As instituições sociaes no seu funccionamento normal, transformando-se e acompanhando o progresso humano nas varias cathegorias da evolução economica, politica e moral, e do seu desenvolvimento esthetico, scientifico e philosophico, são como uma energia ou um organismo em estado dynamico. As Litteraturas como expressão da affectividade, reflectem todos os impulsos d’estes varios factores do progresso social, e modificam-se continuamente obedecendo a esse dynamismo. Costumes estaveis e opiniões conscientes criam uma sociabilidade que se alarga pelo sentimento de patria; sentimentos collectivos é que determinam pela necessidade da sua expressão a elaboração esthetica de uma litteratura e de uma arte nacional. A Edade media é o grande campo historico em que as raças barbaras da Europa, depois da ruina do Imperio romano, foram espontaneamente estabelecendo as suas bases de ordem, e organisando-se em novas nacionalidades, que se tornaram por um concurso successivo instrumentos de progresso, como continuadoras da Civilisação occidental. Essas novas nacionalidades foram remodelando os antigos poderes temporal e espiritual no Feudalismo e na Egreja; reconstituindo a familia pela elevação moral da mulher; nobilitando o trabalho pela emancipação das classes servas no proletariado que se tornou o terceiro-estado; creando as linguas romanicas, e uma arte original, sobretudo a architectura e a poesia, para exprimirem este espantoso concurso de sociabilidade. As nacionalidades modernas ao cooperarem n’este movimento, exerceram uma acção hegemonica umas sobre as outras, as mais adiantadas, como a França, sobre as mais rudimentares ou mais remotas. As Litteraturas meridionaes, franceza, italiana, hespanhola e portugueza foram a consequencia d’esta vasta organisação do Occidente, actuando sobre o desenvolvimento das linguas romanicas, e tornando-as aptas para exprimirem poeticamente os sentimentos d’esta mais ampla sociabilidade, e logicamente os pensamentos de uma mais profunda capacidade intellectual. Uma mesma noção, como observou Littré, rege a historia politica e a historia litteraria das nações occidentaes; é impossivel conhecer uma sem a outra. N’este longo periodo de transição entre o mundo antigo e a edade moderna, a Edade media apparece como uma éra de transição; n’ella se criam as condições staticas do futuro progresso humano. É na Edade media que existem todos os germens tradicionaes e estheticos, que receberam ulteriores fórmas conscientes de Arte e de Litteraturas; mas esse mesmo caracter de transição, tirou á estabilidade das instituições, das opiniões e dos interesses sociaes uma continuidade necessaria para serem idealisados lentamente e generalisarem-se como thema de obras bellas. Comte notou admiravelmente esta caracteristica da Edade media, que veiu a influir na vacilação das Litteraturas modernas; bellos germens para uma larga e fecunda elaboração esthetica, e transformações rapidas, ou crises revolucionarias na sociedade europêa alterando as sympathias pelo passado, e fazendo cahir na indifferença os themas da idealisação. O que é o caracter satyrico, predominante nas Litteraturas romanicas, como observou J. J. Ampère, senão a consequencia do desprezo dos velhos themas religiosos e heroicos, quando os dois Poderes espiritual e temporal entraram em uma dissolução no seculo XII? O que é o prurido da imitação classica das Litteraturas greco-romanas, da Renascença humanista até ao pseudo classicismo francez, senão a desorientação d’essa instabilidade social, que procura novas bases de ordem? É d’esta instabilidade que resultou o antagonismo que Frederico Schlegel definiu nas litteraturas modernas, entre os seus germens medievaes espontaneos e a auctoridade dos modelos classicos impostos pela imitação erudita. Comte penetrou a essencia do problema, deduzindo-o do phenomeno da dissolução do regimen catholico-feudal com que termina a Edade media. A evolução esthetica medieval inspirára-se de todos os elementos sociaes existentes: do militar ou feudal, na idealisação das epopêas ou Gestas heroicas; do theologico ou sacerdotal, na hymnologia, na arte architectonica, na musica e nas riquissimas lendas populares; do industrial, na coordenação dos cantos lyricos, das Festas civicas e dramaticas; e por ultimo d’esse estado mental do positividade ou de criterio de bom senso, que reage contra os preconceitos e avança para a comprehensão scientifica e philosophica, que tanto transparece nas satyras e nos contos. Alterados estes elementos sociaes, toda essa riqueza esthetica da Edade media ficou prejudicada, justamente quando o novo grupo das Linguas romanicas estava apto para dar-lhes expressão na elaboração das Litteraturas modernas occidentaes. Observemos pois o processo, em que as Litteraturas acompanham a intensa crise social e mental d’esta longa phase revolucionaria que vae do seculo XII até ao seculo XIX, reflectindo os seus principaes movimentos.
§ 1.—A Edade media
(HEGEMONIA DA FRANÇA)
A Edade media é a origem de todas as fórmas da evolução esthetica moderna; n’essa grande época de elaboração fecunda, as manifestações dos sentimentos pessoaes, domesticos e sociaes, que correspondem ao lyrismo, ao drama e á epopêa, acham na transformação da vida collectiva estimulos para se desenvolverem estes caracteres do individualismo humano. Comte esboça com nitidez esta evolução esthetica, que se alarga idealisando as emoções de cada um dos elementos sociaes que se debatem, o feudal ou militar, o theologico ou sacerdotal, o industrial ou proletario, e o positivo ou esse estado mental tendendo a julgar pela observação: «Sendo as faculdades estheticas por sua natureza, essencialmente destinadas á ideal representação sympathica dos sentimentos que caracterisam a natureza humana, pessoal, domestica ou social, o seu desabrochamento especial, seja qual fôr o ascendente que se lhe attribua, não bastava para definir na realidade a civilisação correspondente.» E continúa deduzindo da Edade media as condições para a grande expansão esthetica moderna: «um estado social tão fortemente pronunciado como o da Edade media—verdadeira fonte necessaria da evolução esthetica das sociedades modernas.—Os costumes feudaes tinham desde logo impresso aos sentimentos de independencia pessoal uma energia habitual até então desconhecida; ao mesmo tempo a vida domestica fôra sobretudo commumente embellezada e alargada, muito além do que fôra possivel aos antigos, principalmente em virtude das felizes mudanças effectuadas na condição da mulher; finalmente, a actividade collectiva, quando ella pôde então ser convenientemente exercida, deveria com certeza constituir uma fonte não menos poderosa de inspirações poeticas e artisticas, segundo a nova convergencia moral que devia apresentar o grande systema das guerras defensivas peculiar a esta memoravel phase da humanidade.»[97]
Apesar de toda esta riqueza de elementos, as Litteraturas modernas permaneceram longo tempo estacionarias, por que dependiam da creação de uma linguagem apta a exprimir um novo estado de consciencia e sentimentos apropriados a uma mais ampla sociabilidade, em que tanto cooperára o espirito da confraternidade christã. O phenomeno da creação ou derivação d’esse systema de linguas era em si já uma elaboração esthetica; basta vêr como ellas se tornam mais fecundas pelo desdobramento morphologico e semeiologico dos duplos ou vocabulos divergentes, e caminham pelos seus recursos analyticos das preposições e dos verbos auxiliares e variedades pronominaes para uma maior clareza logica. Por certo que a lingua que primeiro exprimisse toda esta riqueza poetica seria aquella que se universalisaria por vir no momento em que satisfazia uma necessidade da sociabilidade europêa, como aconteceu com o francez.
O desenvolvimento tardio das manifestações litterarias e artisticas do genio moderno é explicado por Comte pela necessidade de um trabalho prévio, e da creação das linguas modernas. Mas esta mesma elaboração é considerada pelo eminente philosopho como um producto das faculdades estheticas: A creação das Litteraturas modernas esteve estacionaria durante «uma lenta e difficil operação preliminar, cuja indispensavel realisação devia preceder, por absoluta necessidade, a expansão directa do genio poetico; comprehende-se que se trata da elaboração fundamental das linguas modernas, nas quaes, em meu entender, deve vêr-se uma primeira intervenção universal das faculdades estheticas.»[98] E mostrando como estas faculdades são as menos inertes na maior parte das intelligencias, verifica o seu exercicio no facto do aperfeiçoamento da lingua vulgar: «Esta propriedade necessaria tornou-se ainda mais evidente quando se exerceu, não na creação espontanea de uma lingua original, mas na transformação radical de uma lingua anterior, era consequencia de uma nova ordem social.» É n’este ponto que o philosopho mostra como n’esta creação das linguas romanicas, já se deu o antagonismo entre a evolução organica da Edade media e o espirito classico e auctoritario da antiguidade: «Apezar da actividade que o genio philosophico e o genio scientifico puderam manifestar na Edade media,—seguramente muito pouco contribuiram um e o outro para a fundação geral das linguas modernas. Apezar das vantagens essenciaes que cada um d’elles ulteriormente tirou da superioridade logica propria dos novos idiomas, o longo uso que ambos fizeram do latim, depois que cessára inteiramente de ser vulgar, confirma bem a repugnancia e a sua inaptidão naturaes para dirigirem a elaboração da linguagem usual. Era então a faculdades menos abstractas, menos geraes e menos eminentes, mas tambem mais intimas, mais populares e mais activas, que devia necessariamente pertencer esta indispensavel operação. Essencialmente destinada á representação universal e energica dos pensamentos e dos affectos inherentes á vida real e commum, nunca o genio esthetico pôde convenientemente fallar uma lingua morta, nem mesmo estrangeira apezar de todas as facilidades excepcionaes obtidas por habitos artificiaes.»[99] A lingua franceza exerceu um extraordinario perstigio nos espiritos: «cor parmi le monde, et est la plus detilable à lire et à oir, que nulle autre,» como affirmava Martin de Carrale, justificando-se de escrever em francez a sua Historia de Veneza; Bruneto Latini, o mestre de Dante, escreve tambem em francez, Marco Polo, Rusticiano de Pisa, Fazio d’egli Uberti, e tantos, contra o que levado pelo espirito nacionalista protestava Benvenuto de Immola.
Sonhando a independencia do territorio que fôra dado em dote a sua mulher D. Thereza, o Conde D. Henrique chamou para Portugal colonias francezas, as quaes radicando-se no solo o coadjuvassem no plano da autonomia territorial. A vinda de cavalleiros francezes ás guerras das Cruzadas, e a sua passagem por Portugal, contribuiram para a disseminação das tradições poeticas do cyclo carlingio, que percorriam a Europa, e das canções lyricas trobadorescas; assim, além da influencia ecclesiastica, se estabelecia a hegemonia franceza nos primordios da cultura portugueza, quer sob o aspecto social como sob o mental. No seu estudo Les Communes françaises en Espagne et en Portugal, escrevem Helfrich et Clermont: «quasi que não ha provincia ou districto em Hespanha, em que não penetrassem francezes, ou costumes francezes.»[100] Atouguia, Lourinhã, Villaverde, Azambuja, Cezimbra foram fundadas por colonias frankas. Reconhecendo a influencia da lingua franceza no gallego e no portuguez, continuam os mesmos auctores: «Mas a verdadeira influencia, influencia duravel e preponderante que a França exerceu na Hespanha, deve ser procurada no espirito das suas leis.—O ponto de partida, o fóco, por assim dizer da propaganda politica que emanava da França, foi a Abbadia de Cluny, uma das mais grandiosas creações do seculo X, e o centro das ideias religiosas de que mais tarde Gregorio VII se tornou o representante.—Em Hespanha os monges de Cluny fizeram supprimir o ritual gothico para o substituirem pelo ritual gallicano. Em vez da escriptura gallicana introduziram a lettra franceza, esforçando-se para que prevalecesse em Castella a legislação da Bourgogne.» Por esta influencia se estabeleceram em Portugal os monges de Cistér, que segundo Victor Le Clerc substituiram o rito isidoriano (mosarabe) pela liturgia gallicana. Esta ordem religiosa, pelo seu caracter austero anti-artistico repellindo systematicamente o bello (a ornamentação era o caracteristico do estylo arabe), teve uma forte preponderancia nos primeiros seculos da monarchia, obstando em certa fórma á manifestação do genio portuguez. As Cartas de Foral têm grandes analogias de redacção e de garantias ou frankias politicas com as das communas francezas. Na reforma judicial do tempo de D. Affonso III, os Corregedores imitam os Missi dominici dos Capitulares de Carlos Magno. Não só bispos francezes regem as sés de Portugal, como os bispos portuguezes D. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. João Peculiar, D. Bernardo, fizeram a sua educação em França. Obedecendo ainda a esta corrente civilisadora, teve o rei D. Diniz por mestre o francez Aymeric d’Ebrard, a quem fez bispo.
Condições particulares favoreciam a França para esta hegemonia europêa; herdeira da cultura grega em Marselha, e da romana em Tolosa, tinha conservado o impulso como continuadora da Civilisação occidental. Pela região da Aquitania, propagava-se ethnicamente o seu influxo á Italia, em Hespanha, em Portugal, além das relações politicas estabelecidas desde Carlos Magno. Os dialectos da França meridional, do Languedoc, da Provença, do Delphinado, do Lyonez, do Auvergne, do Limousin e da Gasconha, facilitavam a communicação da nova poesia lyrica trobadoresca, que veiu exercitar as linguas romanicas litterariamente. Pelo seu elemento franko podia a França exercer sobre as raças germanicas da Allemanha e da Inglaterra egual hegemonia, propagando até lá as suas Gestas épicas e cantos lyricos, e a cultura mental das Universidades. Assim, pelos dialectos da França septemtrional, taes como o Normando, o Picardo, o Flamengo e o Wallon tornava-se facil e natural a communicação com populações que fallassem qualquer dialecto teutonico. Na Inglaterra essa influencia primeiramente exercida pela conquista normanda, subsiste nas leis promulgadas por Guilherme o Bastardo em lingua franceza, que era tambem obrigatoria para as resas e sermões ecclesiasticos, e ainda em 1328 eram os estudantes da Universidade de Oxford obrigados a exprimirem-se em lingua franceza. É esta importante hegemonia o que mais claramente explica o desenvolvimento de todas as Litteraturas romanicas que tiraram d’ella os germens fundamentaes com que elaboraram as suas creações estheticas, na Edade media. Para bem julgar este imponente phenomeno artistico importa conhecer o caracter social ou politico d’essa grande época historica.
Dois poderes preponderaram na reorganisação social da Europa, depois da queda do Imperio: o poder espiritual ou da Egreja catholica e o poder temporal dos chefes militares ou Feudalismo. Em relação ao mundo antigo representam estes dois Poderes um alto progresso, por que se separaram, e nunca mais, apezar das suas mutuas usurpações, conseguiram confundir-se. É este antagonismo intimo que constitue os grandes conflictos symbolisados nas Duas Espadas, ou luctas entre o Sacerdocio e o Imperio. Mas o principal phenomeno social que resultou d’este antagonismo, foi a transformação d’esses mesmos Poderes: avançando para a affirmação da intelligencia humana, a rasão procura pela critica, pela observação e experiencia um novo poder espiritual na sciencia; por outro lado, a liberdade humana firmando-se na actividade pacifica da industria e mutua regularisação dos interesses tornou cada vez menos necessaria a actividade militar e os chefes feudaes foram fatalmente cahir sob a dictadura ou concentração do poder temporal da Monarchia. Foi pois a Monarchia uma transformação coadjuvada pelas classes industriaes, agricolas e mercantis, por que se absorvia em si todos os poderes era como garantia de tornar a lei egual para todos. Comte formulou esta noção tão clara de toda essa Edade tempestuosa: «Sob qualquer aspecto que se examine o regimen proprio da Edade media, vê-se sempre emanar da separação dos dois Poderes, ou da transformação da actividade militar.»[101]
O Feudalismo e a Egreja organisaram-se á imitação um do outro, nas suas hierarchias, na mutua dependencia dos seus membros; n’este esforço de se confundirem, desnaturaram-se explorando a sociedade. A Egreja dominava pelo terror moral, o Feudalismo pela compressão material, ambos pelo obscurantismo. Uma tinha a servidão voluntaria (oblatos), o outro a servidão hereditaria (os da gleba); a humildade evangelica e a fidelidade do homem-ligio levavam á mesma negação da dignidade do homem. O papa comparava-se ao sol, como Gregorio VII, considerando os imperantes como a lua, corpos opacos que só podiam receber a luz ou a investidura soberana de Roma. O papado tornára os reinos da Europa seus feudatarios, cobrando alcavalas em paga das graças espirituaes. Em vez das terriveis pestes, cahiam sobre os estados as tremendas maldições e interdictos da Egreja, que absorvia em si todas as capacidades intellectuaes, tornando inconciliaveis o clericus e o laicus. Tal era a antinomia expressa pelo symbolismo medieval das Duas Cidades. É pois natural que aos primeiros lampejos da rasão, as cousas religiosas decahissem de respeito, sendo parodiadas sarcasticamente pelo povo nas festas grotescas (Missa do Asno, Festa dos Tolos), e pelos cultos nas satyras pungentes e desenvoltas dos Goliardos.
O Feudalismo, apezar de todas as eminentes qualidades da cavalleria e da heroicidade, tornava-se odioso pela intervenção arbitraria da força. Falhando-lhe os motivos da actividade militar pela estabilidade social da Europa sustadas as duas correntes de invasão do norte e do sul, o Feudalismo foi seduzido pela proclamação das guerras religiosas da Cruzada. A Egreja que temia esse rival, pela absorpção das grandes propriedades, lisongeou-lhe o instincto da guerra, soprou-lhe um delirio de fervor religioso lançando-o para a Palestina. É no momento em que o Feudalismo se dissolve, que mais deslumbrante se espalha a sua poesia heroica. Os Barões longe dos seus solares, sujeitos á prescripção adoptada do Direito romano pelos jurisconsultos ao serviço da Realeza, feridos na sua nobreza pelo registo dos Livros de Linhagens, privados dos seus direitos immemoriaes pela revogabilidade das doações regias, ouviam soar o sino da communa, que era como a trompa de Gedeão, que fazia cahir por terra os seus castellos. É o sentimento da revolta que inspira as Canções de Gesta celebrando a lucta dos Barões contra o poder monarchico; Carlos Magno foi a figura em volta da qual se centralisaram as lendas das revoltas dos grandes vassallos. N’esta dissolução do Feudalismo, e descredito do ideal guerreiro, as Gestas heroicas tornaram-se satyricas; na Italia cantava-se de preferencia as derrotas de Carlos Magno, e as infamias de seus filhos; em França decahiam na prosa novellesca, e desenvolviam-se os episodios da fabula complexa do Renard. Comte tira nitidamente as deducções d’esta crise social:
«Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, é indubitavel, a meus olhos, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII, teria adquirido pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que pôde existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que devia realisar-se no curso d’este grande periodo revolucionario, e para a qual a progressão industrial tão poderosamente concorreu, o genio esthetico ficou falho de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade moribunda e a nova muito pouco caracterisada ainda, elle não pôde bem nitidamente sentir, nem o que sobretudo devia idealisar, nem sobre que sympathias universaes devia principalmente repousar. Tal é, no fundo, a causa progressiva d’esta especialidade exclusiva, que tem até hoje caracterisado a arte moderna, como a industria e como a sciencia tambem, por falta de uma generalidade realmente preponderante. Bem longe de estar degenerado, o genio esthetico tornou-se com certeza mais extenso, mais variado e mais completo mesmo, como nunca o conseguira na antiguidade; porém, apezar das suas eminentes propriedades intrinsecas, a sua efficacidade devia então ser muito menor, em um meio social que lhe não podia offerecer nem a nitidez, nem a fixidez indispensavel para o seu livre desenvolvimento. Obrigado a reproduzir as emoções religiosas ao passo que a fé se extinguia, e a representar os costumes guerreiros a populações cada vez mais entregues a uma actividade pacifica, a sua situação radicalmente contradictoria devia prejudicar-lhe a realidade fundamental dos seus effeitos exteriores, mas tambem a das proprias impressões interiores, até aos tempos ainda remotos em que a regeneração final da humanidade virá offerecer-lhe um meio mais favoravel ao seu pleno desenvolvimento, em consequencia de uma homogeneidade e de uma estabilidade, que nunca puderam existir no mesmo gráo...»[102]
Contra o poder espiritual da Egreja, a Realeza torna-se protectora de um ensino geral nas Universidades; e contra os arbitrios feudaes estabelece os Ordenamentos e fixa a esphera dos direitos reaes pela restauração da jurisprudencia romana; os Feudos são equiparados á Emphyteuse e ao Usufructo dos romanos. Por outro lado, este começo de renascimento humanista ataca a idealisação épica medieval, á qual tambem se tornavam hostis os moralistas catholicos. É n’esta instabilidade, que caracterisa o fim da Edade media, que as linguas romanicas se acham aptas para as obras litterarias, mas os themas da idealisação religiosa e heroica acham-se insignificativos para o sentimento.
Comte explica como: «o estado social da Edade media constitue sob todos os pontos de vista, o berço necessario da grande evolução esthetica das sociedades modernas.» E observa como esta longa crise de transição historica, pela instabilidade social não deixou chegar á perfeição os themas artisticos idealisados na poesia moderna: «A expansão esthetica não faz suppôr sómente um estado social bem fortemente caracterisado para comportar uma idealisação energica: exige, além d’isso, que qualquer que fôr esse estado seja bastante estavel para permittir espontaneamente, entre o interprete e o espectador, esta intima harmonia prévia, sem a qual a acção das bellas-artes não conseguiria obter habitualmente uma plena efficacidade. Ora estas duas condições fundamentaes, naturalmente reunidas entre os antigos, nunca mais puderam sêl-o depois em um gráo sufficiente, mesmo na Edade media,...»[103] «Assim a fonte essencial d’esta singular hesitação social que caracterisa a arte moderna, e que tanto neutralisou até hoje a universalidade necessaria da sua influencia contínua, depois da sua primeira evolução tão firme, tão original e tão popular na Edade media, deve ser directamente procurada na inevitavel instabilidade do estado social correspondente, suscitando sempre novas transições successivas. Uma profunda e perseverante elaboração esthetica era certamente impossivel entre populações em que cada seculo, e algumas vezes mesmo cada geração modificava mui notavelmente a sociabilidade anterior para que cada geração determinada tivesse já essencialmente cessado antes que o poeta ou o artista podessem n’ella contrahir sufficientemente a intima penetração espontanea indispensavel á acção das bellas artes. É assim, por exemplo, que o espirito das Cruzadas, tão favoravel á mais poderosa poesia, tinha irrevogavelmente desapparecido quando as linguas modernas puderam achar-se assás formadas para permittir-lhe a plena idealisação; ao passo que entre os antigos, cada modo effectivo de sociabilidade tinha sido de tal modo duravel, que o genio esthetico podia tornar a sentir e tornar a achar, depois de muitos seculos, paixões e affectos populares essencialmente identicos áquelles de que queria representar o imperio anterior.»[104]
Conhecidos os caracteres da evolução historica da Edade media, a separação dos Poderes e a sua transformação, que ainda se exerce na determinação das fórmas compativeis do Poder espiritual e do temporal com a consciencia e liberdade do homem moderno, por um tal processo de dissolução do regimen catholico-feudal se explica a evolução e as vacillações de todas as Litteraturas romanicas. Vejamos agora os themas poeticos com que a França exerceu a hegemonia esthetica sobre essas litteraturas:
a) INFLUENCIA GALLO-ROMANA
(Lyrismo trobadoresco)
No meio da confusão das raças e das invasões dos povos, em que se elaboraram as novas instituições religiosas e politicas que deram á Europa a estabilidade, foram-se creando costumes e as relações de uma pacifica sociabilidade. É então que se quebra esse mutismo, e as novas linguas se exercem no canto, celebrando pela poesia o amor, a galanteria e a confraternidade. A partir do seculo X espalham-se pela Europa esses cantores vagabundos, sahindo da França meridional, do fóco da Provença, levando a todos os povos a boa nova do amor; póde-se dizer que as canções jogralescas vieram desenvolver pela accentuação as linguas romanicas, tornal-as communicativas e escriptas. Tambem nas linguas germanicas esta ideia de que a linguagem começa pelo canto exprime-se em Singuen e saguen, synonimos como o cantar e decir, nos romances hespanhoes. A situação da Provença favorecera esta influencia esthetica impulsiva. Durante o periodo das invasões dos barbaros do norte, permaneceu quieta a Provença, apenas alvoroçada pela passagem dos Visigodos, que se precipitaram sobre a Peninsula, e pelos Burguinhões então já polidos pela permanencia na Italia. Flor bafejada pela amenidade do meio dia da França, recebendo os restos da cultura grega e da paixão arabe, ella foi como o nectario em que se formou o mel da poesia, que encantou a primeira sociabilidade dos povos da Europa, e que determinou as fórmas do moderno lyrismo. Da lingua usada nas canções dos trovadores, dizia Raymond Vidal: «La parladura ... de Lemosin val mais per far vers et cansons et serventes.» Esta região comprehendia um centro de irradiação commum intermediaria, entre a zona oriental que formam o Auvergne e Velay, e a zona occidental de Poitou, de Saintonge e de Guienne.[105] Escreve Fortoul, fazendo notar a importancia d’este fóco de cultura trobadoresca, em que a burguezia do Limousin, do Périgord e de Quercy, rivalisava com a nobreza na composição das canções amorosas: «No Limousin, em quanto o terrivel Bertrand de Born canta as guerras, que elle ateia constantemente, Giraud de Berneil sáe da condição mais infima para fazer as mais bellas canções de amor, e Bernard de Ventadour aprende ao pé do forno de seu pae a lingua que o faz brilhar na côrte dos seus senhores, na Hespanha, na Italia; de um lado os senhores de Uisel reunem-se para compôrem as arias e os versos dos cantos que tornam a sua nobre familia celebre; do outro, os joviaes burguezes de Uzerche, Gaucelm Faydit e Hugues de la Bezelaria, espalham na sua cidade e até á Lombardia a fórma do seu espirito cortez e agradavel. O Périgord, mesmo, que com o gentilhomem Arnaud Daniel, leva ao suprasummo as difficuldades e os artificios da versificação meridional, produz operarios como Elias Cairel, bastante feliz para fazer brilhar até na Grecia o esplendor da poesia que elles aprendiam nas lojas de Sarlat.»
No seculo XI acodem os provençaes á côrte de França por occasião do casamento de Constança com Roberto; cento e cincoenta annos mais tarde, já se acham diffundidos pelo territorio francez o mesmo gosto poetico e galanteria provençalesca; usavam-se esses certames poeticos a que concorriam com as suas trovas e canções para celebrarem o casamento dos princepes, ou o gráo de cavalleria que recebiam. Em Italia, segundo Folgore de San Geminiano era do estylo: «Cantar, danzar alla provenzalesca.»[106] Dante, no Convito, queixa-se do emprego immoderado do provençal: «Questi fanne vile lo parlare italico, e prezioso quello de Provenza.» E tão precioso era este modo de fallar provençal, que no Purgatorio, Dante obedeceu á corrente da época pondo na bocca de Arnaldo Daniello trez tercetos em provençal.
Na Allemanha não era menos conhecida a lingua e a poesia provençal: no poema do Parzival, lê-se que as verdadeiras tradições foram da Provença para a Allemanha.[107] Os trovadores achavam as linguas do norte sem melodia; e Peire Vidal compara-as a ladrar de cães: «E lor parlars sembla lairar de cans.»
Vejamos a irradiação d’este lyrismo para a peninsula hispanica. O governo suave da Provença continuado na mesma familia por mais de duzentos annos, aprimorou a galanteria cortezã, que tanto distingue as canções dos seus trovadores; quando se extinguiu o herdeiro masculino, em 1092, a corôa de Provença passou para o Conde de Barcellona, pelo casamento com a unica herdeira da familia de Borgonha. Os poetas acompanharam a côrte que transpoz os Pyreneos e veiu fixar-se na Hespanha. Um facto semelhante se deu com o casamento dos Condes de Barcellona, que lhes fez pertencer o reino de Aragão. Os reis, que tambem poetisavam em lingua limosina, abriram nas suas côrtes azylo aos poetas provençaes, principalmente depois da cruzada de exterminio contra os Albigenses. O maior elogio que se póde fazer do sentimento e elevação moral dos trovadores é vêl-os abraçarem o partido dos perseguidos. A cruzada contra os Albigenses recebeu um caracter religioso para lhe imprimirem mais ferocidade, mas era a pressão brutal da França feudal e monarchica do norte contra a França meridional municipalista e semi-republicana.[108] Muitos trovadores se refugiaram na Hespanha, no tempo de Pedro II de Aragão, que morreu em 1213, defendendo a causa d’elles na batalha de Moret. Entre esses foragidos citam-se os trovadores Hugues de Saint-Cyr, Azémar le Noir, Pons Barba, Raimond de Miraval e Perdrigon.
É durante a sua educação na Galliza, que o rei Affonso o Sabio estuda a nova poesia provençal, adoptando o dialecto gallego para as suas Cantigas, por que essa linguagem se achava exercitada na expressão dos mais delicados sentimentos. Em volta de Affonso o Sabio reunem-se os trovadores mais distinctos, sendo elle o mais generoso impulsor da propagação do novo lyrismo. Conforme os centros d’onde irradiava essa poesia, assim ella tinha um caracter mais ou menos aristocratico, mais ou menos popular. Os trovadores da Gasconha, Cercamons, Marcabrun e Peire de Valeira, e por tanto predominando o elemento popular, foram conhecidos em Portugal, prevalecendo o seu gosto nas serranilhas. Marcabrun em uma das suas canções pede a Deus que vele pelo rei de Portugal. De todos os trovadores o que dá prova de ter frequentado a côrte portugueza é Peire Vidal. Estas relações cortezãs explicam-se pelos casamentos reaes; D. Sancho I foi casado com D. Dulce, filha de Raymundo Berengar, quarto conde de Provença e rei de Aragão. No Nobiliario do Conde D. Pedro citam-se muitos fidalgos com a indicação, foi trobador, e que trobou bem; pertencem a esse numero dos partidarios de Affonso III, que antes da deposição de D. Sancho II se refugiram na côrte de S. Luiz, como os Baiões, os Cogominhos, os Valladares, os Porto-Carreros. O rei D. Diniz, um dos mais fecundos e talentosos trovadores portuguezes estudou conscienciosamente a arte do gai-saber, e, affirmando a superioridade do seu ideal, escrevia: «Quero eu em maneira de Proençal—fazer agora um cantar de amor.» O grande apreço que tanto na Galliza como em Portugal se ligava á nova poesia «esta arte que mayor se llama» como escreve o Marquez de Santillana, fez com que a sua influencia se exercesse sobre toda a Hespanha: «en tanto grado, que no ha mucho tiempo quatesquier Decidores ò Trovadores destas partes, agora fuesen Castellanos, Andaluçes e de la Extremadura todas sus obras componian en lengua gallega ó portugueza.»[109] Esta poesia começa a florir justamente quando os nossos cavalleiros traziam accesas as almenaras dos castellos roqueiros, e faziam investidas, correrias nas terras dos sarracenos.
Na côrte de D. Sancho I e D. Affonso II os duros guerreiros neo-godos brilhavam com a graça das canções, algumas das quaes se acham no Cancioneiro da Ajuda. Em uma d’essas canções um cavalleiro allude ao grito de guerra na tomada de Santarem por D. Affonso Henriques. Ajuntára o monarcha alguns cavalleiros, indo com altas escadas atacar o castello de Santarem; era ao quarto de alva e as roldas dormitavam; o rei dividiu a sua comitiva em dois troços, um que investia pelo lado do monte Alphão, e outro que atacava pelas bandas da ribeira ou parte baixa (sesserigo). Ao lançar as escadas, o ruido despertou as roldas do somno, tocaram alarme, e a mourisma deu de repente sobre os poucos cavalleiros que confiavam no seu ardil. N’aquelle transe desesperado foi preciso levar tudo á viva força; os poucos portuguezes venceram. D’ahi o grito de guerra conservado na canção:
Era dever de todo o homem de guerra, como bom cavalleiro, saber brandir uma espada e discretear galantemente com damas; mas n’estes tempos de luctas como a da facção que depoz D. Sancho II, prevalecia principalmente a satyra, como se vê nas coplas contra os Alcaides que entregaram como não deviam os castellos a D. Affonso III. Fallando do Cancioneiro da Ajuda (publicado por lord Stuart em 1823), Frédéric Diez caracterisava as obras d’esta collecção e a época a que pertence: «Se as fórmas poeticas são rigorosamente as dos trovadores, de longe em longe accusam a nacionalidade, mas não deixam suppôr o conhecimento familiar da fórma provençal. Os versos de dez syllabas predominam nas estrophes, que se correspondem pela rima... Ha uma analogia surprehendente na contextura, e em nenhuma das canções pudemos descobrir vestigios de traducção.»[110] Esta caracteristica de metro define-nos a influencia limosina, que seguiram os nossos trovadores fidalgos. Ainda não imperava a galanteria e o requinte da sensibilidade; só começou com a imitação directa da Provença, na côrte de Dom Diniz, que empregou todos os recursos da arte para exprimir a paixão. As canções provençalescas ou em maneira de proençal dobravam-se a todos os caprichos de uma poetica artificiosa, aos segredos do leixapren e do mansobre, ás exigencias da rima encadeada, aos córtes do verso nos seus hemistichios, para corresponderem ás finas allegorias do sentimento. Depois do direito feudal ter aberto um abysmo inaccessivel entre a castellã e o servo, a canção trobadoresca veiu estabelecer a egualdade perante o amor, conforme a bella phrase de Quinet. O artificio provençalesco não consistia apenas em alardear a plasticidade da lingua rude amoldando-se a todos os requebros, em achar (trouver) os melhores recursos da rima e das combinações estrophicas, mas principalmente em velar ou encobrir o sentimento que fazia com que o apaixonado cantor erguesse os olhos para a castellã orgulhosa. Um compassivo olhar, um leve sorriso precipitava o scismador em um enlevo ou melancholia eterna, em uma louca inspiração. Todas as emoções estão ali descriptas: o sentimento da propria inferioridade, o olhar generoso que o levantou da terra, a anesthesia das dores por um simples relance descuidado, o receio ou terror de que adivinhem por quem é a absorpção do seu espirito, que o traz de longe, a esperança de a vêr mais de perto e a lembrança angustiosa de uma ausencia forçada, tudo isto vibra na canção provençalesca. Avançava-se para o idealismo neo-platonico, que ia suscitar o superior lyrismo italiano.
No Cancioneiro da Ajuda, imita-se toda essa ordem de sentimentos; não só a lingua, como as fórmas poeticas notadas por Diez, como a natureza dos sentimentos, provam a antiguidade e o valor d’este monumento. Os nossos trovadores tambem se apaixonam por castellãs, sem attenderem ao abysmo que os separava; João Soares de Paiva morreu em Galliza por amores de uma infanta. Na côrte de D. Diniz impera já esta metaphysica amorosa, que elle idealisa artificialmente, fallando do temor do seu segredo amoroso, apezar de ter numerosos bastardos. E levado pela necessidade de variar e vivificar com realidade as fórmas poeticas, é que o rei D. Diniz, seguindo o estylo das pastorellas da eschola de Gasconha, imita as serranilhas populares portuguezas e gallegas, dando assim protecção a todos os jograes das côrtes de Hespanha, que vinham a Portugal como ao centro da mais activa elaboração poetica do seculo XIV. Pela poesia trobadoresca se fazia a unificação affectiva dos Estados livres peninsulares, e Portugal, como o confessa o erudito Marquez de Santillana, exerceu então pela primeira vez a sua hegemonia. Durante este periodo a poesia provençal recebeu uma transformação profunda na sua essencia; suffocado o esplendor da Provença pela terrivel cruzada contra os Albigenses, esse lyrismo desceu ás classes populares, d’onde primeiro sahira (son veill antic), convertendo-se-lhe agora em um mister lucrativo (os jocistae, joculatores ou jograes, e os ministralles ou menestreis). O jogral substituia o desinteressado trovador: ia de terra em terra acompanhando o cantor apaixonado, apanhando de memoria as canções que lhe ouvia, e repetindo-as depois nas praças, ou nas côrtes, recebendo da multidão a pequena moeda (a poitevine) e da fidalguia pannos e cintos. É frequente encontrarem-se protestos dos trovadores contra esta exploração jogralesca; Astorga, no seu Poema de Alexandre, tem medo que o tomem por um jogral, e diz: «Mester trago fermoso, no es de ioglaria.» Em uma das suas canções o rei Dom Diniz confessa que celebra os seus amores sem se parecer em nada com esses que «troban no tempo da frol.» Mas a invasão jogralesca era uma consequencia da vitalidade esthetica acordada na alma moderna. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se a par de reis, de infantes e fidalgos, numerosos jograes; taes são Affonso Gomes jograr de Sarria, Ayres Paes jograr, Diogo Pezelho jograr, Lopo jograr, que se destacam tambem d’entre clerigos e burguezes. A casuistica amorosa vae encontrar nas fórmas jogralescas moldadas sobre o typo da canção popular, extraordinarias bellezas de simplicidade natural e de riquezas tradicionaes. Assim no momento em que o lyrismo moderno ia receber na Italia a sua fórma litteraria, tocava as fontes vivas da tradição poetica occidental.
O apparecimento da poesia dos trovadores e a sua rapida diffusão nas Litteraturas romanicas e germanicas, só se torna claro pelo conhecimento de um fundo commum tradicional, que já está achado. Circumstancias accidentaes, como a commoção social provocada pelas Cruzadas, n’isso influiram tambem, despertando a curiosidade das classes elevadas, que fixaram essa poesia na fórma escripta. Em quanto duraram as expedições da Palestina, (1095 a 1290) a poesia trobadoresca attingiu o seu maximo esplendor; n’este periodo expandia-se a vida burgueza ou propriamente a classe media, que se tornou a base estavel da sociedade moderna. Terminadas as Cruzadas, e tendo por tanto a Realeza de concentrar em si a dictadura pela decadencia necessaria do poder senhorial, envolveu tambem n’essa absorpção muitas garantias locaes. A França do norte abafando o municipalismo do sul, a poesia provençal extinguiu-se, voltou outra vez para o coração do povo, levando-a os jograes por todas as côrtes da Europa. Podem-se determinar trez periodos a esta efflorescencia lyrica:
Tradição e Nacionalidade, em que a poesia é conservada oralmente, nos antigos cantos populares gaulezes, no centro ethnico da Aquitania, com relações intimas com as pastorellas italianas, com as baladas provençaes e com as serranilhas portuguezas. O caracter de nacionalidade chegou a accentuar-se no uso que d’esta poesia fizeram os trovadores, defendendo a liberdade municipal e proclamando a revolta.
A sua diffusão penetrou como corrente de distincção aristocratica em todas as côrtes da Europa, chegando até á Inglaterra e á Allemanha; porém no Meio Dia volvia outra vez para o povo, e pela exploração jogralesca se aproximava por simplificação do primitivo typo tradicional.
Uso e imitação, nos divertimentos litterarios palacianos; os proprios monarchas a reproduziam e a protegiam como uma distracção culta, como um pretexto de galanteria. Pela necessidade de renovar os artificios da metrica trobadoresca, de que se havia codificado numerosas regras, o desejo da novidade levou á imitação de todos os segredos technicos e por fim á renovação inconsciente do typo tradicional, que transparece na fórma litteraria dos Cancioneiros aristocraticos.
Na Italia foi outra a corrente; da casuistica sentimental dos trovadores o genio italiano transitou para um desenvolvimento subjectivo, fecundando-o pela abstracção philosophica; as Litteraturas romanicas pela influencia do dolce stil nuovo fixaram sobre os rudimentos trobadorescos as fórmas definitivas do lyrismo moderno.
b) INFLUENCIA GALLO-FRANKA
(Gestas ou Epopêas medievaes)
As condições de ordem e estabilidade na Europa datam do apparecimento e acção historica de Carlos Magno; sustaram-se as invasões, e o Feudalismo foi gradualmente cahindo diante da crescente dictadura monarchica. É essa lucta dos grandes vassallos contra a realeza, que se torna o thema fundamental das Epopêas ou Canções de Gesta, que se produziram depois da completa fusão do elemento gallo-franko, como synthese da nova nacionalidade—a França. O typo lendario de Carlos Magno centralisou na imaginação poetica esta lucta da realeza, que durou seculos. A fórma cyclica d’essas composições narrativas e a independencia e superioridade politica do franko, bem mostram que essas epopêas, ainda não totalmente individuaes, são as Cantilenas germanicas agrupadas em torno de um mesmo vulto historico, pelo syncretismo dos factos e das épocas, que é um dos processos espontaneos da tradição. Segundo os medievistas Paulin Paris e Léon Gautier, nas Gestas francezas é germanica a ideia da guerra, da realeza, do feudalismo, dos symbolos juridicos, da mulher e da divindade. Os textos de Tacito e de Eghinard provam a primitiva commoção historica do modo mais completo, e ao mesmo tempo a persistencia das Cantilenas germanicas durante a primeira raça, cantadas em lingua vulgar, como vêmos pelo principal monumento, a Vie de Saint Faron, do seculo VII. A figura imponente de Carlos Magno syncretisando em si todas as individualidades heroicas, que se manifestaram ainda depois d’elle, veiu imprimir a essas Cantilenas um caracter historico, dar-lhes um agrupamento cyclico e uma expressão nacional.
As primeiras Gestas que circularam na Europa foram a Chanson de Roland, a de Girard de Rousillon, a de Ogier le Danois, a de Raoul de Cambrais e de Aliscamps. Este periodo de assombrosa elaboração épica deu-se do principio do seculo XII até 1328. Estas datas são capitaes para nós, por que abrangem o periodo organico da nacionalidade portugueza. Era impossivel que n’estes annos de aspiração autonomica, em que o conde francez D. Henrique imitava as instituições carlingias, como os Missi dominici, em que buscára apoiar-se em colonias frankas, em que os Bispos, que representavam então o maximo poder espiritual e eram os defensores civitatum, vinham tambem de França, impossivel seria que não chegasse a Portugal essa floração poetica das Gestas heroicas. O nome de Gesta e Estorea, significando a poesia épica na Peninsula, e a referencia á maestria de Francia, indicam-nos, que se deu uma intercorrencia da poesia narrativa dos troveiros com a subjectiva dos trovadores. Emquanto estes cantavam nas côrtes e solares feudaes, os troveiros recitavam nas praças, d’onde muitas vezes a auctoridade os repellia ou obrigava a pagarem um imposto.
As tradições épicas do norte da França espalharam-se em Portugal no tempo de D. Affonso Henriques, pela passagem dos cavalleiros que iam por mar á Palestina. Esses cavalleiros, ávidos de aventuras heroicas, o ajudaram a conquistar Lisboa, e no descanso do arraial se desenfadavam com as suas tradições guerreiras.[111] Na Chronica Gothorum, as phrases referentes a D. Affonso Henriques clarus ingenio e lingua eruditus, coadjuvam em parte a tradição de que este primeiro rei portuguez fôra poeta. A sua côrte, apezar dos continuos trabalhos da guerra, foi abrilhantada pelos costumes da galanteria provençal; casado com uma princeza italiana (Mahaut) não nos admira que as canções de Sordello de Mantua e de Bonifacio Calvo fossem conhecidas em Portugal. Mas sobretudo as suas preferencias deviam de ser pelos cantos épicos; as epopêas heroicas desenvolvidas pelo genio francez não puderam encontrar na Peninsula condições para se implantarem, por lhe faltarem uma classe feudal independentemente organisada, e por ser excessiva a admiração pela cultura latina, que se tornou uma distincção na aristocracia e alto clero.
A tradição épica da Edade media não foi extranha a Portugal; na Chronica de Turpin, acha-se citado o nome de Portugal.[112] Infeliz lembrança teve o pseudo-chronista, por que pretendendo dar-se como contemporaneo de Carlos Magno, a designação Portugal desconhecida em todos os documentos anteriores a 1069, descobre o intuito da falsificação.[113] Segundo Fauriel, na gesta de Fier-à-bras ha o retrato allegorico da rainha D. Thereza.
Na analyse do poema, escreve: «Creio entrevêr em algumas particularidades e no desfecho do romance de Fierabras, uma allusão romanesca á creação do reino de Portugal. Affonso VI, rei de Castella, conquistou em 1093 aos Arabes uma parte dos territorios entre o Douro e o Tejo, e d’elles fez um Condado, que deu com uma de suas filhas a Henrique de Borgonha, joven e valente senhor que viera em seu auxilio d’além dos Pyreneos; este Condado chamado Porto-Cale, do nome da sua capital, engrandecido pelas conquistas do seu primeiro senhor, veiu a ser o reino de Portugal. Entre a fundação d’este Reino e o desenlace do Fierabras, não ha, é verdade, relação alguma de datas ou de pessoas; mas cumpre considerar, que para os romancistas dos seculos XII e XIII, toda a historia tanto nacional como estrangeira, se reduz a algumas tradições cada vez mais alteradas e falsificadas, sobre as quaes bordaram sem escrupulo, sem outro designio mais do que o de exaltar as imaginações contemporaneas. Fazer de Portugal um reino de Agramene; de um Henrique um Gui de Borgonha; de uma filha de Affonso VI uma princeza sarracena convertida; transportar para o VIII seculo um acontecimento do seculo XI, tudo isto é quasi historico para qualquer d’estes romancistas.»[114] O caracter altivo de D. Thereza, tal como se conserva na historia, está em harmonia com o retrato de Floripar feito no poema; isto comprova o juizo de Fauriel: «que não ha epopêa primitiva que não seja por algum ponto a expressão de um acontecimento ou de uma ideia.»
Em uma citação do Livro de Linhagens, em que se allude aos Doze Pares, encontra-se o vestigio das Gestas francezas: «muitos ricos-homeens que iam para lhes acorrerem disseram a elrey dom Fernando, que nunca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam soffredores fossem e pozeram-nos em par dos Doze Pares.»[115] A creação dos Doze Pares apparece nas mais antigas Canções de gesta franceza, taes como a Chanson de Roland, a Viagem a Jerusalem e em Renaud de Montauban.[116] O texto em que se faz a referencia aos Doze Pares é do principio do seculo XIV; por tanto é natural, que qualquer d’essas trez epopêas fosse conhecida em Portugal. Nos Karlamagnus Saga, Gui de Bourgogne, Otinel, Fierabras, Simon de Pouille, Ogier le Danois, Huon de Bourdeaux, Galien Restoré, cita-se a instituição dos Doze Pares; estes poemas como mais modernos pouco teriam influido para a vulgarisação da lenda carlingia em Portugal, em um tempo em que começava o perstigio dos poemas da Tavola-Redonda.
Na sepultura do cavalleiro Rodrigo Sanches, morto na Lide do Porto em 1245, batendo-se a favor de D. Sancho II, gravaram-lhe um epitaphio, comparando-o a Roland: