Belliger insignis fuit hic cunctis et amandus,
Laudibus ex dignis, alter fuit hic Rotulandus.[117]

Eghinard escrevera este nome Hruodland, e Radulphus Tortarius Rutlandus, e acha-se na canção de Guerau de Cabrera na fórma Rotlon (Roldão na linguagem popular portugueza, como synonimo de valentão.) Ainda na côrte de D. Diniz eram lembradas as Gestas carlingias, como se vê pela canção de João Baveca:

e ora per Roncesvales passou
e tornou-se do Poio de Roldan.
(Canc. Vat., n.o 1066.)

Reflectiu-se este cyclo épico nos cantos populares portuguezes; nos romances que fallam da derrota de Roncesvalles, allude-se a uma expressão franceza: «Nos portos de mal passar.»[118] N’este sentido de desfiladeiro, fauce entre dous montes, significando a passagem dos Pyreneos, usa-a a Chronica de Turpin, e vem no Roman de Garin: «As ports d’Espagne s’en est entrez Roland.» A influencia popular conhece-se principalmente como foram aportuguezados os nomes dos heróes épicos francezes: Roland é Roldão, Renaud de Montauban, Reinaldo de Montalvão; Ogier le Danois, Dones Ogeiro e Ogeiro o Dão; Olivier, Oliveiros; Bauduin de Vannes, Valdevinos (na giria popular, vagabundo, tunante); Richer, Ricardo; Garin de Monglave, Garinos; Naimes le Bavarois, Duque Maime; Gaifier de Bordeaux, Gaifeiros; Didier, Dirlos; Huon, Dudão; Eghinard, Eginaldo, Gerinaldo e Reginaldo; Aude, a namorada de Roland, Alda; Floripar, Floripes; Fierabras, Ferrabraz (valentão roncador).

O rei D. Affonso III, que residira quando princepe alguns annos na côrte de França, imitou na sua côrte as festas poeticas que lá admirára. Nos festejos que se fizeram em Melun, quando D. Affonso foi armado cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta libras aos menestreis que a elles assistiram; vinte menestreis se acham inscriptos nos Documentos para a historia de França.[119] É evidente que a influencia da poesia franceza se havia de reflectir na côrte de Portugal; assim no Regimento da Casa real manda D. Affonso III, que estejam sempre trez jograes ao serviço da côrte, e prescreve o numero dos jograes e dos segreis que venham de longe aos quaes se dará agasalho. As Canções de Gesta caminhavam para a inevitavel decadencia, e este mesmo reflexo vêmos em Portugal na parodia feita por D. Affonso Lopes de Baião de uma Gesta franceza em uma metrificação de doze syllabas, em longas tiradas monorrimas, e com a celebre neuma AOI (seculorum amen) com que terminavam as estrophes longas da Chanson de Roland. No Cancioneiro da Vaticana foi colligida essa composição singular da Gesta de Maldizer, em que o fidalgo Baião, da côrte de D. Affonso III, ridicularisa um cavalleiro Dom Velpelho (de Vulpecula, a raposa), talvez um dos vencidos do partido de D. Sancho II. Aqui o que nos interessa é a prova clara do conhecimento da fórma litteraria das Canções de Gesta.

Na descripção da batalha do Salado, de Rodrigo Yanes, alludem-se aos personagens do cyclo franko:

Nin fue mejor cavallero
El arçobispo Don Turpin,
Ni el cortés Olivero,
Ni el Roldan paladin.
(St. 1739.)

A çanfonha era o instrumento que acompanhava a recitação das Gestas; o seu uso, peculiar aos primeiros seculos da monarchia, e ainda hoje popular na Galliza, leva-nos a inferir que tambem as Gestas seriam cantadas por esse tempo. Em um manuscripto da Edade media, descreve-se a Çanfonha: «Chama-se em França Cymphonie um instrumento que os cegos tocam cantando a Canção de Gesta, e tem este bello instrumento doce som, e mui agradavel de ouvir.»[120] Quando o rei D. Pedro I prohibiu os instrumentos musicos que não fossem a trompa ou a corneta, para não se effeminarem os animos, seguia as disposições da Egreja exaradas nas Summas do seculo XII. Escrevia Guillaume Perrauld, na Summa Vitiis: «O ouvir Canções é muito para se temer... Tambem são muito para se temer os instrumentos musicos, pois tocam e amolecem os corações humanos.»[121] Em uma Summa de Penitencia prega-se a maior complacencia para os jograes que cantam Canções de Gesta, e condemnam-se os que cantam cantilenas lascivas. Tambem nas Leis de Partidas, que estavam em vigor em Portugal, prohibe-se a todo o bom cavalleiro o ouvir canções quando ellas não forem de feitos de armas.

No seculo XV as Gestas dissolviam-se em chronicas historicas; ainda assim, acha-se citada por Azurara a Gesta sobre o Duque Jehan de Lanson, «ca sem embargo de se em todollos regnos fazerem geeraaes cronicas dos rex d’elles, nom se deixa porem de screver apartadamente os feitos dalguns seus vassalos, quando o grandor he assy natural de que se com razom deve fazer apartada scriptura; assy como se fez em França do duc Joham de Lançam[122] Azurara alludia a uma Gesta carolina do seculo XIII pensando que se referia a uma chronica; o mesmo succedeu a Philippe de Mouskes, na sua Chronica rimada, que resumiu essa gesta attribuindo-lhe valor historico. Foi talvez Portugal o unico paiz que ouviu fallar da Chanson de Jehan de Lanson, apezar do que d’ella diz Léon Gautier: «Poucas canções ha que tenham tido popularidade menos vasta e menos duravel. As nações estrangeiras não parecem tel-a conhecido, e não existe d’ella versão em prosa.»[123] Mas não bastou a Azurara o cahir no mesmo erro de Philippe de Mouskes; comparou esta Gesta que idealisa um traidor, e em que é Carlos Magno exposto ao mais pungente sarcasmo, á bella Chronica anonyma do Condestavel, identificando-o com o typo do heroe-santo.

Não admira; no seculo XV começava o perstigio da erudição latina, e o desprezo pela Edade media; e na época da Renascença os heróes das Gestas são conhecidos em Portugal através da corrente italiana, pelos poemas de Pulci, Boiardo e Ariosto. Esta influencia italiana é evidente em Sá de Miranda, que cita Turpin, Roland e Ogier le Danois, pela leitura d’esses poetas:

Grandes cosas se cuentan de como a escuras
D’aquelles tiempos de vista Turpino
A estranos cuentos orejas seguras.
El hadado Roldan, Reynaldo, Dino,
Que le fuera fortuna mas cortés
De sus riquezas, un tal Paladino.
Rogel, del ingenioso ferrarez,
Tanto alabado en tan sabroso estillo,
Astolpho aventurero y vano ingles.

Camões tambem conhecia esse cyclo épico das Gestas francezas através da influencia italiana, desprezando diante da sublimidade dos factos historicos dos portuguezes as façanhas do vão Rogeiro,—«E Orlando, inda que fôra verdadeiro.» Era corrente entre os eruditos da Renascença, como vêmos em Luis Vives, desprezar os poemas da Edade media.

A propria França chegára ao esquecimento total das Gestas, depois de uma decadencia successiva, já pelo agrupamento cyclico, já pelo syncretismo com os poemas de aventuras, e finalmente pela sua dissolução em prosa com pretenções a chronica. D’onde proveiu esta decadencia, não já entre os povos romanicos, mas n’aquella mesma nação que elaborou toda a poesia das Gestas? Comte viu claro, quando esboçou a dissolução do regimen catholico-feudal, e explicou o desprezo em que ficaram os themas poeticos de uma edade que desapparecia; o juizo do philosopho foi mais tarde confirmado pelos eruditos. D’Héricault, no seu Essai sur l’origine de l’Épopée française, accentua a mesma causa: «A nossa epopêa nacional fôra engendrada por uma série de factos, de personagens de uma ordem particular, que tinha desapparecido no seculo XIII. As circumstancias politicas, o estado da sociedade, as tendencias das ideias e dos costumes, a fusão das raças, as victorias alcançadas pelo espirito do catholicismo sobre os restos da barbarie, todo o conjuncto da vida da França tinha tirado a estes factos e a estas individualidades o seu vivo interesse. Já não tinham mais razão de ser, não eram comprehendidos e não podiam por consequencia vir renovar incessantemente a fonte da poesia a que elles tinham dado nascimento.» E mostrando como um outro estado de consciencia, em uma nova éra social, exigia outras fórmas de idealisação, continúa o mesmo critico: «Mas, á medida que se afastavam d’este periodo barbaro, os caracteres humanisaram-se, os espiritos educados em outro meio social, admittiram outras bellezas. Do seu lado, a memoria esquecia a significação precisa d’estes acontecimentos de outra edade. O poema puramente militar teve de desapparecer e com elle a invenção ingenua dos typos unicamente guerreiros, dos caracteres selvagens e grandiosos, personalidades simples, sem meias tintas e sem flexibilidade. As feridas, as ondas de sangue, todas as peripecias de uma batalha ou de um combate singular tornavam-se insufficientes emquanto a interesse, desde que já se não via nos heroes em acção mais do que titeres de ferro.» Por esta falta de interesse, consequencia de um outro estado social, as Gestas guerreiras foram substituidas pelos poemas das aventuras de amor. D’Héricault explica o advento d’esta corrente poetica: «Afastando-se dos factos creadores da poesia, e não ligando seriedade ao papel de chronistas, os troveiros viam-se desapossados d’esta fórma naturalmente dramatica, d’esta acção ingenuamente interessante, d’esta marcha viva que a Canção de Gesta devia á sua preoccupação de imitar os aspectos da historia. O cyclo carlingio estava então exposto a perder o sôpro épico, e accumulava, para o substituir, logares communs, declamações que lhe eram indicadas pelo seu genero, duello entre guerreiros, injurias contra Carlos Magno, exposição da doutrina christã a um sarraceno, confusão geral entre christãos e pagãos, etc. Foi n’este declive que o valente Rei Arthur e os seus cavalleiros vieram suster os guerreiros do Imperador da branca barba. O cyclo da Tavola Redonda acordou a imaginação dos troveiros francezes, e lançou a epopêa em uma via nova, em que a dirigiu impondo-lhe as suas sympathias, a sua arte e as suas fórmulas. Foi principalmente por meio d’estes dois perstigios de predilecção—a mulher e o maravilhoso, que elle revolucionou o nosso genio, triumphou da Canção de Gesta e poz em debandada os Doze Pares.—A poesia do amor tendia assim a substituir a poesia da guerra.»[124]

Quando em França se dava esta decadencia das epopêas feudaes, muito mais profunda foi ella entre os povos que tiveram heróes nacionaes a idealisar, como o Cid em Hespanha, ou que desconheceram o feudalismo, como a Italia e Portugal. Os poemas de amor exerceram uma acção profunda nos costumes das classes elevadas, foram lidos com encanto e deram origem ás Novellas cavalheirescas, que luctaram com vantagem contra a corrente classica.

c) INFLUENCIA GALLO-BRETÃ

(Poemas e Novellas da Tavola Redonda)

A grande raça celtica que occupou todo o Occidente, possuia como as outras raças com que se fusionou, profundos elementos de poesia tradicional. Porém esta poesia só nos apresenta vestigios depois do seculo VI, em um pequeno grupo celtico, que escapou á conquista e absorpção dos Romanos e dos Saxões, e até certo ponto resistiu ás doutrinas do christianismo. Esse grupo celtico, que veiu enriquecer as litteraturas da Europa com novas tradições poeticas, que seduziram todas as imaginações depois do seculo XII com as encantadoras ficções da Tavola Redonda e do Santo Graal, compõe-se dos habitantes do paiz de Galles ou Cambria e da peninsula de Cornwall (os antigos Kymris), dos da Bretanha franceza (a Armorica), dos Gaëls do norte da Escossia, e ainda da Irlanda. Do isolamento que este grupo celtico conservou diante da conflagração dos povos desde as conquistas dos Romanos até ao fim das invasões germanicas, escreve Renan: «Nunca familia humana viveu mais isolada do mundo e mais pura de toda a mestiçagem estrangeira. Confinada pela conquista em ilhas e peninsulas esquecidas, ella oppoz uma barreira inaccessivel ás influencias exteriores; tirou tudo de si propria, e viveu com os seus recursos. D’aqui esta potente individualidade, este odio ao estrangeiro, que até hoje, tem accentuado o traço caracteristico dos povos celticos. A civilisação de Roma apenas os attingiu, deixando entre elles poucos vestigios. A invasão germanica repelliu-os diante de si, mas não os penetrou.»[125] É natural que o elemento kymrico, na Bretanha insular, conservasse mais intensa a memoria das suas tradições; e que a Bretanha continental, ou a Armorica, as renovasse mais tarde, pela relação entre os dois paizes, dando-lhes esse relêvo poetico com que deslumbraram a Europa no seculo XII. Dois periodos de elaboração se destacam historicamente; um, que começa no seculo VI da nossa éra, quando se vulgarisam os cantos dos bardos Taliesin, Aneurin e Liwarc’h-Hen, e se escutam as melodias da chrota britana, os Lais amorosos, e os Contos maravilhosos do Mabinogion; o outro é principalmente litterario, idealisando as aventuras guerreiras de Arthur, os amores de Tristão, de Lancelot, de Merlin, creando por effeito da propaganda christã o cyclo dos poemas do Santo Graal. Se o elemento tradicional foi principalmente elaborado na Bretanha insular, na Bretanha franceza é que esses themas tiveram o seu desenvolvimento artistico, espalhando-se pelos menestreis normandos por toda a Europa. Renan define essa primeira época de revivescencia poetica da raça celtica: «O sexto seculo foi para as raças celticas esse momento poetico do despertar, e da sua primeira actividade. O christianismo, recente ainda entre ellas, não tinha completamente abafado o culto nacional; o druidismo defende-se em suas escholas e nos seus logares consagrados; a lucta com o estrangeiro, sem a qual um povo nunca chega á plena consciencia de si proprio, attinge o seu mais alto gráo de vivacidade.—O sexto seculo, é effectivamente, para os povos bretãos um seculo perfeitamente historico.»[126] Basta-nos fixar esta época para determinar desde quando se espalham os cantos lyricos bretãos, que adquiriram um certo interesse até ao ponto de se desenvolverem em poemas de aventuras. As melodias e instrumentos musicos bretãos, como a rhota britana, citada nos versos de Venancio Fortunato, são levados por todas as côrtes da Europa por cantores vagabundos, desde o seculo VI até ao XII seculo. Falla-se no poema de Guillaume au Court-nez, no prazer de ouvir cantos bretãos entre os prazeres do vinho e da caça. Eram esses cantos os Lais, principalmente agradaveis ás mulheres, como o revela Denys Pyramus: «Lais soulent as dames plaire.» Juntamente se espalhavam os cantos narrativos, a que se chamava Bairtni, designação que se encontra no Arcipreste de Hita como nome de um instrumento musico, e que o rei Dom Duarte, no Leal Conselheiro emprega como o narrador de contos: «em tal maneira que não pareça que os albardões tem mais sabedoria que nós, por que elles nom se trabalhom d’arremedar as estorias melhores, mas que lhe som mais convenientes.»[127] A palavra albardeiro, empregada por Gil Vicente como exprimindo a sua vêa comica parece ligar-se a esta funcção narrativa; assim como as palavras Fatiste no tempo de Francisco I significando compositor «de jeux et novalités»[128] e o portuguez Fadista, cantor de narrativas, se ligam ao nome de Faith, dado na Irlanda aos cantores ou vates. O bardismo, perdido já o seu caracter sacerdotal, conservou-se como um mister de cantores vagabundos: «instituição que atravessou seculos e tornou-se uma feição caracteristica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade media,»[129] como o affirma Belloguet. Ao colligir as leis consuetudinarias cambrianas, no seculo X, estatuia Hoel o Bom ácerca d’estes Bardos: «Quando a rainha quizer ouvir um canto, o bardo domestico será obrigado a cantar um á sua escolha, mas em voz baixa, ao ouvido para que a côrte não seja perturbada.» Com o nome de Segrel (de Secretela, na baixa latinidade) encontra-se nas côrtes peninsulares uma classe de cantores que não são nem jograes, nem trovadores. Pela caracteristica do canto modulado em voz baixa, como se exige nas Leges Walliae, e pela frequencia dos Lais, que achamos citados nos Cancioneiros portuguezes, este nome de Segrel designa o cantor das melodias bretãs. Já no seculo XII o trovador Geraud de Riquier fallava d’esta classe de cantores da côrte: «E ditz als trobadors—Segriers por totas corts.» E no Regimento da Casa de D. Affonso III, de 1245, acha-se estabelecido: «Elrei aia trez jograres em sa casa e nom mais, e o jogral que veher de cavallo d’outra terra, ou segrel, lhe dê elrei ataa cem (maravedis?) ao que chus der, e nom mais, se lhe dar quizer.»[130] Muitos trovadores portuguezes alludem a este nome; como Affonso Eanes de Coton:

a todo o escudeyro que pede don
as mays das gentes lhe chamam segrel...
(Canç. 556)

Abril Peres, satyrisando Bernal de Bonaval, refere-se á situação de dependencia do segrel (Canção n.o 663); e o jogral Picandon, respondendo a um apodo de João Soares Coelho, exalta a sua categoria dizendo:

gram dereyt’ey de ganhar dões,
e de seer en corte tan preçado
como segrel...........

A estas melodias bretãs refere-se o trovador catalão Guerau de Cabrera, como um talento distinctivo: á tempradura de Breton; e no romance de Raoul de Cambrai aponta-se os musicos bretãos como os melhores: «Harpent Bretons et viellent jougler.» E no Lai de l’Épine, de Marie de France, cita-se o lai d’Aielis cantado por um irlandez ao som da rota bretã:

Le lais d’Aielis
Que uns Yrois doucement note
Mont le sonne ens sa rote.

Vê-se que a fórma lyrica bretã do Lai, que encantava a Europa, tinha tambem de reflectir-se em Portugal; o trovador Gonçalo Eannes do Vinhal allude á imitação constante de cantares:

senon aquestes de Cornualha,
mays estes seguidos ben sem falha,
e nom vi trobador per tantos logares.
(Canç. 1007.)

Em uma canção de Fernão Rodrigues Redondo, (n.o 1147) refere tambem esta fórma: «Muy ledo seend’hu cantara seus lays...» O lay tornou-se narrativo, vindo a desenvolver-se nos longos e interessantes poemas de aventuras e amores. No Cancioneiro Calocci-Brancuti foram colligidos cinco Lais, dos que estavam mais em voga na côrte de D. Diniz; são o Lai de Elis o Baço, trez de Don Tristan, e o Lai das Quatro Donzellas. No Poema de Alfonso Onzeno, do seculo XIV, falla-se em: «la farpa de Don Tristan

O enthuziasmo pelos cantos lyricos provocou o seu desenvolvimento em poemas narrativos da Bretanha; assim, figuras quasi sem realidade historica, como o rei Arthur, servem de thema ás ficções da Tavola Redonda, e ás reminiscencias das luctas da nacionalidade celtica contra os Romanos e Saxões; e Merlim, ultimo vestigio da resistencia do druidismo contra o christianismo, não achando mais interesse nas prophecias, torna-se o amante da fada Viviana; os amores de Tristão e de Yseult, de Flores e Brancaflor fascinam todos os povos da Europa, e para satisfazer esse interesse, desenvolvem-se em extensas novellas. É na Bretanha continental que estes assumptos são elaborados no seculo XII, e propagados pelos Normandos: «Cousa estranha! foram os Normandos, isto é, de todos os povos o menos sympathico aos Bretãos, que espalharam a fama das fabulas bretãs. Espirituoso e imitador, o Normando tornou-se por toda a parte o representante eminente da nação á qual anteriormente se impuzera pela força. Francez em França, inglez em Inglaterra, italiano na Italia, russo em Novegorod, o normando esqueceu a sua propria lingua para fallar a lingua do povo que elle tinha vencido e tornar-se o interprete do seu genio. O caracter vivamente accentuado dos romances gaulezes não podia deixar de ferir homens tão promptos a apanhar e assimilar as ideias do estrangeiro. A primeira revelação das fabulas bretãs, a Chronica latina de Geoffroy de Monmouth, appareceu por 1137, sob os auspicios de Robert de Glocester, filho natural de Henrique I. Por estas mesmas narrativas se apaixonou Henrique II, e a seu pedido Robert Wace escreveu em francez, em 1155, a primeira historia de Arthur, e abriu a marcha a que se arrojou uma multidão de poetas ou de imitadores francezes, provençaes, italianos, hespanhóes, inglezes, scandinavos, gregos, georgianos, etc.»[131]

Os elementos d’estes poemas são vagos dados historicos, que pela sua obscuridade foram desenvolvidos em lendas, que se ampliaram depois em phantasias poeticas; esses dados historicos resumem-se em dois factos, um politico, que se refere ás luctas com que o rei Arthur sustentou a liberdade nacional da Bretanha contra a invasão dos Saxões; o outro é religioso, consagrando a resistencia com que a Bretanha se considerava christã pela doutrinação evangelica de Joseph ab Arimathia, e por tanto independente da Egreja de Roma á qual se tinham convertido os Saxões. Tal é o dado essencial dos poemas do Santo Graal e da Cavalleria celeste, que deriva d’essa autonomia das Egrejas nacionaes da Francia meridional e da Hespanha, que se consideravam proto-cathedricas. Foram os Normandos que se apropriaram d’estes germens épicos da Bretanha insular e lhe deram o brilhantismo com que seduziram o mundo; e por isso mesmo que essas tradições não eram suas, mais as diluiram no vago, no maravilhoso, fazendo o syncretismo de todas as ficções provenientes de varios povos pelo encontro das Cruzadas, pelas relações com os Arabes, pela leitura da Biblia e dos escriptos dos rabbinos convertidos e já pela erudição da Antiguidade classica.[132] Os Normandos, occupando a Inglaterra, pareciam aos Bretãos como que os seus vingadores sobre os seus antigos dominadores Saxões: «os Bretãos não estiveram longe, se dermos credito a algumas indicações contemporaneas, de vêrem no vencedor de Harold um libertador, quasi uma incarnação do rei Arthur. Os companheiros de Guillaume podiam então acceitar, como cantos de sua propria gloria, as tradições poeticas creadas pelo odio ao Saxão que elles acabavam de vencer pelas armas, mas que não estavam ainda subjugados nem socialmente, nem politica, nem religiosamente. Qualquer que fosse a sympathia que os novos conquistadores pudessem sentir pela poesia das populações indigenas, qualquer que fosse a relação que taes lendas pudessem ter com o seu proprio genio, elles eram sempre estrangeiros, estrangeiros orgulhosos, e arrogando-se o direito de tratarem como senhores a litteratura bretã. A lingua empregada n’esta litteratura não lhes era familiar, a significação d’estas tradições era para elles obscura, e não comprehendiam bem o alcance philosophico e patriotico; não penetravam todo o conjuncto dos cantos dos bardos, e o vago que era inherente a estes cantos tornava-os mais obscuros, e para elles os fazia ainda mais ideaes.»[133] Era esta situação que dava aos troveiros normandos a liberdade de crearem sobre vagos nomes de heroes e de symbolos nacionaes essa riqueza phantastica dos poemas da Tavola Redonda e do Santo Graal, confundindo com figuras historicas fadas, gigantes, anões e adivinhos, animaes monstruosos, dragões, bebidas magicas e philtros amorosos, encantamentos, e poderes talismanicos das espadas invenciveis. Compondo especialmente para as côrtes, exaltavam a galanteria e tornavam-n’a o culto da mulher, aproveitando assim a tendencia iniciada pela idealisação dos trovadores. O symbolismo da Cavalleria, dos passos de armas, dos torneios, dos votos denodados, lisongeava a paixão dos Barões feudaes, que iam decahindo diante da crescente dictadura monarchica. E como as Cruzadas acabavam, a imaginação dos nobres precisava de uma outra cruzada, a da Cavalleria celeste em procura do Santo Graal, vindo assim a confundirem-se os dois cyclos poeticos, mais mysticos nos poemas dos minnesingers allemães, mais guerreiros e amorosos entre os troveiros francezes. Essa fecundissima actividade poetica que veiu sobrepôr-se á imitação das Canções dos trovadores e á attenção pelas Gestas frankas, espalhava por toda a parte os romances da Tavola Redonda, em prosa: o Santo Graal e Demanda do Santo Graal, o Tristão, Lancelot, Merlin, Morte de Arthur, Giron le Courtois, Palamedes, Meliadus; e em verso os romances do Perceval le Gallois, La Charrette, Chevalier au Lion, Erec et Enide, Cliges, Loucura de Tristão, Frejus, Jaufre, Atre périleux, Claris et Laris, Chevalier à l’Epée e La Dame à la licorne.

Todas estas ficções lidas e escutadas nas côrtes tendiam a confundir-se na imaginação produzindo situações romanescas, que vieram depois a constituir uma nova fórma de idealisação—a Novella de Cavalleria, de que o typo fundamental é o Amadis de Gaula. Os nomes dos personagens d’estes poemas foram adoptados na sociedade civil em Portugal, e é frequente encontrarem-se nos Nobiliarios as Viviana, Iseu, Ausea ou Ausenda (de Yseult), as Ginebra (de Gwenivar), as Briolanja (Brengienne), os Arthur, Percival, Lisuarte, Lançarote, Tristão, desde o seculo XIV até ao fim do seculo XV. Que prova mais evidente do interesse que produziram em Portugal os poemas da Tavola Redonda.

Esta nova corrente litteraria e erudita veiu interromper a elaboração e a propagação das Gestas frankas: em 1155 estavam as Gestas no seu esplendor e fecundidade, quando appareceu o Roman de Brut, de Robert Wace, d’onde diffluiram depois todos os romances da Tavola Redonda. A Bretanha insular e a Armorica provindo de uma mesma origem, collaboraram diversamente n’estes poemas que tiveram por centro o rei Arthur; as tradições bardicas e mesmo christianisadas conservaram-se nas populações insulares, mas só foram desenvolvidas litterariamente pelos troveiros normandos ou continentaes. Foi assim que a Inglaterra recebeu a sua materia poetica elaborada artisticamente pelo genio gallo-bretão. Paul Meyer fundamentou este facto: «que o francez tendo-se implantado em Inglaterra depois da conquista, a litteratura das classes elevadas foi, durante mais de dois seculos, inteiramente franceza, não só pela origem, como pela lingua.»[134]

O Roman de Brut, de Robert Wace, acha-se aproveitado como documento historico pelo Conde Dom Pedro no seu Nobiliario, fazendo a genealogia e contando o nascimento do rei Arthur:

«E hum dia teue corte (o rei Uterpandragon) e forom hi todos seus ricos homeens com sas molheres. E veo hi hum Conde de Cornoalha e trouve hi sua molher que avia nome Ygerna, e veo muy bem afeitada e muy ricamente aparelhada, e ella era a mais fermosa molher de toda a terra. E quando vieerom aa mesa hu se assentou elrrey a comer oolhoua elrrey e nom pode mais comer, tanto se pagou d’ella, e nom fazia all senon oolhala dos olhos. E pensou em seu coraçom que se com ella nom jouvesse que morria. Este Conde seu marido soubeoo e levantou-se da mesa com sa molher e foysse para huum seu castello que avia nome Tinteol. E elrrey foyo cercar com toda sua oste, e emviou por Merlin e veo a elle por seu comsselho e ouve elrrey por molher esta dona, e ouve della huum filho que ouve nome Artur o que disserom Artur de Bretanha, onde ouvistes fallar que foy muy boo.»—«Morreu Uterpandragom e rreynou seu filho Artur de Bretanha, e foy boo rey e leal, e conquereu todollos seus emmiigos e passou por muytas aventuras e fez muytas bondades que todollos tempos do mundo fallarom delle. Este rrey Artur fez huum dia em Chergeliom (Caerleon) sa cidade cortes. E estas cortes forom muy boas e muy altas. A estas cortes veerom doze cavalleiros messageiros que lhe enuiaua Luçius Liber que era emperador de Roma que sse fezesse seu vassallo rey Artur e que teuesse aquella terra de sua mãao. E se esto não fezesse que lhe mandaria tolher a terra por força e que faria justiça de seu corpo. Quando esto ouviu o rrey Artur foy muito irado e mandou chamar toda sa gente que armas podiam levar. E quando foy a Sam Miguel em monte Gargano combateosse com o gigante que era argulhoso e vençeo e matou; o Luçius Liber quando soube que rey Artur hia sobre elle chamou sa oste e toda sa gente e sayolhe ao caminho. E lidarom ambos e vençeo elrrey Artur foy arrancando ho emperador. E elrrey Artur quando moveu da Bretanha por hir a esta guerra leixou a sa terra a huum seu sobrinho que havia nome Mordech.»—«Este Mordech que avia a terra em guarda do rrey Artur e a molher quando elrrey foy fóra da terra, alçousse com ella e quislhe jazer com a molher. E elrrey quando o soube tornousse com sa oste o veo sobre Mordech. E Mordech quando o soube filhou toda sa companha e sayo a ella aa batalha. E elles tiinham as aazes paradas para lidar no monte Cambelet, e acordousse Mordech que avia feito grande traiçom e se entrasse na batalha seria vençido. E enviou a elrrey que saysse a departe e falaria com elle, e elrrey assy o fez. E elles que estavam assy em esta falla sayo huma gram serpente do freo a elrrey Artur, e quando a vyo meteo mãao aa espada e começou a encalçalla e Mordech outrossi. E as gentes que estavam longe viram que hia huum apos ho outro, e foramsse ferir humas aazes com as outras e foy grande batalha, e morreu Galuam (Gauvain) o filho do rrey Artur, e huma espadada que trazia sobressada, que lhe dera Lançarote do Lago quando entrara em reto ante a cidade de Ganes. Aqui morreu Mordech e todollos boos caualleiros de huma parte e de outra. Elrrey Artur teue o campo e foy mal ferido de trez lançadas e de huma espadada que lhe deu Mordech, e fezesse levar a Islaualon (ilha de Avalon) por saar. D’aqui em diante nom fallemos d’el se he vivo se he morto, nem Merlin nom disse del mais, nem eu nom sey ende mais. Os bretões dizem que ainda he vivo.»[135] Vê-se por este trecho, que o Conde D. Pedro estava ao facto da litteratura da Tavola Redonda seguindo o Roman de Brut, de Robert Wace, e referindo-se ás outras composições dos troveiros normandos, Merlin e Lançarote do Lago, que ainda no seculo XV citava o chronista Azurara. Estava esta litteratura artificiosa em harmonia com os habitos da côrte do rei Dom Diniz, e facilmente se apoderou da predilecção dos trovadores portuguezes; Estevam da Guarda, favorito de Dom Affonso III, falla em uma canção dos amores de Merlin com a fada Viviana:

Como aveo a Merlin de morrer
per seu gram saber, que el foy mostrar
a tal molher, que o soub’enganar...
.........................................
E o que lhe é muyto grave de teer
por aquelo que lh’el foy mostrar,
en estar com quem sabe que o pod’ensarrar
en tal logar hu convem d’atender
a tal morte da qual morreu Merlin
hu dará vozes fazendo ssa fin,
ca non pode el tal morte escaecer.
(Canção n.o 930.)

O conhecimento das prophecias e aventuras de Merlin transparece no Poema de Affonso Onzeno, e na livraria do rei D. Duarte vem catalogado o livro de Merli (do bretão Myrdhinn.) No Cancioneiro geral, de Resende, falla Diogo de Pedrosa na lenda dos amores do propheta bretão:

O que foy d’esse Merlyn
E d’outros antes d’aguora,
Ysso ade ser de mym
Por vossa filha senhora.
(Fl. 57.)

As allegorias do Leão dormente e do Porco selvagem, que das prophecias de Merlin passaram para o poema da batalha do Salado, tambem se reflectem nas prophecias de Bandarra no seculo XVI, da mesma fórma que a lenda da immortalidade e vinda do rei Arthur para vingar a raça bretã, se personificou em D. Sebastião, vivendo em uma ilha encantada para vir fazer de Portugal o Quinto Imperio do mundo.

Junto com o livro de Merlin andava tambem o poema de Tristão, nos manuscriptos da Edade media. Na côrte de Dom Diniz era Tristão considerado o typo ideal do namorado, e o proprio monarcha trovador diz que o excede:

Qual mayor poss’e o muy namorado
Tristã, sey ben que non amou Iseu,
Quant’eu vos amo, certo sey eu...
(Canç. n.o 115.)

E compara-se tambem a outro modelo dos amantes exaltados, idealisado no romance de Flores e Brancaflor, que se liga pelo encadeamento cyclico ás gestas carlingias. Os trovadores provençaes citavam esse typo do namorado:

Quar plus m’en mi abellida
Non fis Floris de Brancaflor[136]

E o rei Dom Diniz empregava a mesma comparação:

Qual mayor poss’e o mays encoberto
que eu poss’e sey de Brancha frol,
que lhi non ouve Flores tal amor
qual vos eu ey;..............

O thema da fidelidade no amor tornou-se quasi exclusivo nos poemas de aventuras, em que degeneraram os da Tavola Redonda; sobre o sentimento de fidelidade se elaboraram os poemas Meliadus de Leonys, Frejus et Galienne, Claris et Laris, Helias, Chevalier de la Charrette, Partenopeus de Blois, destacando-se d’entre todos elles pelo seu exagero vertiginoso os poemas de Amadas et Ydoine, conhecidos na Hollanda, Allemanha, Borgonha, Inglaterra, Hespanha e Portugal já nos fins do seculo XIII. Em varios fableaux apparece frequentemente citado o nome de Amadas, como o ideal da fidelidade em amores; não admira que sobre este rudimento novellesco, se agrupassem todas as aventuras da fidelidade amorosa dos poemas conhecidos na côrte de D. Diniz, dando a novella em prosa do Amadis de Gaula. De toda essa elaboração poetica dos troveiros normandos, conhece-se hoje apenas dois poemas, o Amadas et Ydoine, por Jean de Mados, e Sir Amadace; mas além d’estas versões franceza e ingleza, é crivel que existissem pelo menos uma outra neerlandeza anterior a 1290, e uma allemã. De uma versão que chegou á côrte de Dom Diniz é que Lobeira (João, antes de Vasco) elaborou por amplificação e syncretismo a novella de Amadis de Gaula, que por seu turno conquistou todas as imaginações na Europa, mesmo na época da Renascença. O phenomeno litterario de um poema em verso, quer seja Amadas et Ydoine, Sir Amadace, ou qualquer outra redacção passar á prosa de uma extensa novella como o Amadis de Gaula, era frequente na Edade media. O poema de Blanchefleur converteu-se na mão de Boccacio no Filicopo, novella desenvolvida largamente á custa da simplicidade primitiva do poema. D’este facto conclue Du Méril: «Os habitos litterarios da Edade media complicam desgraçadamente todas as questões de origens com difficuldades insoluveis, se se não deixar ao sentimento o tirar as conclusões, quando escaceando os dados precisos, o raciocinio se dá por incompetente.»[137] Quem escreveu a Novella tinha presente na imaginação as situações dos romances que então mais lisongeavam o gosto da aristocracia no seculo XIV; poz em prosa as aventuras cavalheirescas mais conhecidas e sympathicas, e attribuiu-as a um mesmo typo, tambem já conhecido e idealisado em varios poemas em verso. Originalidade poetica, nenhuma litteratura da Edade media a tem, nem mesmo a franceza: os themas tradicionaes são communs a este syncretismo das raças. O que interessa na novella do Amadis de Gaula é a fórma em prosa, e essa é um producto que mais caracterisa a litteratura medieval portugueza.

Na discussão da origem do Amadis o sabio Victor Le Clerc assentou o problema definitivamente: «a primeira redacção do famoso Amadis de Gaula, que todavia não é, como se vê pelo texto mais antigo hoje conhecido o hespanhol, senão uma imitação prolixa dos poemas da Tavola Redonda e dos Romances de aventuras, taes como o nosso romance de Amadas[138] N’este monumental Discurso, escreve: «Nos Amadises, os quaes são derivados dos Lancelot e dos Tristãos, e aonde se tem querido vêr o ideal do amor cavalheiresco, a bella Oriana concede tudo antes do tempo tanto esperado em que os imperadores e os reis hão de vir assistir ás nupcias.»[139] E apresenta o problema da origem litteraria com toda a segurança:

«Quando o poema francez de Amadas, que em 1365 fazia parte dos livros de um conego de Langres e que ainda subsiste, tiver sido vulgarisado; quando o poderem comparar ao Amadace inglez, áquelle bravo, que os fragmentos publicados em 1840 e 1842, segundo differentes textos manuscriptos, concordam em represental-o como o mais brilhante modelo de lealdade, de bravura e de respeito cavalheiresco; quando principalmente se fizer uma ideia mais justa e mais completa da alluvião de romances em prosa que, nos primeiros cento e cincoenta annos da imprensa, para corresponder, tanto em Hespanha como em França, ao enthuziasmo da moda, multiplicaram á compita os nossos antigos poemas, alongando-os com digressões importunas, conversas alambicadas, com uma ampla brigada de gigantes, fadas, encantadores, será então occasião de perguntar, se foi sem fundamento ou se com rasão que o velho traductor francez do Amadis hespanhol, Herberay des Essarts, nos disse que descobrira alguns fragmentos escriptos á mão em lingua picarda, e de decidir se este romance de aventuras, cujo plano pouco se prestava aos embelecos do perfeito amor, por isso que começa por onde outros acabam, nasceu em Portugal, em Hespanha ou em outra qualquer parte.»[140] Du Tréssan, já no seculo XVIII, resumindo esta novella do Amadis de Gaula, tambem declara ter visto na Bibliotheca do Vaticano, o antigo poema no fundo que pertencera á rainha da Suecia, cujo exame lhe fôra facultado pelo cardeal Querini.[141] Da mesma opinião de Le Clerc é Littré: «Amadas lembra o cyclo dos Amadises, que certamente hespanhol no seculo XV, tem por ventura ligações com mais antigas composições francezas.»[142]

Dando-se a transformação de um poema versificado para prosa dramatica e descriptiva, com o intuito de ampliar um thema favorito, as analogias entre as duas composições não devem ser procuradas na fórma mas no pensamento e situações que o desenvolvem. A novella de Amadis de Gaula foi lida e admirada durante toda a Edade media pelo vigor do thema da fidelidade dos dois amantes Amadis e Oriana; o romance de Amadas et Ydoine foi egualmente inspirado pelo mesmo sentimento de fidelidade. Identidade completa de thema: tanto Amadas como o Amadis servem na côrte de um rei, por cuja filha Ydoine ou Oriana (temos a fórma Idana) se apaixonam, e para merecerem-a vão nobilitar-se nas armas para serem primeiramente armados cavalleiros. É durante as longas e arriscadas aventuras que tanto o donzel como a filha do rei se mostram animados de uma sublime fidelidade, terminando a acção por se unirem como sonhavam. Na redacção em prosa, tanto pelo seu caracter como pelo gosto do tempo, os innumeros episodios, as historias genealogicas e os longos discursos fazem esquecer a simples trama, que facilmente se aproximaria da versão poetica d’onde tirou os elementos originarios. Amadis, apezar da nobreza do seu nascimento, teve uma infancia obscura, e sómente pelo seu garbo e gentileza é que foi tomado pelo rei Languinés de Escossia para a sua côrte; Amadas tambem occupava na côrte do Duque de Borgonha um logar secundario como filho do senescal. Oriana é filha do rei Lisuarte, e na côrte de Languinés é que Amadis a encontrou na festa á sua chegada da Dinamarca. Foi n’esta situação que nasceu o amor de Amadis, do mesmo modo que o de Amadas por Ydoine: «Amadis tinha então doze annos, mas pelo seu corpo e pelos seus membros bem parecia ter quinze; servia a rainha e era muito amado d’ella e de todas as damas e donzellas; mas logo que ali chegou Oriana, filha do rei Lisuarte, a rainha lhe deu o Donzel do mar para a servir, dizendo:—Amiga, eis aqui o garção que vos servirá. Respondeu ella: Que era do seu agrado. Esta palavra penetrou por tal fórma o coração do donzel, que d’ali em diante nunca mais lhe saiu da lembrança. E nunca, como esta historia o conta, em dias de sua vida se enfadou de a servir, e seu coração lhe foi sempre dedicado, e este amor durou tanto quanto ambos viveram.»[143]

No romance de Amadas repete-se esta situação; o senescal n’esse dia veiu servil-o á meza, como lhe competia, e a seu lado seu filho Amadas ia-o ajudando; foi então que o Duque mandou o donzel servir a sua filha Ydoine.[144]

Nas referencias que alguns poetas castelhanos do seculo XIV fazem do Amadis, como Pero Ferrus, Fray Miguel, Micer Francisco Imperial e outros, tudo leva a crêr que alludiam á fórma poetica do romance assim conhecido em Hespanha. Ferrus cita o Amadis junto com o Rei Arthur, Dom Galaaz, Lançarote, Carlos Magno, Tristão e Roland, que eram escriptos em verso. As allusões constantes que se encontram no Amadis aos romances do cyclo da Tavola Redonda e a outros de origem franceza, mostram claramente que esse thema não é uma invenção do genio portuguez, mas que foi em Portugal que essa ficção recebeu a fórma em prosa com que se universalisou.[145] No texto da versão hespanhola de Montalbo, e no Cancioneiro Colocci-Brancuti estão as provas irrefragaveis da primitiva redacção portugueza: são a rubrica ácerca da emenda do episodio de Briolanja, e a canção de João Lobeira, Leonoreta, que o traductor castelhano deturpou não conhecendo a fórma estrophica.

Os romances da Tavola Redonda fizeram decahir de interesse as Gestas carlingias, exclusivamente guerreiras, e actuaram tambem para que a poesia lyrica trobadoresca bastante subjectiva fosse substituida pelas narrativas apaixonadas das novellas de aventuras. Com o falecimento do rei D. Diniz decahiu na côrte a lyrica trobadoresca; a sua paixão pela eschola provençal, causára essa exuberante actividade poetica da sua côrte, centro a que convergiam os jograes da Galliza, Catalunha, Leão, Aragão e Castella, e até os seus bastardos, D. Affonso Sanches e D. Pedro o lisongeavam metrificando com esforço, ou colligindo canções. Em uma canção de Joham jogral, fixa-se esta decadencia pela morte do rei: