Ninguem jámais isto fez,
Nem é coisa contingente
O ficar toda esta gente
Com perigo tão atroz,
Que se acabe o mez á vós
Para mal de outro doente.