Os trobadores que poys ficarom
En o seu regno e no de Leon,
No de Castella, no de Aragon
Nunca poys de sa morte trobarom.
(Canção n.o 708.)

Por morte do Conde D. Pedro, elle deixou o seu Livro das Cantigas a Affonso XI, de Castella, por que em Portugal Affonso IV não apreciava as manifestações do lyrismo trobadoresco. E este desprezo continuou-se nos successivos reinados, persistindo cada vez mais o enthuziasmo pelas novellas de Cavalleria, como vêmos nas côrtes de D. João I, D. Duarte e D. João II, em que se lêem a Demanda do Santo Graal, Merlin, José Ab Arimathia, Cavalleiro do Cysne, Galaaz, e outras muitas novellas. A poesia lyrica, revelada tão brilhantemente na côrte de D. Diniz, tornou-se um pallido reflexo da castelhana no seculo XV, e só tornou a reflorir depois do primeiro quartel do seculo XVI, em consequencia de Sá de Miranda trazer a Portugal a nova Eschola italiana.

A nova phase do perstigio das Novellas da Tavola Redonda não corresponde a uma realidade, isto é, aos habitos sociaes da época; entravamos no seculo XV, na corrente da burguezia e da prosa, na creação da historia e da legislação sem symbolos, sob a dictadura do poder real. Não havia pois logar para a cultura do individualismo heroico da Cavalleria; a justiça do rei, como o revela o grito popular Aqui d’Elrei, não permittia a intervenção generosa de qualquer senhor. E é precisamente na côrte de D. João I que se encontra o mais exaltado prurido pela leitura e imitação das novellas da Tavola Redonda e dos seus heroes, chegando os seus nomes a serem reproduzidos nas familias aristocraticas. Explica-se esta antinomia; primeiramente D. João I era um bastardo, que achando-se no throno, quiz cercar-se de todos os symbolismos da soberania e do fausto cavalheiresco; depois pelo casamento com D. Philippa de Lencastre imita o cerimonial da côrte ingleza e toma conhecimento dos livros ahi mais predilectos entre a nobreza. O francez era então usual na côrte de Inglaterra. Convinha mais á côrte portugueza a leitura das novellas com aventuras e situações ficticias; o cyclo do Santo Graal, em que se preconisa a fidelidade á Egreja, harmonisava-se pelo seu maravilhoso com o nosso genio celtico. E essas aventuras, como a da Descida aos infernos, a da descoberta do Preste João (o christianismo entre os Bretãos foi propagado por discipulos de Sam João) e Viagens de Sam Brendan, influiram no genio aventureiro que levou os portuguezes ás descobertas maritimas.

Imitava-se o viver idealisado nas novellas de Cavalleria; na Chronica de D. João I conta Fernão Lopes, que este rei no cêrco de Coria, se queixára de lhe faltarem cavalleiros como os da Tavola Redonda, e que agastado Mem Rodrigues de Vasconcellos fôra comparando os cavalleiros presentes a Galaaz, a Lançarote, a D. Quêa, allegando pelo seu lado que lhes faltava um bom rei Arthur, flor de liz, que sabia conhecer o valor. Esta anecdota já andava repetida desde o seculo XIII, em nome do rei Philippe, que se lamentava de não haver já cavalleiros tão bons como Roland e Olivier. O Condestavel Nun’Alvres queria imitar a virgindade de Galaaz, para manter a pureza da Cavalleria: e faziam-se votos denodados, como os Cavalleiros da Madre Silva, Ala dos Namorados e Doze de Inglaterra. Até nas instituições sociaes penetrava a imitação artificial das cerimonias e symbolismos cavalheirescos; basta abrir o Regimento de Guerra portuguez, codificado pelo Infante Dom Pedro, o que correu as Sete Partidas do mundo, para vêr como debaixo da esquadria logica e unitaria da codificação romana estabelecida pelos jurisconsultos burguezes, irrompe o cerimonial novellesco com que um escudeiro devia de ser armado cavalleiro. E sóbe de interesse esse confronto com o cerimonial do poema Ordene de Chevallerie, de Hugues de Tabarie. As explicações symbolicas do troveiro francez coincidem com os paragraphos da Ordenação affonsina. É com rasão que se considera o Regimento de Guerra como o necrologio da cavalleria portugueza; este ultimo lampejo de vida foi-lhe communicado pela leitura dos poemas anglo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam nas livrarias régias.

É hoje conhecida a novella portugueza da Demanda do Santo Graal, que possuia D. João I, bem como a rainha Isabel a Catholica e o princepe de Viana; é uma livre paraphrase da novella franceza La tierce partie de Lancelot du lac avec la Queste du Saint Graal et de la dernière partie de la Table Ronde. No seu texto fazem-se referencias á redacção franceza de Robert de Boron, que seguira o paraphrasta portuguez. D’este manuscripto, a que falta o principio, ha já uma grande parte publicada pelo Dr. Reinhardsttoetner, que o copiou na bibliotheca imperial de Vienna. É tambem da época de Dom João I a novella Livro de Joseph ab Arimathia intitulado a primeira parte da Demanda do Santo Graal; allude a este livro uma passagem do Cancioneiro de Resende em que falla do Mestre Eschola e da novella (João Sanches, Mestre Eschola de Astorga, que a mandára escrever.) Tambem no tempo de D. João I foi lido em Portugal o poema inglez de John Gower, A Confissão do Amante, que Roberto Payno traduziu para portuguez; formado de uma selecção de contos francezes, de imitações de Jean de Meung, de extractos de Lancelot, de Amadas, Tristan, Partenopeus de Blois, era mais um vehiculo para nos relacionar com a vigorosa poesia da Edade media franceza. Na Livraria do rei Dom Duarte, continuou a prevalecer a sympathia por estes poemas, apesar de ir despontando já a admiração pelos escriptores classicos. Ali se guardava o Livro de Tristam, por ventura a redacção de Luce de Gast e de Helie de Boron; Merli, que é uma das partes da Tavola Redonda, como se deprehende do exemplar descripto no catalogo da livraria de Isabel a Catholica; o Livro de Galaaz, que era a leitura favorita do Condestavel; a Conquista de Ultramar, em que uma parte é imitada das aventuras do Cavalleiro do Cysne. Ruy de Pina mostra a influencia d’esta novella na côrte de D. João II: «antre os quaes ElRei para desafiar as justas que havia de manter, veeo primeiro momo, envencionado Cavalleiro do Cisne com muita riqueza, graça e gentileza.»[146] Esta novella começada por Jehan de Renault e terminada por Graindor, exalta Godofredo de Buillon entre complicadas scenas de encantamentos e duellos.

As viagens dos monges bretãos, as narrativas do claustro de Cruenferl, as lendas monasticas de Kadock, Barontus, e de S. Brendan devassando as regiões do norte, contemplando as auroras dos polos e vendo á superficie dos mares as magnificencias do creador, muitas o muitas vezes seduziram a imaginação dos primeiros navegadores portuguezes, attrahidos pelo maravilhoso da geographia antiga. É admiravel a Odyssea monachal das viagens de San Brendan; na Chronica da Conquista de Guiné cita-as Azurara: «Bem he que alguns deziam, que passara per ally san Brandam...»[147] As Ilhas encantadas, da tradição celtica, surgem vagamente na imaginação do povo portuguez, que se arroja ás descobertas. E Camões, profundamente nacional, quando, representando no seu poema o genio d’este povo, quer consolar os cansados navegantes recorre ao sonho deleitoso da antiga geographia das Ilhas Fortunatas, Antilia e Atlantida, no episodio da Ilha dos Amores. Egual seducção com as lendas do Preste João das Indias, cuja Epistola desde o seculo XII circulava na Europa entre as relações apocryphas de Merlin e de Sam Brendan. Quando a nacionalidade portugueza esteve a ponto de extinguir-se na incorporação castelhana, foram os sonhos deliciosos do genio celtico que fortificaram no seu desalento este povo atraiçoado pelo clero e pela aristocracia. O rei D. Sebastião, que vivia emballado em sonhos novellescos de imaginarias conquistas, ao precipitar-se para a catastrophe de Alcacer-kibir, fazia-se acompanhar pela mesma fórma como os antigos monarchas saxões, que entravam em combate seguidos pelos seus menestreis. O povo sympathisou com este typo do hallucinado cavalleiro, idealisou-o na sua tradição, guardou-o, á similhança do rei Arthur, tambem em uma ilha encantada, d’onde o seu Merlin, Bandarra o sapateiro de Trancoso, prophetisou que viria tornar Portugal liberto o Quinto Imperio do Mundo.[148] O elemento celtico, que desde muito cedo differenciou Portugal das populações hispanicas, manifestou-se pela sympathia por estas ficções gallo-romanas, tornando-as como um dos estimulos da sua acção historica.

d) A CULTURA LATINO-ECCLESIASTICA E HUMANISTA

O conhecimento das obras litterarias da civilisação greco-romana não se obliterou completamente mesmo nos seculos mais perturbados da Edade media; mas esta continuidade não contrariou as manifestações do genio esthetico das raças que entravam na corrente historica. É certo que quanto mais avançavam para a civilisação, mais se accentuava entre as novas nacionalidades o antagonismo dos dois espiritos,—o classico, reflexivo, disciplinado e harmonico, e o romantico ou medieval, espontaneo, pessoal e impetuoso. Magnin observa este facto: «de se não poder encontrar na Europa um lapso de tempo de qualquer extensão em que tivesse havido uma solução total de continuidade e de esquecimento completo das tradições antigas. No emtanto, a verdade é, que durante mais de dez seculos, um espirito novo, violento, inculto, posto que subtil e delicado á sua maneira, o espirito do norte, emfim, prevaleceu sobro o genio esgotado de Athenas e de Roma; mas, graças á Egreja, esta vida potente e nova nunca abafou inteiramente a antiga.»[149] A Egreja adoptando o latim para a sua liturgia e para a chancellaria papal, e recebendo da patrologia grega os elementos dogmaticos da sua doutrina, via-se forçada a manter diante da espontanea actividade dos espiritos da Edade media o respeito pela civilisação polytheica, que ella combatia. Nos varios seculos da éra medieval foram conhecidas as tradições homericas, os poemas de Virgilio e de Ovidio, os tratados philosophicos de Seneca, e mesmo algumas comedias de Terencio; mas a Edade media apropriou-se d’elles, imprimindo-lhes o seu caracter, assimilando-os como productos proprios. O Renascimento ou renascença do mundo classico, nos fins do seculo XIII com Petrarcha e Boccacio, e que se continúa com deslumbramento no seculo XV, é esse phenomeno de erudição e de critica que leva a descobrir o verdadeiro caracter da civilisação greco-romana. É então que se estabelece o antagonismo dos dois espiritos. Magnin descreve esse conflicto, que se observa nos costumes, nas instituições e nas litteraturas: «Desde a sua nascença, isto é, desde o fim do seculo V, a civilisação moderna foi submettida a duas influencias em sentido contrario, a influencia do genio romano e a do espirito do norte, dois elementos cuja opposição, bem que temperada por um laço commum, o Christianismo, ainda hoje se faz sentir em todas as controversias que nos agitam.» E conclue d’este dualismo historico: «se a sociedade europêa existe ainda potente e vivaz depois de mais de treze seculos, é por que ella preenche a condição a mais indispensavel aos phenomenos da vida, a de ser o resultado de duas forças, de dois elementos combinados. Depois da dissolução do Imperio do Occidente até ao meado do seculo XV, quer dizer, durante o intervallo ainda imperfeitamente estudado a que se chama Edade media, a influencia da barbarie germanica augmentada, sob os ultimos Carlingios, com a barbarie scandinava, dominou tudo. Depois do meado do seculo XV, inversamente, o genio mais clemente da Grecia e da Italia prevaleceu por toda a parte, mas desegualmente, e são estas desegualdades mesmo que, mais do que o velho caracter indigena, constituem a originalidade nacional da França, da Hespanha, da Italia, da Inglaterra. Seria vantajoso levar até aos seus extremos a eliminação de um d’estes dois elementos? A ter de optar, qual d’estes nossos dois troncos originaes o menos esgotado e o mais rico ainda de seiva e de futuro?—Ha, effectivamente, na sociedade moderna, homens e cousas que mantêm a dupla e desegual feição da sua complexa origem. Ha homens de natureza romana, e homens de natureza septemtrional. As letras e a historia têm em todas as épocas apresentado energicos representantes d’estas duas familias, estes leaes campeões dos instinctos do septemtrião, aquelles fieis clientes da policia e da urbanidade romanas.»[150] A alternancia d’estes dois elementos está ligada á marcha da civilisação europêa, e acompanha a lucta dos dois Poderes. O papado inicia as escholas das Collegiadas e chega á fundação do Estudo Geral para o ensino das Sete Artes. O nome de latino é synonimo de letrado, de culto e intelligente, d’onde se conserva ainda a expressão vulgar de ladino; o clericus destacou-se do leigo pelo uso do latim, a linguagem da sciencia, dos altos dignatarios da Egreja, dos embaixadores e dos homens de côrte, em contraposição com a linguagem do vulgo, a que chamavam romance, como se vê em Benoit de Saint More, na Historia de Troya:

Qui du latin ou je la truis
se j’ai le sens e je le puis
je voudrai ci en romans mettre...

Quando a linguagem vulgar passou a ser escripta, por essa nobilitação litteraria foi chamada ladina; vêmos no Leal Conselheiro, do rei D. Duarte: «e nom screvo esto per maneira scollastica, mas o que leeo per livros de latym e de toda lingua ladinha, do que algũa parte se me entende, concordo com a pratica cortezã na mais conveniente maneira que me parece.» (p. 168.) A mesma ideia em Hespanha, como se vê em Covarruvias: «la gente barbara de España llamava latinos en tiempo de los romanos á los que hablaban la lengua romana: e como estos generalmente eran mas sabios que los naturales espanoles, quedó el nombre de latinos para los que entre elles eran menos bozales, e de latino se corrompiò facilmente en ladinho[151] O Poder real tambem desenvolveu a cultura latina, pela restauração do Direito romano e pelo estabelecimento das Universidades no seculo XIII. Assim como o clerigo, o escholar tambem cultiva a lingua latina, e obedecendo ao espirito sarcastico do seculo faz a parodia das orações e hymnos da Egreja e dos processos das basilicas ou Curias; fórma-se uma classe intermedia aos eruditos latinistas e ao povo, a dos Goliardos, que vagam pelas tabernas e empregam as fórmas da poesia popular, como se vê nas Carmina Burana. Existem Pastorellas latinas que são moldadas nos typos populares occidentaes. A elaboração épica tambem se apropriou dos themas greco-romanos para as Gestas heroicas; o troveiro Jean Bodel, define esta classe de assumptos épicos: «De France, de Bretagne et de Rome la grand.» Apparecem-nos gestas germanicas sob as fórmas latinas como o Waltharius, e os poemas homericos acham-se transformados segundo a concepção medieval no Roman de Troye, de Benoit de Sainte More. No romance de Flamenca, enumeram-se os principaes assumptos eruditos que celebravam os jograes: «Um canta de Priamo, outro de Piramo; outro da bella Helena, como Paris foi á sua procura e depois a trouxe; outro canta de Ulysses, outro de Heitor e de Achilles. Outro canta de Eneas e de Dido, como ella ficou por elle triste e desolada; outro cantava de Lavinia ... de Apollonice, de Tideu, de Etidiocles... Um canta do rei Alexandre, outro de Ero e de Leandro. Um diz de Cadmo e sua fuga, e de Thebas como se edificou. Outro cantava de Jason e do Dragão; outro de Philis como attenta contra si por amor de Demophonte. Um diz como o bello Narciso se afogou na fonte em que se mirava. Um diz de Plutão como roubou a Orpheo a sua bella esposa... Um canta de Julio Cesar como passou sósinho o mar sem implorar nosso Senhor, por que não conhecia o medo.»[152] Muitos d’estes poemas existem manuscriptos: na Livraria do rei Dom Duarte guardava-se a Historia de Troya, o Alexandre e Julio Cesar.

As lendas de Troya, conhecidas no seculo IX por Macelas, no X por Constantino Prophyrogeneta; por Suidas no seculo XI, e no XIII por Constantino Manassés, João e Isac Tzetzés, entraram na corrente das Escholas Geraes, vulgarisando-se d’ahi para os troveiros. Tambem os chronistas das novas nacionalidades iam entroncar em Troya a origem dos povos e estados que historiavam. Os Francezes attribuiam as suas origens aos Troyanos, como affirmam os chronistas Fredegario, Roricon, Paulo Warnfried, chegando Dagoberto a declarar em um documento: «Ex nobilissimo et antiquo Trojanorum reliquarum sanguine nati.» Luiz XII na batalha de Ravena usa a divisa: Ultus avos Trojae. Tambem para mostrar a superioridade da Inglaterra sobre a Escossia, Eduardo III allega ao Papa a sua origem troyana; Veneza, como outr’ora Roma, considerava um dos seus bairros povoado por foragidos troyanos.

A historia de Portugal tambem se fundou por muito tempo sobre as lendas de Troya, de varios heroes gregos e patriarchas biblicos; era corrente a ideia de que Tubal viera ás Hespanhas e fundára Setubal, e Elysa, neta de Noé, fundára Lisboa. Transcrevemos uma pagina caracteristica d’este systema de historia: «na mais bem apurada chronologia, a Elysa e não a Luso, filho ou companheiro de Baccho, nem a Ulysses, se deve verdadeiramente attribuir a primeira fundação d’aquelle celebre emporio do mundo, e a primeira origem dos Luzitanos; pois tudo o mais que dos outros fundadores posteriores se escreve, dado que assim succedesse, foi reedificação e augmento e não primeira origem.»[153] N’esta citação se alludem a todas as lendas greco-romanas, sendo a que teve mais voga e chegou á transmissão popular a da vinda de Ulysses á Luzitania e a sua fundação de Lisboa. A fundação da cidade do Porto foi attribuida por Fr. Bernardo de Brito a Diomedes, que veiu á Hespanha depois de incendiada Troya; e Salgado de Araujo attribuia a mesma fundação a Meneláo, firmado no dizer de Virgilio, de ter-se Meneláo desterrado depois da guerra troyana para as columnas de Pretheo. A aldêa de Fão era attribuida á fundação de Phano, rei da ilha de Chio; um outro erudito, do seculo XVIII, dava como fundador do Porto o princepe Callais, filho de Boreas, rei da Thracia e um dos mais celebres argonautas. Para os jograes e troveiros por certo influiram as obras dos pseudo-Dares, pseudo-Ditys e pseudo-Calisthenes; mas para os chronistas deve essa série de explicações phantasmagoricas derivar-se dos tratados e dissertações do imaginoso dominicano Anio de Viterbo. É curioso o reflexo d’este syncretismo na epopêa dos Lusiadas, que tambem diz de Ulysses: «se lá na Asia Troya insigne abrasa,—Cá na Europa Lisboa ingente funda

O poema de Alexandre era uma das joias da livraria do rei D. Duarte; no seculo XI um medico de Constantinopla, Simeão Seth, traduziu para grego a Historia Alexandri magni regis Macedoniae, de Proeliís, que n’esta fórma latina veiu acordar a imaginação dos troveiros, já como o primeiro modelo da Vida de Carlos Magno attribuida a Turpin, já como norma da chronica do rei Arthur de Geoffroy de Monmouth e do poema francez Alexandre de Lambert li Cort. No seculo XVI foi conhecido em Portugal na sua fórma originaria, em lingua persa; D. João de Castro pedira a Aleixo de Carvalho em 1546, que lhe procurasse uma Historia de Alexandre; dirigiu-se este a Luiz Falcão, que a obteve do goazil Hemires.[154] Fallando das origens orientaes da Historia de Alexandre, diz Berger de Xivrey, nas Traditions Tératologiques: «além da descripção de muitos paizes, uns tratavam da viagem ao paraiso, outros da correspondencia com a rainha das Amazonas, com Didimus ou Lyndimus, rei dos Brachmanas; digressões de antigos textos gregos e orientaes.»[155] Na livraria de Jehan de Bourgogne, conde d’Estampes, guardava-se tambem uma Guerra de Macedonia, escripta por Jehan Nanquelin «selon ce que je l’ai trouvet en ung livre rimet, dout je ne sais pas le nom de l’aucteur, fors qu’il est intitulé histoire Alixandre[156]

Producto do perstigio das tradições greco-romanas na Edade media é a Historia do Imperador Vespasiano, que Herculano classificou como o monumento mais curioso da arte typographica em Portugal no fim do seculo XV; descreve-a da seguinte fórma: «A Historia de Vespasiano consta de vinte e nove capitulos, nos quaes se tratam varios feitos d’aquelle imperador e de seu filho Tito e outros que dizem respeito ao christianismo e á morte de Archeláo e Pilatos.—Fecha a obra por uma subscripção em que se diz ser impressa por Valentim de Moravia em Lisboa, no anno de 1496.»[157] E em outro logar desenvolve: «Esta Historia de Vespasiano não é senão uma novella de cavalleria pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na verdade, alguns factos historicos; mas os costumes e as particularidades da narração não passam de meras ficções. Que a obra seja uma traducção não nos parece duvidoso. Na subscripção d’ella se diz que fôra ordenada por Jacob e Joseph ab Arimathia, que a todas aquellas cousas foram presentes. Isto indica bastantemente a origem estrangeira do livro. Se, porém, nos lembrarmos de que José de Arimathea figura nos romances do Santo Graal, como tendo recebido o sangue de Christo n’esse celebre Vaso, é naturalissimo que o novelleiro, auctor da Historia de Vespasiano se lembrasse de lhe attribuir a propria composição, tanto mais que era quasi como lei entre os romancistas, dar uma origem mysteriosa ou ao menos remota ao fructo de suas imaginações. Accresce para mais fundamentar a nossa opinião, que M. Fauriel menciona uma historia-romance da destruição de Jerusalem por Vespasiano escripta em provençal, e que elle classifica como livro connexo com o cyclo das novellas do Santo Graal[158]

No celebre manuscripto da Corte Imperial, capitulo IX, cita-se um poema erudito o Ovidio da Velha, escripto no seculo XIV em latim com o titulo De Vetula, por Richard de Fournival, e traduzido para verso francez pelo mesmo tempo por João Lefèvre. Ovidio e Virgilio foram os dois poetas queridos da Edade media; Virgilio era tido como o oraculo de toda a sciencia, vendo os theologos n’elle um propheta, e os jurisconsultos um interprete das leis; Ovidio foi mais popular, por que as suas Metamorphoses seduziam as imaginações, e os prégadores moralisavam sobre os seus versos. A predilecção extrema por Ovidio deu causa a uma immensidade de obras apocryphas, das quaes o poema De Vetula é um d’esses contos attribuidos no seculo XIV e XV ao poeta. Eis o trecho da Corte Imperial: «bem sabedes que hun grande poeta muy genhoso e muy sotil ante os outros poetas foy o que ouve o nome Ouvidio Naso e foi gintil. E este fez muitos livros antre os quaes antes da sua morte compos hun livro que chama Ouvidio da velha, e este livro foy achado em no seu muymento cõ os seus ossos en hua cansela de marfim.»—«todas estas cousas sobreditas que dise o poeta Ouvidio Naso som scriptas em aquele seu livro que chamam Ouvidio da Velha, o qual vós diviades a saber pelas quaes cousas bem parece que este poeta gintil asás profetizou de Jehsus xpõ e da sua ley e rraramente segundo avedes ouvido.» No canto III do poema é que se encontra a referencia da Corte Imperial relativa á influencia dos planetas no apparecimento das religiões. Como viria para este paiz o poema de Richard de Fournival?

Na côrte do rei D. Duarte já predominava a paixão pelas obras da antiguidade; no Leal Conselheiro conta as boas conversas que elle e seus irmãos tinham com o rei seu pae; discutia as regras para se traduzirem bem as obras classicas; o infante D. Pedro traduziu para portuguez o livro De Officiis de Cicero, e compilava na Virtuosa Bemfeituria trechos dos moralistas romanos e dos padres da egreja. As tragedias de Seneca eram lidas por Azurara, na livraria de D. Affonso V, herdada de D. Duarte. Essa erudição apparatosa apparece na encyclopedia moral chamada o Leal Conselheiro; o rei D. Duarte falla já com certo desdem da leitura das novellas: «cá se o leeren ryjo, e muito juntamente, como livro de estorias, logo desprazerá, e se enfadarom del, por o nom poderem entender nem renembrar...» (p. 500.) Dos Contos da Edade media ou Exemplos, de que a Gesta Romanorum era a mais afamada collecção, falla tambem com desdem o rei D. Duarte: «E daquesta guysa erramos per este desassessego: se no tempo de orar e ouvir oficios divinos, nos conselhos proveitosos, fallamentos ou desembargos, levantamos estorias recontando longos exempros.» (p. 192.) E falla das novellas como simples diversão: «para despender tempo ou se desenfadar com o livro d’estorias em que o entendimento pouco trabalha por entender ou nembrar.» (p. 7.) No Leal Conselheiro encontra-se o exemplo das Duas barcas, (p. 447) e o do Filho prodigo (p. 61) tão vulgarisado em todas as fórmas da arte da Edade media. A norma do Exemplo é o conto popular introduzido nos sermões a pretexto de pela lisonja do gosto tradicional incutir uma noção de moralidade. A Reforma acabou com os Exemplos nos sermões; Calvino, na Epistola a Sadoleto, diz que uma parte dos sermões se gastava: «em fabulas divertidas e especulações recreativas para excitar e mover o coração do povo á jovialidade.»

Só no seculo XVI é que Gonçalo Fernandes Trancoso, deu redacção litteraria a Exemplos e Contos da Edade media, não com o espirito secular e revolucionario de Boccacio, Sacchetti ou Fiorentino, mas com um intuito catholico de moralisação. Foi principalmente das fontes dos novellistas italianos que elle se serviu.

Tanto na litteratura hespanhola como na portugueza os ramos interminaveis do Roman du Renart não chegaram a lançar a sua efflorescencia; o rigorismo catholico e auctoritario n’estes dois paizes, não deixaria elaborar esse poema de revolta; escreve Du Méril: «Nos poemas do Renart não podia haver outra superioridade real senão a argucia e a força, d’onde resultavam tendencias democraticas e anti-clericaes, que os impediriam de adquirir uma grande popularidade nos paizes aristocraticos ou profundamente catholicos. Tambem os inglezes, os hespanhóes e os italianos não tiveram poemas do Renart[159] Em Hespanha o Renart é conhecido com o nome de Guinarda, e em Portugal com o de Golpelha (de Vulpecula), e em um Auto de Jeronymo Ribeiro falla-se em Raposias, no sentido de logro e de argucia.

O cyclo immenso da epopêa burgueza de Renart divulgou entre o povo um grande numero de anexins, já pela antiga fórma metrica, já pelas situações comicas a que alludem; encontramos nos escriptores do seculo XV, e mais frequentemente do seculo XVI:

O Lobo e a Golpelha
Fizeram uma Conselha.

A Golpelha (diminutivo de vulpes) é a pequena raposa ladina; na linguagem castelhana a Conseja ou Conselha é a designação vulgar do conto tradicional. Um outro anexim:

Da pele alhea
Grande corrêa,

que é commum a Portugal e aos poemas francezes da Edade media, deriva de um episodio do Roman du Renart: «O Leão, diz Fleury de Bellingen, achando-se afflicto com uma grande febre, mandou chamar a Raposa, para saber se no seu conselho poderia ter remedio a sua doença; a Raposa fingindo de medico, lhe disse, que para sua cura precisava cingir os rins com uma larga cinta tirada de fresco da pele de um Lobo. Seguindo esta receita, o Leão doente mandou chamar um Lobo, ao qual a Raposa cortou ao longo do dorso uma comprida e larga corrêa. O Lobo com as dores uivava desesperado, clamando: Ah, senhora Raposa, da pele que não é vossa tiraes larga corrêa.—D’aqui ficou o proverbio.»[160] Este antagonismo entre o Lobo (Ysengrin) e a Raposa (Trigaudin le Renart) apparece bem accentuado em outro anexim portuguez: «Com cabeça de lobo ganha a raposa.» E na farça do Clerigo da Beira, diz tambem Gil Vicente:

Mas são Lobos para mochos,
E Raposas de nação.
(II, 236.)

Uma variedade ou segunda elaboração do Renart é o Roman de Fauvel, em que ha um intuito moral: Fauvel representava as vaidades do mundo; todos vinham para elle com intuito de o montarem, mas cahiam estatelados; d’aqui a acção resumida no anexim do seculo XV: Tel estrille Faveau, qui puis le mort, e tambem o titulo abreviado Estrille-Fauvel. Dois anexins portuguezes parecem derivar-se d’este poema medieval, alludindo á difficuldade de montar o cavallo-Fauvel: «Cavallo-fouveiro, á porta do alveitar, ou de bom cavalleiro.» A locução: «Montar o cavallinho,» exprime o conseguir uma cousa difficil. Tambem em francez: Piquer le Renart, significando beber em jejum, é um modismo ultima diluição dos episodios da grande epopêa burgueza.

Os jurisconsultos da Europa cavaram a ruina da Edade media; serviram-se da esquadria da rasão contra os impulsos espontaneos da cavalleria feudal. Defendendo o povo contra os barões, abafaram a liberdade popular tirando-lhe as garantias das instituições locaes, unificando-as nos codigos reaes ou Ordenações formados segundo o espirito do Direito romano ao serviço da dictadura monarchica. Isto se repetia em Portugal, em contacto com a corrente da civilisação europêa: ao lado de um Condestavel que imitava no seu heroismo a virgindade cavalheiresca de Galaaz, prepondera o chanceller Dr. João das Regras, o homem da toga, armado com os textos legaes, com o pezo da burguezia derruindo o feudalismo. O desembargador Ruy Fernandes codificando o Regimento de Guerra portuguez, como bom legista, propõe para modelos os feitos dos gregos e romanos. Fallando do cargo de Alferes, formúla a Ordenação affonsina: «Os Gregos e Romanos forom homeens, que usaram muito de guerrear, e emquanto o fezerom com siso e entendimento vencerom e acabarom o que quizerom; e elles forom os primeiros, que fezerom em como fossem conhicidos os grandes senhores nas Côrtes dos Princepes e nas batalhas, e nos outros feitos de grande façanha.» E com a preoccupação da antiguidade, transcreve-se extensamente no Regimento de Guerra a auctoridade de Seneca e de Aristoteles.

Já para o fim do seculo XVI prevalecia a admiração da antiguidade, que influia na fórma litteraria da Historia. Villani, ainda no seculo XIV, confessava que a sua visita a Roma e a leitura dos seus escriptores lhe revelára o modo de escrever a historia. Em Portugal escreve-se em latim a historia de Ceuta, por Matheus Pisano, e de Italia é mandado vir o humanista Justo Baldino, para traduzir para latim as chronicas do reino. Os costumes palacianos exigem aos fidalgos a cultura do latim; vive-se em signo de latim, como a apoda graciosamente Ayres Telles. A Edade media ainda sobrevive vagamente em uma ou outra serodia novella de cavalleria; a antiguidade greco-romana impõe-se triumphantemente d’entre a crise intellectual do seculo XVI.

§ 2.—A Renascença

(HEGEMONIA DA ITALIA)

A França precedeu a Italia na iniciativa e influencia do genio esthetico na Edade media, como o proclamou Dante com toda a superioridade do seu espirito; Comte, consignando o facto, explica-o: «ora esta incontestavel diversidade historica parece-me dever ser sobretudo attribuida á menor consistencia da ordem feudal na Italia, apezar da acção mais especialmente favoravel que o catholicismo ali devia exercer sobre o desenvolvimento inicial das bellas-artes.»[161] Poderia a Egreja provocar o desenvolvimento da architectura e artes ornamentaes, mas bastava sustentar o principio de que a sociabilidade polytheica era inferior á christã, para desviar os espiritos da admiração das obras da antiguidade. A queda do regimen feudal envolvendo a do regimen catholico alterou a estabilidade da Edade media, e deixou as capacidades estheticas sem elementos sérios de idealisação; tal foi a causa de se procurar na civilisação polytheica greco-romana, já o typo ideal para a imitação artistica, já as fórmas sociaes para o estabelecimento de um regimen politico, como se vê no esforço laborioso dos Humanistas e dos Jurisconsultos. Comte propõe com a maxima clareza a causa da Renascença: «Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, não é duvidoso, a meu vêr, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII teria adquirido, pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que tivesse podido existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas-artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que com frequencia tinha de effectuar-se no decurso d’este grande periodo revolucionario, e ao qual a progressão industrial tão poderosamente contribuiu, o genio esthetico teve necessariamente falta de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade expirante, e a nova pouco caracterisada ainda, não pôde bem nitidamente sentir o que devia sobretudo idealisar, nem sobre que sympathias universaes elle devia principalmente repousar.»[162] É d’esta instabilidade social que deduz Comte a «alteração notavel, vãmente qualificada de regeneração das Bellas-Artes, e que sob muitos aspectos, constituia mais de que tudo uma tendencia retrograda, inspirando uma admiração muito servil e muito exclusiva pelas obras primas da antiguidade relativas a um systema inteiramente differente de sociabilidade.»[163]

Na grande crise revolucionaria, em que á vida guerreira do Feudalismo se contrapõe a actividade pacifica do proletariado e da elevação da vida domestica, a expansão industrial vem espontaneamente estimular as capacidades estheticas. E como a Italia era entre os orgãos da Republica occidental, a que pela sua separação do feudalismo e regimen municipalista mais avançava para a liberdade civil da burguezia, achou muito cedo novos elementos de idealisação, quer na autonomia critica, como em Dante com a Divina Comedia, quer no sentimento do amor como na Vita Nuova e em Petrarcha nos Sonetos e Canções, quer nos quadros da vida domestica, como Boccacio conseguiu representar nos Contos e Novellas, rudimentos essenciaes que precederam a caracteristica creação moderna do Romance. Mas a instabilidade não era simplesmente social; era essencialmente mental, e foi sob este aspecto que se manifestou o espirito critico contra a Egreja, e a necessidade de construir uma nova synthese especulativa. A antiguidade classica apresentava profundos philosophos, para serem consultados na formação de uma tal synthese, e incomparaveis poetas e artistas, para fornecerem typos estheticos para a imitação. Assim a Italia que avançava para o estabelecimento das fórmas definitivas da litteratura moderna, como se vê pelo lyrismo petrarchista e pelas narrativas novellescas, ao entrar no seculo XV, e mesmo no esplendor do seculo XVI, não tornou a appresentar uma pleiada como Dante, Petrarcha e Boccacio. A imitação da antiguidade classica tornou-se uma necessidade, uma como disciplina do gosto, na instabilidade das emoções abaladas pelas alterações do meio social. Observa-o Comte: «Uma apreciação mal aprofundada, conduz mesmo, ao que me parece, que a imitação mais ou menos servil da arte antiga, deveu desde logo, por uma reacção necessaria, tornar-se para a arte moderna um meio facticio de supprir provisoriamente, ainda que de uma maneira imperfeitissima, a esta lacuna fundamental, que o progresso da transição revolucionaria devia tornar cada vez mais funesta á marcha das bellas-artes... Não podendo achar em volta de si uma sociabilidade bem caracterisada e assás fixa, a arte moderna imbuiu-se naturalmente da sociabilidade antiga, tanto quanto podia permittil-o uma ideal contemplação, guiada pelo conjuncto de monumentos de todos os generos, etc.»[164]

O abandono ou desprezo pelas obras classicas greco-romanas durante a Edade media, facilitára em certa fórma a espontaneidade e originalidade do genio esthetico moderno; mas um tal abandono era a consequencia do desdem com que esse passado e edade polytheica eram considerados pelo catholicismo em relação ã nova sociabilidade europêa:

«Convém notar, que uma tal tendencia era, na Edade media, intimamente ligada ao preconceito universal, tão justamente estabelecido pelo catholicismo, sobre a preeminencia fundamental do novo estado social comparado ao antigo.»[165] A época da Renascença caracterisa-se por uma profunda admiração pelas obras e até pela constituição social d’esse passado polytheico; como se deu uma alteração tão profunda no gosto e no criterio, apparecendo a Edade media como barbara, como uma edade de trevas? Desde que a Egreja deixou de acompanhar o progresso da sociedade europêa, e o Poder espiritual se materialisou nas fórmas de uma soberania terrena, estabeleceu-se uma reacção nos espiritos, levando os que eram crentes para a preoccupação de uma Reforma, dentro da propria orthodoxia da Egreja, e os que se emancipavam da credulidade, a acharem no estado de consciencia do mundo antigo greco-romano manifestações mais bellas em quanto á situação moral e social. A revivescencia das obras primas da antiguidade obedecia a um certo espirito revolucionario, já contra a Egreja, e mesmo contra as Monarchias, como se observa no Humanismo francez e no hollandez. Comte notou um d’estes aspectos revolucionarios: «Esta relação natural, mesmo ulteriormente contribuiu, em sentido inverso, para a resurreição da litteratura antiga, na qual tantos espiritos cultivados procuravam, máo grado seu, uma especie de protesto indirecto contra o espirito catholico, desde que elle deixou de ser sufficientemente progressivo.»

Causas especiaes actuavam na Italia para que ella se apaixonasse pelo esplendor da civilisação antiga, exercendo a sua hegemonia litteraria e artistica desde o seculo XV. Não foram os eruditos exilados de Byzancio que trouxeram á Italia o conhecimento dos monumentos da antiguidade classica; essa tradição não perdera ali a continuidade. Dante tomando Virgilio como mestre e guia (tu duca, tu maestro) e proclamando Homero poeta soverano, define com mais clareza do que qualquer prova historica essa relação entre as duas edades. A cultura da Jurisprudencia romana, fazendo convergir ás Escholas de Italia todos os estudiosos da Europa, preparava para essa cultura humanista, que servia de alivio suave aos espiritos no meio da instabilidade politica de uma sociedade, que aspirava debalde á vida nacional no meio das absorpções e traições dos Papas, da pressão semi-barbara dos Imperadores germanicos, e da indifferença de uma burguezia preoccupada exclusivamente do goso egoista das riquezas do seu trafico. O mundo ideal da Arte era um refugio para as almas mais puras; não podendo estabelecer uma relação com o meio social, fugiram da realidade, procurando nas litteraturas antigas as normas que mais encantavam, e cultivando a expressão esthetica (a arte pela arte) pelo instincto vago da perfeição e não pelo seu destino social. Philarète Chasles accentúa esta situação: «Na Italia, ao contrario do que succedia no norte, as molas da sociedade politica estavam gastas; a galanteria dos costumes, o brilho das artes, o encanto do estudo consolava o paiz d’esta divisão intestina que lhe não permittia ter esperança em uma grande vida nacional. Por confissão dos pensadores e dos escriptores philosophos da Italia, Machiavelli, Bentivoglio e Tasso, a época do seu esplendor intellectual é simultanea com a da decadencia moral. O genio das artes, da belleza do estylo e da fórma attingiram uma perfeição admiravel, sem que a sociedade se elevasse.»—«Tinham surgido á luz Dante, Petrarcha, Boccacio; as republicas tinham cumprido o seu ruidoso destino; a fé politica e religiosa tinham desapparecido; tudo se dissolvia na ardente voluptuosidade dos costumes, no luxo das festas principescas e no culto physico das paixões, da belleza e das artes.»[166] Reflectia-se este estado social nas manifestações dos espiritos, em que a inspiração era um phenomeno psychico de tensão encephalgica, de erectismo nervoso. O genio sobresaía no meio das luctas, n’essa atmosphera de revolução em que respiram os grandes homens. No conflicto constante dos dois poderes o Sacerdocio e o Imperio, a Italia géra os organismos mais extraordinarios da humanidade, como Dante e Francisco de Assis, Miguel Angelo e Machievelli, Petrarcha e Raphael. As impressões vivas dão mais intensidade á existencia; vive-se muito em breves momentos. As melhores épocas da arte italiana coincidem com o veneno dos Borgias; o desterro abre a Dante a selva oscura da sua trilogia épica; a balia de Florença embala o nascimento de Miguel Angelo; a tortura policial ou inquisitorial dá a revelação das leis sociologicas a Machiavelli, e confirma em Galileo a ideia do movimento da terra; a perseguição leva Campanella a conceber a utopia da Cidade do Sol, e a Palestrina a concepção da musica religiosa. Cimarosa, o sonhador divino do Matrimonio secreto, cria um mundo novo de harmonia sob a pressão do despotismo austriaco que lhe deu a morte. A situação historica da Italia, na sua longa aspiração de nacionalidade, explica-nos o caracter e successão dos seus grandes homens. Era-lhe sympathica a sociedade antiga, sob o aspecto da liberdade. Em épocas em que as garantias politicas se acham distribuidas em um justo equilibrio, em que a esphera da acção individual está descripta nos codigos, quando o interesse e o egoismo generalisam virtudes negativas e impõem uma moral chata de um concreto bom senso, o homem de genio acha-se asphyxiado, ridiculo, e para resistir procura confundir-se com a multidão e mascarar-se com o vulgarismo das mediocridades. Pelo contrario, as sociedades antigas favoreciam mais a livre manifestação do bello; na vida do Ágora, do Forum, faziam que o homem se possuisse do respeito do si mesmo; fallava como um deus, não conhecia o ridiculo, determinando-se pelas proprias impressões sem contraste entre si os outros concidadãos. A cada passo tinha de recorrer á revolta, para supplantar as tyrannias; nas festas civicas competia com os mais esbeltos, com os mais ligeiros e os mais fortes. A individualidade italiana lisongeava-se na idealisação da sociedade antiga, e nas suas crises sentia identificar-se n’esse mundo não pela erudição mas pela realidade. A Renascença não era para a Italia uma reconstrucção archeologica, nem uma imitação banal; os eruditos da Egreja e da Curia chegavam á illusão de se crêrem na sociabilidade greco-romana, e de quasi tentarem a substituição do catholicismo, que atravessava a crise de uma reforma, pela alegria exterior e fraternal dos cultos polytheicos. Pela acção dos seus genios individuaes na fórma deslumbrante da arte e poesia, a Italia exerceu uma plena hegemonia em toda a Europa; mas essas manifestações de superioridade não a elevaram, por que a cultura esthetica era exclusiva, absorvente, e independente da disciplina intellectual e de toda a acção prática ou destinação social. É por isso que esse influxo da Renascença se torna entre as outras nações um artificio rhetorico, que se prolonga até ao seculo XVIII, sob as fórmas do Culteranismo e do Arcadismo pseudo-classicos.

D’esta preponderancia do ideal classico na Renascença, escreve Comte com notavel segurança: «Concebe-se facilmente com effeito, que a um systema de composição tão facticio, era preciso egualmente preparar, durante algumas gerações, um publico que o não fosse menos; por que, perdendo a sua originalidade da Edade media, a arte perdia egualmente, e inevitavelmente, a ingenua popularidade que era a recompensa espontanea, e que não se tornou a achar em um tal gráo, mesmo nos casos mais favoraveis. Ainda que a sua natureza geral a destina sobretudo ás multidões, a arte moderna era então forçada, por uma excepção inevitavel, de se dirigir especialmente a ouvintes privilegiados, que uma laboriosa educação tivesse préviamente collocado assim, ainda que em um menor gráo, nas condições estheticas analogas á dos proprios artistas, e sem os quaes não poderia existir, entre o estado passivo de uns e o activo de outros, esta harmonia indispensavel a toda a acção das bellas-artes. Na ordem plenamente normal, uma tal harmonia estabelece-se geralmente sem esforço, de uma maneira muito mais intima, segundo a preponderancia commum do meio social que penetra constantemente e ao mesmo tempo o interprete e o espectador; mas sob esta anomalia provisoria, devia pelo contrario exigir uma longa e difficil preparação.»[167] Comte referia-se ao phenomeno, que tanto actuou na decadencia das litteraturas romanicas pela separação entre os escriptores e o povo, e á laboriosa educação classica europêa, que tornou possivel destacar da imitação antiga algumas obras primas.

a) O HUMANISMO QUINHENTISTA

O phenomeno tão complexo da Renascença, na Europa, abrange segundo o auctor da Historia do Materialismo, dois seculos de actividade, desde o meado do seculo XV até aos fins do seculo XVII. Segundo Comte, que analysou assombrosamente a marcha da sociedade moderna partindo da dissolução do regimen catholico-feudal, esta longa phase da Renascença caracterisa-se por uma revolução mais mental do que social. A Renascença apresenta-se com dois aspectos, um litterario, que leva á imitação das obras primas da antiguidade com desprezo systematico da Edade media, separando a idealisação esthetica dos interesses da sociedade moderna; o outro é scientifico, retomando os conhecimentos que a Grecia nos legou sobre Mathematica e Astronomia, caminhando assim a intelligencia europêa para a creação das sciencias experimentaes, para a elaboração da Physica, e particularmente para a formação de uma nova synthese philosophica. Vê-se que d’estes aspectos um é inorganico, renovando o ideal polytheico, e o outro é impulsivo, restabelecendo a hierarchia theorica dos conhecimentos humanos, partindo da renovação da Mathematica e da Astronomia para a Physica e Chimica. Assim póde-se determinar na successão da Renascença na Europa, os seguintes periodos:

Philologico e artistico, em que prevalece a Italia como impulsora do estudo das litteraturas da antiguidade classica, ou propriamente o Humanismo:

Theologico e critico, resultante do estudo philologico dos livros sagrados, e pelo seu exame conduzindo ás ideias da Reforma religiosa, sendo a Allemanha a impulsora d’este movimento insurreccional dos espiritos:

Scientifico e philosophico, em que cooperam a Italia, a Inglaterra e a França, pela acção de sabios experimentalistas como Galileo, e espiritos syntheticos como Bacon e Descartes.

A Italia creava a philologia, renovando os perdidos estudos dos Alexandrinos, e levando a luz da critica e do gosto aos trabalhos confinados dos eruditos byzantinos. A paixão pela nova sciencia occupava todos os espiritos, desde a cathedra pontifical até ao humilde typographo. Era uma revolução em que a humanidade tomava conhecimento de si mesma; toda a Italia era uma eschola, e de todos os paizes convergiam ali os espiritos ávidos de luz, destacando-se como novos pedagogos Victorino de Feltre e Angelo Policiano.

A corrente humanistica do seculo XV, sob o influxo da Italia reflectiu-se muito cedo em Portugal; vêmol-o pela preoccupação de traduzir-se em latim as chronicas portuguezas, como pelo empenho que levava a realeza e a aristocracia a enviarem estudantes para as escholas italianas. Azurara, que escrevia no reinado de D. Affonso V, falla na sua Chronica da Conquista de Guiné, como reconhecendo os caracteres dos elementos da Republica occidental, «da grandeza dos Allemães, e da gentileza da França, e da fortaleza da Inglaterra, e da sabedoria da Italia.» No primeiro quartel do seculo XVI, Portugal, pela extrema actividade das navegações e colonisações na India e Brazil, não acompanhou a marcha da Renascença; por este atrazo, conta André de Resende que viajou pela Italia e Flandres, que n’esses paizes Portugal era pouco considerado: «quibus Lusitanum nomen gratiosum non est.» Na Oração recitada em 1534 na Universidade de Lisboa, o sabio humanista chama a attenção das intelligencias para a direcção mental da Renascença, apresentando o exemplo da Italia, da Allemanha, da França, da Inglaterra e Polonia.[168] Em Portugal estava-se um pouco afastado d’este movimento litterario, mas o nome portuguez resoava gloriosamente na Europa dominando nas principaes escholas. Os Gouvêas, como pedagogos quer em Paris ou em Bordeus, tinham por discipulos homens como Rabelais e Calvino, Montaigne e Ignacio de Loyola; e Erasmo contava entre os seus principaes amigos a Damião de Góes. Em breve destacaram-se da activa phalange dos humanistas do seculo XVI, na Europa, os portuguezes André, Antonio, Diogo e Marçal de Gouvêa (uma dynastia de pedagogos), Achilles Estaço, Ayres Barbosa, André de Resende, Aleixo de Sequeira, Diogo de Teive, Damião de Góes, Francisco de Fontes, Antonio Luiz, D. Francisco de Mello, D. Fructuoso de Sam João, Jeronymo Cardoso, Jorge Coelho, Henrique Caiado.

O humanismo italiano decaiu depois da tomada de Florença, appresentando a França o esplendor dos estudos philologicos, pela acção que os jurisconsultos como Cujacio, Hotman e Pithou exerceram pela analyse dos textos do direito romano, tratando de recompôr a vida social através da interpretação das leis. Era a applicação do methodo juridico, exacto e severo, ás obras da litteratura para revelarem o meio social. Como na Italia, o humanismo francez decahiu por causa das guerras religiosas, e pelo empirismo secco e improgressivo do ensino jesuitico. Esta situação do Humanismo, que se tornára critico exercendo-se sobre os Livros biblicos, cooperou n’esse outro phenomeno social da regeneração do christianismo tentada sob o titulo de Reforma. Os humanistas, principalmente os da eschola hollandeza, eram chamados erasmistas, para significar a sympathia que sentiam pela revolução religiosa, tornando-os responsaveis das finas e livres ironias de Erasmo. Assim como Ayres Barbosa e André de Resende representam o humanismo italiano em Portugal, e Antonio de Gouvêa e Diogo de Teive representam o Humanismo francez, o nosso grande chronista Damião de Góes é o representante d’esse outro humanismo, que desde Erasmo a Heinsius e Grotius, pela vida prática de uma san democracia se identifica completamente com a comprehensão historica da civilisação antiga.

A ideia e aspiração de uma reforma na Egreja, que se manifestou na Allemanha pela simples aspiração a uma remodelação da hierarchia sacerdotal, apparece no seculo XVI agitando muitos espiritos dentro da orthodoxia: e assim um rei catholico e outro fidelissimo intervêm pedindo ao papa que tome essa iniciativa. É frequente encontrar-se nos escriptores do principio do seculo XVI uma nota satyrica contra a Egreja e o theologismo que se agarrava ás argucias do scholasticismo medieval. E assim como Luciano, na dissolução do polytheismo hellenico satyrisava os deuses, em França Rabelais dissolve os velhos preconceitos do regimen catholico-feudal pelos sarcasmos do Pantagruel e de Gargantua, e o cavalleiro de Hutten na Epistolae Obscurorum Virorum, abala o carcomido throno da escholastica e da esteril theologia que atrophiavam a rasão humana.

Em Portugal é Gil Vicente o escriptor que se inspira com toda a decisão no espirito critico d’esta primeira phase da Reforma. É sublime esta grande alma, rebaixando-se á situação de actor (auctor et actor) para dizer diante da realeza quanto era necessario actuar sobre a hierarchia religiosa moralisando-a. São de uma audacia extrema os seus versos contra Roma. Os eruditos da Renascença em Portugal eram contrarios a Gil Vicente; mas ninguem como elle representou nos seus Autos e Farças a vida nacional, e se inspirou mais ingenuamente d’essa espontaneidade popular para exprimir a aspiração da sua época—a reforma da Egreja, iniciada por ella propria.

Um outro humanista, que citava Gil Vicente como auctoridade philologica, o grammatico Fernão de Oliveira, tambem seguiu as ideias da Reforma, porém na phase mais adiantada da transformação da disciplina. Os estudos criticos dos exemplares da litteratura antiga abriam aos eruditos do seculo XVI um horisonte mais vasto do que a rotina das escholas monachaes com a sua Arte velha de Pastrana ou de Alexandre Villa Dei. Os habitos da exploração dos textos desenvolvia o espirito de livre-exame; a intelligencia avesada a interpretar palimpsestos, a restituir a lição dos auctores classicos, a restabelecer os textos truncados, a compenetrar-se do sentimento da antiguidade, não podia abnegar da sua supremacia, e applicára o mesmo processo á Biblia e aos Evangelhos. Foram os humanistas e os philologos que mais concorreram para a obra da Reforma; por isso os Jesuitas, reagindo contra o Protestantismo, tornaram-se essencialmente pedagogos apoderando-se do humanismo. Em Portugal vieram contraminar a obra do renascimento litterario superiormente dirigida por André de Gouvêa e por Diogo de Teive. Antes de ter cahido na illaqueação jesuitica, D. João III tentára attrahir para a reforma da Universidade de Coimbra a Erasmo. Damião de Góes é o que representa em Portugal a corrente da Reforma, não pela manifestação das ideias, por que elle confessa-se sempre orthodoxo, mas pelo seu martyrio, por ser amigo pessoal de Erasmo, por ter tratado com Luthero, quando esteve na Allemanha, e com Melanchton. Em uma confissão no Santo Officio declara: «Depois que vim a Portugal ... El Rei ... e os Infantes seus irmãos, e outros senhores do reino, me perguntaram com muito gosto e mui particularmente pelo discurso de minhas peregrinações, fallando-me em Luthero e nas cousas da Allemanha ... e por El Rei saber que vira eu já Erasmo Rotherodamo e que eramos amigos, me perguntou algumas vezes se o poderia eu fazer vir a este regno pera se d’elle servir em Coimbra.» Por intervenção de André de Resende é que viera tambem para Portugal o celebre humanista Nicoláo Clenardo.

Uma certa sympathia pessoal e litteraria existia entre Damião de Góes e Gil Vicente; fallando em humanidades com Erasmo inter pocula, teve occasião de lhe inspirar curiosidade pela obra dramatica de Gil Vicente, que elle vira representar na sua mocidade na côrte de D. Manoel. Na relação das festas feitas em Bruxellas pelo embaixador D. Pedro de Mascarenhas pelo nascimento do princepe D. Manoel, em 1532, vem o nome de Damião de Góes como um dos que assistiu á representação do Auto da Lusitania, escripto n’esse anno por Gil Vicente, e repetido n’aquella côrte.

Uma das grandes influencias da Reforma, que a ligam ao movimento do humanismo da Renascença foi a summa importancia que se deu ao estudo do hebreu e do grego; as polemicas religiosas, as traducções da Biblia em vulgar, a leitura dos padres da egreja para a controversia, exigiam conhecimentos d’essas duas linguas, que estimulavam o criterio philologico. Melanchton recommendava aos seus discipulos Homero e S. Paulo; é tambem um sectario da Reforma, Fernão de Oliveira, que em 1537 publica a primeira Grammatica portugueza, plagiada por João de Barros para auxiliar a catechese de uns princepes indianos que vieram a Portugal. André de Resende recommendava aos alumnos da Universidade de Lisboa a alliança do grego com o latim; na reforma da Universidade em 1547, vieram de Paris para mestres de grego o Dr. Fabricio e Buchanan, para hebraico Rosetto. Pouco depois tiveram de fugir de Portugal, ao terror inquisitorial que os perseguia pela mão occulta dos jesuitas, para se apoderar da disciplina humanista. Em Jorge Ferreira de Vasconcellos, Dr. Antonio Ferreira, Sá de Miranda e Garcia de Resende, acham-se referencias ao nome de Luthero, e á injuria terrivel da accusação de lutherano. Na epopêa de Camões, em que está implicito todo o espirito da Renascença, ha uma nota de aversão contra o movimento da Reforma: